Promenade - galeria
Na zona oeste do Funchal, há um extenso eixo pedonal que data do início da década de noventa vulgarmente conhecido por promenade.
Zona de orla marítima povoada por hotéis, piscinas, cais de acesso ao mar públicos e privados, restaurantes, cafés, zonas ajardinadas, miradouros, lugares de lazer e descanso, a promenade estende-se da zona do Lido ao túnel da Doca do Cavacas que antecede a Praia Formosa, tendo daqui continuidade um percurso que vai até à baía de Câmara de Lobos.
Outrora também conhecido por Jardins do Lido, na página oficial deste passeio marítimo refere-se que é pautado por uma flora diversa composta por espécies endémicas e exóticas. Definidas, circunscritas a áreas bem restritas por canteiros e relvados cuidados pelos serviços públicos responsáveis, essas espécies convivem com outras menos óbvias mas igualmente presentes ao longo do caminho, não raras vezes emergentes do asfalto ou das cercas dos locais de comércio, hotéis, ou aparentes baldios. Daninhas, infestantes ou, ao invés, endémicas, a sua presença é ora invisibilizada ora disruptora no âmbito do ordenado cenário vegetal dos jardins e canteiros circundantes ou que para ali foram projetados.
Num gesto que evoca e se inspira no Grand Herbier d’Ombres de Lourdes Castro, a série Promenade aqui apresentada consiste numa sequência digital de instantâneos fotográficos (da marca Instax Wide da Fuji, relativamente semelhante à Polaroid), de plantas encontradas ao longo de caminhadas nesta promenade no verão de 2025.
A ordem apresentada reflete o percurso que vai, precisamente, da zona do Lido até Câmara de Lobos, tendo as espécies sido identificadas através do recurso a aplicações móveis e sujeitas a uma revisão geral por uma amiga bióloga1.
Na redação aqui visível sob forma de legenda dos nomes das plantas, não quisemos elidir eventuais erros de identificação de espécies, tornando visíveis através do uso das reticências ou do ponto de interrogação as marcas da nossa hesitação e confirmada incerteza.
O conjunto das mais de noventa imagens que aqui se perfilam constitui, portanto, uma espécie de herbário ‘menor’, reforçado por dois aspetos não visíveis na mostra concebida especificamente para o BUALA. Na superfície lisa e escura do verso ‘material’ das imagens redigiu-se a tinta visível sob luz UV o suposto ou provável nome científico da espécie fotografada – ou seja, a identificação surge (ainda que discretamente) no próprio objeto da imagem; estas foram colocadas numa caixa especificamente concebida para as acolher configurando-as melhor enquanto (objeto) conjunto, qual arquivador que pretende preservar a dimensão de futuro que todo o pretenso herbário contem. A pretensão em jogo em Promenade não foi tanto a da identificar espécies através de um pseudo herbário de evidência fotográfica. Foi sobretudo a de sinalizar via imagens que num dado momento certas plantas habitaram locais de um percurso identificado que se revelam a partir de um gesto de promenade, ou seja, de uma deambulação que visa o futuro ao antever, fotograficamente, figurações de um passado.


Promenade teve co-produção da Fogo Posto associação.
- 1. Agradeço muito à Sofia Araújo pelo rigor científico e tempo despendido neste trabalho de revisão pouco facilitado pelo material que lhe dei.