Música, um veículo de aproximação - entrevista a Celina Pereira

Há muitos anos em Lisboa (o seu Cabo Verde próprio), a cantora caboverdiana dedica-se à educação pela música, num formato de contadora de estórias, divulgando a riqueza e diversidade das cantigas e saberes populares. Nisto, também vai conquistando a auto-estima dos afro-descendentes. Pela sua natureza nómada, a música sempre viajou muito e, nessas trocas e tricas, há uma memória colectiva a conhecer, naquilo que nos une e diferencia. Celina conta-nos, desta vez, a sua estória. 

Cabo Verde da sua infância. Da Boavista para S. Vicente, quais as memórias mais fortes?

São memórias relacionadas com as duas ilhas. Da Boavista, tenho a imagem da ti Júlia a contar-nos estórias: herdei dela e das mulheres da família este abraço colectivo, o hábito de tocar impressões à mesa. De S. Vicente, onde fiz a escola primária e o liceu, guardo a curiosidade, estava sempre a fazer perguntas.

Como descreveria o enquadramento sócio-económico da sua família?

O meu avô era um padre católico, um homem com formação ecléctica. Estudou no liceu de S. Nicolau, os meus tios e o meu pai foram os primeiros estudantes do liceu público, na altura chamava-se Infante D. Henrique. Eu cresci numa família preocupada com o conhecimento, enquanto via pela qual evoluímos. Do lado da minha mãe todos estudaram no liceu. Diziam que queria que estudássemos para ter uma vida melhor que a deles. O meu tio Aristides Pereira (primeiro presidente de Cabo Verde) era assinante do Diário de Notícias que chegava com um mês de atraso, só pelo prazer de se informar e ler. Cresci no meio da música e do saber.

Já havia interesse pela música na sua família?

Informalmente sim, e tinha dois tios compositores (Patrício e Virgínio Pereira), as minhas tias tocavam piano e acompanhavam o meu avó nas missas (compunha para quatro vozes). Infelizmente não encontramos essas partituras. Quatro dos cinco irmãos eram músicos. Nasci com a música, que está nos meus genes, é como respirar, beber água. É uma relação orgânica e espontânea. Com cinco anos já ia cantar na escola da minha irmã. Fui cantora por continuação da vida. Ouço música no carro, em casa, ou estou sempre a cantar.

Acha que a música é uma forma de ganhar sensibilidade para outras culturas, como entendimento complexo do mundo?

Para mim a música, como a educação, é uma maneira de entender os outros, seja instrumental ou por palavras. As vozes dos poetas cantam os quotidianos e emoções e sofrimento dos outros, é um veículo de aproximação.

A Celina tem todo um interesse etno-musicólogo além da fruição da música…

Sim, interessa-me compreender porque existe determinado género. O porquê das mazurcas, contradanças, cantigas de roda, o choro, a esteira, galope, o batuco.

Começou a pesquisa e tentativa de fixar essa memória oral e musical porque sentia que a mesma estava a perder-se?

Comecei com esta curiosidade porque dei conta, enquanto mestiça e ex-colonizada, que havia muitas coisas da minha memória, personalidade e essência cuja razão eu desconhecia. Quero descobrir esta herança que me é ancestralmente transmitida. A minha mestiçagem precisava dessa descoberta.

Através dessa procura terá descoberto também fenómenos históricos e culturais interessantes sobre Cabo Verde…

Sim, por exemplo através da viagem que as músicas fazem. As cantigas de roda são parte da nossa identidade que se está a perder. Em algumas escolas de S. Vicente e da Praia já há uma preocupação com o sedimentar a identidade, porque a globalização faz dissipar estas referência imperdíveis. As canções vieram do Cancioneiro Popular Português, são europeias e não africanas, mas chegaram a Cabo Verde, Angola, Moçambique e Brasil e transformaram-se. Por exemplo, todos cantámos na escola o “Que linda falua que lá lá vem”. É uma viagem identitária a das cantigas. Há muitas coisas que nos separam, mas há muitas outras que nos unem, e a música é uma forma de união e de memória colectiva, junção dos nossos povos para o bem e para o mal.

É preciso destacar as diferenças também…

Há um fenómeno de aculturação com as cantigas de roda. Mas é interessante ver como se transformam, como se acrescenta um verso sob a forma sarcástica do humor crioulo. Quando reflicto sobre essas coisas encontro pontos de resistência cultural e especificidades.

 

Como se auxilia para a pesquisa da fixação da memória oral?

Leio muito. Luís Romano é uma das minhas fontes. Era um engenheiro químico preocupado com o estado identitário de Cabo Verde na renascença de uma civilização do Atlântico Médio. Foi das primeiras vozes a mostrar o valor da cultura popular, recolheu contos tradicionais, lengalengas cantigas de roda, dito populares, ditados. O António Carreira, e a revista Claridade tinham muita coisa sobre as lantunas, os batuques, os contos tradicionais. Também tenho ouvido pessoas nos Estados Unidos, gente de S. Antão que morava em S. Vicente, a mãe do Leão Lopes, a Teresa Lopes da Silva.

Este tipo de trabalho tem sido bem acolhido em Cabo Verde, há interesse político na preservação do património de histórias e cantigas?

Houve mais atenção nos EUA, fui logo convidada por professores em Boston para jardins de infância, escolas e liceus. A necessidade de levar às escolas prende-se também com o programa bilingue que eles têm. Depois Itália, Holanda, Portugal e, por fim, Cabo Verde.

As comunidades diaspóricas talvez se interessem mais pelo universo cultural por estarem mais sedentas de ligações e de conhecimento sobre Cabo Verde.

O meu primeiro prémio foi em Itália. E recebi a medalha de mérito do Jorge Sampaio. É normal ser de fora para dentro, pois moro em Portugal. Como a escritora portuguesa Agustina, digo “não me dêem prémios de mérito mas cheques para pagar as dívidas.”

Depois do liceu em S. Vicente veio para Portugal sozinha?

Fui estudar para Viseu, cumprir o sonho dos meus pais da educação formal. Fiz a Escola Superior de Educação em ciências de educação, dei aulas em Santo Antão, fui locutora de rádio em S. Vicente, trabalhei numa empresa de pesca do Mindelo, depois quis fazer um curso de línguas e vim para Portugal estudar e trabalha  em 1970, e fui ficando, também por razões de coração.

E como viveu a Independência?

Estava em Lisboa. Trabalhava na TAP, meti-me num avião militar e fui conhecer a ilha de Santiago em 1975. Descobri o batuco e um instrumento que me dá muito gozo hoje em dia: o Korá. Foi o despertar para as minhas mais profundas raízes africanas.

Cabo Verde nesse momento precisava de quadros, não pensou em ir para ficar?

Eu queria ir para lá mas estava casada com um angolano, que tinha problemas de saúde. Fomos ficando em Portugal, percebi que existe um Cabo Verde em Portugal onde posso exercer a minha cidadania e confirmar que estou bem onde há caboverdianos, não tem de ser nas ilhas, pode ser na Cova da Moura ou na Pedreira dos Húngaros. Comecei o programa intercultural na Escola nº 1 de Algés com uma população 50 por cento multiétnica, na Nuno Álvares da Arrentela ou qualquer outra na margem sul. Este é o ano dos afro-descendentes mas, antes da Europa se ter lembrado disso, já há muitos anos que ando a cumprir essa sensibilização.

O que tem aprendido com essa experiência dos afro-descendentes?

Os jovens fazem uma afirmação do seu espaço de pertença. A alfabetização é em português, então, quando numa acção conto histórias e utilizo o multilinguismo - no livro repito frases em inglês, francês - quando chega a vez do crioulo eles às vezes têm vergonha de dizer que sabem. Há uma enorme necessidade de afirmação daquele espaço cultural e de memória que é a língua “lá de casa”. Há procura mas tem de ser sistemático e devia servir melhor essa escolaridade. Os Ministérios da cultura e educação ainda não têm isso como prioridade.

Na integração dos programas de línguas e literaturas portuguesas sente que já há mais sensibilidade para estas variantes?

Ainda é tudo na base da carolice, não há directivas. Penso que os responsáveis têm de tomar contar dessas franjas da população que são o futuro do país. A multiculturalidade é uma realidade, a interculturalidade (que exige o convívio) ainda não existe, é preciso dar-se importância para lá deste eixo do Minho ao Algarve. Há umas experiências muito boas como a Orquestra Geração, na Amadora, nas escolas de formação de professores e nas próprias escolas, mas estamos em atraso, o programa bilingue de educação nos EUA existe desde os anos 70, na Holanda desde os anos 80 e aqui…

O que é para si a cultura lusófona?

Em Portugal ainda é mais uma bandeira política do que real, ainda interessa mais aos políticos e aos jogos económicos; se existisse já havia passaporte da lusofonia e uma preocupação com as culturas lusófonas. Lusofonia é uma palavra de moda, uma bandeira política mas, como detentora de duas línguas e ser mestiço que sou, é também a minha vida.

Mas como atravessa a cultura?

Estou-me a lembrar que o Eugénio Tavares, pai da língua caboverdiana escrita, também escrevia em português. No tempo colonial o cantor Fernando Quejas, por imposição das editoras, teve de cantar em português. O crioulo não tinha estatuto da língua. Esta coisa da lusofonia já era cultivada por todos, desde o século passado.

O que pode ser interessante na lusofonia?

Para mim o que pode ser interessante é não se trazer para a escola só o Camões e Pessoa, mas também Baltazar Lopes, Jorge Barbosa, Alda Lara e Carlos Drummond de Andrade. Ainda há muita guetização, estas culturas não podem aparecer só nos pacotes de festivais lusófonos e na RTP África. Mas a sociedade portuguesa tem necessidade de arrumar as coisas desta forma. Há um sentimento de dominação, de exclusão do outro e resistências nas mentes que provêm da prática da escravatura. É preciso libertar as mentalidades desse sistema dominador e aceitar o outro.

Como se só existisse tolerância de acordo com regras determinadas pelos portugueses. Quais são as suas estratégias para combater isso?

Continuar o trabalho de intervenção com as crianças e jovens e manter este orgulho da minha cultura e da minha africanidade.

Como colabora para a auto-estima dessas crianças?

Há um deserto de intervenção sócio-cultural na qual temos de continuar a intervir. Sou fruto de uma família onde a partilha e a solidariedade eram muito reais, dar sem receber tem de acontecer nas nossas vidas, só assim somos cidadãos. Sempre estive ligada ao associativismo, fui fundadora da Casa de Cabo Verde, que deu origem à Associação Caboverdiana. Falta esta competência a muitos artistas.

Como cantora como vê a sua carreira?

Canto em todo o lado. Estive agora na Bienal Lusófona de Odivelas, vou estar no Onda Jazz, tenho trabalho a ser reeditado, o meu novo livro em curso. Gosto de trabalhar em colaboração pois ajuda a descobrir coisas novas. E fazer cruzamentos, música brasileira com mornas e fados.

Mora perto do mar para amortizar as saudades de Cabo Verde?

Escolhi morar na margem sul por causa do mar e da família. Tinha quatro anos e estava sempre doente, um médico veio à Boavista, e os meus pais alugaram uma casa, no Sal-Rei, junto ao mar porque precisava de iodo, e continuo a precisar da música do mar. O mar é música. Vou muitas vezes comer peixinho grelhado e ao fim do dia caracóis e ouvir o mar.

 

fotografias de Marta Lança 

por Marta Lança
Cara a cara | 10 Agosto 2011 | Celina Pereira, música caboverdiana