Sim, europeus e afro-descendentes

Sim, europeus e afro-descendentes Salvo exceções de pioneirismo, só nos últimos anos se começa a ouvir e ler o prefixo “afro” nos diferentes fóruns europeus, com uma conotação positiva: das artes à academia, do associativismo e ativismo aos média e às redes sociais, das associações locais comunitárias às políticas europeias.

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10.12.2018 | por Mónica V. Silva

Quando nem sequer os mortos veem o fim da guerra

Quando nem sequer os mortos veem o fim da guerra Na obra Soliloquios en Inglaterra e Soliloquios Posteriores, escrita entre 1914 e 1921, o filósofo espanhol George Santayana disse: “Apenas os mortos viram o fim da guerra”. De facto, quando as guerras terminam, nem tudo aquilo que elas destruíram, criaram, violentaram e profanaram parece ter fim. Contudo, entre os muitos restos, destroços e heranças que as guerras vão deixando, e que inevitavelmente contaminam várias gerações, por vezes nem sequer os mortos parecem ver o seu fim.

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17.11.2018 | por Fátima da Cruz Rodrigues

Mitologia e memória

Mitologia e memória O mito, ao mesmo tempo que dissimula também revela a ideologia em que se inscreve. É oportuno lembrar que a memória também se configura como um simulacro onde a questão não é a do falso ou do verdadeiro, mas a do acesso subjetivo, o mais amplo possível, à fruição do tempo passado.

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12.11.2018 | por Roberto Vecchi

Liberdade /diáspora a cronologia universal da descolonização da História

Liberdade /diáspora a cronologia universal da descolonização da História A presença assertiva, quase arrogante, e o dandismo performado pelos/as personagens retratados/as, demarcam as fotografias de Diop de uma qualquer humilde dignidade, expressão imagética da subjetividade colonizada que o racismo consente. Trata-se, sim, da mimese (mimicry) de que nos falava Homi Bhabha, aquela em que o fracasso na identificação narcísica com os modos de representação do colonizador, o carácter sempre inapropriado dos sujeitos coloniais, cria uma ambivalência que, num espelho cómico e trocista, perturba a autoridade encenada pelo discurso colonial.

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04.11.2018 | por Bruno Sena Martins

A dissociação entre a verdade e a memória

A dissociação entre a verdade e a memória Quando a história e o dever de memória não são tratados com o devido interesse, a verdade instala-se facilmente como escolha pessoal. Uma vez acomodadas no discurso do poder, as “verdades” tornam-se impunes; são muitas vezes relevadas e raramente condenadas, apesar de veicularem um discurso de ódio. O ódio foi normalizado e propulsionou um radicalismo onde o “bem” luta contra o “mal”. O mal sendo mais uma vez o diferente, o Outro. Um discurso que não humanize o Outro autoriza a barbárie.

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26.10.2018 | por Fernanda Vilar

A tessitura da memória

A tessitura da memória Obviamente, a pintura de Kaphar seria uma denúncia eloquente do racismo, mesmo se vista isoladamente e desprovida de qualquer contexto. Justaposta à fotografia de Papf, no entanto, ela assume uma outra camada importante, pois serve para lembrar e testemunhar a violência e a crueldade da escravidão até mesmo nos espaços mais íntimos e domésticos.

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18.10.2018 | por Paulo de Medeiros

Esquecer em português

Esquecer em português É um facto: as sociedades esquecem. É um processo necessário à criação de identidades coletivas, de solidariedades políticas, de projetos de governação da sociedade, de sobrevivência e de reinício coletivo após guerras civis ou outros eventos responsáveis por ruturas.

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02.10.2018 | por Hélia Santos

Sou filha desse passado, mas sinto que não faço parte dele.

Sou filha desse passado, mas sinto que não faço parte dele. E isso é uma herança do passado colonial. O estereótipo do negro, do negro que não sabe falar bem, do negro que não se veste bem, do negro que não se comporta bem, do negro que não tem estudos, que não lê, não escreve, não pensa. Isto ficou. Essa herança do passado ficou. E eu sou esse passado. Eu nasci por causa desse passado; sou filha desse passado. Sei disso. Mas sinto que não faço parte dele.

Mukanda

26.09.2018 | por Ariana Furtado

"Descobertas" colonialidades da memória

"Descobertas" colonialidades da memória Uma das mais importante descobertas a que o projeto do museu das “Descobertas” poderia conduzir seria, assim, a perceção de que os usos da linguagem não são inocentes e de que a gramática da memória tem sempre muito mais a ver com o presente do que com o passado – a perceção, em suma, de que, em toda esta controvérsia, o que está em questão não e simplesmente o que fomos, mas sim o que somos e, sobretudo, o que queremos ser.

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14.07.2018 | por António Sousa Ribeiro

O encontro nacional dos combatentes: "Talvez nesta cerimónia devessemos ouvir apenas os clarins"

O encontro nacional dos combatentes: "Talvez nesta cerimónia devessemos ouvir apenas os clarins" Quarenta e quatro anos depois do final da Guerra, o 10 de Junho, para os antigos combatentes que o comemoram em Belém, é, acima de tudo, o dia em que se reencontram aqueles que um dia combateram juntos em África para homenagearem os seus companheiros que por lá morreram. Em 2018 este encontro repetiu-se pela 25ª vez. Repetiu-se a cerimónia inter-religiosa. Proferiram-se discursos. Leu-se a mensagem enviada pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa que se encontrava nos Açores a comemorar o outro 10 de junho. Adriano Moreira não discursou, mas encontrava-se entre os convidados de honra que, todos os anos, prestam esta homenagem aos combatentes.

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13.07.2018 | por Fátima da Cruz Rodrigues

Conflitos de memóra : o "bairro africano" de Berlim

Conflitos de memóra : o "bairro africano" de Berlim Este esforço, todavia, só pouco a pouco vai conseguindo trazer o tema à memória pública, no que, sem dúvida, a relutância das instâncias oficiais em tematizar adequadamente este capítulo da história alemã tem uma boa quota-parte de responsabilidade. Em 2016, uma iniciativa parlamentar tendente ao reconhecimento oficial da responsabilidade pelo genocídio dos Herero e Nama, foi rejeitada pela maioria dos deputados. O relatório elaborado pelos “Serviços Científicos” do Bundestag, um órgão com funções de assessoria e emissão de pareceres sobre matérias levadas ao debate parlamentar, concluía, baseando-se numa perspectiva estreitamente jurídica, do ponto de vista da qual apenas são aplicáveis as normas vigentes à época, que as acções do exército alemão não violaram o direito internacional

Cidade

03.07.2018 | por António Sousa Ribeiro

A praça Lumumba em Bruxelas: um lugar de memória controverso

A praça Lumumba em Bruxelas: um lugar de memória controverso Ao fim e ao cabo, a questão da descolonização na cidade de Bruxelas, e por extensão na Bélgica, possui uma componente geracional inegável. Enquanto as lutas pelo reconhecimento de um outro discurso, afastado da dinâmica paternalista das gestas do rei Leopoldo II e dos benefícios da colonização, provêm essencialmente de homens e mulheres (congoleses e belgo-congoleses) das segundas e terceiras gerações, as reivindicações de quem se recusa a reconhecer a figura de Lumumba como um actor legítimo da história da descolonização são maioritariamente feitas por pessoas que viveram “em carne e osso” a experiência colonial.

Cidade

03.07.2018 | por Felipe Cammaert

De que "legados" falamos nós?

De que "legados" falamos nós? De que passado colonial ou imperial estamos nós a falar? O que sabemos sobre esse passado, longínquo ou bem recente? O que conhecemos, de facto, de aspectos tão fundamentais como a estrutura ocupacional ou de rendimentos, os padrões de consumo, os graus de literacia, as práticas culturais, as opções ideológicas, os níveis de formação e participação política, as políticas de cidadania ou da terra nas antigas sociedades coloniais, em espaços urbanos ou rurais e nos trânsitos entre estes? Mais: o que sabemos sobre a própria descolonização, processo mais amplo e complexo que a mera “transferência do poder”?

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02.06.2018 | por Miguel Bandeira Jerónimo

O impossível museu

O impossível museu Os museus hoje ou são pós-coloniais ou não são nada. O que quer isto dizer? Primeiro que esta posição tem antecedentes: nos efeitos da revolução pós-colonial protagonizada pela negritude, pelas independências, pelo pós-colonialismo nas suas várias expressões e pelo pensamento ameríndio contemporâneo, com um impacto e uma energia intelectual só comparável à revolução coperniciana. Do mesmo modo como não é equacionável fazer um museu da história da ciência que terminasse num planisfério em que o sol e todos os corpos celestes girassem à volta da terra, não é admissível pensar a expansão portuguesa e a europeia dissociadas das narrativas dos ocupados e dos vencidos, dos seus acervos, quando os há, e da sua narrativa sobre a expansão.

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19.05.2018 | por António Pinto Ribeiro

A Argentina e as suas cicatrizes familiares

A Argentina e as suas cicatrizes familiares A família é o objeto opaco e indecifrável o que torna os estudos das memórias privadas um desafio problemático. De fato, como se pode perfurar o diafragma espesso que protege e encobre os passados subjetivos, privados, denegados, afundados como cárceres de grupos afetivos nas regiões mais escuras e profundas do perímetro familiar?

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12.05.2018 | por Roberto Vecchi

Na Europa andam fantasmas coloniais à solta

Na Europa andam fantasmas coloniais à solta A chegada à Europa de grandes contingentes de população, com vivência colonial corporizava a realidade distante dos impérios perdidos e perturbava traumaticamente a narrativa europeia. Estas populações e a história de que eram portadoras denunciavam a relação organicamente imperial europeia e iriam compondo parte das sociedades multiculturais europeias que ocultamente emergiam. A análise dos seus prolongamentos atuais, sob a forma dos "descendentes" e de uma cultura outra, exige-nos a inscrição da violência colonial, pública e privada, na história.

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05.05.2018 | por Margarida Calafate Ribeiro