Filme moçambicano sobre juventude e raptos, entrevista a Mickey Fonseca e Pipas Forjaz

O filme Resgate estreou no dia 18 de Julho, em quatro salas de cinema da cidade de Maputo e, em quinze dias, já ultrapassava os cinco mil espectadores. Nada mau para o meio cinematográfico moçambicano que é actualmente bastante reduzido. Os dois companheiros de trabalho, o realizador e argumentista Mickey Fonseca, e o produtor e director de fotografia António Forjaz (Pipas Forjaz), da Mahla Filmes, não cabem em si de contentes. Observam curiosos o fenómeno social do recordar do interesse pelo cinema em geral, e, desafio maior, por um filme moçambicano. O mais interessante é mesmo aquilo a que se chama “criação de públicos” e está a acontecer. As pessoas perguntam nas redes sócias “onde ficam os cinemas?”; “onde se compram os bilhetes?”; “que conceito é esse de Nu Metro?” (uma cadeia de cinemas sul-africana que recentemente abriu em Moçambique); “qual o horário dos cinema?”. Apesar das informações estarem todas disponíveis nos canais normais, os dois sócios têm de explicar às pessoas onde são os cinemas, que devem chegar mais cedo para comprar bilhetes e não não perder o início do filme.

Um filme a partir dos raptos que aconteceram em Moçambique, mas sobretudo sobre as duras e precárias condições de vida da juventude moçambicana. E de como a violência se banalizou no país. Uma produção de baixo orçamento, projeto longo e exigente de esforço e dedicação para se concretizar. A persistência que aqui se revela e colhe frutos pode abrir portas para melhorar o cinema africano de língua portuguesa, tanto em termos técnicos, como de viabilidade.

Um filme a partir dos casos de raptos que aconteceram em Moçambique e de uma juventude com duras e precárias condições de vida. E de como a violência se banalizou no país. Uma produção de baixo orçamento, projeto longo e exigente de esforço e dedicação para se concretizar. São filmes com esta peristência que podem abrir portas para melhorar o cinema africano de língua portuguesa, tanto em termos técnicos, como de viabilidade.

Em Portugal, o filme será exibido em duas sessões por dia, de 8 a 14 de agosto, nos cinemas NOS Alvaláxia, Lisboa e no Parque Nascente, no Porto. Um filme que merece mostrar Moçambique actual ao mundo. 

Bruno (Gil Esmael)Bruno (Gil Esmael)

Como está a ser a adesão ao filme? 

Pipas Forjaz (PF) Para além de estarmos a divulgar o nosso filme, estamos a educar um novo público a ir aos cinemas. Fomos quase todos os dias às sessões e constatámos que as pessoas chegam em cima da hora (por não saberem que para comprar bilhete tem que se formar fila) e perdem o princípio do filme. Esse são vários challenges que temos enfrentado nesta nossa aventura de querer mostrar o nosso filme ao público moçambicano. Fizemos entrevistas à saída dos filmes. As reações são incríveis. Outra coisa que nos impressiona é ficarmos a ouvir o público a interagir com o filme e, pelo menos todas as vezes que assisti, em pé ou nas escadas, os espectadores batem palmas quando começam os créditos finais do filme. Isso traz-nos uma alegria tremenda. 

Como surgiu a ideia de fazer o filme onde entrasse a questão dos raptos?

(PF) - Em 2012 conversávamos sobre a longa-metragem que sonhávamos fazer. Tínhamos um esboço de um guião que o Mickey escrevera, mas achávamos que não era o momento ideal para fazermos aquele filme. Estava a haver uma onde de raptos na cidade do Maputo e eu sugeri ao Mickey pensar numa estória em torno dos raptos. E assim nasceu a idea para este filme. De 2012 a 2017 quando rodámos o filme, muita coisa aconteceu e o guião mudou muitas vezes, e foi mudando mesmo durante a filmagem, e depois outra vez durante a edição do filme.

Mickey Fonseca (MF) - Daí para a frente, perdi o controlo várias vezes. Os personagens tomaram conta da estória. Muitas vezes simplesmente escrevia o que eles me diziam. Mas também foi para contar uma estória actual, para que os Moçambicanos se vissem na tela. Para que se criasse diálogo sobre a situação dos raptos, a falta de emprego e outras dificuldades sociais.

Bruno quer ter uma vida honesta depois de sair da prisão, mas as condições económicas e sociais empurram-no para a vida de esquemas e crimes. Que relação estabelece com as oportunidades e estilo de vida da juventude moçambicana?

MF - A juventude moçambicana sente uma pressão imensa pela falta de emprego, de acesso à habitação, fraca inclusão na sociedade, dívidas de água /luz /bancárias, etc… Temos muitos jovens nas cadeias, nas barracas, perdidos no álcool, por falta de oportunidades e de apoio, por causa de amizades erradas, por más decisões que tomam na vida. Existem muitos Brunos metidos em vários tipos de situações/pressões da vida que às vezes os levam ao crime, procurando uma saída rápida. Resgate é uma chamada de atenção para os jovens moçambicanos para o facto de que o crime não compensa. Também serve de chamada de atenção ao governo, para que se empenhe mais na criação de empregos e oportunidades para as camadas jovens, que estão cheias de ideias e força para trabalhar. 

Figuras como o Boss existem na sociedade moçambicana?

MF - Não posso afirmar que existe tal e qual o personagem Boss. O filme é um pouco inspirado no que se passa no nosso dia-a-dia em Moçambique, no que leio nos jornais, oiço nos telejornais e pelas conversas que tenho nas ruas. Com isto, dei um pouco mais de “spice” aos personagens que criei. Boss é um pouco inspirado na nossa realidade e também nos gangsters do cinema francês/italiano actual.

É muito trágico o final, o que quis dizer com toda esta matança? 

MF - A matança foi uma maneira de enfatizar que o crime não compensa… Que está cheio de traições, que quem consideras teus amigos são capazes de se virar contra ti e a tua família. O modo como as personagens morrem tem muito a ver com a traição entre pessoas na vida real. A meu ver, a sociedade moçambicana tornou-se muito gananciosa. O tempo dos favores já se foi, em troca veio o tempo do refresco.

Bruno e Tony (Laquino Fonseca)Bruno e Tony (Laquino Fonseca) A corrupção aumentou, a prostituição também. Hoje em dia vende-se crianças, albinos são cortados aos pedaços, assassinam-se indianos, rapta-se portugueses, ricos, pobres. Tudo em troca de dinheiro. A matança do filme tem tudo a ver com estes episódios que vivemos na nossa sociedade, muitas vezes não resolvidos ou explicados. Hoje em dia, matamos-nos uns aos outros por trocados. Parece que não, mas o crime vai aumentando a cada dia. 

Há pouco protagonismo para as mulheres no filme, apesar do papel da Mia (a actriz Arlete Bombe). Ela tenta proteger a filha e recusa a aceitar a saída do marido, insiste que o melhor é irem para Joanesburgo. É a voz razoável. O que pretendeu com esta personagem?   

MF - A estória centra-se no Bruno, na relação com a Mia e com os amigos. Como acontece na sociedade moçambicana, quis mostrar que, em geral, os homens passam muito mais tempo com os amigos do que com a família. Que essas amizades às vezes nos levam para situações que acabam afectando as nossas relações familiares. Para mim, as mulheres têm um papel fundamental no filme. Elas aparecem em momentos certos da vida do personagem principal, para tentar guiá-lo, mostrar o caminho certo. Elas são as únicas que realmente querem o bem dele e tentam de tudo para que ele perceba isso, mas é ele quem tem que decidir. Mia representa o que a mãe do Bruno havia de querer que ele fizesse (ouvi-la, e ir embora para África do Sul, longe dos amigos do crime). 

Bruno e Mia (Arlete Bombe)Bruno e Mia (Arlete Bombe)É um filme da ação com armas, crime, e num ritmo bem cativante. Como situam este género de filme no contexto do cinema moçambicano e regional (África do Sul, Nigéria etc)?  

No contexto do cinema moçambicano é dos primeiros do género e achamos que virão muito mais, de outros cineastas. Está provado que há mercado para filmes de acção e outros, contando as nossas estórias, com qualidade de produção internacional.  No contexto africano ainda temos muito que trabalhar. Fazer filmes em português tem as suas limitações em termos de audiência, especialmente em África. Os filmes vão para alguns festivais mas nunca chegam a ir para as salas comerciais. Vivemos num continente no qual o inglês é Rei,  e o resto das outras línguas não geram muito interesse. Acredito que co-produções entre países africanos pode ser uma das soluções.

No filme, há décores muito incríveis como a casa da mãe do Bruno e o cinema. A fotografia está muito cuidada. Como descreve o tipo de imagem que quis passar?

Pipas Forjaz (PF)- Sempre fui fã de muitos estilos de cinematografia e não queria me prender a nenhuma em particular. O que queria mesmo era rodar cada sequência no estilo que essa sequência chamava para si. A mesma coisa com a luz do filme. Agora, claro, vendo o filme com um olho mais crítico, vou encontrando planos que deveria ter feito e não fiz. Mas não vejo planos que fiz que não deveria ter feito. Sinto falta de mais alguns ângulos em certas sequências, mas com a limitação de orçamento que tínhamos, acho que não posso reclamar muito. Também sinto que faltam algumas sequências que não filmámos, e faltam algumas sequências que filmámos mas que acabamos por cortar do filme por causa do ritmo da edição ou para tentar manter o filme abaixo dos 100 minutos. No todo, acho que a estória esta compreensível para qualquer público.  

Boss (Rachide Abdul) e Américo (Tomás Bié)Boss (Rachide Abdul) e Américo (Tomás Bié)

 

Fizeram o filme com baixo orçamento e muita persistência. Como são as condições para o audiovisual em Moçambique e como foi a aventura de contornar as adversidades? 

Foi a coisa mais difícil da vida mas ao mesmo tempo a mais gratificante! Continua a ser difícil. Não é fácil produzir um filme independente e depois levá-lo para o circuito de festivais ou salas cinema sem co-produção europeia ou uma distribuidora oficial. Para o filme estar a passar no cinema foi um processo complicado, conseguimos porque fomos persistentes e super teimosos. Por que acreditamos que o povo quer ver o nosso filme, quer ver-se na tela. Estamos agora numa nova batalha, que é levar o filme para Portugal e Angola. Mais uma vez, não temos dinheiro para fazer o que gostaríamos: mandar o actor principal para a estreia em Lisboa mas hey … ao menos o filme vai passar e os moçambicanos, angolanos, guineenses, santomenses, cabo-verdianos, portugueses e outros vão poder ver-nos um pouco, sentir e relacionar-se com a estória e os personagens.  

Como tem sido trabalhar como produtores, manter a produtora, as limitações etc e ao mesmo tempo conseguir fazer os vossos próprios projetos mais de autores?

PF - Quanto ao orçamento do filme. Realmente foi mesmo um sonho que eu e o Mickey tivemos e que fizemos de tudo para o concretizar. Em 2010, depois de produzirmos as nossas curtas-metragens começámos a planear uma longa, não era esta, mas os desafios de produzir eram e são os mesmos para nós. Queríamos fazer um filme independente, nosso, sem interferências, ao nosso ritmo, à nossa maneira. Então desde muito cedo começamos a comprar o nosso próprio equipamento. De 2010 a 201, quando rodámos, comprámos tudo que era necessário para produzir uma longa-metragem independente. E nesse tempo construímos uma equipa de técnicos moçambicanos para trabalhar.

No princípio, fomos nos apetrechando com a parte técnica, as luzes, as câmaras, a maquinaria, os transportes etc… depois começámos a guardar dinheiro para os salários dos técnicos, para a roupa, para o catering, para as locações, para o combustível, isto tudo com dinheiro de centenas de  publicidades que produzimos em sete anos. 

Quando acabámos de filmar ja não tínhamos um tostão. Começámos a editar o filme, e outra vez a trabalhar para conseguir o dinheiro para a pós-produção do filme. Outra vez a poupar em cada produção de cada publicidade que fizemos, para pagar o som e a cor do filme. E, mais uma vez, ficámos sem nada, mas com um filme do qual nos orgulhamos. Valeu a pena. Estamos nesta aventura de sonhar e produzir um filme desde 2010, mas temos que arranjar maneira do próximo não levar tanto tempo. Temos tantas estórias por contar…

Houve espírito de equipa na rodagem e montagem desta filme? 

MF - Sem a crença e dedicação da equipa e os actores, não teríamos Resgate. Apesar de dias difíceis, discussões… O espírito de camaradagem prevaleceu e o gosto por fazer cinema e contar uma estória nossa, sobre a nossa realidade actual fez com que todos dessem o seu máximo.

PF - Quanto à equipa, a nossa equipa. Não teríamos conseguido produzir este filme sem o empenho de toda a equipa. Começando pela Maura Quatorze, que pegou neste filme como se fosse seu. Mas isso sentimos de quase todos. Todos vêem este filme como sendo seu. Da Nilza José (minha companheira) que fez o casting e depois fez o papel da mulher raptada. Do Peter Du Plessis, um director de luz sul-africano que trabalha com a Malha Filmes desde 2010, trabalhou com um salário muito abaixo do normal. O Caulo Rajabo, o seu right hand man no departamento de luz. A Cátia Munguambe que fez sozinha toda a maquilhagem e os efeitos de sangue. Do Pascoal Mate, com a sua grua e dolly, sempre a dar ideias de movimentos. São muitos para estar aqui a falar de cada um.

O que gostariam de acrescentar sobre o projeto e experiência de trabalho?

MF -  Gostaríamos que o filme fosse longe, que fosse visto pelo mundo afora. Que abrisse portas para o cinema africano-lusófono, que criasse interesse no governo moçambicano e sector privado, apostando mais na criação de uma indústria cinematográfica para que possamos contar as nossa estórias e partilhar com o mundo as nossas realidades, as nossas dificuldades, a nossa música, a nossa paixão e orgulho, a nossa cultura. Espero que o filme seja um sucesso em Portugal! Quem sabe os cinemas comerciais comecem a  mostrar mais filmes africanos… 

PF - Em relação ao projecto, quero dizer este foi o mais difícil da minha vida, mas também o que me trouxe mais satisfação. Voltaria a fazer outra vez num piscar de olhos, só que desta vez, faria muita coisa diferente, não cometeria os mesmos erros, provavelmente cometeria outros, mas os mesmos, nunca. Mas se não cometemos os erros não estamos a aprender nada na vida, que é todos os dias é uma lição nova. 

Bruno e MiaBruno e Mia

Qual o percurso internacional que o filme fará? 

Em Moçambique, em Maputo, Matola, Tete, Nampula, Chimoio, em julho e agosto. Vai passar em cinco províncias de Angola, nos cinemas CineMax, em finais de setembro/outubro. Em Portugal em agosto, pouco tempo e em poucos cinemas, mas só o facto de passar em Portugal já é uma grande vitória. Estamos mesmo felizes. Vai ser uma batalha conseguir público português. Há uns meses atrás nem tínhamos essa oportunidade. Temos que fazer o máximo para conseguir divulgar e trazer as pessoas a assistir o nosso filme, qua achamos te tem algum valor de entretenimento, mas também algum valor moral, técnico e artístico. Em termos de festivais, passou no FESPACO Ouagadougou em fevereiro. Também no Festival Cinemas d’Afrique, em Lausanne-Suíça (closing film), no Festival de Hamburgo e no Festival Internacional de Harare, Zimbabué.

por Marta Lança
Afroscreen | 5 Agosto 2019 | ação, amor, cinema, crime, juventude, moçambique, raptos