Amílcar Cabral foi assassinado há 40 anos - conversas sobre Amílcar

Amílcar Cabral foi assassinado há 40 anos - conversas sobre Amílcar Pacientemente: como convenceu os pais, mesmo os de religião muçulmana, que as filhas, como os filhos, deveriam estudar. Como conseguiu impor, nos Comités das áreas libertadas, a presença de mulheres. Mesmo se teve de aceitar que as combatentes se limitassem à defesa das tabancas, na milícia. Foi dele, do engenheiro agrónomo conhecedor dos diferentes povos da Guiné, que veio a palavra de ordem que se seguiu ao massacre de Pidjiquiti: deslocar a luta para o campo, proceder à mobilização dos camponeses. Uma palavra de ordem que, aquando do seu assassinato, a 20 de Janeiro de 1973, estava à beira de dar os seus frutos, com a proclamação da independência.

21.01.2013 | por Diana Andringa

Para acabar de vez com a Lusofonia

Para acabar de vez com a Lusofonia A lusofonia é a última marca de um império que já não existe. E o último impedimento a um trabalho adulto sobre as múltiplas identidades dos países que falam português. (...) Os portugueses não têm nenhum atributo de excepcionalidade mítica. Não precisamos de uma diplomacia lusófona; do que precisamos é de uma diplomacia de direitos e de igualdades. Este é o momento de conhecer e dar visibilidade às produções culturais e artísticas, às literaturas e aos trabalhos científicos destes países por aquilo que valem, por serem incontornáveis no mundo global, por conterem, até, uma estranheza que é, porventura, consequência da morte dessa mesma lusofonia.

18.01.2013 | por António Pinto Ribeiro

Temporizar a escrita, "Manual para incendiários" de L.C. Patraquim

Temporizar a escrita, "Manual para incendiários" de L.C. Patraquim Crónicas da língua e da fala, crónicas da literatura e da leitura, crónicas da violência política, crónicas do rio que transborda, crónicas da viagem, crónicas da crónica e do cronista – todas elas cientes do vínculo precário que criam com o mundo, tematizando essa consciência da temporização que se escoa no interior da escrita, que olha para si própria não como máquina de captar e aprisionar o tempo mas como expressão e produto da temporalidade que tenta apreender.

05.01.2013 | por Manuel Portela

Crowdfunding BUALA - obrigada a todos!!!!

Crowdfunding BUALA - obrigada a todos!!!! Como sabem engendrámos uma campanha no Massivemov de angariação de fundos para produzir a nossa primeira publicação em papel. Durante o ano de 2013 a equipa BUALA vai trabalhar, pela primeira vez, numa temática específica, o Corpo, sem abandonar o trabalho de arquivo de materiais. A campanha correu muito bem mostrando a grande adesão e generosidade dos leitores, colaboradores, instituições parceiras e sobretudo amigos leais, os que mais nos contagiam para levar adiante projectos e vontades!

04.01.2013 | por Buala

Guimarães Rosa lido por africanos: impactos da ficção rosiana nas literaturas de Angola e Moçambique

Guimarães Rosa lido por africanos: impactos da ficção rosiana nas literaturas de Angola e Moçambique Este artigo mostra como a ficção de Guimarães Rosa foi lida por escritores de Angola e Moçambique, mais especificamente por Luandino Vieira, Ruy Duarte de Carvalho e Mia Couto, atentando para os impactos da obra rosiana na produção desses escritores. Pretendo também destacar a dimensão política das estratégias poético-ficcionais rosianas, percebida de imediato pelos mencionados escritores africanos.

14.12.2012 | por Anita Martins de Moraes

África na literatura - romantismo?

África na literatura - romantismo? África tem um lugar especial na consciência ocidental. Muitos académicos defendem que o olhar europeu, de superioridade, sobre África, não mudou significativamente nos últimos tempos. O que em África sempre fascinou grande parte dos ocidentais é a diferença, a todos os níveis. Diferença nos costumes, por exemplo. Como se África tivesse a sua ordem própria, nos antípodas da que muitos ocidentais prescreveriam como normal ou certa, e que só faz sentido neste continente. Esta ideia está muito presente, por exemplo, em Coração das Trevas, de Joseph Conrad, um tratado sobre a queda de um homem civilizado, Marlow, que cede às leis da selva, e que se torna um facínora nas florestas do Congo.

26.11.2012 | por António Tomás

Vinhos da África do Sul

Vinhos da África do Sul O fim do apartheid há 18 anos acabou, consequentemente, com o boicote económico ao país por razões políticas, e a indústria do vinho recomeçou e retomou o contacto com o mundo exterior assegurando lugar na corrida aos bons vinhos. Com novas regiões vinícolas que advêm de uma capacidade de risco ao plantar-se vinhas a ver o que dá, a África do Sul tenta consolidar-se no mercado e leva vantagem ao explorar terrenos africanos que, além da Argélia, Marrocos e Tunísia, não têm muito mais concorrentes no mundo do vinho.

26.11.2012 | por Buala

O colonialismo não terminou no Médio Oriente!

O colonialismo não terminou no Médio Oriente! Deste modo, longe de estarmos perante continuidades coloniais característicos das ex-colónias europeias - ou o que o peruano Anibal Quijano (1992) apelidou de colonialidade do poder e do saber, assiste-se a um colonialismo israelita que, ao contrário do que se apregoa, não se fundamenta na defesa e segurança do Estado perante os vizinhos e «inimigos» árabes ou no alargamento do seu território, mas no domínio regional de um recurso natural ainda mais precioso do que o petróleo e que poderá alimentar a emergência de novos regimes coloniais no século XXI: a Água.

20.11.2012 | por Odair Bartolomeu Varela

CORPO em revista, novo projecto BUALA

CORPO em revista, novo projecto BUALA Pensar sobre o corpo é uma necessidade estratégica, uma vontade de questionar os processos normativos de exclusão, naturalização e produção, pôr em movimento novas formas de estar no mundo, novos afectos, abrir o horizonte do pensamento sobre o corpo. A ideia é insistir menos na política identitária ou nas pretensões identitárias (e sua subversão enganadora) e mais na precariedade e nas suas distribuições da diferença e da exploração nos mapas do poder contemporâneo.

06.11.2012 | por Buala

"Luso fonia"?

"Não é o desígnio, mas o que se faz com o desígnio"

04.11.2012 | por Soraia Simões

Depois da eleição de Obama, é mais difícil falar sobre raça na América

Depois da eleição de Obama, é mais difícil falar sobre raça na América Na sua campanha presidencial há quatro anos, Barack Obama disse que a questão racial não devia ser ignorada. Mas como Presidente, tem falado sobre o tema de forma episódica e só depois de ter sido publicamente pressionado. Qualquer menção de raça vinda da Casa Branca cria uma tempestade porque a América branca votou nele para acabar de vez com a conversa sobre a barreira racial. Esse é um dos maiores paradoxos da sua eleição: a raça tornou-se um tabu – para ele.

11.10.2012 | por Kathleen Gomes

Mauritânia: entre o Magreb e a África Subsahariana (parte 2)

Mauritânia: entre o Magreb e a África Subsahariana (parte 2) É objecto de incertezas e de discussão académica quem terão sido os primeiros habitantes do amplo território mauritano. Segundo Marchesin (1992), os pioneiros poderão ter sido os agricultores negros Bafur que foram sendo empurrados para o sul tanto pela seca existente no Sahara, como pela penetração na região dos Sanhadja, nómadas cameleiros, entre os séculos II e III, mas esta teoria constituirá uma hipótese, a par com a possibilidade dos primeiros habitantes terem sido os judeus, ou os navegadores espanhóis e portugueses.

05.10.2012 | por Joana Lucas

À procura de uma poeta e da esperança angolana

À procura de uma poeta e da esperança angolana “Eu tinha ido visitar Lídia, alojada no apartamento de Paulete, e já não voltei a sair. Os tiros pareciam partir de todo o lado.”, escreve o narrador de “Estação das Chuvas”. “A televisão mostrava imagens da guerra. Miúdos com fitas vermelhas amarradas na testa, walkmans nos ouvidos, pentes de munições cruzados sobre o peito. (...) Lídia não queria ver televisão. Durante aqueles três dias fechou-se no quarto a escrever. (...) Quando os tiros pararam saí com ela. Fomos a pé até à ponta da Ilha, fingindo que não víamos a cidade arruinada pelos últimos confrontos. A loucura rondava em torno, estendia para nós as suas compridas patas de aranha. O cheiro fez-me lembrar o 27 de Maio. A mesma fúria, a mesma vertigem. (...) Na praia não estava ninguém. (...) Os caranguejos tinham morrido todos dentro das suas armaduras transparentes. Peixes brancos olhavam para nós com grandes olhos de água. Lídia agarrou-me a mão: “Que país é este?”

26.09.2012 | por Susana Moreira Marques

O apartheid na África do Sul não morreu

O apartheid na África do Sul não morreu O assassínio de 34 mineiros pela polícia sul-africana, a maioria atingida pelas costas, acaba com a ilusão da democracia pós-apartheid e revela o novo apartheid mundial do qual a África do Sul é modelo tanto histórico como contemporâneo.

24.09.2012 | por John Pilger

O Angolês, uma maneira angolana de falar português

O Angolês, uma maneira angolana de falar português O tempo virá em que o falar do povo angolano há de quebrar os ditames e formalismos impostos pelos gramáticos na Língua Portuguesa. Expressões como “é sou eu que estou aqui; vou trazer este livro no João; aquele senhor que você viste ontem era sou eu; o único que sobrou só sou eu; estão a te chamar no papá; vão te apanhar na polícia; a bebe lhe morderam na casumuna; me dá lá só dinheiro; te encontrei não estavas em casa; bati a tua porta na janela; me faz só um kilapi; me dá só dez kwanza, etc.”, entrarão para sempre no seio da LP. Pois, o centro de gravidade de uma língua encontra-se onde houver maior número de falantes, e o maior número de falantes do LP em Angola está do lado dos iletrados. Estaremos então, sem dúvida, na iminência de presenciar e testemunhar o nascimento do Angolês – uma maneira angolana de falar o Português – que precisará apenas de determinadas condições sociais para se impor.

22.09.2012 | por Francisco Kulikolelwa Edmundo

Manifesto «Lusofóbico», crítica da identidade cultural «lusófona» em Cabo Verde

Manifesto «Lusofóbico», crítica da identidade cultural «lusófona» em Cabo Verde Esta visível ausência do elemento afro-negro, alimentada principalmente por posteriores seguidores do Movimento, contribui para que este adquirisse um carácter puramente cosmético na medida em que se legitimou uma suposta mestiçagem em que a presença branca é assegurada pela propriedade da própria reivindicação da mestiçagem, pela ausência textual dos negros apesar da incómoda presença física, pela presença textual dos indígenas mas cujo genocídio físico e epistémico impede a sua presença carnal permitindo uma incorporação despreocupada dos seus elementos culturais nas produções literárias do Movimento, pois não constituem, de facto, um perigo ou uma ameaça à esta elite literária e académica brasileira da época e da actualidade. Esta elite, apesar de «branca», se diz, ou quer ser, mestiça, utilizando o argumento e a linguagem da mestiçagem, ou da valorização do mestiço.

19.09.2012 | por Odair Bartolomeu Varela

Fragmentos de uma nova História - Zanele Muholi

Fragmentos de uma nova História - Zanele Muholi O continente africano permaneceu esquecido da história da fotografia até à década de 90 do século XX, e só então começa a surgir no cenário internacional ou mais precisamente a fazer-se notar no Ocidente. Entre outros acontecimentos, é neste período que nasce a Bienal de Fotografia de Bamako no Mali, também chamada Encontros Africanos de Fotografia. Esta colecção concentra-se no olhar de algumas das mulheres que participam na Bienal. Uma colecção que se define segundo dois objectivos: colocar a fotografia africana no contexto global - torná-la parte do todo e não parte do resto; e dar visibilidade à fotografia realizada por mulheres africanas. Esta colecção procura destruir as barreiras de uma dupla invisibilidade, olhando as construções narrativas destas mulheres e assim multiplicando as formas de ver, numa tentativa de alargar e ampliar as nossas próprias perspectivas.

14.09.2012 | por Masasam

A luxúria

A luxúria Não é necessário recorrer aos exemplos da luxúria dos ditadores -- que os faz possuir, por exemplo, uma pistola de 9mm em ouro, cujo preço é de 4.000 euros, como a que foi encontrada na posse de Khadafi, ou os cem palácios de Saddam Husseisn no Iraque, construídos de uma maneira fantasticamente sobredimensionada: “(os ditadores) gostam do estilo antigo para parecer uma arquitectura séria mas não apreciam as verdadeiras antiguidades porque não faz um género muito moderno”, diz Peter York em Dictator’s Home. Comportamentos de luxúria como estes encontram-se nas democracias ocidentais e até mesmo em Portugal.

06.09.2012 | por António Pinto Ribeiro

Moçambique: a maldição da abundância?

Moçambique: a maldição da abundância? A “maldição da abundância” é uma expressão usada para caracterizar os riscos que correm os países pobres onde se descobrem recursos naturais objeto de cobiça internacional. Volto da visita que acabo de fazer a Moçambique com uma inquietação sobre a "orgia dos recursos naturais" que impacta o país.

23.08.2012 | por Boaventura de Sousa Santos

A Rainha Nzinga Mbandi. Historia, Memoria e Mito

A Rainha Nzinga Mbandi. Historia, Memoria e Mito Dona Ana de Sousa ou Ngola Ana Nzinga Mbande ou Rainha Ginga (c. 1583 — Matamba, 17 de dezembro de 1663) foi uma rainha ("Ngola") dos reinos do Ndongo e de Matamba, no Sudoeste de África, no século XVII. O seu título real na língua quimbundo - "Ngola" -, foi o nome utilizado pelos portugueses para denominar aquela região (Angola).Warrior Queen, uma das Soberanas que marcou, indelevelmente, a evolução de África mercantilizada, tornando-se uma personagem de referência nas letras e artes assim que nas ciências humanas e sociais da Europa ocidental, logo no século XVIII; uma tradição mítica nas comunidades afro-americanas e afro-caribenhas.

08.08.2012 | por colectivo