Desfocar o sujeito, sobre fred

Desfocar o sujeito, sobre fred Em fred, ska batista espreita por uma janela semi-cerrada para corpos que só parcialmente se deixam revelar na fotografia. Nesta entrevista-conversa, falámos sobre uma lisboa desaparecida e em desaparecimento, das armadilhas representativas dos discursos que rodeiam os corpos queer, da prática de uma fotografia que não pode ser um olhar exterior e de uma fotografia ‘desenrasca’ para corpos que, também eles, se vão desenrascando.

Cara a cara

23.06.2026 | por p. feijó e ska batista

Manual para um Bom Festival

Manual para um Bom Festival O bom festival existe. Começa no coração. Começa muito antes da programação. Começa quando alguém decide reunir o mundo, por momentos, numa sala na biblioteca com vista para a ponte. O bom festival é elástico e estende-se no tempo. É lento, intenso e presente, faz pontes. O bom festival não tem pressa. Sabe que a literatura demora e precisa de silêncio. O bom festival não acumula nomes nem troféus, mas constrói uma linha de pensamento. Mesmo quando parece disperso, há uma pergunta invisível que liga tudo.

Mukanda

23.06.2026 | por Maria Giulia Pinheiro e Gisela Casimiro

Baralho de Cartas 26

Baralho de Cartas 26 Quanto à nossa conversa sobre autoficção, não me interessa pensar no género em si, ou na sua apropriação pelo mercado editorial, menos ainda nos autores e autoras de auto-ajuda disfarçada de autoficção. Trazer a vidinha ao barulho é um processo que pode ser narcísico ou radical, depende da abordagem e do engenho de quem esmurra esse pão. A narrativa pessoal arrisca-se a ser uma ego trip casual, que, na melhor das hipóteses, servirá como exercício de aceitação. Mas “La vie, il faut la mettre en scène…”, só assim se consegue expressar a sobrecarga invisível e destrutiva no quotidiano das mulheres como, por exemplo, na personagem Jeanne Dielman no filme de Chantal Akerman.

Mukanda

23.06.2026 | por Marta Lança

Olhares críticos no arquivo colonial – sombras e memórias

Olhares críticos no arquivo colonial – sombras e memórias Seis artistas foram convidados a desenvolver obras inéditas a partir de uma investigação nos arquivos das missões científicas coloniais realizadas na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique entre as décadas de 1930 e 1950. A exposição apresenta o resultado de vários meses de pesquisa nas reservas do museu, através de diferentes linguagens artísticas, propondo uma reflexão sobre o papel do museu enquanto repositório de memórias e patrimónios africanos.

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23.06.2026 | por vários

Vale da Amoreira: histórias da cidade nas margens

Vale da Amoreira: histórias da cidade nas margens  O livro reconstrói a formação do Vale da Amoreira como expressão das grandes transformações sociais, políticas e económicas do Portugal contemporâneo – e da Margem Sul de Lisboa em particular. Localizado no concelho da Moita, o bairro nasceu do cruzamento entre industrialização e império, êxodo rural e urbanização acelerada, migrações internas e fluxos populacionais associados à descolonização. Trabalhadores vindos do interior rural, retornados, refugiados e imigrantes africanos convergiram neste território nos anos 1970, num processo marcado pela precariedade das políticas públicas de habitação e pelo improviso das ocupações de casas.

Cidade

22.06.2026 | por Elsa Peralta, Max Ruben Ramos e Bruno Simões Castanheira

Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 1

Cabo Verde não cabe nas ilhas, parte 1 A história dá-nos, de facto, algumas pistas para perceber que a mestiçagem não aconteceu num campo neutro de afetos livres. Nasceu atravessada pela escravatura, pela hierarquia racial, pela violência sexual, pelo poder económico e pela dominação colonial. A ideia de harmonia racial serviu para esconder conflitos, silenciar a negritude e afastar Cabo Verde do continente africano. Foi-se consolidando a imagem do cabo-verdiano como um «preto especial»: africano suavizado, mais civilizado, mais atlântico, mais próximo da Europa. Poucas heranças coloniais são tão eficazes como aquelas que os próprios colonizados acabam por repetir para se protegerem da violência do mundo.

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22.06.2026 | por Marta Lança

Massinguita de Agente Secreto

Massinguita de Agente Secreto Um cadáver coberto por uma caixa de cartão, enquanto cães lhe disputam os restos, persiste como uma espécie de fantasma que assombra o enredo. Sem fazer da morte um espetáculo, "Agente Secreto" (2025), de Kleber Mendonça Filho, organiza-se em torno desse espectro.

Afroscreen

21.06.2026 | por Leonel Matusse Jr.

Baralho de Cartas 25

Baralho de Cartas 25 Ando assustado, a convencer-me que não. Leio sobre a alegria da afirmação, sobre o trabalho positivo de meter uma pedra à frente da outra, de ser a única maneira de a mudança ter um chão que dê para dançar. Ando num estiramento entre o que temo e o que quero, fico demasiado encostado a mim, só quando me afasto sei onde estou.

Mukanda

18.06.2026 | por Ricardo Norte

À escuta de Angola com Gita Cerveira

À escuta de Angola com Gita Cerveira O desaparecimento físico do mais internacional dos técnicos angolanos – detentor de um currículo que lhe valeu uma homenagem na primeira edição do DOCLuanda, bem como a atribuição do Signis Award e do Prémio Sophia – deixa um vazio impossível de colmatar na paisagem cinematográfica contemporânea. Sem perder de vista a dimensão transnacional do seu trabalho, À Escuta de Angola com Gita Cerveira propõe revisitar parte da filmografia realizada no e sobre o país que o viu nascer, evidenciando o seu percurso por várias fases produtivas do cinema nacional e um trabalho indelevelmente marcado pela mestria que – na captação, direção ou mistura de som – sempre soube imprimir às obras a que ajudou a dar forma.

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18.06.2026 | por Sofia Afonso Lopes

Quando os leões pegam na câmara

Quando os leões pegam na câmara "Novas Narrativas de Caça" não precisa de ser a antologia perfeita. Nenhuma primeira abertura precisa de atingir tal fasquia. Mas a série nasce de uma ancestralidade de arquivos queimados, línguas interrompidas, bairros filmados por outrém, corpos mal traduzidos, talentos sem sala, críticas atrasadas, televisões distraídas. E quando nasce assim, e no lugar certo e diante de um público que responde, passa de mero episódio a alicerce cultural.

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14.06.2026 | por Pedro José-Marcellino aka P.J. Marcellino

Hoje fui a enterrar uma pluma, em memória de Luís Giovane, estudante cabo-verdiano assassinado em Bragança.

Hoje fui a enterrar uma pluma, em memória de Luís Giovane, estudante cabo-verdiano assassinado em Bragança. Giovani tropeçou na morte à saída da discoteca. Por vezes, a existência é uma embriaguez permanente. Ser negro e estrangeiro é maldição a mais. Lembrou-lhe a derradeira paulada que levara da vida naquela triste noite de dezembro. Lembrou-lhe as mãos cobardes dos quinze diabos. Giovani era um artista. Só sonhava com mornas. Compor e cantar repertórios de adoração a um deus que fosse mais justo e imparcial. Por que é que uns têm a bênção de matar e outros de serem mortos? Tombou numa rua qualquer de Bragança. Um negro caído, quem se importa?

Mukanda

14.06.2026 | por Venâncio Calisto

Vozes e sons afro diaspóricos: práticas estéticas e identidades no espaço urbano

Vozes e sons afro diaspóricos: práticas estéticas e identidades no espaço urbano O que parece interessante do ponto de vista histórico, sociológico, antropológico, é que estas movimentações culturais e artísticas dão conta da emergência de práticas culturais híbridas em território português. Trata-se de uma hibridez que traduz uma encruzilhada diaspórica concreta, um ambiente de circulação face ao qual estes sujeitos se posicionam— dado o tipo de seleções que fazem e o trabalho de reorganização e recombinação que desenvolvem—, num processo que envolve a história de relação entre Portugal e as diversas nações africanas que no passado foram seus territórios políticos, nomeadamente as práticas culturais que emergiram dessa história. Isto deverá comunicar com o tipo de narrativas diaspóricas em que estas práticas se engajam.

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12.06.2026 | por Rui Cidra

Limites, silêncios e ausências, a propósito da exposição ‘Ceci N'est Pas Francisco’

Limites, silêncios e ausências, a propósito da exposição ‘Ceci N'est Pas Francisco’ O trabalho de Marta Pinto Machado tem-se desenvolvido em torno da fotografia e do arquivo, explorando as relações entre memória, história, identidade e pertença, bem como os seus limites, silêncios e ausências. É precisamente nesse território, situado entre o visível e o invisível, entre a memória e o esquecimento, que se desenvolvem muitas das questões presentes nesta exposição. Para compreender melhor esta exposição, gostaria de partir de três projetos da artista que me parecem fundamentais para compreender algumas das questões que atravessam esta exposição.

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11.06.2026 | por Inês Vieira Gomes

Palimpsesto: a curadoria como montagem de temporalidades em Notre Feu

Palimpsesto: a curadoria como montagem de temporalidades em Notre Feu Na série L’invention du courage (O salto) (2021-2025), Isabelle trabalha sobre retratos transferidos para madeira e posteriormente quebrados e intervencionados com tinta acrílica. Importa sublinhar que a fotografia original permanece intacta. Aquilo que é destruído é a imagem transferida. Os rostos tornam-se parcialmente ocultos por cortes e manchas de cor intensa.

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08.06.2026 | por Francisca Listopad

Baralho de Cartas 24

Baralho de Cartas 24 Escrevo-te de uma cidade cujo nome vem de “casa no pântano”, adivinha! Há personagens de BD nas carruagens de metro - até os tecnocratas são bonecos nesta sede da UE e da Nato. De tão cosmopolita e multicultural, não se percebe o credo racista que ainda esperneia por aí. Depois de um extenso programa na universidade, devorei um gorduroso kebab com duas professoras, ouvindo com apreço as suas impressionantes histórias de migrações. Dá-me uma certa ancoragem o facto da história humana ser, desde sempre, uma história de partidas, fugas, exílios e sobrevivências

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08.06.2026 | por Marta Lança

Uma questão de... lixo

Uma questão de... lixo O lixo moderno veio com os tugas, e não saem nem por nada. Teimosos como tudo. Não desaparece se não for tratado... estou a falar do lixo, os tugas não me chateiam. A Câmara de Bissau (CMB) também anda a aprender com os europeus, então leva o lixo para bem longe da vista, limpa-se Bissau e os resíduos vão de camião para Safim, para aproveitar a autoestrada de oito quilómetros, e é atirado, contaminando canais de água que passam por bolanhas. É só uma questão de logística: Bissau, cidade limpa. Safim que se lixe. Antes era em Antula, quando este era "o fim do mundo", agora que Antula é Bissau, o lixo é que tem de se pôr a andar. Gentrificação lixuosa.

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06.06.2026 | por Marinho de Pina

Baralho de Cartas 23

Baralho de Cartas 23 Marta Sabemos realmente o que é o velho mundo para que nos libertemos dele com um prefixo? O que vem não continua a ser velho? A construção do novo, não teria de partir das possibilidades deixadas em aberto pelo velho? A guerra está por todo o lado. Não nos toca, as imagens, a miséria, a destruição, não nos tocam, emocionam-nos, irritam-nos, tiram-nos o sono, e depois? Sabemos o que se passa? De que forma nos inscrevemos simbolicamente no mundo? Se fosse real, o saber, levar-nos-ia à ação ou à loucura. O real é insuportável, junto dele ou temos um surto, ou alucinamos, ou... Ganhamos ou perdemos a vida quando enfrentamos o real.

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05.06.2026 | por Ricardo Norte

“Trocar as teclas do piano pelas pinças” conversa com Cláudia Alves a propósito do filme "Damas"

“Trocar as teclas do piano pelas pinças” conversa com Cláudia Alves a propósito do filme "Damas" O repórter do filme existiu mesmo. Acompanhou-as até Ambleteuse e depois regressou. Numa das crónicas ele escreve que, em Paris, os homens se encontravam nos cafés e sentiam alguma liberdade, que havia leveza no ar e que viviam ao máximo durante os cinco ou seis dias de folga, antes de voltarem para as trincheiras. Em Madrid, diz ele, sempre na terceira pessoa, as senhoras são muito cumprimentadas na rua. Isto ajudou-me imenso porque finalmente tinha alguém a escrever sobre estas mulheres. Depois comecei a pensar como é que elas escreveriam, ou, como é que uma delas teria escrito se não tivesse sido ele a fazê-lo. Comecei pela descrição dos dias de viagem, do ambiente do comboio, da passagem por Madrid, por San Sebastián, o descarrilamento de um comboio que provocou muitas horas de atraso… Em Hendaia foram ao câmbio trocar dinheiro, visitaram um casino que estava a ser convertido em hospital de guerra, e que ainda hoje existe junto à praia… e eu filmei essas referências.

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01.06.2026 | por Tiago Lança

Olhar os primatas

Olhar os primatas Como resgatar a poesia urbana deste mundo opaco, onde as pessoas nos frustram? Se eu não acreditasse no Céu, sei lá em que morte do meu passado eu estaria. As gaivotas voando no céu do fado de Amália, embalando a minha fantasia. Oiço canções para lá da campainha do VLT, anunciando o sono da tartaruga. Sou filha de Xangô e Iansã, e por isso sei que um dia em algum momento, raios e trovões irão varrer os telhados do Império para restabelecer a paz. Perante esta tristeza inclemente, chuvas irão trazer descanso às flores, e devolver a esperança aos trabalhadores da cidade.

Mukanda

26.05.2026 | por Rita Brás

Cinema Negro em Portugal: uma contra-esfera pública transnacional

Cinema Negro em Portugal: uma contra-esfera pública transnacional Não pretendendo cartografar o cinema produzido por esta contra-esfera pública transnacional, nem sequer traçar-lhe uma panorâmica, proponho antes pensar o Cinema Negro produzido em Portugal (apenas). No entanto, não posso deixar de enquadrar esta produção numa rota transatlântica alargada, que determina a produção nacional, como espero tornar claro nas próximas páginas. Penso os temas predominantes nesses filmes e as vozes evidenciadas nestas obras cinematográficas ensaio compreendê-las num esforço de construção de um arquivo e de combate ao apagamento.

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26.05.2026 | por Ana Cristina Pereira (AKA Kitty Furtado)