Verdades da e na palavra (in)verosímil do louco predilecto da cidade (prosopoema de Nzé de Sant'y Ago)

“A arte fica, o comentário petrifica” - Ruy Belo 

 

                                      À memória de e em homenagem a Caló de Dona Tina, 

malogrado e estimado amigo de infância, aqui e em outros                          

contextos literários, transfigurado, sempre com muito  

afecto e respeito, n’ o louco predilecto da cidade

Às vezes (e foram as vezes completas que perfaziam as tuas horas, todas sóbrias e hirsutas), convencias-te que o destino te perseguia. Ou que prosseguindo os obscuros caminhos da noite, enredado nos aturdidos trilhos da insónia, perseguias o destino, o teu, da tua imaginação de irremediado desertor do quotidiano. 

Meditas nisso, agora, num turvo momento de lucidez, numa contra-vez em que, reduzido a um silente e crepuscular espectro na contra-luz das tuas habituais deambulações de ébrio subvertor das noites insones, nem sequer sentes o teu corpo. Aliás, em que, mais do que nunca, te sentes todo e inteiro, sentindo-te guilhotinado e aterradoramente desprendido de tudo, pressentindo-te exangue, entregue ao corte total entre a cabeça e o torso, e o resto que se lhe segue, entre a mente e o corpo, entre o cérebro e os resquícios da noite, entre a lucidez e a comiseração, entre a comiseração e o pudor, entre o pudor e a vergonha. 

E a vergonha. A vergonha de ontem teres escutado e escrutinado o louco predilecto da cidade numa encenação da sua peça dilecta (um grande comício vociferando aos ouvidos imaginários de uma multidão entusiasta e ululante) perante a consternação dos transeuntes do quotidiano, os tais, urbanos e redivivos, de carne em riste e vísceras alquebradas, a alma cabisbaixa e os ossos apressados e indiferentes. 

Segredas-me em tom quase alucinado, numa gesticulação tão atípica em ti quando em estado de amorfa e remordida lucidez, que, com os seus andrajos e os seus olhos felinos e ríspidos, falou o louco predilecto da cidade de verdades assaz visíveis a propósito de  maleitas sociais de sempre, mesmo se   renovadas em novas vestes pós-coloniais, quais sejam: 

 

I. O desemprego galopante, como, aliás, sempre foi desde os tempos dos libertos, então eufóricos com as cartas da sua futura alforria e estupefactos com o amargo far niente da miséria desocupada e ostracizada dos negros forros, desqualificados e chamados vadios porque avessos e renitentes à clausura escravocrata, ao branco estalar do chicote, ao senhorial olhar vingativo dos armadores, dos missionários, dos latifundiários, dos contratadores do sal, da urzela e do infortúnio, e de outros administradores da fé, do império e da relutante fortuna do arquipélago das secas cíclicas e das inúmeras mortandades por mor da fome absoluta e total, em suma, porque resistentes ao confinamento no cativeiro da escravidão e à vida minguada na servidão das plantações que depois irromperam com o precário assalariato rural e o semi-feudalismo pós-escravocrata de rosto agro-exportador fundado no latifúndio e baseado na renda e na parceria. 

 

(e interrompes-te e ficas meditando nesses negros fujões dos primórdios do povoamento das ilhas, desses tempos perdurando nos tempos todos da sociedade escravocrata e da sociedade pós-escravocrata; ficas matutanto nesses ávidos construtores de distantes, aguerridos e sempre periclitantes quilombos, tal o Quilombo dos Valentes de Julangue, ou de solitárias casas de pedra solta cobertas de palha nas cumeadas enevoadas das montanhas húmidas de desassossego; ficas cogitando nessas acossadas criaturas de Deus votadas ao desprezo da cruz e da espada, erigidas tais rígidos padrões sobre as faces tementes dos filhos das ilhas próximas e longínquas, das cidades, das vilas e dos sobrados; ficas reflectindo sobre o destino desses homens, mulheres e crianças de todas as nossas ilhas, todos sem excepção alguma pejorativamente chamados vadios, em estranha e inusitada sinonímia com os negros marrons fugitivos das correntes e cadeias escravocratas de todas as Antilhas, Caraíbas e Américas, de todos os Atlânticos e Índicos negros do mundo, depois transmutados no arquipélago saheliano meso-atlântico em badios e circunscritos ao vitupério e às pragas que debalde se quis que fulminassem a grande ilha e as suas estátuas de chuva, e as suas colinas azuis, e os seus bustos de pedra reclinados ante os santos da tabanca, o frenesim das ancas do torno e a grave e astuta sabedoria da finason do batuco ancestral e os destemidos espíritos das intempéries; ficas pensando nesses negros e mulatos rebeldes de olhos faiscando anavalhados como os posteriores olhos azuis, loiros e insurrectos do mestre marceneiro Ambrósio Lopes, e a sua negra bandeira da fome deixada intacta, enterrada na alma do povo das ilhas e do seu bardo predilecto, fautor do seu imorrido estatuto de mulato Ambrósio e capitão do povo ressurrecto depois da sua deportação para as longes terras do africano ultramar continental dominado e ultrajado). 

 

e retomas o percurso discursivo do cúmplice responsável pelo teu humilhado estado de comiseração, de vergonha e de quase inveja do louco predilecto da cidade, agora intrépido discorrendo com uma aura quase profética sobre o fictício ardor do sub-emprego nas repartições públicas e o ardente e real ardor da mulher, da pedra e do camponês, esquecidos pelas as-águas nas frentes de alta intensidade de mão-de-obra (muito adequada, solene e oficialmente chamadas faimo) e pouquíssima intensidade da esperança. 

 

II. O nepotismo e a corrupção dos costumes  recém-nascidos e ajuramentados com as adolescentes oriundas das misérias suburbanas sufocadas e recicladas em luxúria de baixo preço, regurgitando das vivendas sempre chiques, festivas e em permanente (re) inauguração, o nascente novo-riquismo dos vindouros oligarcas, discretos, bem-falantes e de perfil obediente e comedidamente funcionário, mais as suas secretas congeminações de futuros mandarins da pátria inundada de vozes vendilhãs em vociferante dissídio e altissonante, exímio e nunca exaurido contraponto, 

 

e recapitulas, com ares marginais e antecipadamente subversivos, o ciclotímico humor e as alucinações e mancumanações cleptocratas dos burocratas e de outros candidatos e postulantes a oligarcas, antevendo-se ríspidos e ostentatórios na sua coerência petulante, maioritária, super-qualificada e rancorosa da velha nomenclatura de combatentes da liberdade da pátria com a sua exangue e indisfarçada arrogância de dilectos portadores de balalaicas encomendadas nos melhores costureiros de Dacar e Abidjan e de intermitentes e ocasionais fatos de bom corte comprados em Lisboa, Paris, Roterdão e Nova York, seguramente degradados do dantes almejado e cobiçado e agora vituperado estatuto de melhores filhos do povo ao vil, boçal e denegrido estatuto de combatentes do mato

imagem de Marco Pereira Sara-Wongimagem de Marco Pereira Sara-Wong 

 

III. O regionalismo e o bairrismo omnipresentes e omniscientes e o seu patriótico e caridoso afã no recrutamento de empregadas domésticas das as-ilhas para que os filhos dos seus patrões não aprendam a falar latim em casa e nunca tenham a ousadia de enunciar rústicos provérbios e poéticas sentenças na língua de Anastási Lópi/Nho Puxim e nas falas metafóricas de Nha Bibinha Cabral, Nha Násia Gomi, Codé de Dona, Sema Lópi, Ano Nobo, Katxás dos Bulimundo, Antero Simas ou Zezé e Zeca de Nha Reinalda e, pior ainda, tenham o vão desplante de pronunciar os seus vocábulos repletos de impenitentes vogais e eminentes “is” esvaziados dos “erres” muito carregados, muito cientes de si e da sua propalada genealogia fidalga e da sua ventosa indumentária ornamentada de consoantes e passos bailarinos. 

 

É sabido - dizes-me, dando-te ares banais de assíduo leitor das páginas literárias de quando-calhários que casual ou regularmente se achegam aos teus olhos letrados - que as palavras estão gastas por demasiado repetidas na nomeação de realidades sobre-evidentes, mesmo se sorrateiramente recolhidas nas tenebras do silêncio temeroso. 

Ignorante das palavras gastas ou raivosamente avesso às funestas sabedorias que nelas chafurdam e se digladiam (confidencias-me num tom grave e pesaroso), o louco predilecto da cidade continuou, peremptório e febril, interpelando todas as palavras gastas, todavia inundando-as do odor dicionarista de algumas expressões eruditas. 

Palavras gastas, mas paradoxalmente germinando nas mentes e nos gestos de todos, incluindo na transida indiferença dos passos apressados dos transeuntes, dizes de dedo em riste numa espécie de ponto de ordem a meio do discurso, já exausto e histérico, do já exaurido louco predilecto da cidade. 

 

Eis-te, pois. num momento de lucidez , oscilando entre o teu cérebro e o resto do teu corpo, trucidado entre ambos. 

Neste momento, e tal como qualquer outro rotineiro transeunte do quotidiano, podias passar facilmente por louco. 

E, todavia, serias tu a chamar louco a qualquer tribuno de ocasião que, devidamente palavroso, vociferante e altissonante, proclamasse verdades tangíveis e por demais evidentes na agastada face das multidões emudecidas e ensurdecidas. 

Palavras super-evidentes, como no conhecido, mas sempre surpreendente e inusitado axioma: a loucura é a razão das minorias ostracizadas e em dissídio; a razão é a loucura dos mandarins das grandes maiorias devidamente conformadas em multidões resignadas, mesmo se compulsiva e ordeiramente ululantes e, outrossim, supliciando-se suplicantes e temerosas, muito tementes a Deus. 

 

Eis-te, pois, desterrado do quotidiano e do seu habitual e previsível bom senso 

(e sou eu a sombra com quem dialogo 

e em quem exaltada se agita e se espevita 

e ventríloqua fala e súbita e desvanecida se alegra 

e se enternece com a resplandecência das palavras, 

e sou eu a expectante cintilação do desassombro 

na desfraldada impertinência do louco predilecto da cidade 

jorrando sobre o corpo agónico da urbe amada e martirizada 

e das suas intermitentes convulsões aguardando a chegada 

das sagradas águas vorazes das cheias líquidas, ruidosas e barrentas, 

e a apaziguadora aparição que se há-de erguer verde, máscula e maiúscula, reluzente entre os destroços das ribeiras e as flores germinando 

entre as perenes ruínas das miragens enrouquecidas estatuindo-se 

brônzeas e definitivas do venerado profeta da grande ilha, 

Nho Naxo chamado, respeitado, festejado e celebrizado 

como ícone da imortalidade das pétreas palavras 

da ínsula antiquíssima, imperecida e inapagável, 

nas convulsas e silenciadas interpelações do poeta (in) timorato 

que se queria panfletário habitante da clandestinidade conspirando 

com as suas vestes de fininha e silenciosa revolta melancólica 

escorrendo da neurasténica banalidade dos seus (in) fecundos,

 morosos e monótonos dias islenhos,  da paz burocrática das repartições aguardando o barco alemão lenta e pachorrentamente aproximando-se paquidérmico da terra nua, inerte, calva, salina e arenosa, 

todavia depois inconformista e rebelada metamorfoseando-se 

convicta e utópica na pátria livre do meio do mar

ora impiedosa e veementemente causticada 

pelo verbo enraivecido do louco predilecto da cidade 

e implacavelmente alvejada nas suas maleitas, nas suas bazófias,

nas derivas autistas dos senhores do seu destino, nas memórias 

das suas façanhas guerrilheiras, nas suas reminiscências guerreiras 

barricadas contra o rosto hostil das forças vivas dos chamados 

inimigos do povo das ilhas, nas suas intermitências repressivas, 

nas suas congeminações sitiadas, repletas de vanglória 

e da salobra fúria da noite varada e compacta, do bastão policial 

debruçado impenitente sobre a basáltica inanição das pedras 

das ribeiras e a nudez da pele virgem dos sonhos em construção… 

 

Eis-me, pois, aparentemente intacto, calado e inteiro num curvo momento 

de lucidez com a minha sombra guilhotinada oscilando trucidada entre a mente e a carne…

 

E sou eu a acústica reverberação, o rutilante eco, a nocturna retórica, 

o desvairado tambor, a rítmica cintilação, a frenética percussão ecoando 

a ancestral voz do profeta da mutação dos tempos nos tempos que hão-de 

vir, nos gestos solenes, nas mãos adivinhas, na enlutada memória 

do louco predilecto da cidade nossa, da urbe sucessora da antiga cidade 

da Ribeira Grande de Santiago depois transfigurada em Cidade Velha, 

da invicta e monumental capital do povo das ilhas debruçada sobre o mar, 

a nobilíssima cidade da Praia-Maria da Vitória e da Esperança… 

 

Praia, Janeiro de 1989

Lisboa, 13 de Outubro de 2010 

Monte-Abraão (Queluz), 22, 26, 27 e 28 de Junho de 2022 

 

*Nota do autor: constitui o presente texto uma versão abreviada e preliminar do longo (proso) poema narrativo intitulado “Veracidades” e da sua ainda mais completa versão consubstanciada no poema-livro e no prosopoema-livro sobre o Cabo Verde pós-colonial, ainda inédito em livro e intitulado 

“(Pluri) cidades” e anteriormente denominado “Cidadeverdades”, tendo vários excertos dos mesmos sido publicados em revistas literárias e antologias poéticas online.

 

por José Luís Hopffer Almada
Mukanda | 27 Fevereiro 2023 | Cabo Verde, Literatura, Santiago