Fluindo veloz, a água submergiu em riachos nunca antes navegados, apesar dos sulcos já lá estarem. Confirmo o que dizes sobre a água escolher sempre os mesmos caminhos, escavando os sete leitos dos rios, tal como a nossa pele muda sete vezes. Uma amiga contou que, na terapia, também há sete sessões para abrir novos canais e sinapses sem insistência no “canal do trauma”. Admiro a determinação feroz da água, empapando a terra, nutrindo-a para que aguente uma muito provável seca.
Mukanda
05.02.2026 | por Marta Lança
Que o filme tenha sido exibido publicamente apenas duas vezes após o 25 de Abril e tenha permanecido décadas na sombra, até ser resgatado por investigação académica, diz muito sobre as hierarquias da memória cultural. Há obras que sobrevivem porque confortam; outras sobrevivem porque alguém insiste que não esquecer também é um acto político.
Afroscreen
02.02.2026 | por Leonel Matusse Jr.
Ao privilegiar uma abordagem centrada nas vivências das pessoas, assume-se como uma disciplina humanizadora, que tenta resgatar as particularidades do dia a dia, mais além dos recortes estatísticos e dos determinismos sociais. É claro que existem estruturas, tendências e políticas que ultrapassam as vontades das pessoas e que devem ser analisadas (vejam-se os processos de racialização e de precarização), mas o olhar mais localizado sobre as suas estratégias, sonhos e aspirações permite compreender quais são as suas possibilidades de escolha em campos socialmente delimitados, situando as suas forças e fragilidades.
A ler
02.02.2026 | por Raquel Carvalheira e José Mapril
Geração após geração cresceu envolta na mesma violência estrutural que o poder colonial institucionalizou. O cajueiro permanece não apenas como símbolo da violência colonial e do apartheid económico; sobreviveu também à queda do colonialismo, às reformas da revolução e às austeridades do ajustamento estrutural. A castanha de caju — e a instabilidade política — são o mais próximo que a Guiné-Bissau tem de continuidade.
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02.02.2026 | por Klas Lundström
Estamos sobre a terra, mas os corpos continuam a querer viver na massa líquida de onde saíram há milhões de anos. A água deixa-nos a alma enrugada, na água passamos com tudo, uma morte rasteira que escorre conforme à gravidade. Seguir o princípio do fogo deixa-nos a cabeça alinhada com os astros, tentamos escapar à humidade onde tudo se confunde. O mundo é deslocação, como lembras na última carta, e a disponibilidade de que fala a Silvina é um combate contra esta queda que procura os lençois freáticos, Bachelard diz que é uma morte onírica, o que vai de encontro à fantasmagoria presente.
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28.01.2026 | por Ricardo Norte
Zona de orla marítima povoada por hotéis, piscinas, cais de acesso ao mar públicos e privados, restaurantes, cafés, zonas ajardinadas, miradouros, lugares de lazer e descanso, a promenade estende-se da zona do Lido ao túnel da Doca do Cavacas que antecede a Praia Formosa, tendo daqui continuidade um percurso que vai até à baía de Câmara de Lobos.
Outrora também conhecido por Jardins do Lido, na página oficial deste passeio marítimo refere-se que é pautado por uma flora diversa composta por espécies endémicas e exóticas.
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24.01.2026 | por Ana Gandum
Sentirmo-nos mentalmente disponíveis, o que é isso? Talvez o suficiente para entrar pela casa das pessoas a dentro... Não num gesto voyeur, antes como quem se senta à mesa e tem uma conversa franca, encontra os aliados e reconhece neles o mesmo desejo de sair das mumificações do espírito. É sempre em alianças, mais ou menos contingentes, que vou resistindo à aniquilação da mente, que tento «matar o Anjo da Casa», de que fala a Virgínia Woolf para recusar uma certa domesticidade que ainda aprisiona, e quanto!
Mukanda
21.01.2026 | por Marta Lança
Numa perspetiva jurídico-constitucional, o 13 de Janeiro abriu efetivamente espaço para a expansão quantitativa e qualitativa dos direitos e garantias individuais, sem alterar substancialmente os direitos coletivos. O ápice do direito coletivo reside na formação de um Estado soberano enquanto representação política e simbólica da coletividade.
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19.01.2026 | por Abel Djassi Amado
O mundo estilhaçou-se, quebrou-se em bocados, como uma esfera de cristal derrubada por um demónio. Reconhecê-lo não é um gesto de inação, nem de tristeza acabrunhada, é identificar como nos isolamos uns dos outros, como se separam as coisas umas das outras, ao ponto de não querermos saber, de não vermos, nem a miséria, nem o sofrimento, inscrito em cada uma delas. As relações criadas neste espartilho são desonestas por defeito. Os empresários de si próprios usam a língua como um instrumento, um ardil, a comunicação só procura efeitos decididos à partida.
Mukanda
14.01.2026 | por Ricardo Norte
Nas regiões semiáridas, como Cabo Verde, a primeira medida é o aproveitamento e a utilização, com o mínimo de perda possível, da água das chuvas, com o intuito de diminuir a velocidade do escoamento, reduzir o desgaste das terras e reter, na medida do possível, as mesmas águas, aumentando a disponibilidade hídrica.
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13.01.2026 | por Yussef B
O que é claro é que a situação para a população é aguda e a miséria é profunda. Golpe ou não, as estruturas de realpolitik permanecem intactas: enraizadas num exercício vertical de poder onde as salas internas do poder permanecem trancadas e fora do alcance daqueles que esperam por um comboio algures fora de Lisboa. «O futuro?» diz um guineense a caminho de um trabalho diário no sector da construção e ri. «Estamos a falar de África —e o único futuro que alguma vez tivemos é o que está debaixo dos nossos pés.»
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09.01.2026 | por Klas Lundström
Perante um membro do partido, o povo cala-se, torna-se «carneiro» e manifesta alguns elogios ao governo e ao dirigente. Mas, na rua, pela noite, no sossego da aldeia, no café ou junto do rio, ouve-se essa amarga decepção do povo, essa desesperança, mas também essa raiva contida. (Fanon, 1961: 189)
A ler
09.01.2026 | por Apolo de Carvalho e Alexssandro Robalo
Esse espanto é acolhido como força metamórfica: transforma quem vê, mas também orienta o modo de investigar. Como escrever a partir de forças sentidas? Como integrar o espanto num método singular capaz de dar lugar ao estudo e à construção de uma linguagem crítica? Como a própria constata, a autora deixa-se atravessar pela experiência da obra numa trajetória que descreve como um movimento do Espanto ao Estudo. O espanto move e comove, põe forças em ação e gera a vontade de mantê-las vivas ao longo da escrita, evitando a desvitalização da experiência. Daí a insistência numa escrita que não fixa: quando Balona identifica a obra de Freitas como estruturada pelos termos “abertura, impureza e intensidade”, percebe-se que não se trata de categorias estanques, mas de palavras que ensaiam entradas possíveis na complexidade desta obra coreográfica.
Palcos
08.01.2026 | por Liliana Coutinho
Continuo a preferir a intensidade das experiências fora dos sets espectaculares e das redes virtuais. Carne com carne, cornos com cornos. Aliás, é cada vez mais sinistro, e meio bizarro, assistindo às trincheiras ideológicas, nichos de gosto, vigilância e algoritmização da vida, sabendo que estamos a dar tanto guito e informação aos oligarcas tecnológicos, o facto de permanecermos nos adornos virtuais. Como é que ainda nos damos ao trabalho de convencer, seduzir; expressarmos o que quer seja por essa via de “partilha”? Uma das nossas grandes contradições, mas a verdade é que este disparo assim de missivas, para sei lá que destinatários, é meio viciante.
Mukanda
07.01.2026 | por Marta Lança
O que aconteceu na Venezuela ultrapassa o campo da disputa política interna e entra, de forma explícita, no território do imperialismo cru, sem disfarces, sem pudor e sem qualquer compromisso real com a democracia. O discurso de Donald Trump, ao anunciar que os Estados Unidos iriam “governar” a Venezuela e assumir o controle de seu petróleo, escancarou aquilo que a América Latina conhece desde que foi invadida pelos europeus: sempre foi sobre recursos, comércio e lucro.
A ler
04.01.2026 | por Gabriella Florenzano
Não sei defender-me de mim mesmo, embaraço-me com o sono, na dormência da objectividade. As relações pessoais têm a aparência de coisas. Estamos numa relação falsa, enganosa com os outros e com o mundo. No imediato estamos mergulhados nas seduções artificiais que produzimos. As fugas para o imediato não fazem senão dissolver os dias em noites e adiar as noites por vir.
Mukanda
02.01.2026 | por Ricardo Norte
A urzela, ou roccella tinctoria, é um líquen que cresce nas rochas e falésias das orlas marítimas das ilhas da Macaronésia, um conjunto de quatro arquipélagos vulcânicos do Atlântico Norte. Quando a urzela, que se assemelha a um pequeno arbusto verde-acinzentado, é triturada e mergulhada numa mistura de água quente e urina humana fermentada, produz uma substância corante de cor vermelho-violácea. As suas tonalidades vivas e brilhantes foram durante séculos muito apreciadas na Europa, onde as roupagens de cor púrpura eram, desde a Antiguidade, um sinal de estatuto e privilégio. Por essa razão, a história das relações entre a urzela e os humanos encontra-se manchada por inúmeras atrocidades.
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31.12.2025 | por Teresa Castro
“Deixei de poder carregar, de mão em mão, o leite da cabra, vindo das montanhas agrestes.
A couve. Brassicaceae.
Para alimento dos órfãos.
O milho. O arroz.O feijão e o tomate, para o manuseio das mulheres.
O algodão, para o aconchego dos filhos.
A cabeça de boi, para pagamento das dívidas e os reservatórios de combustível…
E até o veneno alegre da embriaguez, que me tirava da lucidez, deixou-me, dia após dia, por causa da miséria do meu tempo.”
Mukanda
31.12.2025 | por Indira Grandê
Nas expectativas de muitos imigrantes, a Europa era um lugar construído sobre valores que priorizam a dignidade dos homens e das mulheres, um lugar acolhedor da diversidade, um lugar de segurança e que garante prosperidade material por via do trabalho para todos. O que se mostra, para já, uma parede difícil de ultrapassar.
Palcos
20.12.2025 | por Zezé Nguellekka
As fomes moldaram a história de Cabo Verde, a nossa identidade e a forma como nos relacionamos com a materialidade da vida. Contudo, persiste ainda uma enorme produção de silêncio em torno deste facto. Não será exagerado dizer que interiorizámos profundamente a censura dos tempos coloniais, quando era proibido usar a palavra “fome” ou indicar “inanição” como causa de morte nas certidões de óbito.
Afroscreen
16.12.2025 | por Apolo de Carvalho