Apresentação do livro de poesia "Elogio da Saudade", de Fredilson Semedo
na sede da Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde (AAAESCV), em Carnide, Lisboa
Breve nota introdutória
Elogio da Saudade é o segundo livro de poesia de Fredilson Semedo, de seu nome completo Fredilson José Monteiro Semedo. O primeiro dos seus livros intitulava-se Versos de um Atlântico Insular e dele constavam poemas em português e em crioulo cabo-verdiano. Este segundo livro é escrito exclusivamente em português (salvo alguns poucos versos na língua da terra, com destaque para os versos derradeiros do poema final). O terceiro livro, ainda no prelo, é escrito exclusivamente em crioulo cabo-verdiano, na variante-matriz da ilha de Santiago, de onde o autor é natural, nascido nos Picos – São Salvador do Mundo, antiga freguesia do concelho de Santa Catarina, actualmente elevada a concelho de São Salvador do Mundo, um dos nove da ilha de Santiago e um dos vinte e dois da República de Cabo Verde.
Escreve o poeta no segundo poema do livro, intitulado precisamente “Elogio da Saudade” (p. 11):
Elogio da saudade
Em mim tudo é saudade em potência
E gestação natural. Na minha alma
Marginal, no meu coração crioulo
E na minha vontade insular de ser poeta
No pleno gozo da pena sou a raiz,
O tronco, a árvore e o fruto imaculado
Da saudade.Uma saudade burocrática, ideológica
E autenticamente minha. Uma saudade
Eterna, pura e sempre futura.
Uma saudade que é militante na decadência
Da carne e no engenho manual do ofício,
Que me desconstrói miseravelmente
Por dentro para poder se construir
Na clandestinidade humana que em mim
Habita…Em razão disto tudo, tenho em mim todas
As saudades do mundo.
O título suscita desde logo curiosidade e interrogações: porquê a saudade? E por que razão elogiar a saudade?
A constituição do povo cabo-verdiano como povo das ilhas e diásporas e a emergência da saudade como traço identitário
Essas indagações remetem-nos directamente para a história da formação do povo cabo-verdiano.
Como é sabido — e como é devidamente ressaltado no belo “Prefácio” assinado por Vera Duarte — o povo cabo-verdiano formou-se do encontro forçado entre povoadores brancos europeus, trazidos pelas caravelas quatrocentistas e elevados ao estatuto de senhores e colonizadores, e povoadores negro-africanos, capturados e traficados na costa africana e reduzidos à condição de escravizados.
Desde esses tempos iniciais, descritos por Jorge Barbosa nos poemas “Prelúdio” e “Relato da Nau”, bem como por Timóteo Tio Tiofe no Primeiro Livro de Notcha, a saudade marcou ambos os grupos. Entre os europeus, podia ser mitigada pelo eventual regresso à metrópole. Entre os africanos escravizados, consumia-se no chamado banzo, saudade profunda das terras natais.
Fredilson Semedo e Jose Luís Hopffer Almada
Com o nascimento das primeiras gerações nas ilhas de Santiago e do Fogo (desde 1462), começou a formar-se uma cultura própria e uma expressão linguística que evoluiu de um pidgin para o crioulo, tornando-se língua materna e base de uma proto-nação que se consolidaria ao longo dos séculos.
Cabo Verde tornou-se, desde cedo, terra de chegadas e partidas. Plataforma atlântica do comércio triangular, foi inicialmente terra de chegadas (navegadores, colonizadores, escravizados) e, mais tarde, terra de partidas — forçadas ou voluntárias — rumo às Américas, à Europa e a África.
A emigração tornou-se traço estruturante da sociedade cabo-verdiana. Como afirmou Manuel Duarte, o povo transformou-se de “povo das ilhas” em povo das ilhas e diásporas. É nesse contexto que a saudade assume feição identitária: saudade de quem parte para Terra-Longe e saudade de quem fica na Terra-Mãe.
O provérbio “corpo qui é nego ta bai / alma qui é livri ta fika” sintetiza essa condição.
No período pós-colonial, intensificaram-se novas vagas emigratórias para Portugal, França, Países Baixos, Luxemburgo, Bélgica, Alemanha, Itália, Espanha e Estados Unidos. Mais recentemente, verifica-se nova vaga, sobretudo jovem, motivada não apenas pela sobrevivência económica, mas pela busca de melhores condições de vida.
As remessas tornaram-se componente essencial do PIB cabo-verdiano.
Paralelamente, surgiram também dinâmicas de imigração em Cabo Verde, acompanhadas de tensões como xenofobia e racismo, fenómenos que, ironicamente, também atingem comunidades cabo-verdianas na diáspora.
Ao longo da história literária, a saudade foi tema recorrente entre poetas e músicos cabo-verdianos — da saudade do passado à saudade do futuro. Na música, ecoa a expressão “mar é morada di sodadi” e a morna “Sodade”, imortalizada por Cesária Évora.
Breves apontamentos sobre a configuração poética da saudade na obra Elogio da Saudade
A saudade no livro assume diferentes dimensões.
Primeira dimensão: saudade da terra-mãe, da infância e das manifestações culturais. O poema “Morabeza” (p. 37) é exemplo claro dessa evocação.
Segunda dimensão: introspecção e diálogo interior. Em “Em Verso Livre” e “Estrela do amanhã”, o sujeito poético procura um “outro eu”, revelando inquietação identitária.
Terceira dimensão: saudade amorosa, corporizada nas figuras de Tchika e Cecília, em diálogos intensos que fundem eros e memória.
Quarta dimensão: certa distopia e resignação existencial, como em “Desejo” e “Cogito crioulo da alma”, onde se valoriza o que está próximo e quotidiano.
Não obstante, há também revolta, como no poema “São João Batista”, onde emergem crítica social e indignação.
O livro é atravessado pela chuva, pela cidade e pelo olhar cosmopolita do sujeito poético, sempre irradiando saudade da terra distante.
Nota final
Nos seus dois primeiros livros, Fredilson Semedo apresentou-se como “O Poeta das Ilhas”, expressão manifestamente excessiva. É de saudar que tenha abandonado esse epíteto no terceiro livro. Isso não lhe retira, naturalmente, a condição de poeta das ilhas.
A literatura cabo-verdiana tem continuidade e novos intérpretes. Fredilson Semedo é um deles. A sua poesia revela compromisso com as duas línguas de Cabo Verde e diálogo com grandes mestres da tradição lusófona e universal.
Felicito o autor por este marco na sua trajectória literária.
Queluz, 9, 10, 11, 12 e 13 de Fevereiro de 2026