Abrimos túneis com dinamite nas cordilheiras terrestres, furamos a pedra com gigantes berbequins, mas não há pólvora que nos permita atravessar esta serrania. A Agustina diz que são duas ideias incompatíveis, a de homem e a de mulher, que a incompatibilidade obedece a uma técnica de travagem. Há fronteiras que os nossos amados comboios não atravessam, e, apesar dos mitos de fusão, ainda bem que não o fazem. É esse penhasco que peia o fogo que galga o monte desenfreado. É um país que se esconde na outra vertente do desejo. Atiro-lhe pequenas anotações em papéis amarrotados.
Mukanda
11.03.2026 | por Ricardo Norte
A Júlia não é uma miúda adorno bonitinho, de franja curta, que liam textos filosóficos para homens mais velhos no Cinema Novo. Talvez tenha uma leve fragrância de Rivette, a voz altiva da Janis Joplin, magreza da Pj Harvey, atrevimento Björk, qualquer coisa do tem-te-não-caias da Alice e da Etelvina, mas não lhe deve faltar futuro e talvez até desenrasque dinheiro.
Mukanda
02.03.2026 | por Marta Lança
Não sei se os insectos sonham, mas os meus cães passam mais tempo desse lado do que do lado de cá. No nosso caso, não é só a dormir que sonhamos, construímos um universo mental que nos protege da realidade. O real morde, rompe, volta, e esfrangalha a visão total que tínhamos do mundo. De repente, dou-me conta dos fragmentos, dos buracos, da vacuidade do que sabia.
Mukanda
24.02.2026 | por Ricardo Norte
Morar perto da estação facilita a elaboração de planos de fuga. Todos os dias me ocorrem, ainda que conforte a agitação nas imediações da estação. Tantos destinos marcados e apressados, até os indigentes parecem ter um desígnio cinematográfico neste décor de fim da linha junto ao rio. As vozes roucas de homens encostados ao balcão, que pausam na tasca para chamuças e imperiais, dão alguma raíz ao universo enquanto comentadores na tv permutam argumentos sobre o Hamas, e o martelo da guerra-mundo nos estilhaça os ossos.
Mukanda
17.02.2026 | por Marta Lança
Com dizias na tua carta, os dias são fogosos, talvez andemos a brincar aos pirómanos. O vaso partido, não é apenas uma cidade que se desagrega, a dispersão ganha um encanto musical, como uma fuga de Bach, as coisas perseguem-se como melodias, entrançam-se umas nas outras. Cheguei ao café onde tínhamos combinado, o tempo passou como um foguete. Não te vou enfadar com conversas de enamorado.
Mukanda
11.02.2026 | por Ricardo Norte
Fluindo veloz, a água submergiu em riachos nunca antes navegados, apesar dos sulcos já lá estarem. Confirmo o que dizes sobre a água escolher sempre os mesmos caminhos, escavando os sete leitos dos rios, tal como a nossa pele muda sete vezes. Uma amiga contou que, na terapia, também há sete sessões para abrir novos canais e sinapses sem insistência no “canal do trauma”. Admiro a determinação feroz da água, empapando a terra, nutrindo-a para que aguente uma muito provável seca.
Mukanda
05.02.2026 | por Marta Lança
Estamos sobre a terra, mas os corpos continuam a querer viver na massa líquida de onde saíram há milhões de anos. A água deixa-nos a alma enrugada, na água passamos com tudo, uma morte rasteira que escorre conforme à gravidade. Seguir o princípio do fogo deixa-nos a cabeça alinhada com os astros, tentamos escapar à humidade onde tudo se confunde. O mundo é deslocação, como lembras na última carta, e a disponibilidade de que fala a Silvina é um combate contra esta queda que procura os lençois freáticos, Bachelard diz que é uma morte onírica, o que vai de encontro à fantasmagoria presente.
A ler
28.01.2026 | por Ricardo Norte
Sentirmo-nos mentalmente disponíveis, o que é isso? Talvez o suficiente para entrar pela casa das pessoas a dentro... Não num gesto voyeur, antes como quem se senta à mesa e tem uma conversa franca, encontra os aliados e reconhece neles o mesmo desejo de sair das mumificações do espírito. É sempre em alianças, mais ou menos contingentes, que vou resistindo à aniquilação da mente, que tento «matar o Anjo da Casa», de que fala a Virgínia Woolf para recusar uma certa domesticidade que ainda aprisiona, e quanto!
Mukanda
21.01.2026 | por Marta Lança
O mundo estilhaçou-se, quebrou-se em bocados, como uma esfera de cristal derrubada por um demónio. Reconhecê-lo não é um gesto de inação, nem de tristeza acabrunhada, é identificar como nos isolamos uns dos outros, como se separam as coisas umas das outras, ao ponto de não querermos saber, de não vermos, nem a miséria, nem o sofrimento, inscrito em cada uma delas. As relações criadas neste espartilho são desonestas por defeito. Os empresários de si próprios usam a língua como um instrumento, um ardil, a comunicação só procura efeitos decididos à partida.
Mukanda
14.01.2026 | por Ricardo Norte
Continuo a preferir a intensidade das experiências fora dos sets espectaculares e das redes virtuais. Carne com carne, cornos com cornos. Aliás, é cada vez mais sinistro, e meio bizarro, assistindo às trincheiras ideológicas, nichos de gosto, vigilância e algoritmização da vida, sabendo que estamos a dar tanto guito e informação aos oligarcas tecnológicos, o facto de permanecermos nos adornos virtuais. Como é que ainda nos damos ao trabalho de convencer, seduzir; expressarmos o que quer seja por essa via de “partilha”? Uma das nossas grandes contradições, mas a verdade é que este disparo assim de missivas, para sei lá que destinatários, é meio viciante.
Mukanda
07.01.2026 | por Marta Lança
Não sei defender-me de mim mesmo, embaraço-me com o sono, na dormência da objectividade. As relações pessoais têm a aparência de coisas. Estamos numa relação falsa, enganosa com os outros e com o mundo. No imediato estamos mergulhados nas seduções artificiais que produzimos. As fugas para o imediato não fazem senão dissolver os dias em noites e adiar as noites por vir.
Mukanda
02.01.2026 | por Ricardo Norte