Mário Bastos, temos novo realizador em Angola!

rodagem de 'Nos Trilhos da Independência' rodagem de 'Nos Trilhos da Independência' Há pessoas que sabem, desde logo, qual é o seu caminho, e não perdem tempo com grandes derivas, o que ajuda a consolidar um percurso numa área desde cedo. Mário Bastos, 24 anos, nascido e criado em Luanda, dedica-se a contar estórias em imagens.

No primeiro festival de cinema (FicLuanda 2008) ganhou um dos mais prestigiados prémios, o Prémio Cidade de Luanda. O júri decidiu, por unanimidade, atribuí-lo ao jovem realizador angolano pelo seu filme Kiari: “pela visível demonstração de talento e pela perspectiva de um futuro promissor, não só a nível pessoal, mas também para o seu país”. Foram estas palavras do júri e a estatueta entregue pelo vice-governador da cidade, Bento Soyto, que fizeram a alegria de Mário Bastos e das pessoas que acreditam no seu talento e persistência.

Começou a tirar fotografias aos 12 anos, mal lhe ofereceram a primeira máquina (que ainda conserva), e chegou a ganhar vários prémios. Victório Henriques, dos irmãos Henriques, uma referência “old school do cinema angolano, filmavam a guerra em película” conta Mário Bastos para explicar o sentido dessa atribuição, que ensinava fotografia e vídeo na escola portuguesa, apercebeu-se daquela paixão e o jovem começou a fazer trabalhos com o mestre. “Faço fotografia documental, não de estúdio nem encenada ou com modelos, e gosto de criar estórias daquelas personagens (é o que mais gosto de escrever: a biografia das personagens)”. O Vítor Henriques disse-lhe que isso de escrever e criar estórias se ligava à imagem em movimento, logo, cinema. Com esta descoberta ficou-lhe o bichinho do cinema. “Pus na cabeça que ia estudar cinema e lá parti para os EUA”. Foi com esta convicção que rumou à cidade de Nova Iorque, atrás do seu sonho, como tantos outros ali aportados.

Aí frequentou a E.F Internacional Language School, estagiou numa produtora e começou a colaborar com estudantes da New York Film Academy (NYFA) onde em 2006 se formou no curso de realização, um curso bastante técnico que lhe valeu esta curta-metragem premiada. Em 2010 terminou a sua licenciatura em realização para cinema e televisão da Universidade de Academia de Artes de São Francisco na Califórnia, EUA e regressou à sua Luanda, cheio de energia e pragmatismo.

Kiari

Já tinha feito duas curtas-metragens: Saudade, que ganhou um prémio nos EUA (ver aqui) e The Room que, devido a problemas técnicos, não gosta muito de mostrar. Esta terceira, de nome Kiari, surge no contexto do curso na Academia de Nova Iorque. A escola não obrigava a fazer um filme, podia ser só uma cena. Mas como o Mário já conhecia muita gente do cinema independente em Nova Iorque, e trabalhara em curtas antes até de entrar na escola (desde carregar cabos a trazer cafés), foi conhecendo pessoas que lhe prometeram apoio quando chegasse a sua altura de filmar. O Kiari contou assim com três colegas de escola e o resto eram profissionais de fora.

A experiência da vida influencia-o como realizador, como não? “Quando eu era pequeno havia uma pessoa chegada que eu admirava muito, quando me apercebi que essa pessoa tinha defeitos como qualquer ser humano descobri que devia pensar mais naquilo que eu queria do que tentar agradá-la. Para não fazer um filme biográfico arranjei personagens, uma criança de 12 anos e, como nos EUA estava muito na moda os dramas de droga ou mulheres à volta de jogadores de basquetebol, o ídolo da personagem era um basquetebolista”. Kiari conta a estória de um rapaz que se prepara para receber um autógrafo do seu jogador favorito, Payton Louis, e tem uma desilusão com a sua  conduta, percebendo que não existem heróis. É um filme sobre a perda da inocência e a emancipação que determina a frase: “segue o teu sonho, não sigas o teu herói.”

Em 2008, Mário Bastos foi vencedor na categoria de melhor curta-metragem do Show Of Your Shorts Film Festival (Hollywood, CA, USA/Fevereiro 2008), com esta curta-metragem. Kiari esteve ainda na selecção oficial em festivais como: Black Earth Film Festival, San Diego Film Festival, Reel HeART International Film Festival e Washington D.C Independent Film Festival.

cena de 'Alambamento' 2009cena de 'Alambamento' 2009

Alambamento

A sua curta-metragem mais recente chama-se Alambamento e foi filmada em Luanda durante o cacimbo de 2009, tendo procurado apoios por sua iniciativa (juntamente com o produtor angolano Jorge Cohen e Hassan Said). Espera vê-la agora no circuito dos festivais internacionais. Deixamos aqui a sinopse para matar a curiosidade dos leitores: “O dia de entrega de Alambamento por Matias ao pai da sua namorada é interrompido por um acidente, na complicada Ilha de Luanda, que vai por à prova até onde ele está disposto a ir pelo seu amor.”

cena de 'Alambamento' 2009cena de 'Alambamento' 2009

Uma nova geração do cinema angolano?

Depois da experiência em S. Francisco, nos EUA, onde acabou a sua segunda formação em Cinema e Televisão na Universidade de Artes de São Francisco, “um curso mais teórico, de belas artes com especialização em cinema e televisão”, possui agora ferramentas para contribuir para a dinamização do cinema angolano. E foi assim, na leva de uma nova geração e empenho, que surgiu a produtora Geração 80 à qual Mário, e os seus companheiros Jorge Cohen, Kamy e Tchiloia Lara, deram arranque em Luanda. Estão a trabalhar no projecto Nos Trilhos da Independência, um documentário de grande urgência e importância sobre os combatentes anti-coloniais e nacionalistas, recolhendo depoimentos sobre os acontecimentos até 1975, nas várias perspectivas e de norte a sul de Angola. Preparam outros projectos em co-produção com o Brasil e Portugal e ideias na manga é que não hão de faltar.

Para o jovem realizador as prioridades para estimular a produção audiovisual nacional são a lei do cinema e a prática do mecenato cultural. “No Brasil as longas-metragens são apoiadas por empresas petrolíferas, que é o que não falta aqui, como muitas empresas querem apoiar, se houver contrapartidas muito melhor.” Considera a formação uma peça-chave para consolidar referências cinematográficas: “fala-se muito nas novas tendências no audiovisual angolano, deve-se apoiar, claro, mas não lhes podemos chamar cinema”. Mário Bastos identifica que ainda existe uma cultura muito de “cópia”, nomeadamente no cinema: “são cópias de filmes de acção, existe falta de originalidade, o medo de fazer coisas nossas, achando que não vai ser bem visto mesmo por nós.”  Por tudo isso tem de se incentivar o visionamento de filmes, resgatar a cultura do cinema, ir ao cinema muitas vezes, dinamizar as salas da cidade. “Quem decide os filmes que passam no Belas Shopping? Alguns filmes muito bons ficam só uma semana (é o caso do I’m not there sobre o Bob Dylan)”, devia-se ir apostando em alguns filmes de autor.

Em relação ao Festival de Cinema de Luanda acha que tem de saber chamar as pessoas, “com outdoors, apelos nas universidades, escolas, bares. Podia-se fazer uma das salas de exibição numa escola para atrair os estudantes.” Quanto à programação concorda com o modelo internacional e generalista como o mais indicado para quando se está a iniciar um festival, “depois os festivais vão criando os seus nichos e especialidades, e assim permite que façamos coisas mais diversificadas”.

Mário Bastos vai ainda dar que falar se aproveitar o embalo das oportunidades, a concentração e maturidade das quais já dá algunas provas. E sobretudo desenvolver um olhar e estilo próprios, que é o que está na base dos grandes cineastas. Deseja mostrar Angola ao resto do mundo e com isso contribuir para o desenvolvimento do cinema angolano, nos últimos anos tão fragilizado.

por Marta Lança
Cara a cara | 3 Novembro 2010 | cinema africano, cinema angolano, mário bastos