As palavras de Frantz Fanon encontram na Palestina contemporânea a sua expressão mais vívida e dolorosa. Sob o olhar omisso e complacente da comunidade internacional, a população palestiniana constitui, nos séculos XX e XXI, a própria encarnação dos condenados da terra, o povo mais esquecido do planeta, abandonado pelas estruturas de governação internacionais e submetido às dinâmicas continuadas de um colonialismo de povoamento.
Jogos Sem Fronteiras
07.10.2026 | por Pedro Oliveira
Em 'Je t’embrasse, Gilbert', Sandra Muteteri Heremans acompanha um estudante ruandês na União Soviética dos anos 1970. Entre a descoberta da neve, as discussões políticas e a distância de casa, as cartas devolvem espessura a uma história de circulação africana que também encontrei, muitas vezes, nos testemunhos de antigos estudantes angolanos.
Afroscreen
07.10.2026 | por Marta Lança
Em vez de procurar aquilo que África tem para nos ensinar, como se as suas vidas existissem para melhorar a nossa consciência, procuro compreender o que está em disputa para quem vive estas histórias. O futuro de Robert não é uma lição de esperança nem a vida de Kojo uma prova destinada a confirmar ou resolver a culpa ocidental. O cinema começa a libertar-se dessa relação quando lhes reconhecemos o direito a querer, a contradizer-se e a construir um futuro que não tenha de passar por nós.
Afroscreen
07.10.2026 | por Marta Lança
Há precisamente cinquenta anos, entre a comoção do poder estatal para se fazer valer perante o "povo" e a cooperação internacional e os ideais revolucionários do Partido-Único para a construção do "novo homem", uma possível via de atuação no setor da construção civil foi experimentada. Um modo de fazer construção civil que, com todas as suas limitações, tinha uma relação direta com a formação do que se considerava ser, naquele momento histórico, a necessária sociedade civil.
A ler
07.10.2026 | por Hugo Lopes
Na adolescência, quando ainda não sabia bem onde cabia, Nayr Faquirá percebeu que tinha uma coisa que ninguém lhe podia contestar: a voz. Aos 28 anos, a cantora, compositora e produtora luso-moçambicana, natural de Sintra, continua a construir uma carreira sem editora, dá aulas num pequeno estúdio que montou na garagem dos pais e move-se numa indústria onde, diz, uma mulher tem de impressionar três vezes mais para ser aceite.
Cara a cara
06.10.2026 | por Mariana Moniz
Um dos filmes mais especiais da seleção da Festa do Cinema Francês, Une vie manifeste, de Jean-Gabriel Périot, recupera o percurso de uma crítica de cinema e militante revolucionária que ligou a sua liberdade à dos outros. Da França ocupada à luta pela independência da Argélia, de Cuba à Guatemala, acompanhamos uma mulher para quem olhar, escrever, amar e agir faziam parte da mesma exigência de viver.
Afroscreen
03.10.2026 | por Marta Lança
E se, de repente, nada mudasse? Em E Tudo Mudou, Carla Fernandes parte da observação dos filhos para convidar crianças e adultos a reparar nas pequenas transformações do quotidiano. Nesta conversa com o programa Bem-Vindos, a autora fala da literatura infantil como espaço de partilha, descoberta e formação emocional, onde os adultos também aprendem. Aborda ainda a colaboração com o ilustrador Alexandre Matos, que deu corpo à Mudança através de referências do candomblé, e a importância de escrever sobre temas profundos numa linguagem simples, sem perder a poesia.
Cara a cara
01.10.2026 | por Carla Fernandes
Em «Maçonaria», Azagaia transforma a linguagem da oração numa denúncia da cobiça, da exploração e das alianças entre religião e poder. Partindo da memória da morte do rapper e do encontro da sua própria escrita com a obra do músico moçambicano, Venâncio Calisto propõe uma leitura da canção como reescrita da narrativa colonial em África e afirma a força de uma poesia que continua a interpelar o presente.
Palcos
01.10.2026 | por Venâncio Calisto
Escrevo-te numa carruagem escaldante do Intercidades, no centro do Algarve, com 30 minutos de atraso e o ar condicionado avariado. Faro está do lado de fora da janela, e eu corri o Barlavento e o Sotavento em menos de uma semana. Dá para sentir a forma s base de um país, aqui mesmo a cutucar Marrocos. (Espera, vou mudar de carruagem, não se aguenta o calor). O Algarve é o faroeste do esquema, dos que tentam orientar-se, do sem recibo, do que se foda o Estado afinal «os políticos são todos iguais» e viva a Chegolândia. Os foras da lei são todas as escalas na terra das transações e da extração de recursos, naturais e humanos.
Mukanda
29.09.2026 | por Marta Lança
Em 'O Pai Tá On', antes de ouvirmos o presidente, escutamos quem fala de comida, trabalho, saúde e educação, mas também do medo vivido durante o governo Bolsonaro e da esperança de voltar a ocupar a rua. A festa faz-se de cânticos, encontros fortuitos, lideranças indígenas, bordados levados de Belo Horizonte e histórias familiares. Nesta entrevista, a realizadora conta como esses encontros orientaram a filmagem e a montagem, por que deu tanto espaço às vozes da multidão e o que sentiu ao regressar às imagens quase quatro anos depois.
Afroscreen
28.09.2026 | por Marta Lança e Rita Brás
Depois da apresentação em Veneza da cópia restaurada de Udju Azul di Yonta, Flora Gomes revisita os sonhos da independência, a «geração dos pneus» e a Bissau que o filme guardou. Numa conversa sobre cinema, memória e futuro, fala da urgência de fazer chegar os filmes à Guiné-Bissau, do projeto dedicado a Amílcar Cabral e da confiança nos jovens para recuperar a bússola coletiva.
Afroscreen
28.09.2026 | por Marta Lança
Momar Abdoulie Njie, da Gâmbia, foi aceite num curso de Cinema e Televisão da ETIC, em Lisboa. Relata que pagou 700 € de inscrição e 3492 € de propina, mas só recebeu a data exata de início das aulas depois de vários pedidos e de ambos os pagamentos. Ao enfrentar dificuldades para agendar o visto a tempo, pediu para entrar mais tarde ou adiar a frequência; segundo o seu relato, a escola recusou essas opções e informou-o de que teria de voltar a candidatar-se e a pagar. Sem ter frequentado o curso, pede a reavaliação do seu caso e levanta uma questão mais ampla sobre a informação e a proteção oferecidas a estudantes internacionais.
Afroscreen
28.09.2026 | por Momar Abdoulie Njie
O Campeonato Interbairros põe Bissau em movimento: reúne bairros, cria oportunidades de trabalho e faz do futebol um lugar de encontro. Mamadu Alimo Djaló recupera a lição de unidade de Amílcar Cabral para lembrar que a paixão pela bola não pode servir de distração perante a falta de respostas para a saúde, a educação, a agricultura e a justiça.
Vou lá visitar
24.09.2026 | por Mamadu Alimo Djaló
A narrativa sobre o futuro da tecnologia global atravessa um momento de inflexão acelerada. No cerne da questão encontra-se a Inteligência Artificial e, em particular, os modelos generativos, apresentados pelo discurso corporativo dominante como a panaceia para a eficiência produtiva, o crescimento económico e a resolução de dilemas sociais complexos. Quando transposta para o continente africano, esta promessa ganha contornos de urgência e oportunidade, assente na ideia de um salto tecnológico direto que permitiria ao continente ultrapassar etapas históricas de industrialização, à semelhança do que se verificou com a rápida adoção da banca móvel e das redes de comunicações sem fios nas últimas duas décadas.
A ler
24.09.2026 | por Pedro Oliveira
Nós, organizações e coletivos abaixo-assinados, compostos por guineenses e kabuverdianu unidos pelo compromisso histórico com a unidade e armundadi entre os nossos povos, temos acompanhado com profunda preocupação os recentes acontecimentos envolvendo trabalhadores guineenses residentes em Kabuverdi, particularmente na cidade da Praia, assim como os discursos e informações que, na sequência desses acontecimentos, têm circulado nas redes sociais.
Mukanda
23.09.2026 | por vários
Nos 70 anos da fundação do PAIGC, José Luís Hopffer C. Almada revisita a luta pela independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde e o legado de Amílcar Cabral. Defende que a criação do PAICV, em 1981, pôs fim ao carácter binacional do partido e questiona a permanência de Cabo Verde no nome e na sigla do atual PAIGC guineense. O texto recorda ainda o papel decisivo da luta conduzida na Guiné-Bissau nos processos de descolonização e termina com uma declaração de solidariedade aos dirigentes do partido.
A ler
23.09.2026 | por José Luís Hopffer Almada
O espírito fica de atalaia para o oculto, de rabo esticado como um cão de caça. A repulsa que trava o colher do fruto vem do retrair covarde junto ao delírio, enquanto o princípio vital já baba veneno com o que adivinha. Antes mesmo que se decida a atravessar o entusiasmo, já o medroso conta os cabelos que vai perder, os nervos que queimou, o tempo que levará a redescobrir a cama. Nunca fui capaz de fabricar nada vagarosamente. As linhas passeiam sob o olho do diabo, até que as escarre para a valeta.
Mukanda
23.09.2026 | por Ricardo Norte
E antes de mandar abrir as cortinas sentou-se por cima do caixão com uma expressão de estátua doente de angústia, a morte curva até os grandes. E depois disso só me lembro do fogo, do cheiro de eternidade a poluir o horizonte, uma multidão de gente do teatro e da arte em sua casa, mestre como nos tempos em que éramos tu o anfitrião, o corifeu do grande carnaval, do ditirambo com direito a vinho e leitão assado a moda Maconde na lenha e em fogo lento, a carne deve ser tenra para que a alma possa disfrutar da sua liberdade existencial e criativa.
Palcos
22.09.2026 | por Venâncio Calisto
A propósito de *Afrocalipse*, o seu mais recente romance, conversei com Mário Lúcio Sousa sobre a fabricação dos ditadores africanos, a responsabilidade dos países depois das independências e a persistência das estruturas coloniais na exploração do continente. Fala também das formas comunitárias de organização, da relação entre Cabo Verde e a Guiné-Bissau, do lugar das mulheres na reparação da violência, dos processos de reconciliação e dos saberes africanos que sobreviveram ao apagamento. Uma conversa sobre poder, memória e escuta, mas também sobre a possibilidade de recomeçar depois do fim de um mundo.
Cara a cara
21.09.2026 | por Marta Lança
A memória histórica da União Soviética foi-nos, regra geral, vendida dentro de uma embalagem de amnésia seletiva a preto e branco, pelos mesmos que nos tentaram vender o capitalismo como o fim da História, essa com H grande. Agora que já não havia Muro de Berlim — vamos pôr as palas etnocêntricas para não ver os outros muros, ainda maiores, que entretanto cresceram em Ceuta, no México ou na Cisjordânia —, convenceram-nos de que viveríamos ainda melhor do que os nossos pais e de que a prosperidade e a liberdade seriam sempre a somar. Omitiram a parte em que uns poucos, muito poucos, são cada vez mais, muito mais, prósperos e livres do que todos os outros.
Vou lá visitar
18.09.2026 | por André Almeida