“When you're in the shit up to your neck, there' s nothing left to do but sing.” (Beckett). Gostava de dizer-te que consegui fazer da ansiedade um estimulante, um catalisador, uma arma contra o adormecimento. Na maioria das vezes, consigo. Por vezes, no entanto, ainda prendo a cabeça em teias de aranha, fico mumificado como uma mosca que só consegue mexer os olhos. São as insónias que me fodem, de resto, tenho mais pernas do que tinha. Faço das teias algodão doce e volto os olhos para fora, porque é aí que vivo, encostado aos outros, aos que desconheço.
Mukanda
19.05.2026 | por Ricardo Norte
Num tempo de acirrada disputa pela memória histórica, em que as forças mais extremadas da direita tentam por vários exercícios reescrever o que foi o fascismo, o filme Mulheres de Abril, de Raquel Freire, é um momento de verdade, um ponto de ordem à mesa. Quem conta a nossa história? Quem adivinha as alegrias e os padecimentos, os lutos e os encantamentos? Quem sabe do que vibrava o coração de uma criança aniquilada com os seus em Gaza?
Afroscreen
19.05.2026 | por Josina Almeida
A tendência para a individualização, a perda de sentido das formas coletivas de leitura dos processos e de construção de respostas, o domínio da ideologia do sucesso a qualquer custo, e da meritocracia - onde o fracasso é apontado como culpa individual - e a constante desvalorização das relações corporais em favor das virtuais: tudo isto aponta para uma mutação antropológica que atinge níveis profundos, inclusive a esfera do inconsciente e dos sonhos.
Corpo
14.05.2026 | por Stefano Rota
Tem-me acontecido ter de lidar com pessoas ansiosas e acompanhar depressões que vão germinando. Assistirmos a um ser que se mina, que se apaga, que sofre de modo invisível, sem podermos ajudar, é desesperante. Fala-se pouco desses acompanhantes dos demónios alheios e do quanto se coíbem. Mais ou menos discretos, tentam irradiar calor e soluções, sendo fortemente também afetados pelo vazio e sofrimento do parceiro. Creio que não fui boa ajuda, porque dou por mim a pressionar nos sentido de um abstrato “está tudo bem”, “não há motivo, olha as coisas fantásticas à tua volta”. Talvez porque nunca tenha ouvido em mim o canto gutural da depressão e, inconscientemente, não a aceito nos outros. Negacionista da dor invisível me confesso.
Mukanda
14.05.2026 | por Marta Lança
Sem nenhuma concessão à facilidade (uma criança, sabe-o bem o autor, não é um imbecil, mas um ser cuja inteligência crítica é implacável e justa), mesclando e retorcendo no mais alto grau criador, em humor e poema, as línguas kimbundu e portuguesa, Luandino traz à infância temas da História de Angola (como a luta pela independência do país, ou a própria independência nacional e a terrível guerra civil que lhe sobreveio), ou, ainda, temas universais como a sabedoria, a liberdade e a justiça, a avidez do poder, ou a ganância mercantil, na sua fulgurante linguagem, irradiante de sentidos, de plasticidade visual e musical, criando poderosas e maravilhadas metáforas, onde o onirismo, o fantástico e o lado mágico da vida, aliados à densa poesia das personagens, vivamente nos encantam.
A ler
14.05.2026 | por Zetho Cunha Gonçalves
Os interesses e os investimentos – financeiros e políticos – por detrás desta evolução são incontornáveis, e não prevêem recuos. O que está em jogo é uma visão do mundo onde o que mais conta é o controlo sobre os recursos energéticos e naturais estratégicos. A função desempenhada por Israel, com todas as consequências que acarreta, cabe também nesta lógica.
A ler
10.05.2026 | por Stefano Rota e Rodrigo Magalhães
O que está em causa, como bem referiu o Professor Domingos, é o modo como o português tem sido ensinado na Guiné-Bissau, como língua materna [13, 14], e a disfuncionalidade do sistema educativo, fruto, em grande medida, do mau funcionamento do próprio sistema político. Além disso, quando se fala da necessidade de oficializar o crioulo e de o adotar como língua de ensino na Guiné-Bissau, não se trata de substituir o português. Seria uma péssima decisão política.
A ler
09.05.2026 | por Ronaldo Mendes
Language, as an emotional, cognitive and cultural heritage, continues to be invoked in discourse, but is rarely treated as the subject of a structured state policy. Who is prepared to acknowledge, with institutional seriousness, that language is not merely a symbol, but also a system? Who is prepared to accept that science should inform language policy, and not the other way round? The invitation remains open, but silence is often more eloquent than the answer.
A ler
07.05.2026 | por Eleutério Afonso
Durante anos, por volta de abril, pelas três da manhã, vinha um andorinhão para o meu telhado, com um tesão desgraçado, ainda com o fulgor africano a estremecer-lhe as penas, guinchava noite adentro à espera de uma resposta. As janelas são de papel, os carros zumbem-me na cabeceira. Não tinha como não acordar com os berros do pássaro solitário. Cheguei a pendurar-me na janela, não fosse ter um ninho no beiral. Quase me estatelei no alcatrão. Acabei por me habituar à passarada.Quando fico doente procuro concentrar-me nas alterações da percepção, como se fosse uma droga. A gripe não vai muito longe, mas, mesmo assim, com alguma atenção, o espaço modifica-se e estou noutra relação com o corpo. O centro de gravidade baixa ligeiramente, o ar fica líquido.
Mukanda
06.05.2026 | por Ricardo Norte
Encontra-se antes um pretexto para procurar as filiações de um novíssimo cinema português, em busca dessa raiz perdida, dessa escola, de uma unidade, ainda que frágil. Isto, não obstante, e dando de barato que, num mundo global, somos todos inevitavelmente influenciados de forma global. Todavia, não se deve subestimar o potencial do vizinho do lado. Se não existe um corpo suficientemente bem definido para caracterizar um cinema português, com um pouco de boa vontade há, pelo menos, escolas, linhas e movimentos — alguns deles provavelmente involuntários, mas que, sem querer, se desenham.
Afroscreen
04.05.2026 | por Manuel Halpern
O jornalismo é importante em si mesmo. Mas, sobretudo, é importante pela forma como se ramifica e impacta transversalmente o que somos enquanto sociedade. Num tempo em que, com as redes sociais, virtualmente todos e todas podem aceder e produzir informação — nem sempre fiável, nem sempre contextualizada, nem sempre reconhecendo a complexidade da realidade —, o jornalismo continua a ser insubstituível, ainda que também ele não esteja imune a tensões, limitações e disputas internas. O jornalismo informa. Mas faz isso de uma forma que mais nenhuma outra prática faz.
A ler
29.04.2026 | por Sofia José Santos
Alguns moradores de rua, concentrados nesta zona oriental da cidade, aquartelados no Beato com cama e refeição - já me deparei com uma petição contra eles, vociferando insegurança e sujidade no bairro - andam por aí, personificando as doenças generalizadas do capitalismo. Cabeças despenteadas e dedos grossos a contar moedas, a segurar o pacote de vinho barato. Sei lá que pessoas terão sido com as suas vidas passadas esfaceladas na violência do presente. Guardam nos olhos mistérios e venenos que talvez o Herberto Helder extraísse em poemas, projetando neles uma “alegria desesperada”.
Mukanda
28.04.2026 | por Marta Lança
Ela sempre escreveu sobre o que viu, sentiu e viveu. O livro “Ninguém matou Suhura” marca a estreia de uma voz ímpar na história da literatura moçambicana. A sua escrita fala sobre a denúncia da exploração dos humanos pelos humanos, fala das circunstâncias-limite que a humilhação colonial condicionou milhares de homens e mulheres de África. Fala da resistência e luta de todo um povo. Publicado pela primeira vez nos anos 1980, passados 40 anos, o livro volta às bancas como um lembrete do tempo que jamais deverá ser esquecido. Um lembrete para as gerações de hoje e as de amanhã de que a liberdade e a justiça para todos constrói-se com educação, amor, saúde, transporte e empatia.
Mukanda
27.04.2026 | por Lília Maria Clara Carrière Momplé e Venâncio Calisto
instigante sentir o tsunami de gente diversa a “sair à rua (avenidas, desculpem) de cravo na mão a horas certas”. Há muitos anos que sou uma célula dessa massa de água e de carne, e tem sido animador ver a data da revolução reativar-se, ganhar fôlego e multidão, mais causas e palavras de ordem. Reconheço o 25 de Abril no meu percurso, como se o praticasse todos os dias e tenho pensado neste nosso lugar geracional: os filhos do 25 de Abril, que viemos com o fim da ditadura para pôr em prática a liberdade, com tantas possibilidades para florescer e sempre tão queixosos.
Mukanda
26.04.2026 | por Marta Lança
Trazer à tona estes momentos históricos intrinsecamente ligados — Revolução Francesa e Revolução Haitiana —, onde os povos praticaram uma solidariedade internacionalista militante própria das épocas revolucionárias, revela-se, mutatis mutandis, de toda a pertinência. Isto porque as lutas de libertação em África contra o colonialismo português e as lutas travadas pelo povo português no 25 de Abril encontraram igualmente essa solidariedade nos dois sentidos. Esta foi possibilitada tanto pelas relações económicas entre a metrópole e as colónias como pela pertença à mesma classe trabalhadora dos povos em luta em Portugal e no continente africano — não obstante a heterogeneidade de situações dentro dessa classe —, o que significava terem pela frente os mesmos exploradores e opressores.
A ler
23.04.2026 | por Yussef B
Nascido em 1969, quando chegou a independência, Evaristo Abreu era, à semelhança das crianças do seu tempo, um menino acabado de nascer num mundo também ele recém-parido. Evaristo era um continuador da revolução, parte da geração que Samora Machel apelidou de “flores que nunca murcham”.
Palcos
23.04.2026 | por Venâncio Calisto
A sua governação coincidiu com um período em que muitos Estados africanos enfrentavam crises económicas, forte endividamento e persistentes formas de influência herdadas do passado colonial. Foi neste contexto que Sankara procurou afirmar uma via própria, centrada na valorização da produção nacional, no combate à corrupção, na emancipação das mulheres e na mobilização popular como instrumento de desenvolvimento.
A ler
22.04.2026 | por Pedro Oliveira
Gosto de pensar que … Supresa!! é como que uma secreta homenagem à persistência deste impulso inicial, algo utópico, que sobrevive no dia-a-dia da Oficina da Criança, mesmo se a sua formulação seja menos segura e assertiva que há 45 anos. (…) E gosto de pensar que a exposição iluminava, também, uma fé subjacente à criação e existência de espaços como a Oficina da Criança. É a fé na possibilidade – e não só na possibilidade, na exigência – de uma maneira diferente de fazer, baseada na generosidade, nos valores democráticos (antídoto eficaz contra o cinismo dominante de que “não é possível”, “não há alternativa”, “não vale a pena”), nas crianças e nos seus direitos e capacidades – fé que hoje pode parecer ingênua mas que alimentou e se alimenta de 45 anos de sólida prática. E porque não será possível? “Estamos vivos. Nada nos detém,”
Vou lá visitar
22.04.2026 | por Gerbert Verheij
Os sentidos soltam-se das coisas para a sua consciência com o vagar de quem se passeia pela sua imaginação. Isto, fantasio eu, que só vejo um rosto do outro lado da janela. Dobro-o, estico-o, alongo-o, no meu espelho empenado. Lembro-me do Rouch, olhei cinco minutos para esta mulher e estou aqui em divagações. Cinco minutos parece ser suficiente para me arrancar ao espírito do tempo, tão veloz é a sua demência. Precisávamos de outros mitos para habitar uns com os outros. Coleridge escreveu algures que o amor talvez seja um "sense of Being seeking to be self-conscious.” Deslocação perpétua, como um felino que se atravessa à nossa frente até sermos capazes de o ver.
Mukanda
21.04.2026 | por Ricardo Norte
Durante 35 anos, desenvolvemos uma amizade estreita e consistente. Estabelecemos uma espécie de comunhão espiritual, feita de muitos e bons convívios. Convívios também, por vezes, instáveis e voláteis, altamente combustíveis. Em muitas coisas éramos irreconciliáveis. Zangámo-nos algumas vezes. Gozámos um com o outro. Discordámos e provocámo-nos mutuamente, amuámos. Mas, no fim do dia, íamos sempre ter a uma mesa de café para preservarmos e renovarmos a nossa amizade. O Diogo conseguia ser imensamente terno, de uma ternura e inocência que me deixavam quase sem palavras.
Mukanda
18.04.2026 | por João Pedro George