crónica maio

crónica maio Como resgatar a poesia urbana deste mundo opaco, onde as pessoas nos frustram? Se eu não acreditasse no Céu, sei lá em que morte do meu passado eu estaria. As gaivotas voando no céu do fado de Amália, embalando a minha fantasia. Oiço canções para lá da campainha do VLT, anunciando o sono da tartaruga. Sou filha de Xangô e Iansã, e por isso sei que um dia em algum momento, raios e trovões irão varrer os telhados do Império para restabelecer a paz. Perante esta tristeza inclemente, chuvas irão trazer descanso às flores, e devolver a esperança aos trabalhadores da cidade.

Mukanda

26.05.2026 | por Rita Brás

Baralho de Cartas 22

Baralho de Cartas 22 Sobre a correspondência, há pouco recebi uma carta manuscrita, com selo lambido e tudo, de um grande amigo. A alegria adormecida de receber uma carta é idêntica à alegria de voltar a dançar após um longo período acamada num hospital. Pela sua perenidade e singularidade, por grafarem algo no espaço, as cartas são a mais bela e íntima prova de estima e dedicação. Uma carta doa-se, envia-se sem prova, não é uma carta registada: "Entrego ao destinatário a prova física das minhas palavras com toda a confiança". Um gesto que segue de um a outro ponto sem deixar rasto. Lembras-te quando não se podia fazer search com lupa digital e era mesmo necessário usar os dedos por completo para abrir envelopes envelhecidos, mantendo frescas as palavras? Ando a ler cartas e telegramas de um desconhecido. Todo um espólio epistolar em caixa de fruta, comprado na Feira da Ladra por 20 paus. As parcelas de vida de um estranho Luís são-me desveladas através dos reparos, solicitações e análises de carácter dos seus remetentes.

Mukanda

26.05.2026 | por Marta Lança

Na boca da unidade

 Na boca da unidade Fazer uma história da unidade africana a partir da língua, do músculo, deste órgão que sente e experimenta, é reconhecer o potencial do corpo na sua totalidade: da planta dos pés aos intestinos, passando pelo pulmão até à boca, onde se mastigam matérias orgânicas e gramaticais. Pensar a comida, os alimentos e a gastronomia no processo de unificação do continente é permitir também a nossa humanização, a fertilização da nossa capacidade criativa e inventiva e uma fraternidade mais genuína, porquanto a comida é uma escola de sinceridade.

A ler

26.05.2026 | por Apolo de Carvalho

A Poesia de autoria afrodescendente e imigrante em Portugal nos circuitos independentes

A Poesia de autoria afrodescendente e imigrante em Portugal nos circuitos independentes Nessa dimensão de inevitável, de necessidade e de processo que acontece, enraíza-se a poesia. Ela traz as memórias de lugares, formas de falar, de mover-se no espaço, formas de afetos e de resistências talvez originariamente não “de aqui”, mas que passam a sê-lo no momento em que esses corpos inscrevem-se no espaço, no território. No Portugal contemporâneo, será a poesia mais um espaço não só para pensarmos critica e politicamente, mas também para sermos e estarmos, para além das fraturas segregantes que as sociedades contemporâneas, de forma cada vez mais violenta, nós querem impor?

A ler

25.05.2026 | por Noemi Alfieri

Improvisando

Improvisando fui improvisando, falando de vidas que podiam sonhar mais, que podiam alcançar mais não fosse o degrau gigantesco, vulgo racismo estrutural fadar-lhes que estão sempre a mais. Tal e qual qualquer uma da Linha de Sintra fui seguindo o estilo pseudo-livre dos nossos momentos, das esfuziantes alegrias e dos audíveis tormentos, não vá alguém daqui a 500 anos soletrar online que nem nunca existimos então eu escrevi, eu escrevi porque nós resistimos

Mukanda

25.05.2026 | por Telma Tvon

Porque demorámos tanto a escutar as Vozes da Afrodiáspora?

Porque demorámos tanto a escutar as Vozes da Afrodiáspora? Na inscrição de vozes negras, que identidades se vêm reconfigurando e que convenções e cânones vão sendo agitados? O que contam essas narrativas da afro-diáspora sobre momentos cruzados da história portuguesa, angolana e cabo-verdiana? O que pensam da exclusão e da ocupação da cidade essas mesmas vozes? A que contextos de migração acedemos nas diversas linguagens e gerações? Quais as dificuldades, mas também a potência, das mulheres negras no meio artístico português?

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25.05.2026 | por Marta Lança

Pequeno histórico do BUALA (2010 - 2026)

Pequeno histórico do BUALA (2010 - 2026) Ao longo de trabalho diário em desasseis anos, o BUALA tornou-se simultaneamente arquivo, revista, plataforma crítica, espaço curatorial e comunidade de afinidades. A sua trajetória acompanha a emergência, em Portugal, de um debate mais amplo sobre as histórias e consequências do colonialismo, e novos desafios na contemporaneidade, ajudando a abrir espaço para novas vozes, linguagens e narrativas. O BUALA contribuiu para deslocar o centro do discurso cultural português, insistindo numa ideia de cultura atravessada por conflito, história, circulação e justiça. A cultura como campo de disputa simbólica e ferramenta de reescrita histórica. Foi-se reinventando para acolher todos os contributos que ajudem a desintoxicar o mundo.

Mukanda

24.05.2026 | por vários

Conceição Lima, um despojar de limites

Conceição Lima, um despojar de limites Há mortes que parecem suspender o tempo, como se o silêncio se tornasse mais denso e o mundo, de súbito, menos habitável. A sensação que temos é de que estamos todos enlutados. A morte é sempre uma surpresa trágica. A partida de uma poeta grandiosa da estirpe de Maria Conceição de Deus Lima é um mistério inconcluso na finita infinitude da condição humana. Perder uma poeta é perder também uma forma singular de (re)inventar a linguagem, pois sua poesia é convite à palavra cerzida no universo de uma literatura que reivindica na eleição das metáforas o experimento com o verbo insular.

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22.05.2026 | por Tânia Lima e Elizabeth Olegário

Baralho de Cartas 21

Baralho de Cartas 21 “When you're in the shit up to your neck, there' s nothing left to do but sing.” (Beckett). Gostava de dizer-te que consegui fazer da ansiedade um estimulante, um catalisador, uma arma contra o adormecimento. Na maioria das vezes, consigo. Por vezes, no entanto, ainda prendo a cabeça em teias de aranha, fico mumificado como uma mosca que só consegue mexer os olhos. São as insónias que me fodem, de resto, tenho mais pernas do que tinha. Faço das teias algodão doce e volto os olhos para fora, porque é aí que vivo, encostado aos outros, aos que desconheço.

Mukanda

19.05.2026 | por Ricardo Norte

“Nada as parou. Nas maiores adversidades, nas situações mais difíceis", Mulheres de Abril, de Raquel Freire

“Nada as parou. Nas maiores adversidades, nas situações mais difíceis", Mulheres de Abril, de Raquel Freire Num tempo de acirrada disputa pela memória histórica, em que as forças mais extremadas da direita tentam por vários exercícios reescrever o que foi o fascismo, o filme Mulheres de Abril, de Raquel Freire, é um momento de verdade, um ponto de ordem à mesa. Quem conta a nossa história? Quem adivinha as alegrias e os padecimentos, os lutos e os encantamentos? Quem sabe do que vibrava o coração de uma criança aniquilada com os seus em Gaza?

Afroscreen

19.05.2026 | por Josina Almeida

O futuro é já.

O futuro é já. A tendência para a individualização, a perda de sentido das formas coletivas de leitura dos processos e de construção de respostas, o domínio da ideologia do sucesso a qualquer custo, e da meritocracia - onde o fracasso é apontado como culpa individual - e a constante desvalorização das relações corporais em favor das virtuais: tudo isto aponta para uma mutação antropológica que atinge níveis profundos, inclusive a esfera do inconsciente e dos sonhos.

Corpo

14.05.2026 | por Stefano Rota

Baralho de Cartas 20

Baralho de Cartas 20 Tem-me acontecido ter de lidar com pessoas ansiosas e acompanhar depressões que vão germinando. Assistirmos a um ser que se mina, que se apaga, que sofre de modo invisível, sem podermos ajudar, é desesperante. Fala-se pouco desses acompanhantes dos demónios alheios e do quanto se coíbem. Mais ou menos discretos, tentam irradiar calor e soluções, sendo fortemente também afetados pelo vazio e sofrimento do parceiro. Creio que não fui boa ajuda, porque dou por mim a pressionar nos sentido de um abstrato “está tudo bem”, “não há motivo, olha as coisas fantásticas à tua volta”. Talvez porque nunca tenha ouvido em mim o canto gutural da depressão e, inconscientemente, não a aceito nos outros. Negacionista da dor invisível me confesso.

Mukanda

14.05.2026 | por Marta Lança

As Fábulas infantis e juvenis de José Luandino Vieira

As Fábulas infantis e juvenis de José Luandino Vieira Sem nenhuma concessão à facilidade (uma criança, sabe-o bem o autor, não é um imbecil, mas um ser cuja inteligência crítica é implacável e justa), mesclando e retorcendo no mais alto grau criador, em humor e poema, as línguas kimbundu e portuguesa, Luandino traz à infância temas da História de Angola (como a luta pela independência do país, ou a própria independência nacional e a terrível guerra civil que lhe sobreveio), ou, ainda, temas universais como a sabedoria, a liberdade e a justiça, a avidez do poder, ou a ganância mercantil, na sua fulgurante linguagem, irradiante de sentidos, de plasticidade visual e musical, criando poderosas e maravilhadas metáforas, onde o onirismo, o fantástico e o lado mágico da vida, aliados à densa poesia das personagens, vivamente nos encantam.

A ler

14.05.2026 | por Zetho Cunha Gonçalves

As novas Terras Médias

As novas Terras Médias Os interesses e os investimentos – financeiros e políticos – por detrás desta evolução são incontornáveis, e não prevêem recuos. O que está em jogo é uma visão do mundo onde o que mais conta é o controlo sobre os recursos energéticos e naturais estratégicos. A função desempenhada por Israel, com todas as consequências que acarreta, cabe também nesta lógica.

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10.05.2026 | por Stefano Rota e Rodrigo Magalhães

“Depois vem o português, que é a língua de cultura moderna, língua de ciência”

“Depois vem o português, que é a língua de cultura moderna, língua de ciência” O que está em causa, como bem referiu o Professor Domingos, é o modo como o português tem sido ensinado na Guiné-Bissau, como língua materna [13, 14], e a disfuncionalidade do sistema educativo, fruto, em grande medida, do mau funcionamento do próprio sistema político. Além disso, quando se fala da necessidade de oficializar o crioulo e de o adotar como língua de ensino na Guiné-Bissau, não se trata de substituir o português. Seria uma péssima decisão política.

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09.05.2026 | por Ronaldo Mendes

Linguistic politics and education in Cape Verde: two structural silences

Linguistic politics and education in Cape Verde: two structural silences Language, as an emotional, cognitive and cultural heritage, continues to be invoked in discourse, but is rarely treated as the subject of a structured state policy. Who is prepared to acknowledge, with institutional seriousness, that language is not merely a symbol, but also a system? Who is prepared to accept that science should inform language policy, and not the other way round? The invitation remains open, but silence is often more eloquent than the answer.

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07.05.2026 | por Eleutério Afonso

Baralho de Cartas 19

Baralho de Cartas 19 Durante anos, por volta de abril, pelas três da manhã, vinha um andorinhão para o meu telhado, com um tesão desgraçado, ainda com o fulgor africano a estremecer-lhe as penas, guinchava noite adentro à espera de uma resposta. As janelas são de papel, os carros zumbem-me na cabeceira. Não tinha como não acordar com os berros do pássaro solitário. Cheguei a pendurar-me na janela, não fosse ter um ninho no beiral. Quase me estatelei no alcatrão. Acabei por me habituar à passarada.Quando fico doente procuro concentrar-me nas alterações da percepção, como se fosse uma droga. A gripe não vai muito longe, mas, mesmo assim, com alguma atenção, o espaço modifica-se e estou noutra relação com o corpo. O centro de gravidade baixa ligeiramente, o ar fica líquido.

Mukanda

06.05.2026 | por Ricardo Norte

Será que existe um novíssimo cinema português?

Será que existe um novíssimo cinema português? Encontra-se antes um pretexto para procurar as filiações de um novíssimo cinema português, em busca dessa raiz perdida, dessa escola, de uma unidade, ainda que frágil. Isto, não obstante, e dando de barato que, num mundo global, somos todos inevitavelmente influenciados de forma global. Todavia, não se deve subestimar o potencial do vizinho do lado. Se não existe um corpo suficientemente bem definido para caracterizar um cinema português, com um pouco de boa vontade há, pelo menos, escolas, linhas e movimentos — alguns deles provavelmente involuntários, mas que, sem querer, se desenham.

Afroscreen

04.05.2026 | por Manuel Halpern

Entre jornalismo e amor público: contar o coletivo em tempos de crise

Entre jornalismo e amor público: contar o coletivo em tempos de crise O jornalismo é importante em si mesmo. Mas, sobretudo, é importante pela forma como se ramifica e impacta transversalmente o que somos enquanto sociedade. Num tempo em que, com as redes sociais, virtualmente todos e todas podem aceder e produzir informação — nem sempre fiável, nem sempre contextualizada, nem sempre reconhecendo a complexidade da realidade —, o jornalismo continua a ser insubstituível, ainda que também ele não esteja imune a tensões, limitações e disputas internas. O jornalismo informa. Mas faz isso de uma forma que mais nenhuma outra prática faz.

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29.04.2026 | por Sofia José Santos

Baralho de Cartas 18

Baralho de Cartas 18 Alguns moradores de rua, concentrados nesta zona oriental da cidade, aquartelados no Beato com cama e refeição - já me deparei com uma petição contra eles, vociferando insegurança e sujidade no bairro - andam por aí, personificando as doenças generalizadas do capitalismo. Cabeças despenteadas e dedos grossos a contar moedas, a segurar o pacote de vinho barato. Sei lá que pessoas terão sido com as suas vidas passadas esfaceladas na violência do presente. Guardam nos olhos mistérios e venenos que talvez o Herberto Helder extraísse em poemas, projetando neles uma “alegria desesperada”.

Mukanda

28.04.2026 | por Marta Lança