Desde o mirante das casas

Desde o mirante das casas Nunca morei sozinha: sempre partilhei casa, com família ou amigos. Por razões práticas, claro, para dividir despesas e responsabilidades, mas também porque partilhar casa é uma escola intensa em atualização permanente. Dá-nos novas perspetivas sobre aquilo que julgávamos saber; dicas e soluções para pequenos e grandes problemas. Obriga-nos a ceder, a negociar e a constatar que o normal para mim pode ser insuportável para o outro: nomeadamente no que toca a critérios de barulho, limpeza ou acumulação. Uma pequena comunidade doméstica acrescenta-se, ampara-se e, quando alguém perde a chave, há menos hipótese de ficar do lado de fora.

Mukanda

16.07.2026 | por Marta Lança

Baralho de Cartas 29

Baralho de Cartas 29 A cidade recusa-se à compreensão, por vezes espectral como um pântano enevoado, outras de uma solidez que fere e me deixa do outro lado dos muros. Tenho a impressão de nunca ter abandonado esta povoação, de me ter misturado com as suas vielas, com as construções aberrantes dos anos oitenta. Na verdade, as viagens que fiz ganharam feições imaginárias, ao ponto de não saber se as realizei. Nunca saí desta cidade, apenas me afastei momentaneamente. Faço parte dos homens sem mundo. Viver sempre no mesmo lugar enfraquece esta percepção, o hábito matiza-me com as cores que estão à minha volta.

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16.07.2026 | por Ricardo Norte

Cidade ética e constituição da cidadania

Cidade ética e constituição da cidadania O que torna uma cidade verdadeiramente ética? Mais do que uma questão de boa governação ou de inovação tecnológica, este ensaio propõe pensar a cidade como um espaço de constituição da cidadania e de produção do comum. Partindo de autores como Étienne Balibar, Jacques Rancière, Richard Sennett, David Harvey e Saskia Sassen, o texto percorre as transformações da cidade contemporânea — da globalização à smart city, do capitalismo algorítmico ao novo municipalismo — para defender que a eticidade de uma cidade se mede pela sua capacidade de acolher o conflito democrático, ampliar a participação política e tornar visíveis novas formas de cidadania. Entre a reflexão teórica e exemplos como Lisboa, Génova, Barcelona ou Nápoles, o ensaio propõe uma leitura da cidade como um projeto político em permanente construção.

Cidade

13.07.2026 | por Stefano Rota

Passados novos e faíscas

Passados novos e faíscas Mary Shelley, aos 19 anos, disse não. Não é não, criatura. Em pleno século XIX, negou-se a construir no seu romance a ideia de uma mulher sob medida, mulher-encomenda, mulher-troféu. Não satisfeito em criar sua própria história de origem, afinal, com toda a mitologia antropocêntrica, o homem também decidiu criar para si uma mulher, o segundo sexo. Do seu jeito. Que faça o que ele quer, que o faça feliz, sendo isso lá o que ele quiser que seja. Shelley disse não, não, não senhores. Não enquanto o projeto iluminista continuasse articulando a busca do conhecimento da fisiologia humana com o desejo de controle, especialmente no plano reprodutivo.

Afroscreen

11.07.2026 | por Carla Mühlhaus

Património Imortal

Património Imortal As imagens a preto e branco descreviam o processo de conceção, montagem e abertura pública deste museu etnográfico no período pós-independência. As suas primeiras atividades. Albano conhecia as pessoas nas imagens, sabia ainda descrever a funcionalidade de objetos, muitos dos quais hoje desaparecidos, e localizar, no tempo e no espaço, registos de exposições itinerantes. As memórias de Albano davam cor e movimento às imagens, trazendo-as à vida. Demoramos dias, mas, a partir da sua memória, localizamos e descrevemos pessoas, lugares, momentos e objetos etnográficos encontrados naquelas fotografias que, mais tarde, nos permitiram montar uma exposição que reabriu o museu à cidade, em 2017, e ao país, e publicar um livro que, como catálogo, viajou e divulgou o património da Guiné-Bissau além-fronteiras, em 2018.

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10.07.2026 | por Ana Temudo

MARÇO

MARÇO Em contraposição a esse posicionamento, considerado oportunista e desviacionista de direita, tanto Rosa Luxemburgo como Leon Trotsky defendiam que, desde que estivessem reunidas objectivas e subjectivas as condições para o efeito, se devia realizar de imediato e por via de uma insurreição armada do proletariado das grandes cidades a revolução socialista na Rússia, a qual se encarregaria de nela absorver as tarefas não concretizadas ou adiadas de natureza democrático-burguesa como a liquidação dos grandes latifúndios, todavia conectando-as com tarefas típicas de uma revolução socialista como a nacionalização e a socialização dos meios de produção nas cidades e nos campos.

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08.07.2026 | por José Luís Hopffer Almada

Baralho de Cartas 28

Baralho de Cartas 28 Creio que estou a ter um início de burnout. Coincidiu com o aviso da Google: devia libertar espaço ou comprar armazenamento, sob pena de deixar de receber emails a partir de 26 de junho. Projetei, com toda a verdade, o meu cérebro a crashar juntamente com a memória externa - nem saberia distinguir memória externa de interna. A minha cloud precisava de fazer upgrade para continuar. Ok, resigno-me à dependência dos donos do capital para funcionarmos.

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07.07.2026 | por Marta Lança

Notas de reconciliação Algumas reflexões sobre o hino, a bandeira e a língua kabuverdianu

Notas de reconciliação Algumas reflexões sobre o hino, a bandeira e a língua kabuverdianu Com a participação de Kabuverdi, vi-me depressa envolvido num mar azul de emoções que em vão tentei suprimir. Subestimei a capacidade que este tipo de eventos tem para nos mobilizar e encantar. O entusiasmo, porém, não era propriamente pelo futebol em si, mas pela mensagem contagiante de união e convicção transmitida por aqueles jogadores que, na sua maioria, nasceram na diáspora e que, sob a liderança de Bubista, tão bem nos representaram. Mas também, e sobretudo, pela capacidade da nossa gente em fazer povo e formar um só corpo em torno de um objetivo comum: vencer coletivamente.

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06.07.2026 | por Apolo de Carvalho

A aliança do sul global

A aliança do sul global E foi assim que o Brasil viralizou a garota congolesa que rebateu uma postagem infeliz de uma miúda que considerava uma vergonha a seleção de Portugal empatar com a da República Democrática do Congo, traduzindo (mesmo que involuntariamente) para o futebol a soberba da extrema-direita portuguesa que incorpora o discurso fascista para se autovalidar. Se os livros de história nos ensinaram que descendemos dos portugueses, agora a troca de informação global faz nosso sangue banto falar mais alto – o mesmo que nomeou o nosso futebol mu'leke e nos ensinou a, em comemoração, sambar. O preconceito e o ódio uniram o que a colonização separou.

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03.07.2026 | por Gabriella Florenzano

Estamos em guerra mas não basta sobreviver

Estamos em guerra mas não basta sobreviver 'Quebrar em Caso de Emergência Climática' não é mais um ensaio sobre alterações climáticas, filia-se no manifesto político interligando ecologia, capitalismo, colonialismo e democracia. Afirma abertamente que o colapso ambiental (e social) não é um acidente, mas resultado de escolhas económicas e relações de poder. O Climáximo é um das movimentos recentes mais interessantes em Portugal, pela sua capacidade de transformar conhecimento científico em imaginação política e convocação para a ação coletiva.

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03.07.2026 | por Marta Lança

Mário Pinto de Andrade: uma visão cultural da Frente Leste - Prefácio

Mário Pinto de Andrade: uma visão cultural da Frente Leste - Prefácio A partir das entrevistas, dos dados recolhidos para o inquérito e da observação das dinâmicas interpessoais que se impunham nas bases guerrilheiras, Andrade começou a escrever um ensaio intitulado «Sociologia da guerra e ideologia», que em algumas das versões reunídas neste volume numa edição crítica, também leva o subtítulo de «Contribuição ao debate sobre a crise actual do MPLA». Embora inacabado, o ensaio, especialmente na sua primeira parte – a mais desenvolvida –, constitui uma reflexão lúcida sobre os problemas que alimentaram a crise do movimento, numa tentativa de fundamentar a práxis do MPLA numa compreensão profunda da realidade social subjacente.

Mukanda

02.07.2026 | por Elisa Scaraggi

Baralho de Cartas 27

Baralho de Cartas 27 A luz emagrece nos buracos das persianas enquanto espero que o vento volte as paredes do avesso. Lembro-me do Cesariny, do homem intensamente livre na praia mais pequena, nas dunas mais pequenas, no poço mais pequeno... Esse homem que sem saber arrasta uma época sem calendários. O Mário andava com ele, sem saber se era o caminho ou ele quem havia de cessar, e por isso andavam. Não ficavam a ver os delgados raios que mosqueam o quarto, encurralado no tempo a conta-gotas, na vida esfarelada dos acamados, para quem tudo está diluído, triturado, não vá um grumo entupir-lhe as veias.

Mukanda

01.07.2026 | por Ricardo Norte

"há o mal, logo, a dignidade existe", entrevista a João Vário

 "há o mal, logo, a dignidade existe", entrevista a João Vário Chamo a isso o "princípio da mais-valia inversa", os nossos compatriotas são capazes de gastar muito dinheiro numa jantarada mas incapazes de gastar mil escudos para comprar um livro, são manhentos. O Tchalé e o Vasco escreveram uns textos sarcásticos que serão acompanhados pelo novo género musical: a merdrada (vamos lançar não pedradas mas rolos de merda neste charco). O altifalante vai destilar passagens do nosso manifesto que diz o seguinte: "nós sonhamos com uma república moderna de Cabo Verde em que deixará de haver bláblólogos e bláfilólogos" (entenda-se gente que passa o tempo a dizer blá-blá e uma vez que o estado da nação é um bluff...), "em que o cidadão não será mais tratado como pedacinho de merda" (um indivíduo vai a um hospital ou a qualquer repartição pública e é assim que é tratado), "onde o dirigente será um verdadeiro cavalheiro" (que assume a palavra dada, pois a palavra de um cabo-verdiano vale menos do que um...micrograma de merda). Isto está muito mau aqui, ninguém se preocupa com a palavra dada, é uma coisa horrível.

Cara a cara

30.06.2026 | por Marta Lança e António Tavares

Portugal Refractário

Portugal Refractário Portugal, como tal, não existe. Toda a nação é uma noção, não mais do que isso, uma construção cultural sedimentada pelo tempo, que ocorre apenas à força de acreditarmos nela. A terra, essa, persiste e resiste, em larga medida indiferente às transformações humanas, ainda que muito afectada por elas — e, agora, dizem, a um ponto que muitos garantem ser irreversível, talvez até extintivo para a espécie humana. Não são portuguesas as andorinhas ou as gaivotas e as águias-pesqueiras, nem as nuvens e as tempestades, os equinócios, as estações do ano, e a terra e o mar só são nossos porque assim se convencionou que o fossem, o que depende de nós, sem dúvida, mas também ou sobretudo dos outros, que aceitam e reconhecem a lusa «soberania» sobre este pedaço de mundo.

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25.06.2026 | por António Araújo

Coleção enquanto operação Instrumentos e metodologias para pensar a coleção e a restituição

Coleção enquanto operação Instrumentos e metodologias para pensar a coleção e a restituição Colecionar implica selecionar, retirar do uso, preservar, ordenar e expor. Na génese deste processo encontra-se uma intenção que legitima a apropriação do objeto, retirando-o da sua circulação natural e transformando-o num símbolo. Neste sentido, os objetos musealizados são reinscritos em regimes de valor, inteligibilidade e memória, passando a operar como mediadores. Este gesto, profundamente marcado pela relação entre identidade e posse, participa na produção do poder através do visível.

Vou lá visitar

24.06.2026 | por Johanna Carter Abad

Entre arte e memória: Rosana Paulino e a construção de narrativas decoloniais

Entre arte e memória: Rosana Paulino e a construção de narrativas decoloniais A prática de Rosana Paulino insere-se num movimento mais amplo da arte contemporânea internacional que, a partir de cerca de 1990, passou a tomar o arquivo histórico como material crítico. Hal Foster, no ensaio An Archival Impulse (2004), identifica uma geração de artistas contemporâneos como Christian Boltanski, Walid Raad e Tacida Dean que trabalham e recuperam documentos, fotografias e registos institucionais para os reconfigurar segundo outras lógicas de sentido, não para restaurar o passado, mas para tornar legíveis as suas lacunas e violências.

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24.06.2026 | por Luiza Calixto Tarasconi

Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 2

Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 2 Cabo Verde tem uma relação muito concreta com os limites: repartir o que há, desenrascar o que falta. Num sistema que continua a identificar progresso com crescimento infinito - e das crises ecológica e social produzidas por esse mesmo modelo -, o talento de países pequenos e sem recursos como Cabo Verde, capazes de transformar sobrevivência em comunidade, é uma inspiração. Um modo de lutar por condições que talvez venha da experiência histórica de sobreviver à fome. Da prática de djunta mon - de partilhar mãos e recursos, inter-ajuda entre vizinhos, parentes e emigrante. A música, que transformou perda e dor em coisas bonitas. Das mulheres que sustentam praticamente a economia doméstica durante décadas de emigração masculina. Toda essa energia não se reduz aos diagnósticos e político-sociais-económicos e aos indicadores internacionais.

Vou lá visitar

24.06.2026 | por Marta Lança

Desfocar o sujeito, sobre fred

Desfocar o sujeito, sobre fred Em fred, ska batista espreita por uma janela semi-cerrada para corpos que só parcialmente se deixam revelar na fotografia. Nesta entrevista-conversa, falámos sobre uma lisboa desaparecida e em desaparecimento, das armadilhas representativas dos discursos que rodeiam os corpos queer, da prática de uma fotografia que não pode ser um olhar exterior e de uma fotografia ‘desenrasca’ para corpos que, também eles, se vão desenrascando.

Cara a cara

23.06.2026 | por p. feijó e ska batista

Manual para um Bom Festival

Manual para um Bom Festival O bom festival existe. Começa no coração. Começa muito antes da programação. Começa quando alguém decide reunir o mundo, por momentos, numa sala na biblioteca com vista para a ponte. O bom festival é elástico e estende-se no tempo. É lento, intenso e presente, faz pontes. O bom festival não tem pressa. Sabe que a literatura demora e precisa de silêncio. O bom festival não acumula nomes nem troféus, mas constrói uma linha de pensamento. Mesmo quando parece disperso, há uma pergunta invisível que liga tudo.

Mukanda

23.06.2026 | por Maria Giulia Pinheiro e Gisela Casimiro

Baralho de Cartas 26

Baralho de Cartas 26 Pouco me importam as críticas ao género ou a sua apropriação pelo mercado editorial, menos ainda os autores de auto-ajuda disfarçada de autoficção. Mas “La vie, il faut la mettre en scène…”, só assim se consegue expressar a sobrecarga invisível e destrutiva no quotidiano das mulheres como faz, por exemplo, a personagem Jeanne Dielman no filme de Chantal Akerman. Trazer a vidinha ao barulho é um processo que pode ser narcísico ou radical, depende da abordagem e do engenho de quem esmurra esse pão. Na pior das hipóteses, servirá como exercício de aceitação.

Mukanda

23.06.2026 | por Marta Lança