Apresentação do livro de poesia "Elogio da Saudade", de Fredilson Semedo

 na sede da Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde (AAAESCV), em Carnide, Lisboa

Breve nota introdutória

Elogio da Saudade é o segundo livro de poesia de Fredilson Semedo, de seu nome completo Fredilson José Monteiro Semedo. O primeiro dos seus livros intitulava-se Versos de um Atlântico Insular e dele constavam poemas em português e em crioulo cabo-verdiano. Este segundo livro é escrito exclusivamente em português (salvo alguns poucos versos na língua da terra, com destaque para os versos derradeiros do poema final). O terceiro livro, ainda no prelo, é escrito exclusivamente em crioulo cabo-verdiano, na variante-matriz da ilha de Santiago, de onde o autor é natural, nascido nos Picos – São Salvador do Mundo, antiga freguesia do concelho de Santa Catarina, actualmente elevada a concelho de São Salvador do Mundo, um dos nove da ilha de Santiago e um dos vinte e dois da República de Cabo Verde.

Escreve o poeta no segundo poema do livro, intitulado precisamente “Elogio da Saudade” (p. 11):

Elogio da saudade

Em mim tudo é saudade em potência

E gestação natural. Na minha alma

Marginal, no meu coração crioulo

E na minha vontade insular de ser poeta

No pleno gozo da pena sou a raiz,

O tronco, a árvore e o fruto imaculado

Da saudade.Uma saudade burocrática, ideológica

E autenticamente minha. Uma saudade

Eterna, pura e sempre futura.

Uma saudade que é militante na decadência

Da carne e no engenho manual do ofício,

Que me desconstrói miseravelmentePor dentro para poder se construir

Na clandestinidade humana que em mim

Habita…Em razão disto tudo, tenho em mim todas

As saudades do mundo”.

O título suscita desde logo curiosidade e interrogações: porquê a saudade? E por que razão elogiar a saudade?

Fredilson Semedo e Jose Luís Hopffer AlmadaFredilson Semedo e Jose Luís Hopffer Almada

A constituição do povo cabo-verdiano como povo das ilhas e diásporas e a emergência da saudade como traço identitário

Essas mesmas indagações remetem-nos, desde logo e directamente, para a questão da história da formação do povo caboverdiano.

Como é sabido e é, aliás, assaz e devidamente ressaltado no belo “Prefácio” do livro assinado pela poetisa, escritora e jurista Vera Duarte, o povo caboverdiano formou-se do encontro forçado entre, por um lado, povoadores brancos europeus, trazidos pelas caravelas quatrocentistas e guindados ao estatuto privilegiado de senhores e colonizadores, e, por outro lado, povoadores negro-africanos, capturados e/ou traficados na costa africana vizinha e rebaixados ao estatuto coisificado e mercantilizado de escravizados. Desde estes tempos iniciais, assaz bem descritos por Jorge Barbosa nos poemas “Prelúdio” e “Relato da Nau”, bem como por Timóteo Tio Tiofe no Primeiro Livro de Notcha, os povoadores brancos e negros foram tomados pela saudade, que, se nos povoadores brancos europeus, salvo com os degredados e desterrados, pelo tempo de duração e purgação das suas penas de degredo e desterro e, presume-se, também nos extractos sociais mais baixos e empobrecidos dos contingentes populacionais brancos, podia ser matada/saciada com o seu regresso, temporário e/ou definitivo,  às suas terras de origem situadas na Metrópole colonial, o Portugal continental e as suas ilhas adjacentes dos Açores e da Madeira, bem como a outras terras europeias, no caso dos povoadores negros africanos cativos, ela se consumia e exauria no chamado banzo, que se consubstanciava numa saudade infinita (por vezes envolvida em pranto, desalento e prostração) das intransponíveis terras natais ancestrais localizadas no além-Atlântico da África continental. Com o nascimento e o crescimento dos primeiros filhos dos povoadores brancos colonizadores e escravocratas e dos povoadores negros escravizados e subjugados nas ilhas habitadas da terra caboverdiana, designadamente nas ilhas de Santiago e do Fogo, as primeiras a serem povoadas, desde o ano de 1462, começou-se a indiciar o desabrochamento de uma cultura diferenciada das culturas matrizes dos primeiros povoadores brancos e negros e da sua expressão idiomática consubstanciada primeiramente num pidjin enquanto recurso disponível de comunicação linguística entre senhores brancos escravocratas e negros escravizados e entre os cativos entre si (pois que oriundos de grupos étnicos africanos díspares) e, depois, num crioulo que se tornou língua materna dos descendentes negros e mulatos dos primeiros escravos africanos e, posteriormente, componente essencial da proto-nação em acelerada constituição e, instituída essa proto-nação nos séculos XV e XVI, nas ilhas de Santiago e do Fogo,  na nação crioula caboverdiana que se foi formando e consolidando, pelo menos até aos fins do século XVIII e  inícios do século XIX, e se foi expandindo, passo a passo, século a século, quartel a quartel, década a década, palmo a palmo, para as restantes ilhas de sotavento e, mais a norte, para as ilhas do barlavento, até então as desertas chamadas, doravante tornando-se todas as nove ilhas caboverdianas habitadas mátria e país natal de um novo povo de criaturas humanas negras, mestiças e brancas, o povo caboverdiano, o povo demiurgo desses continente e arquipélago culturais (na feliz e assertiva síntese expressiva de Gabriel Mariano) que são a identidade cultural caboverdiana na sua unidade arquipelágica e das suas raízes negro-africanas e europeias e na diversidades das suas manifestações, expressões e fisionomias insulares e regionais e das suas matrizes afro-latinas.

Terra de chegadas e partidas, enquanto plataforma e entreposto atlânticos da expansão marítima europeia, do comércio triangular e do tráfico negreiro, Cabo Verde foi nos seus inícios históricos primacialmente terra de chegadas, i. primeiramente dos navegadores e descobridores genoveses e portugueses liderados por António da Noli, Diogo Gomes e Diogo Afonso e, depois, dos primeiros povoadores brancos, familiares e companheiros de jornada desses mesmos navegadores e descobridores,  munidos dos necessários privilégios e regalias concedidos pelas Cartas Régias de 1462, 1466 e 1472, e dos negros africanos escravizados trazidos sucessivamente da antiga Costa da Guiné durante um longo período de tempo que durou de 1462 até o aprazamento, em 1858, da abolição oficial e de jure da sociedade escravocrata para o ano de 1878, sendo que, de todo o modo, essa mesma sociedade escravocrata vinha sendo corroída em todos os seus poros e alicerces pelas secas, epidemias e mortandades bem como pelas fugas e alforrias de escravos provocadas, em grande medida,  por aquelas tragédias históricas e catástrofes climatéricas naturais; ii. posteriormente, de súbditos de Sua Majestade Britânica a partir da descoberta, a partir do ano de 1850, das incomensuráveis mais-valias geo-económicas do Porto Grande do Mindelo  enquanto plataforma de navegação transatlântica e sumamente potenciadas pelas independências políticas de  países caribenhos, sul e centro-americanos; de judeus sefarditas oriundos de Gibraltar e do Norte de África (Marrocos) no século XIX, e mais recentemente, depois da  obtenção da independência nacional de Cabo Verde, de cooperantes e funcionários das Embaixadas de países amigos e das Missões Diplomáticas das inúmeras organizações internacionais intergovernamentais e não-governamentais e, a partir dos inícios dos anos oitenta do século XX, de imigrantes europeus, nomeadamente portugueses, e asiáticos, designadamente chineses, em busca de melhores oportunidades de negócios e como mão-de-obra nas grandes obras públicas financiadas pelos governos e entidades públicas dos seus países e realizadas por grandes empresas construtoras oriundas dos mesmos países, e de imigrantes africanos continentais do Senegal, da Nigéria, da Guiné-Bissau (estes com maior recrudescência a partir da eclosão da guerra civil de 1998/1999, isto é, mais de vinte anos depois da falência pós-colonial do projecto paigcista de unidade Guiné-Cabo Verde, sendo que, na sequência do golpe de Estado de 14 de Novembro de 1980 perpetrado pelo Presidente do Conselho Nacional e Comissário Principal da Guiné-Bissau, o Comandante de Brigada João Bernardo (Nino) Vieira, contra o Presidente do Conselho de Estado da Guiné-Bissau e Secretário-Geral Adjunto do PAIGC, Luís Cabral,  muitos caboverdianos radicados na Guiné-Bissau e seus descendentes bissau-guineenses encontraram refúgio e guarida em Cabo Verde) bem como de outros países da África Ocidental, todos beneficiários do direito de livre circulação entre os países-membros da CEDEAO (Comunidade dos Estados para o Desenvolvimento da África Ocidental), em busca de melhores condições de vida e de uma porta de saída para os países  ocidentais desenvolvidos. É neste contexto de transformação de Cabo Verde em país pós-colonial de imigração que emergem nos autóctones caboverdianos os sentimentos  de heterofobia, xenofobia, islamofobia  e racismo anti-negro-africano continental  e sintetizados na palavra mandjacos, termo pejorativo inventado pelos caboverdianos emigrados no Senegal e pelos seus descendentes para designar os emigrantes da Guiné dita Portuguesa radicados no Senegal e constituídos quase que exclusivamente por pessoas de etnia manjaca e que foi depois largado a todos os imigrantes africanos negros continentais radicados em Cabo Verde, maioritariamente de religiões muçulmana e/ou animista. Curioso e sintomático é que da denominação assaz pejorativa mandjacos são poupados e isentos os ironicamente chamados brandjacos, isto é, os europeus e outros brancos estrangeiros em geral, os afro-americanos, os negros brasileiros, caribenhos e angolanos, em razão alegadamente da sua cultura mestiça e da sua identidade europeia ocidental e/ou judeo-cristã. Felizmente que os sucessivos governos caboverdianos pós-coloniais vêm envidando esforços e tomando medidas para combater os fenómenos discriminatórios e preconceituosos acima referidos e possibilitar uma integração social mais inclusiva dos imigrantes negro-africanos continentais na sociedade caboverdiana, nisso incluindo a regularização do seu estatuto mediante a concessão de documentos oficiais de residência, sendo certo que esses mesmos imigrantes africanos negros continentais vêm constituindo uma importante mão de obra na construcão civil e têm ocupado posições de relevo no ensino liceal e em outras áreas profissionais, como, por exemplo, a música, o pequeno comércio sucupiriano e a venda ambulante de artesanato africano.

Ironicamente, são esses mesmos fenómenos do racismo, da heterofobia e da xenofobia que têm atormentado e atanazado a vida dos emigrantes caboverdianos e dos seus descendentes em vários países da Europa Ocidental e das Américas, mesmo se detentores de uma cultura crioula, de co-matriz euro-ocidental e cristã, tornando-se os mesmos fenómenos cada vez mais prementes enquanto riscos existenciais para as comunidades caboverdianas emigradas com a emergência e a sequente consolidação, bastas vezes  eleitorais, de partidos, movimentos e grupos racistas, xenófobos e anti-imigração da extrema-direita e da direita radical, por vezes assumidamente ultra-fascista e, até, neo-nazi.

Paralelamente, Cabo Verde foi se tornando cada vez mais i. primeiramente terra de partidas forçadas, em razão do seu intrínseco estatuto de entreposto atlântico de escravos, onde eram vendidas pessoas negras e mulatas escravizadas e seus descendentes para diferentes espaços das Américas, das Caraíbas e da Europa, e terra de partidas alegadamente voluntárias, iniciada com a irreversível decadência da outrora esplendorosa cidade da Ribeira Grande de Santiago de Cabo Verde, doravante transmutada numa Cidade Velha despojada do seu antigo fausto e dos seus abastados moradores brancos, então arruinados pela perda por parte da primeira cidade-capital da Capitania-Geral de Cabo Verde do seu antigo e privilegiado estatuto de principal entreposto atlântico do tráfico negreiro e do comércio triangular e, por isso, de partida para o Brasil, para a Metrópole colonial e, feitos lançados e tangomaos,  para Cacheu e outras praças (feitorias comerciais) da antiga Guiné dita Portuguesa; e ii. posteriormente, terra de emigração livre, iniciada com o recrutamento por navios pesqueiros oriundos dos Estados Unidos da América de marinheiros caboverdianos, principalmente das ilhas Brava e de São Nicolau, para a pesca da baleia e, depois consolidada, com a emigração de caboverdianos para os Estados Unidos da América, a Guiné dita Portuguesa, o Senegal e a Gâmbia, emigração livre essa alargada posteriormente para o Brasil, a Argentina, Angola, a Europa e outras partes do vasto e lato mundo.

Essa emigração livre teve como causas imediatas não só a necessidade e a urgência da fuga das devastadoras mortandades pelas fomes provocadas pelas lendárias secas cíclicas e pelo secular e característico descaso colonial, mas também duas circunstâncias históricas de grande relevância, quais sejam:

i.               A participação de contingentes militares caboverdianos nas guerras de

subjugação, conquista e opressão, ditas guerras de pacificação, dos povos da Guiné dita Portuguesa, até à ocorrência, em 1879, do chamado Desastre de Bolor, durante o qual um grande número de militares caboverdianos foram massacrados por guerreiros de etnia felupe, o que teve por consequência imediata a chamada desanexação, no ano de 1880,  do Distrito da Guiné dita Portuguesa em relação ao Governo-Geral da Província de Cabo Verde, de onde a mesma Guiné dita Portuguesa vinha sendo governada primeiramente a partir da cidade da Ribeira Grande de Santiago, capital da Capitania-Geral de Cabo Verde, e, posteriormente, da vila e, depois, cidade da Praia, capital da Colónia/Província Ultramarina de Cabo Verde, numa relação de subordinação da Guiné dita Portuguesa em relação a Cabo Verde,  por isso, tendo a Guiné dita Portuguesa sido designada por René Pélissier como sendo a colónia de uma colónia, ademais miserável. Atente-se neste circunstancialismo que mesmo depois da constituição, em 1890, da Guiné dita Portuguesa como Colónia/Província Ultramarina autónoma diretamente dependente de Lisboa, os caboverdianos continuaram a desempenhar um papel muito relevante na sua vida político-administrativa, social, económica e cultural, chegando os oriundos das ilhas meso-atlânticas e peri-africanas a perfazer mais de  70% dos funcionários e agentes do seu quadro administrativo, possuindo um grande número das chamadas pontas (propriedades agrícolas) e sendo, ademais, caboverdianos os autores das primeiras obras literárias de temática luso-guineense, nomeadamente Fausto Duarte que escreveu Foram Estes os Vencidos  e os romances A RevoltaO Negro sem Alma Auá, Novela Negra. São as ligações históricas e de sangue entre a Guiné dita Portuguesa  e o arquipélago caboverdiano, minuciosamente estudadas e descritas pelo historiador caboverdiano  António Carreira, longamente radicado na Guiné dita Portuguesa, onde foi administrador colonial e gerente comercial, e o facto de o crioulo ser idioma comum aos dois territórios, embora desempenhando funções e papéis diferenciados nas duas comunidades coloniais/ultramarinas  portuguesas, aliadas, por um lado,  às fraquezas estruturais da sociedade arquipelágica meso-atlântica e peri-africana, constituída, desde pelo menos os séculos XVIII e  XIX, em comunidade nacional diferenciada, mas atravessada por fortes sentimentos de cissiparidade pátrida, e, por outro lado, à incipiência da pequena-burguesia negro-africana luso-guineense conjugada com o tradicional espírito de resistência anti-colonial dos povos e etnias da Guiné dita Portuguesa, que fundamentariam o princípio da unidade Guiné-Cabo Verde propugnado pelo PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e de Cabo Verde) fundado em 1956, em Bissau, por Amílcar Cabral, o seu líder histórico carismático, princípio esse  propiciador do pleno sucesso da luta político-armada encetada no território continental, da proclamação unilateral da soberania e da independência políticas do Estado da Guiné-Bissau, da iminência da derrota militar das Forças Armadas Portuguesas presentes nesse país oeste-africano, do golpe de Estado do 25 de Abril de 1974 e das subsequentes independências políticas de Cabo Verde e das demais colónias/províncias ultramarinas portuguesas. Paralelamente à participação de dezenas de caboverdianos, mobilizados essencialmente entre estudantes universitários e emigrantes, nas frentes político-militar, diplomática, educacional e logística da luta conduzida pelo PAIGC nas duas Guinés, centenas de caboverdianos foram obrigatoriamente recrutados para  a prestação do serviço militar obrigatório e mobilizados para a participação nas guerras coloniais de subjugação dos povos africanos conduzidas nas frentes de Angola, da Guiné dita Portuguesa, e de Moçambique.

ii.              A participação das elites escolarizadas caboverdianas formadas no

Seminário-Liceu de São Nicolau, no Liceu Infante D. Henrique/Gil Eanes da cidade do Mindelo e no Seminário de São José e no Liceu Adriano Moreira, ambos sediados na cidade da Praia, na divisão colonial do trabalho e que lhes reservava o lugar privilegiado de intermediários burocráticos na administração imperial das colónias/províncias ultramarinas portuguesas recém-conquistadas, com destaque para a Guiné dita Portuguesa. Concomitantemente, e a par dessa emigração livre de quadros administrativos caboverdianos para o império colonial português, o Estado colonial português fomentou, desde os fins do século XIX e os princípios do século XX, igualmente no quadro da divisão colonial do trabalho, a emigração forçada de serviçais caboverdianos de todas as ilhas habitadas para a prestação de trabalho semi-escravo nas roças de São Tomé e Príncipe e nas plantações de Angola e Moçambique.

É nesse contexto que a emigração se torna cada vez mais traço estruturante da sociedade caboverdiana e uma importante componente identitária do povo caboverdiano que doravante, e por isso, se transmuta de povo das ilhas, na assertiva designação de Manuel Duarte, em povo das ilhas e diásporas. É igualmente nesse contexto que a saudade assume feições de marca identitária dos caboverdianos, dos pontos de vista individual e/ou coletivo. Saudade de quem parte para Terra-Longe, certo e convicto do seu futuro regresso à Terra-Mãe, e saudades de quem ficou, no chão bastas vezes agreste e madrasto da Mamãe-Terra, ambas magistralmente retratadas no provérbio popular “corpo qui é nego/ta bai/alma qui é livri/ta fica” e nos versos de Eugénio Tavares “bai é triste/más si ca bado/ca ta birado”.

Por isso, o elogio da saudade significa e acarreta necessariamente o elogio do povo das ilhas e diásporas, o verdadeiro demiurgo e o autêntico destinatário principal da saudade, contrapondo-se, assim, a uma qualquer forma definitiva e peremptória de elegia e de luto associados à saudade e/ou conjugados com a mesma saudade. Pois que, como expressiva e impressivamente exarado no poderoso metaforismo redondo do poema “Emigrante”, de Corsino Fortes, “Toda a partida É potência na morte/todo o regresso é infância que soletra” nos varridos tempos da noite colonial; “Que toda a partida é alfabeto que nasce/todo o regresso é nação que soletra” com julho nosso orgulho, nos expressivos dizeres de Oswaldo Osório, o poeta de “Holanda”, depois de vencido o decisivo match na nossa terra em resultado da luta pela independência nacional, pois que ainda e sempre “Quem não soube/Quem não sabe/Emigrante/Que toda a partida É potência na morte/E todo o regresso É infância que soletra”.

No período pós-colonial caboverdiano, verificaram-se mudanças de monta no perfil de Cabo Verde como terra de partidas e regressos. Por um lado, extinguiu-se definitivamente a chamada emigração forçada para as terras do Sul-Abaixo, situadas nas ilhas do Golfo da Guiné e nas terras continentais de Angola e de Moçambique e tornou-se residual a emigração económica livre para outros destinos africanos e sul-americanos, como o Senegal, o Gabão, a Costa do Marfim, a Guiné-Bissau ou os Congos (Brazzaville e Kinshaxa), constituindo-se e permanecendo, todavia,  os caboverdianos e os seus descendentes como importantes comunidades diaspóricas desses mesmos países africanos. Por outro lado, incrementou-se a emigração livre de perfil económico para antigos e novos destinos europeus e americanos, como Portugal, a França, os Países Baixos, o Luxemburgo, a Bélgica, a Alemanha, a Itália, a Espanha e os Estados Unidos da América. Surgiram novos formas de emigração de importantes contingentes de caboverdianos, designadamente para conclusão de formações técnico-profissionais e de cursos médios e superiores, com o envio de centenas, se não milhares, de estudantes bolseiros para países situados de ambos os lados da chamada Cortina de Ferro, nomeadamente Portugal, a União Soviética, Cuba, o Brasil, os Estados Unidos da América, a Checoslováquia, a Roménia, a Bulgária,  a Polónia, a República Democrática Alemã (RDA), a Jugoslávia, a República Federal da Alemanha (RFA).

Mais recentemente, já no dealbar da terceira década do século XXI, verificou-se uma nova vaga de emigração caboverdiana, sobretudo entre os jovens, motivada não mais somente por estritas razões económicas de mera sobrevivência física em meio aos elevados índices de  desemprego, sobretudo juvenil, mas por razões também atinentes à melhoria da qualidade de vida numa sociedade cada vez mais percepcionada como devendo ser de bem-estar, por isso, mais virada para a obtenção de recursos financeiros para a aquisição de casa própria, viatura, electro-domésticos, etc..

É neste contexto que as remessas dos emigrantes se foram tornando cada vez com maior incidência numa importante componente não somente dos recursos angariados para o sustento das famílias, o financiamento dos estudos dos filhos, a aquisição de terrenos agrícolas, de viaturas, de moradias e de estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços, mas também do próprio PIB (Produto Interno Bruto), perfazendo as mesmas remessas de emigrantes atualmente mais de 20% do PIB caboverdiano.

Paralelamente, o sempre almejado regresso definitivo do emigrante à Terra-Mãe, devida e tempestivamente assinalado pelos poetas e músicos caboverdianos das antigas e novas gerações culturais, vem-se tornando cada vez mais remoto e mirífico, devido não somente ao reagrupamento familiar do emigrante com os seus parentes e familiares mais próximos nos respectivos países de acolhimento, mas também à constituição de novas gerações de descendentes de emigrantes caboverdianos nesses e noutros países de acolhimento dos seus pais e dos seus demais ascendentes, tornando-se assim esses mesmos países pátrias natais de acolhimento dos descendentes de várias gerações dos emigrantes caboverdianos. Por outro lado, e em nítida contramão às política anti-imigração propugnada pelos partidos de direita, de extrema-direita e de direita radical, muitos Governos de centro-esquerda e de centro-direita, por vezes em coligação ou com o apoio de partidos de esquerda e de extrema-esquerda, têm adotado políticas públicas que fomentam e incentivam a integração social, económica, cultural e política dos imigrantes e de outras minorias raciais, culturais e sexuais, quer mediante a legalização, por vezes extraordinária, dos chamados indocumentados,   quer mediante a facilitação da aquisição da nacionalidade/cidadania do país de acolhimento mormente por naturalização.  

Deste modo, a emergência e a consolidação de comunidades diaspóricas caboverdianas têm propiciado a remessa não somente de meios, bens e recursos materiais e financeiros, mas também de meios, bens, recursos e instrumentos culturais, educacionais, sanitários e simbólicos, mormente com o desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação nessas áreas e a criação de universidades e escolas superiores em Cabo Verde.

Por se ter tornado e continuar a ser componente estruturante e traço identitário fundamental do povo caboverdiano, a saudade foi  tratada de diferentes formas pelos poetas, escritores e músicos caboverdianos das mais diferentes gerações culturais caboverdianas, não só nas suas tradicionais feições dirigidas a algo que se perdeu temporária ou definitivamente, como visíveis no poeta maior do perdido amor materno que é Januário Leite, no poeta bilingue maior da saudade islenha e da morna que é Eugénio Tavares, nos poetas do querer bipartido (expresso no querer partir e ter de ficar/querer ficar e ter de partir) e anti-terra-longistas que são Pedro Corsino Azevedo, Jorge Barbosa e Osvaldo Alcântara, nos poetas evasionistas como Manuel Lopes, nos poetas anti-terra-longistas, anti-evasionistas e novo-largadistas, como Ovídio Martins, Gabriel Mariano, Corsino Fortes, Timóteo Tio Tiofe, Oswaldo Osório, Mário Fonseca e Arménio Vieira, nos poetas cosmopolitas, como João Vário, mas também de saudade do futuro, de algo que se almeja convicta e ardentemente, tal uma outra terra dentro da nossa terra, como magistralmente expressado por Amílcar Cabral com palavras do seu amigo, camarada e confrade poeta da nova largada político-cultural Aguinaldo Fonseca, num outro modo de dizer o perene sonho caboverdiano de um amanhã farto, de abundância e felicidade para todos os filhos do povo das ilhas proferido pelo poeta António Nunes, finalmente nos novíssimos poetas surgidos com a emergência da nação crioula afro-atlântica soberana como pátria africana do meio do mar em resultado da saga libertária propiciada pela reafricanização dos espíritos, propugnada por Amílcar Cabral e proporcionadora da catarse cultural anti-assimilacionista vivenciada e experienciada pelo povo caboverdiano nos períodos  imediatamente anteriores e posteriores ao golpe de Estado do 25 de Abril de 1974 e da sua sequente Revolução dos Cravos e da imparável e indeclinável aceleração da História que se frutificou na proclamação festiva da independência política e das soberania nacional e internacional de Cabo Verde e do reencontro “com o seu destino africano, livremente escolhido” e nas proclamações solenes das independências políticas das demais antigas colónias/províncias ultramarinas portuguesas.  Do lado dos músicos, permanecem perenes na memória colectiva do povo das ilhas e diásporas a expressão “mar é morada di sodadi”, constante de uma morna bravense, e a letra e música da morna “Sodade”, de Armando Zeferino Soares e eternizada pela voz melodiosa da diva de pés descalços Cesária Évora.

3. BREVES APONTAMENTOS SOBRE A CONFIGURAÇÃO POÉTICA DA SAUDADE NA OBRA ELOGIO DA SAUDADE

É de vários e diferentes teores a saudade vazada e presente no livro Elogio

da Saudade.

Um primeiro teor é de substância nitidamente convencional e tradicional, perfilando-se em primeiro lugar como saudade da terra-mãe e das suas componentes paisagísticas e humanas, de quem, na actualidade, se vê obrigado a envergar as vestes de emigrante em terras portuguesas, como, por exemplo, no poema “Morabeza” (poema 17, da página 37), evocativa da morna, em regra associada a essa forma de amorabilidade tipicamente caboverdiana:

Morabeza

Quando a morna chorar ternamente,

E a temperança do mar se acalmar

Ouçamos a voz que canta a morabeza,

A eterna loucura do amor dissipado,

E a metáfora da vida da gente.

Da gente que se quer amar todos os dias.

Da gente que parte na viagem da primeira

Hora ao sol.

Da gente que parte deixando para trás

Uma promessa incerta do seu regresso

E da gente que parte miseravelmente

No quebranto das ressacas ocultas.

Da gente que se perde na profundidade

Das madrugadas infinitas querendo

Amar os prazeres do impossível

E tudo o que há de inacessível à flor

Da vontade”

.

Essa saudade é também saudade da infância e do lugar milagroso que sempre é pelo porvir futuro que deixa sempre em aberto, neste caso configurada pelos três irmãos, pelos seus sonhos e pelos seus eventuais desencontros com a vida real na sua madura idade adulta (poema 5, página 13 e seguintes).

 

Ressonância memorial dos três irmãos

 

1. Amor pelo verbo

No início

Além do amor humano pelo verbo,

Da produção mercantil de aguardente

E de toda a ilusão banal da infância,

Éramos apenas nós os três perante o fogo

Primordial da vida.

Nós, os três irmãos

Unidos pelo sangue e pelo suor

Garbatando com as mãos o bronze, o ouro,

A prata, o milho, a mandioca, a goiaba,

A manga e a batata-doce no seio fecundo

Das ilhas do barlavento e do sotavento.

Irmãos,

No início ainda não houvera a civilização

Sido criada e tudo já era por natureza

Decadente.

A luz,

Ainda inexistente, era a promessa de Deus

À humanidade

E o fermento para o desabrochar

De algo substancial no nada tão belo e sublime

Como tudo.  

 

2. Dissertação

Naquele tempo,

Dante ainda não tivera

Escrito nenhum canto na divina

Comédia acerca da sistemática

Social, política e religiosa vigente

Entre a queda

Dos homens no inferno,

A estadia temporária no purgatório,

E a ascensão definitiva ao paraíso.

 

Naquele tempo,

Irmãos, ainda não houvera sêmen

Suficiente para o ato da concepção

De Romeu e Julieta…

Ah mas qual romance,

Qual amor e qual fogo proibido

Ardendo na superfície carnal

De um desejo confinado num coração

Transitório, marginal

E vagabundo?

A mãe do Caeiro,

Do Reis, do Campos e do Bernardo

Ainda não era prenha, nem sequer

Tivera conhecido

O marido que haveria de ser o pai

Do seu filho fragmentado.

O Cassandra Venâncio, o bravo

Que ninguém ouvira falar na altura

Ainda não tivera a ousadia e a loucura

De desafiar a soberania e a ira dos deuses

Do calema.

Eis aqui,

O mel e o carvão da perdição,

A praga e o chindungo do arrependimento

E o sal sagrado da salvação.

O Machado era procurado nas águas

Da pena. Mas não era tido e nem achado…

15

O Eugénio da Ilha das Flores da Nova Sintra

Ainda não tivera escrito nenhum poema

E nem tivera ainda contestado

Na Revista de Cabo-Verde

A injustiça da administração pública do Governador

Ultramarino no Arquipélago”.

Nessa primeira forma de abordagem da saudade, evocam-se igualmente os sinais de mudança na vida doméstica, como, por exemplo, a substituição do candeeiro a petróleo pela luz eléctrica, mas também o local do nascimento (Picos Senhor do Mundo), manifestações culturais, como as luminárias de São João e a tabanca, bem como o crescimento dos três irmãos para a meia-idade e a maturidade da vida.

É esse tom de evocação da terra e das suas gentes e das suas manifestações culturais que também preside ao enredo de um dos últimos poemas do livro, o poema 57, da página 83, intitulado “Porto do Tarrafal” e que se quer tão intenso de saudade que o sujeito poético se imagina sentado no porto do Tarrafal aguardando as notícias da terra-mãe, que, por definição devia estar distante de quem esta realmente na terra-longe

 

“Porto do Tarrafal

Traz-me notícias do além-mar …

Sobre a tranquilidade das coisas,

Da alma e do espírito que alimenta

A boca universal das ilhas.

Traz-me notícias do além-mar

Embrulhada na glória futura

Dos nossos descendentes.

Traz-me notícias do além-mar …

Densificada numa arte pura

Onde as ondas e as salinas

Dançam na ausência da forma

E ao sabor da maresia de um mar

Emergente.

 

Traz-me notícias do funaná que ora

É o semba que samba lá na banda

E a marrabenta que arrebenta…

 

Traz-me notícias do novo mundo

Expresso num papel clássico

Com imagens ainda a preto e branco.

Traz-me notícias do além-mar,

Da morabeza do povo das ilhas

E da liberdade insular

Com que vivem a tranquilidade

Dos dias.

Ficarei aqui sentado, esperando

No Porto do Tarrafal”.

 

Um segundo teor na abordagem da saudade no livro Elogio da Saudade apresenta-se como introspeção e diálogo do sujeito poético consigo próprio, com um seu outro eu, e com as ilusões e os sonhos acalentados por ambos face ao peso inexorável da realidade circundante, como, por exemplo, no poema “Em Verso Livre” (páginas 26, 27 e 28 ):  

“Em Verso Livre

 

Eu

Que ando por aí perdido, desvairado,

Tonto e decadente na beira da estrada

E entre o verso e o seu reverso.

Eu que sou um poeta pobre e miserável

Entre os homens e que não tenho fama

E nem glória que valha a pena

O princípio do conto.

 

Eu

Que sou mais um que anda por aí

Sem rumo, sem eira nem beira,

Que tenho constantemente fome,

Que ando nu pelas ruas, pelos becos

E pelas encruzilhadas da cidade

Declarando, em alta voz, o meu amor

E fidelidade eterna à minha loucura

Perpétua.

 

Eu

Um acusado de ser um tolo imoral,

Iníquo, louco, perdido, insensato

E desleixado… sem usos, hábitos

Ou costumes, que vivo e laboro

Dia e noite apenas para curar

O meu estado permanente

De prodigalidade e a minha febre

Doentia pela contração de dívidas

Sem razão e sem necessidade alguma.

 

Eu

que passo as minhas noites

Mais belas longe dos prazeres mundanos…

Meditando sobre a metafísica dos bons

E dos maus costumes, sem comer,

Sem beber e sem fornicar a doçura

De nenhuma carne alheia.

 

Eu,

Sim eu… um mero mortal condenado

Pela providência da divina e santíssima

Trindade a comer os frutos dos próprios

Erros e daqueles que dirigem falsas

Acusações ao meu bom nome

Pelas tabernas dos bairros da província.

 

Eu

Que não sei nada, que não sinto

E que não penso, que sou desprovido

De fé e da mais bela virtude da razão

Humana, que grito levianamente

Como um louco cangaceiro

Quando me falha a luz da sensatez

E do bom senso nos dias

Que me estranho como sendo gente.

 

Eu

Que desconheço o efeito correlativo

Decorrente entre a lei da oferta

E da procura no seio comercial

Da quitanda e que tristemente

Nunca encontrei um ponto de equilíbrio

Na relação entre essas duas forças.

 

Eu

que no entanto, ando por aí a procurar

Oceanos e a oferecer luas numa tentativa

Irreal e absurda de celebrar negócios nulos

Por impossibilidade do objeto segundo

A previsão na lei civil.

 

Eu

Que amo loucamente os devaneios,

Os encantos e as paixões do submundo…

Que sou filho do terceiro mundo

E que antes nem sequer pertencia

À civilização humana.

 

Eu

Que sou proprietário de terras ricas,

Férteis e em permanente gestação,

Mas que todavia no comércio vacilo,

Perco a carne, o ouro, o cacau, o caju,

O petróleo, o marfim, os diamantes

De sangue e de água benta ao aceitar

Migalhas e ninharias sem valor

Como contrapartida contratual.

 

Eu

Um poeta carpinteiro, um pintor médio

No ofício da arte, um amante obcecado

Pelo verso livre e pela ausência sublime”.

 

Paradigmático dessa procura do eu do sujeito poético é o poema 22 (página 43):

“Estrela do amanhã

 

Acordo com vontade de trocar de pele,

De ser infinitamente um outro que habita

Em mim.

 

Um outro como eu que desconheço,

Que nunca ouvi falar sequer

E cuja natureza me transcende.

 

Um outro que seja o declaratário

Da palavra, que faça a distinção

Certa entre o permitido e o proibido,

O bom e o mau. Que distinga

A virtude do absurdo.

 

Um outro que me desafie a revelar

O caminho perfeito por onde jorra

O sonho maior e ancestral

Dos poetas mortos e glorificados.

 

Um outro que seja parte da minha pele,

Sangue do meu sangue, carne da minha

Carne e que carregue em si toda

A substância insular do meu ser.

 

Mas por agora, neste instante fugaz

Que te pertence por direito, meu caro

E bom leitor, esquece esse outro,

Desliga a música de fundo e agarra-te

Às promessas da estrela do amanhã”.

 

Essa mesma procura do eu parece reforçar-se no poema “Dias Continentais”:

 

  “Dias continentais

 

Caminho

No interior dos dias

Dispersos e continentais

À procura do que se desvanece

Na ânsia indefinida das estações,

Sem ter um destino definido

Por onde ir e sem ter o desejo

De ir a algum lugar.

 

Em cada rosto

Com que me cruzo

Encontro o retrato da minha face

Numa outra forma substancial,

Erguendo-se acima da vontade

Dos ditos deuses mensageiros.

 

Sou o busto humano

Que se esconde atrás de um pano

E que usa e abusa

Da máscara que o diabo

Descartou.

 

Sou a face

Que esconde a dor

Dos salgueiros e a solidão

Que nasce

Nos braços da noite e falece

No despertar das alvoradas

Para o sustento da criação.

 

Sou a ovelha

Que se afastou do pasto

E da vara mordaz do pastor

Num verdadeiro ato

De revolução.

 

Sou um punhado de átomos

Em extinção

Um mapa do mundo sem terras,

Sem mares e sem direção.

Sou um barco naufragado

No alto mar, a meio de uma viagem,

Sem capitão.

 

Sou aquele que anda à procura

Do ato administrativamente perdido

No caminho precoce das províncias.

À esquizofrenia do porvir deixo aqui

Escrito, em jeito de promessa,

Que hei de seguir a doutrina e testamento

Do samandjata”.

 

Um terceiro teor -talvez o mais extenso - na abordagem da saudade no livro Elogio da Saudade perfaz-se e consubstancia-se na saudade do amor – afectivo e carnal - e corporizado pelos nomes Tchika (poema 34, página 55) e Cecília (poemas 41 e 42, páginas 63 e 65) e nos diálogos amorosos que o sujeito poético enceta e entretém com as duas figuras femininas, as mais das vezes com Cecília, a quem  dedica expressamente pelo menos sete poemas:

 

“Tchika

 

1.

Na fundura do teu coração o tempo

Levou o afeto natural que mantinhas

Debaixo da sombra dos sobreiros

E apartou definitivamente

Dos teus braços quem mais amavas.

A mulher do teu destino, bu kretcheu

Formosa moda lua cheia di primavera,

Tchika di bus odjus di mel, preta rainha

Di bu vida.

2.

No mais doce leito da natureza,

Amaste tanto o quanto poderias

Ter amado.

Na costela dela e no céu da sua boca

Foste o sol, a semente e o arquipélago

Que ela tanto amou.

Pelo menos, nisto hás de reconhecer

Que os deuses foram-te fiel”.

 

Kretcheu

Cecília, kretcheu di nha korason

Krioulu, no início dos tempos

O nosso amor era livre de qualquer

Ideologia, de qualquer tentação

E de qualquer vontade de resistência.

O nosso amor era simplesmente

A conjugação do brilho das estrelas

Nuas com a morna das madrugadas

Insulares”.

 

Noite de outubro

Ah Cecília, sabes que esta noite

De outubro não nos pertence.

Esta noite é uma mera realidade fugaz,

Imaginada e projetada pelos deuses

No limite da nossa carne. Sabes também que o mundo acontece

Lá fora, Cecilia, num permanente delírio

Que oscila vacilando na decadência

Dos sentidos e na ascensão da razão.

Por isso não te posso prometer nada.

Não te posso prometer nada além

Desta realidade sonhada”.

 

Um quarto teor na abordagem da saudade no livro Elogio da Saudade presentifica-se como uma relativa negação de uma certa saudade do futuro consubstanciada em utopias de variegado teor, isto é, como distopia e um certo conformismo na valoração das pequenas coisas do dia-a-dia do sujeito poético, como, por exemplo, no poema “Desejo” (poema 38, na página 60):

 

 “Desejo

 

Por vezes desejamos o longe e o infinito

E tudo o que é necessário é o que está perto.

O significado banal das pequenas coisas

Do dia a dia, a inocência alegre dos putos

Brincando no jardim e à beira-mar

Inventando novas formas de viver a vida.

Por vezes desejamos o longe e o infinito

E tudo o que precisamos é o afeto

De um toque intencional, um sorriso sincero

E um ninho no olhar, onde podemos habitar.

Por vezes desejamos o longe e o infinito

E tudo o que precisamos é o cumprimento

Da promessa de um amor verdadeiro,

Escrito na estrela do amanhã, na pele

E na alma do outro que nos ama”.

 

É o mesmo teor relativamente resignativo que perpassa igualmente o poema “Cogito Crioulo da Alma” (poema 30 da página 51):

 

“Cogito crioulo da alma

 

Tudo é natural na sua justa medida.

Não queiras mais nada além da paz

Que a tarde de abril te oferece,

E o fogo com que a noite te aquece.

Amanhã será um novo dia.

Haverás de ter com certeza um novo

Desejo, uma nova gana e um novo

Olhar para o mundo que se há de

Renovar uma vez mais.

Mas o que importa pensar nisso agora?

Deixa que tudo flua no seu tempo certo

E na instância do seu próprio espaço.

Não te preocupes quem há de alimentar,

Daqui em diante, com pão e vinho

A imperfeição do teu corpo

E o cogito crioulo da tua alma”. 

 

Esses aparentes conformismo e resignação não excluem, todavia, a possibilidade de revolta e de indignação, como se pode comprovar no poema 37, sintomaticamente intitulado “São João Batista”, o profeta bíblico que anunciou a vinda de Jesus Cristo, o Messias:

 

 

37) São João Batista

 

Semanas antes da missa

De São João Batista,

Uma família de ciganos

Curva-se religiosamente

No dorso da estrada,

Dispondo-se a ver a chegada

E a partida de aviões

De/para outras bandas.

 

Ouve-se uma voz anónima

Na margem dos gestos

Feitos e invocados

Para a anunciação do evangelho

Segundo Jesus Cristo.

 

Um murmúrio breve

Galga a pele que cobre

Os sinais do desassossego

E a carcaça da agonia

Que aperta ferindo a garganta

Decadente da hora certa.

 

Um vento suave e transitório

Passa por ali

Levando consigo as últimas

Cinzas da memória.

 

No ar meia dúzia de aves

Carregam nas asas

O peso da conjura e avançam

Em direção

À boca da morte.

 

Num recanto semiaberto,

Quer se o privilégio

Do esquecimento…

 

Deseja-se uma lei

Que preveja na letra

E no espírito o direito

Ao esquecimento…

 

Entretanto, do outro lado do mapa,

A guerra mata como se fosse o pão

Nosso pedido a cada dia.

Alguns homens, por aqui, perdem

A fé e se deixam corromper…

 

O povo, finalmente, sai à rua

De peito aberto e dando a cara

Para contestar a vinda do diabo

E da triste

Pobrezinha que o pariu”

 

Anote-se que a distopia se tinha já indiciado num dos primeiros poemas do livro, intitulado “Lopes” (poema 7, das páginas 23 e 24) e evocativo dos sonhos da infância de outrora e da sua derruirão na amarga realidade da vida dissecada em diálogo com Lopes, presume-se que um amigo e companheiro de infância:

Lopes

1.

Lopes diz-me como tem sido a vida?

Crês que ela é realmente bela e justa?

Lembras-te do quanto éramos felizes

No pulso primordial da vida?

Naquele tempo…

Sim, naquele tempo quando o mundo

Era ainda um vaivém real entre a ordenha,

A sementeira e a colheita dos frutos

Prometidos.

 

A nossa infância era uma sementeira

Sazonal de sonhos universais.

Era uma sementeira de suores e de cansaços

Sentidos na pré-idade, das orações feitas

Aos ancestrais, das longas caminhadas

Sem fim pelas ribeiras decaídas na terra,

De dezenas e dezenas de amores vividos

E imaginados na impotência e na virgindade

Do tempo que ainda era um mero fluido

De sémen, feto e broto.

2.

Tantas e tantas foram as vezes

Que regamos o nascimento e o pôr do sol

No despertar matinal dos dias

E nos encerramentos insulares das tardes

De agosto com as nossas mil e uma expectativas

E ilusões que tínhamos sobre a inconcretude

De tudo aquilo que poderia ser no seu devir

Permanente e indeterminado.

 

Diz-me oh Lopes, nestes dias correntes,

Quantos litros de vinho mais que tinto,

Quantos novíssimos post scriptum

Teremos de beber para sentir o mesmo

Sabor líquido e transfigurado dessa vida

Que nos pertencia?

 

Diz-me oh Lopes…

Se crês na errância e na virtude abstrata

Dos poetas que amam o precioso desassossego

Crioulo pela vida, mesmo que contra a vontade

E os desígnios dos deuses?”

 

Muito presente no livro Elogio da Saudade são as deambulações em jeito de poeta cosmopolita do sujeito poético por lugares vários da grande cidade onde está radicado e de onde irradia a sua saudade da terra-mãe distante. É nesses lugares que ele faz a tessitura da substância da saudade, da introspeção e do monólogo com o seu outro eu e do diálogo com as suas interlocutoras amorosas e com a chuva, sempre omnipresente, desde o primeiro poema e permeando o conjunto do livro, como se pode verificar nos poemas 1 (“Chuva”, página 10), 4 (“Coração Crioulo”, página 12), 5 (“Desamparo da Chuva”, página 13) e alguns outros mais do livro.

3. Nos seu dois primeiros livros, Fredilson Semedo apresenta-se nas capas dos mesmos como O Poeta das Ilhas, expressão superlativa e sumamente exagerada, para a qual tínhamos, aliás, chamado a atenção como prova de alguma imodéstia e egolatria, e, ademais, sumamente rasuradora, de forma consciente ou inconsciente, de toda a história literária de Cabo Verde, cujos vates são obviamente poetas das ilhas e alguns deles, antigos e actuais,  inquestionavelmente poetas das ilhas de grandessíssima envergadura. Felizmente que no seu   terceiro livro, ainda no prelo, o autor Fredilson Semedo desistiu, e muito bem, desse tão exagerado, quanto inconveniente e falso epíteto. O que, todavia, não lhe retira de maneira nenhuma a condição e a qualidade de poeta das ilhas, o que por outro lado a saga literária cabo-verdiana nos domínios da poesia tanto em língua portuguesa, como em língua caboverdiana  terá continuidade e tem sucessores, um dos quais é certamente Fredilson Semedo, cuja poesia vazada neste livro merece, aliás, rasgados elogios  não só da autora do ”Prefácio”, a poetisa Vera Duarte, já veterana nas  lides da escrita da poesia, mas também de alguém suponho que da geração do autor da obra ora em primeira apresentação pública na cidade de Lisboa, e autora do “Posfácio”, Katize Ribeiro.  

Também eu aproveito a circunstância e o ensejo desta apresentação pública do livro Elogio da Saudade para felicitar o seu autor por este importante marco na sua trajectória de poeta das ilhas, fundamente comprometido que parece estar na valorização na sua oficina poética das duas línguas de Cabo Verde, sempre na senda das liões exemplares legadas pelos poetas maiores das nossas ilhas e pelos vates universais de outros países da lusofonia, do nosso continente e do mundo, muitos dos quais estão presentes nalgumas epígrafes de poemas integrantes do seu mais  livro, como, por exemplo, Corsino Fortes, Leopold Sédar Senghor ou Rainer Maria Rilke. Tal denota ademais e felizmente a preocupação do autor em se cultivar pela leitura dos grandes mestres para melhor fazer florescer e frutificar a sua lavra poética.

Queluz, 9, 10, 11, 12 e 13 de Fevereiro de 2026

por José Luís Hopffer Almada
A ler | 16 Fevereiro 2026 | literatura cabo-verdiana