Porque Preciso de Dizer o Óbvio – Instalação de Edgar de Oliveira / Avital Barak
Quando Edgar me falou pela primeira vez do seu projeto, começou por Amélia, a sua avó paterna. Amélia Batista Monteiro nasceu em Moçambique a 10 de outubro de 1907. A sua mãe era moçambicana e o seu pai era natural de Goa, na Índia. Teve oito filhos de três maridos diferentes, dois dos quais eram soldados portugueses que serviram em Moçambique durante a Primeira Guerra Mundial. Estes oito filhos tiveram quarenta e sete netos. Edgar pertence à segunda geração de descendentes de Amélia e, no total, existem hoje cinco gerações.
Esta família alargada encontra-se espalhada por três continentes e dezasseis países, reunindo pessoas de diferentes etnias e nacionalidades.
Edgar nasceu em Moçambique em 1973. Após a independência do país, ele e a sua família foram, como toda a população, convidados a renunciar à nacionalidade portuguesa e a tornar-se cidadãos moçambicanos. No entanto, com o início da guerra civil pouco depois da independência, os pais de Edgar decidiram manter a cidadania portuguesa e deixar o país, mudando-se para Portugal.
Alguns familiares de Edgar também se deslocaram para Portugal nesse período, enquanto outros permaneceram em Moçambique. Depois disso, seguiram-se muitos outros movimentos, de Moçambique para outros países de África, da Europa e da América do Norte e do Sul.
Ao olhar para fotografias desta família, é difícil acreditar que todos são parentes e descendem da mesma mulher. Mas porque haveria isso de ser surpreendente? Afinal, foi exatamente isso que aconteceu com a humanidade como um todo.
Este é o ponto de partida do projeto Porque Preciso de Dizer o Óbvio, uma instalação multimédia que funciona simultaneamente como arquivo da família de Edgar e como uma reflexão sobre questões de identidade, pertença e sobre as consequências da geopolítica e da história colonial na mobilidade das pessoas e na estrutura das famílias na atualidade.

Identidade
No mundo de hoje, tudo gira em torno da identidade. Tanto a direita como a esquerda compreendem e atuam segundo este paradigma. Observando o panorama político global, torna-se claro que políticos de todo o espectro exploram o conceito de política identitária — que surgiu no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 em resposta a profundas transformações no mundo e à necessidade urgente de abrir o espaço público a vozes e perspetivas diversas — para fins próprios e limitados. A identidade foi instrumentalizada pela direita contra minorias e fragmentou a solidariedade à esquerda, produzindo divisão.
Mas a identidade não é algo único e fixo; é sempre complexa, plural e por vezes contraditória. É possível nascer em Moçambique, crescer em Portugal, ter a pele clara e, ainda assim, não sentir pertença a lugar nenhum. Ter uma avó em Moçambique que, por sua vez, foi mãe de oito filhos, alguns dos quais foram soldados do exército português, enquanto outros apoiaram o movimento de libertação contra Portugal. Uma família, muitas posições políticas, muitas identidades.
Os netos e bisnetos de Amélia falam várias línguas, têm diferentes cores de cabelo e possuem vários passaportes. Viveram experiências muito diversas. No entanto, fazem todos parte da mesma família. Quando se encontram, partilham um sentimento de pertença a algo que vai além de palavras, categorias ou distinções. Então, o que é esta identidade familiar? Quem sabe? Nem os próprios membros da família oferecem uma única resposta a essa pergunta.
Mobilidade
A mobilidade não abrange apenas o movimento físico das pessoas, mas também as condições em que esse movimento ocorre. Acima de tudo, a mobilidade é uma categoria que diferencia indivíduos, assinalando o seu estatuto cívico e a sua posição socioeconómica. Revela se alguém pertence à parte próspera do mundo ou à parte explorada e excluída de recursos e poder. A mobilidade diz-nos também algo fundamental sobre a vida humana. As pessoas deslocam-se de um lugar para outro. Sempre o fizeram e sempre o farão.
As pessoas mudam de país por muitas razões: por situações políticas, em busca de melhores oportunidades, por amor, porque foram expulsas ou porque fogem para salvar a própria vida. Mudam porque querem mudança, porque acreditam que a vida será melhor do outro lado do mar. Muitas vezes, descobrem mais tarde que nem sempre é assim.
Depois, coloca-se a questão de quem pode deslocar-se e de que forma. Quando se é jovem e não se tem uma família a cargo, é muitas vezes mais fácil mudar de lugar. Ao mesmo tempo, a própria idade pode restringir a mobilidade, como no caso do regime de circulação imposto por Israel, que controla e limita os movimentos dos palestinianos na Palestina, tanto nos territórios ocupados como quando tentam entrar em Israel. Isto é particularmente evidente no caso de jovens palestinianos solteiros entre os 18 e os 35 anos. Outro exemplo, entre muitos, é o regime de vistos dos Estados Unidos. Basta tentar pedir um visto de turista para os Estados Unidos aos 23 anos, sendo do Médio Oriente e sem um emprego estável ou contrato no país de origem.
avô Cláudio
avô Sérgio
Leo, Bélgica
No passado houve períodos em que as fronteiras estiveram relativamente abertas e a imigração em grande escala transformou o mundo. Nos últimos vinte anos, milhões de pessoas deslocaram-se de um lado do mundo para o outro, em busca de uma vida melhor ou para escapar à perseguição. Globalmente, sobretudo no Ocidente, líderes populistas de direita mobilizam a metáfora da invasão para conquistar poder, apresentando como ameaça precisamente aquelas pessoas cujos países foram outrora colonizados para lucro e que, mais tarde, foram recrutadas para realizar os trabalhos mais duros e indesejáveis.
Habituámo-nos a ouvir falar de imigrantes e refugiados, quer sob a forma de «notícias do centro da crise», quer como histórias individuais traumáticas. Pensamos na colonização e no colonialismo de povoamento, na escravatura do passado e na economia global de hoje. Todos estes são conceitos, fenómenos e narrativas de movimento. Por detrás de cada um deles está a mobilidade das pessoas - escolhida ou forçada, em resposta a acontecimentos ou como tentativa de começar uma nova vida.
Na família de Edgar encontra-se todo o espectro de razões para a deslocação de um lugar para outro. Começa com o pai de Amélia: embora os detalhes concretos da sua viagem permaneçam incertos, sabemos que se deslocou de Goa para Moçambique. Ambos eram colónias portuguesas, ligadas por rotas comerciais imperiais que envolviam a circulação de bens, trabalho e pessoas escravizadas. Os companheiros de Amélia eram homens portugueses que chegaram como soldados do império. Mais tarde, alguns dos seus filhos sentiam-se mais portugueses, outros mais moçambicanos. Com o tempo, surgiram novas razões para migrar, e a família espalhou-se gradualmente por África, Europa e Américas.
Família
O que faz, então, uma família ser uma família? Será puramente genético — uma linhagem que pode ser traçada até uma ancestralidade comum — ligando pessoas de lugares, línguas e vidas diferentes? Sabemos que os laços emocionais e a memória coletiva desempenham um papel importante nas relações de sangue. Ao mesmo tempo, a família é também uma unidade económica e, em muitos aspetos, um microcosmo da sociedade em que existe.
Temos ideias fixas sobre como uma família deve funcionar, mas as famílias são moldadas pelos valores e condições sociais do seu tempo. A família nuclear, tal como hoje a entendemos, é uma invenção moderna, tal como muitas das relações que nela existem. Nos últimos quinhentos anos, as estruturas familiares sofreram transformações profundas em resposta à ascensão do capitalismo e da industrialização. A Revolução Industrial, em particular, remodelou a vida doméstica: os papéis das mulheres mudaram, o lugar das crianças transformou-se, e estas dinâmicas continuaram a evoluir repetidamente.
A tecnologia afeta hoje diretamente a vida familiar, sobretudo a possibilidade de manter contacto quando os familiares estão espalhados pelo mundo. Como parte da investigação do seu projeto, Edgar criou um grupo de WhatsApp que rapidamente se tornou o principal espaço de encontro da família. Membros de diferentes gerações e lugares começaram a partilhar memórias e a reencontrar-se. Dinâmicas antigas e políticas internas vieram à superfície, e emergiu um renovado sentimento de pertença. Mais tarde, Edgar organizou um piquenique familiar na Moita, no distrito de Setúbal, reunindo pela primeira vez familiares de várias partes do mundo.
família
A família de Edgar é um produto direto do passado e do presente de Portugal: da sua história colonial, das dificuldades económicas persistentes e das tensões raciais, mas também dos seus complexos entrelaçamentos culturais. Estes formaram-se ao longo de séculos de colonização por um pequeno país em vastos territórios. Como sempre, a influência moveu-se em ambas as direções. O antigo império ocupa hoje um espaço diminuto em comparação com as suas antigas colónias. Na instalação, esta anomalia histórica torna-se palpável — como uma nação tão pequena governou territórios tão imensos durante tanto tempo. Sabemos a resposta, claro, mas confrontar a sua escala continua a ser profundamente inquietante.
Voltando ao início deste texto, embora a família de Amélia ofereça uma representação poderosa, não se trata de um fenómeno único. Como já foi sugerido, foi assim que a humanidade evoluiu e se tornou aquilo que é hoje. As pessoas sempre se moveram, integraram-se com outros grupos e estabeleceram-se em novos territórios. A humanidade começou em África e espalhou-se gradualmente pelo globo. Existem inúmeras famílias que refletem esta mesma mistura de histórias, como a de Edgar.
Então por que precisamos de dizer o óbvio? Porque continuamos a ter de insistir que todos os seres humanos nascem iguais — com o direito não apenas à vida, mas à livre circulação, à procura da felicidade, ao crescimento e desenvolvimento, a um futuro e à liberdade?
** A primeira fase do projeto de Edgar de Oliveira, Porque Preciso de Dizer o Óbvio, abrirá na Casa do Comum a 5 de março de 2026.