O adultério jaz ali

Mandoza vem da cidade dos santos, onde tudo é proibido para os mais novos. Criticar, principalmente aos mais velhos, é sinónimo de desrespeito. Ele nasceu e cresceu na Igreja Santo dos Santos, que leva o nome da comunidade. Fez os estudos dominicais e teve, quase sempre, destaque. Jovem aplicado e obediente. Essas são as qualidades que o permitiram alcançar a tão esperada bolsa de estudos para o estrangeiro, onde passou a estudar Teologia. Jovem culto e exemplar para os habitantes da sua povoação.

Na cidade estrangeira para onde foi viver, frequentou a igreja que seria responsável pelo seu processo de aprendizagem. Entretanto, as práticas que ali se viam eram abomináveis segundo as suas tradições. Para manter firme a sua fé e seus princípios, recorreria às escrituras sagradas em busca de refúgio. Fato curioso: os usos e costumes da congregação a que Mandoza passara a professar, eram bastante distintos do padrão pois, a homossexualidade, o adultério e os demais vícios, eram normalizados. O seu processo de ambientação não foi tão difícil, tanto é que, acabou por conhecer uma jovem de nome Laureta. Ela apresentou-o alguns jovens com os quais passou a partilhar várias experiências sobre assuntos relevantes daquele tempo.

Com o tempo e a vivência na nova cidade, ele percebeu que não existe um pecado condenável em relação ao outro, tudo depende das práticas sociais e a forma como se faz julgamentos ao estilo de vida de cada povo. Pelo que, o que sempre considerou pecado, para outros, era um prazer espiritual. A cada dia, o seu relacionamento com a Laureta crescia e, inevitavelmente, apaixonou-se por ela. O estilo de vida da jovem era diferente do seu. Ela, de beleza exuberante, levava a vida social assiduamente, o que lhe viria, a posterior, gerar uma estatura degradante. O amor toldou a razão de Mandoza, ele renunciou tudo e seguiu a podridão de vida da mulher amada. Passou a amá-la. Em resultado destes acontecimentos, a rotina dele sofreu uma metamorfose. As Discotecas e casas de pastos tornaram-se o seu abrigo. Nessas ramboias, Mandoza embriagou-se. Na mesma noite, Laureta traiu-o com um amigo. Foi uma enorme decepção para a vítima do infortúnio. Por causa disso, apelidou aquela cidade como “Cidade dos Amores Ocultos”, pois foi onde descobriu-se e soube que existia uma outra vida além do templo.

Numa manhã de quarta-feira, antes do culto, teve um exame de consciência. Ele percebeu que fugia do foco, aquele que consistia em aprimorar os conhecimentos de modo a que pudesse ajudar no crescimento espiritual dos irmãos que ficaram na cidade Santo dos Santos. Decidiu voltar-se para Deus, pediu perdão por ter-se deixado levar por um amor ilusório e satânico.

Muitas dúvidas começaram a surgir, para saná-las pegou na Bíblia. Com isto, pretendia entender se diante de Deus existe alguma distinção entre cultura, porque para os jovens e outros crentes da igreja que frequentava, os vícios faziam parte da modernidade. Para estes, o mais importante era estar presente na missa. Um estranho monólogo passou a fazer parte de sua rotina.

- Será mesmo que há uma escritura sagrada moderna que funcione com base nas virtudes e desejos do mundo? Será mesmo que o desejo de servir a Deus que outrora atraía os homens ainda prevalece? Ou existem, agora, deuses dentro do Deus omnipotente para satisfazer as necessidades individuais.

Estas foram as inquietações de Mandoza até regressar à terra natal, a Cidade Santo dos Santos, onde para ele ainda constituía o verdadeiro tesouro da herança celestial. Quando chegou à povoação, a primeira coisa a fazer foi visitar a igreja que o viu nascer, para dar vida ao que sempre acreditou e que a cidade dos Amores Ocultos não conseguiu tirar em definitivo: dar tudo por amor a Cristo.

Já na sua comunidade, ele teve um grande desgosto, as boas práticas com as quais cresceu não mais existiam, o ministério mudou e, nomeava-se membros a cargo de servo mediante as condições financeiras. Passaram a ser os bens da terra a escolher quem servir a Deus. Assim, a mansão celeste passou a ser comprada. Os cultos deixaram de ser voltados ao pai celeste e passaram a ser uma espécie de exibicionismo, onde os mais sucedidos alcançavam a bênção e os demónios manifestavam-se nos paupérrimos. Mandoza ficou revoltado e a sua fé entrou em crise, lembrou-se do momento em que enfraqueceu na fé durante a sua estadia no estrangeiro. Questionou, incansavelmente, para onde perdeu-se a moral da igreja.

Numa dessas madrugadas de vigília, saiu da capela para apanhar ar, e enquanto os outros irmãos oravam pedindo proteção, misericórdia e perdão de Deus, os outros, do lado de fora da Capela, faziam amor nos carros aos olhos de Jesus Cristo, para de seguida entrar no templo do Senhor e ajoelhar em jeito dissimulado orando o “Pai nosso que estás no céu”. Se é que se zanga com Deus, Mandoza devia estar a carregar a dor de todos. Renunciou a sua fé, julgando que a verdade da religião reside naquilo que nunca foi desvendado. A inveja morava sobre todos os crentes. Os que se revestiam do espírito de Deus para tirar proveito da cegueira espiritual dos fiéis, a igreja virou centro de fofocas. Foi então que ele decidiu abraçar as suas raízes. Considerou que era melhor servir e andar de acordo com a vontade dos ancestrais a mentir servir a Deus para beneficiar um grupo de homens gananciosos.

No primeiro domingo do mês, ele foi até a cubata da avó para entregar-se à vontade dos espíritos. Foi um momento de júbilo para ela, porque acreditava que o neto tinha despertado para a vida. Ele recebeu a bênção e um ritual de hoyo-hoyo kava kokwana. Passou a usar seu nome tradicional em jeito de reverência. Apagaram-se todas lembranças da cidade dos Amores Ocultos. Passou a visitar as campas dos seus ancestrais frequentemente, o seu maior desejo era ver-se livre desta vida terrena cheia de abismos. Num desses dias enquanto dormia, despertou e ouviu vozes ruidosas a chamar por ele em direção ao cemitério familiar e para lá foi. Quando ali chegou, ajoelhou-se na campa do avô e gritou: levem-me às alturas. No mesmo instante, uma serpente apareceu.

No dia seguinte, como era de praxe, a avó foi depositar flores e deparou-se com o corpo do neto no chão, os servos que a acompanhavam manifestaram e os espíritos começaram a disputar. Os maternos queriam que ele fosse servo de Deus e com práticas modernas para representar a família na sociedade. Por outro lado, a família paterna queria-o na cubata ao serviço dos espíritos da família. Os gritos chegaram à aldeia e todos assistiram aquele espetáculo de disputa espiritual. Minutos depois, chegou-se a conclusão de que ele tinha de ser sepultado no mesmo instante, porque a sua presença em casa resultaria em outras mortes.

Meses depois, a sua alma começou a perturbar os petizes. O defunto queria viver e ser glorificado numa alma pura. Nestas tentativas, as crianças não resistiram e perderam a vida todas. Até hoje a aldeia permanece cinzenta.

 

por Edna Matavel
A ler | 10 Fevereiro 2026 | , igreja, moçambique