Dar a ver o que tem andado a dar a ler, Ruy Duarte de Carvalho

Caminhos percorridos e matéria em curso convergem num sujeito que observa, no cálculo do melhor ângulo, com o seu olhar “esquinado”…

Ruy Duarte de Carvalho pode “dar a ver o que tem andado a dar a ler”. Prepara-se o observador para ser ele o observado. Agradecidos os leitores, e os futuros descobridores, por se mostrar e discutir a obra de Ruy Duarte de Carvalho, antropólogo e escritor angolano, mas também cineasta, fotógrafo e poeta, e já agora viajante, característica disseminada nas restantes, a quem se dedicou um ciclo no Centro Cultural de Belém, em Fevereiro de 2008, ao qual os escritores Paul Bowles e Thomas Bernhard também tiveram direito. Neste ciclo foi lançado o livro do autor com textos sobre cinema “A câmara, a escrita e a coisa dita…”, houve reflexões sobre a sua obra com David Borges, Osvaldo Silvestre, Luís Quintais e Agualusa, Miguel Vale de Almeida e Teresa Nicolau. Pudemos assistir ao seu filme de ficção e documentários, de tão difícil acesso. À reposição da peça “Vou lá visitar pastores” com o Manuel Wiborg. Uma exposição que reuniu os vários suportes da sua obra. E ainda a oficina pedagógica “Investigação angolana” que pôs as crianças a seguir as pistas do antropólogo e descobrir novos imaginários.
A ideia surgiu de Mega Ferreira, seu leitor assíduo e administrador do CCB, que quis tornar mais visível o caso raro de “um grande escritor de língua portuguesa, cuja obra se distribui por diversos campos de actividade – permitindo uma abordagem multidisciplinar ao seu universo.”
Ruy Duarte de Carvalho já fez muitas peças de vidro colorido para rodar no espelho do caleidoscópio (preparem-se para a enumeração): nascido biologicamente em Santarém ruma com a família para Angola, onde trabalhou como regente agrícola em café e pecuária; foi criador de ovelhas e fabricou cerveja em Moçambique; escreveu poesia desde logo distinta da dos poetas engajados, sem deixar de o ser; estudou cinema em Londres; realizou filmes para a televisão e para o instituto de cinema angolano, entre os quais “Nelisita” (1982); fez o doutoramento em antropologia em Paris sobre pescadores da costa de Luanda - “Ana a Manda” (1989); continuou a pesquisar outros assuntos em Angola e não só, enquanto leccionava em universidades de Luanda, São Paulo, Coimbra e Barkeley. A sua poesia encontra-se reunida em “Lavra” (2005) e os livros “Vou lá visitar pastores” (1999), “Actas da Maianga” (2003), “Os Papéis do Inglês”, “As paisagens Propícias” (2005), “Desmedida” (2007), “A Terceira Metade” (2009) todos na Cotovia, transfiguram-se de ficção, ensaio, antropologia e literatura de viagem, revelando interesses e subjectividades numa “meia-ficção-erudito-poético-viajeira” nas palavras do autor.
Também se podia contar outras histórias ligadas às já referidas: a de um angolano “de opção e condição”, persistente em não ceder a privilégios, que andou por Gabela, Calulo, Catumbela, uma temporada na Europa, e que no regresso filma, em plena noite da proclamação da Independência, a bandeira angolana a substituir a portuguesa. A de um curioso que, entre viagens foi estando e ficando no Namibe, no sul de Angola, onde estudou o povo kuvale e as suas formas de organização. A de um olhar analítico que pensou a ocidentalização do país, da África Austral e de outras comunidades do Atlântico e as implicações da guerra a partir da sua varanda na Maianga (e as várias maneiras de ver Angola, dentro e fora). Ou de um apaixonado pelo sertão que seguiu o rio São Francisco, o território de Guimarães Rosa e de Euclides da Cunha, no Brasil, que lemos em “Desmedida”. Ou de um cozinheiro negro que viajou e sonhou um romance Austral em “A Terceira Metade”.

Reunidos alguns pontos
Para incluir este seu modo de convocar tudo e dar uma ponta com nó, pensou-se o ciclo como um “micro-cosmos da multiplicidade de discursos e textos da sua obra mas que permitisse a apreciação de cada elemento individualmente”, explica Fernandes Dias, o comissário convidado. A exposição “Essa maneira de convocar tudo” exibe fotografia, desenhos, documentários e textos, atravessando os lugares por onde andou e cartografou pela escrita e não só, numa geografia também afectiva que nos direcciona no percurso desta obra.
Sobre a metáfora de um caleidoscópio para ilustrar tudo isto, Ruy Duarte: “…combinações só de assuntos?… ou só de espelhos, à chegada?… ou de lentes também, antes e à partida?… ou de ângulos de ataque ou de aproximação?… nesse caso está bem.” Faz então sentido pensarmos neste aparelho óptico que produz várias singularidades e, obviamente, deslumbramento, para encontrarmos o fio à meada.
viagem pela África do Sul, 2009viagem pela África do Sul, 2009
Imagens
Na exposição os textos dialogam com as fotografias escolhidas (alguns excertos de “Desmedida” ecoam na voz do seu autor entre as imagens do Brasil). Focamos as crónicas do povo kuvale: paisagens, mulheres, bois, flora, casas, momentos em que a comunidade reúne e nos ajudam a ver “como é o mundo na sua perspectiva de pastores do sul de Angola.” Com eles coexistimos e são participantes no presente, o que os liberta, pela proximidade, de qualquer laivo de exotismo. Ruy Duarte sabe bem que qualquer assunto, se mostrado no regime da “diferença”, coloca-se num mundo culturalmente hierarquizado. Transparece neste tratamento uma visão horizontal, em que as sociedades modernas, inclusive economicamente, teriam muito a aprender com o sistema económico dos povos nómadas. Assim se apela a uma irremediável cumplicidade com o observado “enquanto súbdito de um poder comum.”
Nas fotografias, tal como na escrita, detém-se no pormenor da luz e cor, da pedra ou tronco. São paisagens propícias, um céu com pássaros, um arco à entrada do deserto, grandes espaços que se investem de imponência que não nos esmagam porque, de novo, o ângulo do olhar ensimesmado é próximo.
Tal como o cinema recorre à literatura, os seus livros recorrem à linguagem cinematográfica. Parece escrever como quem faz a répèrage para depois filmar. A sua poética viaja em vários suportes, como no caso dos pastores do sul que estão presentes em qualquer dos materiais produzidos. De novo Mega Ferreira: “RDC tem vindo a reinventar uma identidade angolana a partir das suas investigações, criando um território mítico/mágico (o Sudoeste de Angola), que é espaço de representação dominante de uma obra inconfundível.” José Eduardo Agualusa também identifica como originalidade, além da qualidade intrínseca de toda a sua obra, este objecto obsessivo - o Sul do país e as populações de etnia kuvale. O escritor conta-nos que no contexto da literatura angolana “só Ana Paula Tavares, na poesia, manifesta um interesse semelhante pelas culturas não urbanas.” É também desta “compreensão complexa de Angola, que combate os hegemonismos nacionalistas, no interesse de reivindicar uma nação pluricultural e com reconhecimento de minorias culturais” como explica Fernandes Dias, que resulta o trabalho cinematográfico.
Filmes como “Uma Festa para Viver”, “É a Vez da Voz do Povo - Faz Lá Coragem”, “O Deserto e os Mucubais” (1976), “Presente Angolano, Tempo Mumuíla” (1979), participam do acontecer do país. O antropólogo Nuno Porto conta sobre esta sua “maneira de construir narrativas fílmicas que envolve directamente os sujeitos na sua fabricação (por oposição a um realizador que fosse omnisciente e se colocasse para lá das actividades das pessoas que está a filmar). Os filmes colocam um realizador em diálogo com as pessoas. A acção vai avançando no ritmo delas tornando-se quase uma forma de colaboração.”
As reflexões sobre cinema de Ruy Duarte no livro “A Câmara Escrita e a coisa dita” direccionam-se contra um cinema que se preocupa em preservar um mundo em desaparecimento, cristalizado em nostalgia, como etnográfico, defendendo um mundo que, ao invés, se transforma. Defende que deve o “filme ser válido como cinema, útil como referência e fiel como testemunho.” E é assim que os filmes materializam a preocupação estética aliada à consciência política, transversal à sua obra. Nuno Porto refere que “Nelisita” (1982) “permite comentar a situação de Angola contemporânea da realização do filme, a partir do ponto de vista dos Nyaneka. Neste sentido, o filme mostra como o Estado é apercebido localmente, de um modo ‘poeticamente eficaz’”.
A convite do Paulo Branco, foi júri do European Film Festival do Estoril em 2007 e convidado do Dockanema, Maputo em 2009. Mas a actividade de realizador tem estado suspensa. Finalmente tem sido possível reencontrar o mundo imagético de RDC, a oportunidade de visionar filmes que há muito se perguntava como e onde ver, agora com cópias restauradas num acordo entre a Tóbis e a Cinemateca Angolana.

no filme Nelisitano filme Nelisita
Pensar a obra
Na escrita o movimento é também o de dar a ver, o rigor do detalhe, com aquela lucidez de análise que mostra o procedimento, esse seu modo de acrescentar parêntesis interrompendo-se para revelar-se (“narrativa em permanente suspeita de si mesma”, como diz o próprio), sem nunca perder a confiança e consistência que permite “reencontrar a sanidade e assim ver com caleidoscópica clareza a complexidade dos trânsitos culturais em que vivemos”, escreve outro antropólogo, Miguel Vale de Almeida.
Além do que se vai debater e se escreveu, é importante trazer esta obra singular para o mundo académico. Manuela Ribeiro Sanches, especialista em estudos pós-coloniais, do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa, explica que o autor “não faz parte do ‘canône’ dos estudos pós-coloniais mas encerra temas centrais para esta orientação, tais como a perspectiva crítica sobre noções desenvolvimentistas, as narrativas do progresso, a crítica do Estado-nação a partir de outras micro-histórias que este tem silenciado”. É uma obra que exige disponibildade e profundidade, e pensa agora incluí-lo no próximo semestre.
São as suas múltiplas perspectivas a contrariar a visão omnisciente e o modo binário de pensar o mundo que também o inserem no pensamento pós-colonial. É a sua receptividade para estar atento ao que o lugar para onde viaja lhe oferece. A professora destaca então as narrativas de viagem, as tais entre a literatura e antropologia, que convocam a oralidade e a visão. Viagens não só entre lugares, mas entre livros, entre as sociedades tradicionais e modernas, entre centros e periferias. Viagem do mundo dos sentidos, também filosóficas e espirituais, onde Ruy Duarte de Carvalho deixa na paisagem o eco daquele que dá a ver. Um instrumento de percepção que advém da emoção (ou a subjectividade que enriqueceu a antropologia). Escola francesa? Sê-lo-á, mas muito seu.

Escolher o deserto

Ao dramaturgo Rui Guilherme Lopes, que em 2003 adaptou (tentando manter a estrutura original) o livro “Vou lá visitar pastores” para uma encenação e interpretação de Manuel Wiborg, agora reposta, fascinou-o “aquela dedicação, o cuidado com que eram apontados detalhes, mas com que ao mesmo tempo se pedia, ou enunciava, a atenção, uma atenção especial para com aquelas pessoas”.
Em “Escolher o deserto”, título do texto do também antropólogo e poeta Luís Quintais, escreve-se que o deserto é  “a geografia de auto-percepção sem fim que o silêncio reclama” e “aquele que procura o deserto, aquele que reclama a escassez e o silêncio” tem de conhecer-se a si, do corpo para o mundo. Ruy Duarte de Carvalho, que se tem dado a “um exaustivo labor” nesse auto-conhecimento de dentro e fora, dá-nos a ver a reunião das tantas ramificações e a arrumação da hibridez, mas dependerá do ângulo em que se vai colocando o caleidoscópio. Trabalho de sobra para nós também.
A motivação de sempre para o exaustivo labor? “Existir obriga a ser… e cada um vai tentando ser como acha que sim e acabando sendo como afinal é mesmo,” responde-nos o artista que, no final, é na condição de cidadão comum que gosta de ser apreciado e levado a sério.

por Marta Lança
Ruy Duarte de Carvalho | 18 Maio 2010 | África Austral, angola, cinema, Literatura, pastores, Ruy Duarte de Carvalho, viagem