Pensar a reprodução da vida a partir de Amílcar Cabral é pensar a terra, a resistência e as condições materiais da liberdade. Da Guiné-Bissau a Cabo Verde, da luta anticolonial às violências racistas do Portugal contemporâneo, o seu pensamento continua a ensinar-nos que defender a terra é defender o ser humano — e que nenhum povo se liberta sem organização, comunidade e djunta-mô.
Mukanda
08.09.2026 | por Benvinda Lima
Dizemos que o capitalismo racial, erguido sobre a escravatura transatlântica, a colonização e o imperialismo, continua a reger a ordem mundial. Este sistema tem rostos, nomes e endereços. São Estados, empresas transnacionais, bancos, organismos financeiros internacionais, alianças militares e elites económicas e culturais do Norte Global que exercem ingerência nos nossos países para controlar recursos, condicionar economias e limitar a nossa soberania.
Mukanda
08.09.2026 | por várias
A fotografia de Ildefonso Colaço desloca os bairros periféricos de Maputo para o centro da cidade e acompanha uma nova geração que inventa formas de ser através da moda, do corpo e da performance. Em diálogo com o Mapiko e a memória cultural makonde, estas imagens interrogam as máscaras, as identidades e os sonhos de liberdade que atravessam o Moçambique contemporâneo.
Vou lá visitar
08.09.2026 | por Inês Cordeiro Dias
Na 16.ª edição do Kugoma, em Maputo, a música de Fany Mpfumo encontrou-se com The Great Train Robbery, filme fundador do western norte-americano. Entre a película muda, a memória do trabalho migrante e o cancioneiro do sul de Moçambique, o cineconcerto transformou um clássico centenário numa obra viva e num gesto de desacato poético.
Palcos
08.09.2026 | por Leonel Matusse Jr.
O primeiro filme de ficção de Mariano, feito em Cuba no âmbito dos seus estudos na aclamada escola de cinema de Santo Antonio de Los Baños. O filme adapta o conto “The Killers” de Ernest Hemingway, onde o vemos como uma espécie de crónica de uma morte anunciada numa vila cubana sombria e melancólica. Um pugilista experiente, ciente do encontro marcado com um destino fatal, afasta da vila a amante e um pupilo para que estes se livrem do perigo que podem estar envolvidos. Tudo o que ele quer é o sossego de “um lugar limpo e bem iluminado", diz, às tantas, e ter paz para quem sabe “aprender a tocar um instrumento”. O lugar onde está, já não é esse lugar. Espantoso trabalho de fotografia de Carlos Arango, que pontuado pelo maravilhoso trompete de Julio Padrón, mais a concisão narrativa e destreza visual impregnada pelo então jovem realizador, fazem deste filme algo para além de um “filme de escola”.
Afroscreen
07.09.2026 | por Victor Hugo Lopes
Entre Yerevan e Tbilisi, o Cáucaso revela-se uma região de fronteiras esborratadas, memórias imperiais e estilhaços pós-soviéticos. Uma viagem pela Arménia dos prédios de cimento, dos Maybachs reluzentes, do Ararat perdido para a Turquia e de um genocídio que continua a organizar a memória coletiva — com escalas aeroportuárias, mapas em papel e um detox digital condenado ao fracasso.
Vou lá visitar
05.09.2026 | por André Almeida
Os cadáveres empestam e desarmam a esquerda anticapitalista. Não raras vezes são as mesmas vozes da indignação moral anti-fascista. Chamo moral porque, na sua prática, convivem sem problema aparente com uma sociedade profundamente desigual, sem que a questionem para lá da crítica superficial. E como um balão enchido esporádica e rotineiramente que rebenta até ao próximo frémito, como se não tivéssemos estado antes no mesmo sítio, como se o lugar da indignação não tivesse já passado, esvaziando o balão a cada abaixo assinado ou artigo no jornal e remetendo todos ao suspiro com abraços de sentimento do dever cumprido.
A ler
05.09.2026 | por Josina Almeida
Cabo Verde atirou-se ao jogo com o desespero de quem sabia que o lugar deles era ali, ao contrário do que muitos dos seus jogadores ouviram a vida inteira. Não vou reproduzir os palavrões quando, do mesmo lugar de onde fizera o golo, mas agora num livre directo, Sidny faz um remate igual, mas o guarda-redes argentino defende in extremis para canto. Cabo Verde caiu de pé, e muitos argentinos venceram deitados no chão, derreados pelo esforço. Que orgulho devem ter os cabo-verdianos numa equipa verdadeiramente inspiradora. Nem todas as histórias bonitas têm um final feliz. Esta tinha-o merecido sobejamente.
Vou lá visitar
04.09.2026 | por Pedro Goulão
Sendo o cinema uma arte burguesa, há muitas vezes um modo pesado como se filmam as periferias que vem da culpa. Esse olhar ignora a cultura cinematográfica popular que existe no bairro. As pessoas têm o direito de se ver nos filmes de acção e de comédia que fazem parte das suas referências. Podemos fazer cinema popular e oferecer espectáculo sem perder a dimensão política, que está nas histórias que contamos e, sobretudo, na forma como representamos as pessoas.
Afroscreen
04.09.2026 | por Marta Lança
O arquivo sabe muito sobre o corpo de Tereza e quase nada sobre Tereza. Mediu-a, classificou-a, mudou-lhe o nome, registou a sua passagem por Lisboa e voltou a encontrá-la dez anos depois em Angola. Mas não nos deixou sequer a possibilidade de reconhecer o seu rosto. Tereza chamava-se Txilungu. E é precisamente nesse intervalo entre tudo aquilo que o arquivo colonial registou e aquilo que tornou invisível que começa este livro.
A ler
02.09.2026 | por Inês Vieira Gomes
O Militango foi um poema que o meu pai escreveu para um espectáculo concebido e encenado por ele, com o mesmo título, em 2000/2001, para o Grupo Teatrova, e que estreou no Santiago Alquimista. No espectáculo Militango, a dança, a música e a poesia entrelaçavam-se num todo, tendo como linha condutora vários tangos, com destaque para a obra de Astor Piazzolla. Contava com dois bailarinos, Guilhermo e Elina; dois músicos, eu na guitarra, nos arranjos e na produção musical, e José Rui Fernandes na flauta; e Paula Freitas como actriz e na produção. O poema musical Militango encerrava o espectáculo.
É importante destacar que, na viragem do milénio, o pano de fundo era o triunfalismo ocidental perante a queda do bloco socialista e a guerra dos Balcãs, que fez regressar o espectro da guerra à Europa. Seguiram-se a queda das Torres Gémeas, a Guerra do Iraque e tudo o que estes acontecimentos significaram e tiveram como consequência. Entre outros números que integravam o espectáculo, estava o poema de Borges Milonga de dos hermanos, que termina com a ideia de que é a história de Caim, que ainda hoje continua a matar Abel.
Palcos
02.09.2026 | por Adolfo Gutkin
Tropecei na tua frase “o tempo morto arrancado como dente podre”, um minuto antes de abrir a boca ao dentista. Enquanto as suas mãos de luvas suaves se empenham em perfurar o meu osso maxilar, imagino obras em andamento, terras a serem rebentadas, barrigas de baleia esventradas, mandíbulas de tubarão que são estruturas cartilagem, não osso. Confirmo que o cheiro do próprio sangue não perturba tanto como o dos outros.
Mukanda
01.09.2026 | por Marta Lança
O que significa defender a Europa? O que é que estamos a defender quando o fazemos? O livre curso de bens e gentes? O comércio livre? Ao contrário do que se pensa, as principais inovações nazis não terminaram com a guerra, mas proliferaram com uma força desmesurada pela Europa fora, como nos diz Chapoutot no livro “livre de obedecer”. Os nazis defendiam uma concepção não autoritária do trabalho, em que o trabalhador já não era um subordinado, mas sim um "colaborador”.
Mukanda
24.08.2026 | por Ricardo Norte
Já estou a imaginar-me na areia, um chinelo perdido, livro meio deformado pela água com um recibo de supermercado a fazer de separador, conchinhas à volta do umbigo. Está muito quente e ouve-se, ao longe, o som repetitivo das ondas, misturado com notícias sobre incêndios, escândalos políticos, e vozes de trabalhadores sazonais. Uma ventoinha roda lentamente, sem refrescar ninguém.
Mukanda
24.08.2026 | por Marta Lança
Tal como ontem precisámos de apoio e solidariedade internacionais para as nossas independências em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e noutros cantos de África, a luta saharaui convoca-nos hoje a agir em solidariedade. Pois, sem o refúgio em Conacri, sem as armas da China e da URSS, sem os apoios técnicos e logísticos de Cuba ou da Suécia, ou os apoios da Argélia e do próprio Marrocos, mas também sem as mobilizações de solidariedade popular em diferentes geografias, as lutas dos nossos povos não teriam tido a consequência que tiveram na liquidação do colonialismo português em África.
A ler
19.08.2026 | por Sumaila Jaló
À semelhança das edições anteriores, a III Marxa Cabral é o culminar de um processo coletivo de mobilização política desenvolvido ao longo de vários meses. A preparação incluiu a Futebolada Cabral, em homenagem aos valorosos Tubarões Azuis; oficinas de construção coletiva de cartazes; a pintura de um mural promovida pela Associação Juvenil Esperança da Quinta da Princesa; uma roda de conversa; sessões de capoeira e batuku. A 16.ª Konferénsia Panafrikanu di Lisboa, integrada na Marxa, acolheu ainda, pela primeira vez, uma Aula Magna, proferida pelo sociólogo, educador e panafricanista Alexssandro Robalo, com o tema “
A ler
19.08.2026 | por vários
No final dos anos 80, mais ou menos na altura em que Brigite resolveu encerrar, de vez, as portas do seu Salão, o Chiado sofreu um incêndio brutal. E ela soube que o estúdio de fotografia do engenheiro da casa dos óculos, o antigo amor de Amália, ardera por completo. Sentiu uma estranha aflição. Mal chegara a conhecê-lo, e contudo, conhecera-o tão bem. Provavelmente, num fim de tarde que se estendera pela noite, chegara a conhecê-lo melhor do que todos os que o rodeavam. Depois, soube que ele tinha morrido.
Cidade
19.08.2026 | por Manuela Gonzaga
O Festival Tradidanças é, por si só, um motivo pelo qual vale a pena ir até à zona de Carvalhais, em São Pedro do Sul. Mas há muito mais para descobrir nesta região e, este ano, queremos convidar-vos a deixarem-se ficar pelas serras, aldeias e vilas, mergulhando num território ainda tão distante do buliço das grandes cidades. O turismo, o verão e o lazer não se resumem às praias e ao litoral: há caminhos, ribeiras, aldeias, música e histórias para descobrir neste território longínquo e mágico.
A ler
18.08.2026 | por Maria Prata
Voltemos ao ponto de partida do trabalho de Isabel Brison. Ao tirar às estátuas – nem que seja em fotomontagem – o pedestal, sobram estas imagens deslocadas de pedra e bronze, figuras um pouco perdidas, despidas da aura e da altivez concedidas pelo plinto. Ditas e Desditas brinca com esta vulnerabilidade das estátuas despojadas da sua autoridade enquanto imagem. Há nisto – quase como que de viés, mas nem por isso menos intencional – uma reflexão sobre a própria escultura pública.
Jogos Sem Fronteiras
18.08.2026 | por Gerbert Verheij
O festival é feito de um posicionamento político, defendendo e pondo em prática um mundo em que todos acedem a direitos e deveres, em que o respeito pelo outro se constrói muito para além dos números e dos artigos das convenções, através da descoberta, da compreensão e do diálogo. Carlos Seixas, programador e criador do FMM, é reconhecido pelos músicos, programadores e produtores da cena nacional e mundial pelo seu carisma, generosidade e talento. O festival tem a marca da sua curadoria e criou um legado que é importante preservar, reconhecer e dignificar.
Vou lá visitar
14.08.2026 | por Maria Prata