Cidade ética e constituição da cidadania

Cidade ética e constituição da cidadania O que torna uma cidade verdadeiramente ética? Mais do que uma questão de boa governação ou de inovação tecnológica, este ensaio propõe pensar a cidade como um espaço de constituição da cidadania e de produção do comum. Partindo de autores como Étienne Balibar, Jacques Rancière, Richard Sennett, David Harvey e Saskia Sassen, o texto percorre as transformações da cidade contemporânea — da globalização à smart city, do capitalismo algorítmico ao novo municipalismo — para defender que a eticidade de uma cidade se mede pela sua capacidade de acolher o conflito democrático, ampliar a participação política e tornar visíveis novas formas de cidadania. Entre a reflexão teórica e exemplos como Lisboa, Génova, Barcelona ou Nápoles, o ensaio propõe uma leitura da cidade como um projeto político em permanente construção.

Cidade

13.07.2026 | por Stefano Rota

Passados novos e faíscas

Passados novos e faíscas Mary Shelley, aos 19 anos, disse não. Não é não, criatura. Em pleno século XIX, negou-se a construir no seu romance a ideia de uma mulher sob medida, mulher-encomenda, mulher-troféu. Não satisfeito em criar sua própria história de origem, afinal, com toda a mitologia antropocêntrica, o homem também decidiu criar para si uma mulher, o segundo sexo. Do seu jeito. Que faça o que ele quer, que o faça feliz, sendo isso lá o que ele quiser que seja. Shelley disse não, não, não senhores. Não enquanto o projeto iluminista continuasse articulando a busca do conhecimento da fisiologia humana com o desejo de controle, especialmente no plano reprodutivo.

Afroscreen

11.07.2026 | por Carla Mühlhaus

Património Imortal

Património Imortal As imagens a preto e branco descreviam o processo de conceção, montagem e abertura pública deste museu etnográfico no período pós-independência. As suas primeiras atividades. Albano conhecia as pessoas nas imagens, sabia ainda descrever a funcionalidade de objetos, muitos dos quais hoje desaparecidos, e localizar, no tempo e no espaço, registos de exposições itinerantes. As memórias de Albano davam cor e movimento às imagens, trazendo-as à vida. Demoramos dias, mas, a partir da sua memória, localizamos e descrevemos pessoas, lugares, momentos e objetos etnográficos encontrados naquelas fotografias que, mais tarde, nos permitiram montar uma exposição que reabriu o museu à cidade, em 2017, e ao país, e publicar um livro que, como catálogo, viajou e divulgou o património da Guiné-Bissau além-fronteiras, em 2018.

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10.07.2026 | por Ana Temudo

MARÇO

MARÇO Em contraposição a esse posicionamento, considerado oportunista e desviacionista de direita, tanto Rosa Luxemburgo como Leon Trotsky defendiam que, desde que estivessem reunidas objectivas e subjectivas as condições para o efeito, se devia realizar de imediato e por via de uma insurreição armada do proletariado das grandes cidades a revolução socialista na Rússia, a qual se encarregaria de nela absorver as tarefas não concretizadas ou adiadas de natureza democrático-burguesa como a liquidação dos grandes latifúndios, todavia conectando-as com tarefas típicas de uma revolução socialista como a nacionalização e a socialização dos meios de produção nas cidades e nos campos.

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08.07.2026 | por José Luís Hopffer Almada

Baralho de Cartas 28

Baralho de Cartas 28 Creio que estou a ter um início de burnout. Coincidiu com o aviso da Google: devia libertar espaço ou comprar armazenamento, sob pena de deixar de receber emails a partir de 26 de junho. Projetei, com toda a verdade, o meu cérebro a crashar juntamente com a memória externa - nem saberia distinguir memória externa de interna. A minha cloud precisava de fazer upgrade para continuar. Ok, resigno-me à dependência dos donos do capital para funcionarmos.

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07.07.2026 | por Marta Lança

Notas de reconciliação Algumas reflexões sobre o hino, a bandeira e a língua kabuverdianu

Notas de reconciliação Algumas reflexões sobre o hino, a bandeira e a língua kabuverdianu Com a participação de Kabuverdi, vi-me depressa envolvido num mar azul de emoções que em vão tentei suprimir. Subestimei a capacidade que este tipo de eventos tem para nos mobilizar e encantar. O entusiasmo, porém, não era propriamente pelo futebol em si, mas pela mensagem contagiante de união e convicção transmitida por aqueles jogadores que, na sua maioria, nasceram na diáspora e que, sob a liderança de Bubista, tão bem nos representaram. Mas também, e sobretudo, pela capacidade da nossa gente em fazer povo e formar um só corpo em torno de um objetivo comum: vencer coletivamente.

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06.07.2026 | por Apolo de Carvalho

A aliança do sul global

A aliança do sul global E foi assim que o Brasil viralizou a garota congolesa que rebateu uma postagem infeliz de uma miúda que considerava uma vergonha a seleção de Portugal empatar com a da República Democrática do Congo, traduzindo (mesmo que involuntariamente) para o futebol a soberba da extrema-direita portuguesa que incorpora o discurso fascista para se autovalidar. Se os livros de história nos ensinaram que descendemos dos portugueses, agora a troca de informação global faz nosso sangue banto falar mais alto – o mesmo que nomeou o nosso futebol mu'leke e nos ensinou a, em comemoração, sambar. O preconceito e o ódio uniram o que a colonização separou.

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03.07.2026 | por Gabriella Florenzano

Estamos em guerra mas não basta sobreviver

Estamos em guerra mas não basta sobreviver 'Quebrar em Caso de Emergência Climática' não é mais um ensaio sobre alterações climáticas, filia-se no manifesto político interligando ecologia, capitalismo, colonialismo e democracia. Afirma abertamente que o colapso ambiental (e social) não é um acidente, mas resultado de escolhas económicas e relações de poder. O Climáximo é um das movimentos recentes mais interessantes em Portugal, pela sua capacidade de transformar conhecimento científico em imaginação política e convocação para a ação coletiva.

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03.07.2026 | por Marta Lança

Mário Pinto de Andrade: uma visão cultural da Frente Leste - Prefácio

Mário Pinto de Andrade: uma visão cultural da Frente Leste - Prefácio A partir das entrevistas, dos dados recolhidos para o inquérito e da observação das dinâmicas interpessoais que se impunham nas bases guerrilheiras, Andrade começou a escrever um ensaio intitulado «Sociologia da guerra e ideologia», que em algumas das versões reunídas neste volume numa edição crítica, também leva o subtítulo de «Contribuição ao debate sobre a crise actual do MPLA». Embora inacabado, o ensaio, especialmente na sua primeira parte – a mais desenvolvida –, constitui uma reflexão lúcida sobre os problemas que alimentaram a crise do movimento, numa tentativa de fundamentar a práxis do MPLA numa compreensão profunda da realidade social subjacente.

Mukanda

02.07.2026 | por Elisa Scaraggi

Baralho de Cartas 27

Baralho de Cartas 27 A luz emagrece nos buracos das persianas enquanto espero que o vento volte as paredes do avesso. Lembro-me do Cesariny, do homem intensamente livre na praia mais pequena, nas dunas mais pequenas, no poço mais pequeno... Esse homem que sem saber arrasta uma época sem calendários. O Mário andava com ele, sem saber se era o caminho ou ele quem havia de cessar, e por isso andavam. Não ficavam a ver os delgados raios que mosqueam o quarto, encurralado no tempo a conta-gotas, na vida esfarelada dos acamados, para quem tudo está diluído, triturado, não vá um grumo entupir-lhe as veias.

Mukanda

01.07.2026 | por Ricardo Norte