Património Imortal
Conheci o Albano há mais de dez anos. Encontramo-nos pela primeira vez em Lisboa, quando veio como diretor do Museu da Guiné-Bissau para documentar, a partir da sua memória, um conjunto de fotografias desvanecidas, quase fantasmáticas, encontradas no Museu Etnográfico Nacional. Naqueles anos, o Museu Etnográfico Nacional existia à porta fechada, tão fechada quanto esta coleção de imagens, quase esquecidas, na gaveta da secretária do diretor. Estas imagens trouxeram Albano até Portugal e a necessidade de as digitalizar e descrever fez com que os nossos caminhos se cruzassem.
As imagens a preto e branco descreviam o processo de conceção, montagem e abertura pública deste museu etnográfico no período pós-independência. As suas primeiras atividades. Albano conhecia as pessoas nas imagens, sabia ainda descrever a funcionalidade de objetos, muitos dos quais hoje desaparecidos, e localizar, no tempo e no espaço, registos de exposições itinerantes. As memórias de Albano davam cor e movimento às imagens, trazendo-as à vida. Demoramos dias, mas, a partir da sua memória, localizamos e descrevemos pessoas, lugares, momentos e objetos etnográficos encontrados naquelas fotografias que, mais tarde, nos permitiram montar uma exposição que reabriu o museu à cidade, em 2017, e ao país, e publicar um livro que, como catálogo, viajou e divulgou o património da Guiné-Bissau além-fronteiras, em 2018.
Albano Mendes e Ana Temudo na Secretaria de Estado da Cultura na Guiné-Bissau, janeiro de 2023.
O vínculo que criei com Albano Mendes não se desfez. Continuei a trabalhar no tema do património da Guiné-Bissau até hoje, com visitas regulares ao país. Era sempre ao Albano que recorria quando tinha dúvidas e receios. O Albano confortava, legitimava o meu trabalho, dava-me a mão quando um passeio era demasiado alto, perguntava-me pela família. Era, para mim, um amigo e o bastião do conhecimento sobre o património cultural da Guiné-Bissau, um defensor da cultura como alicerce da sociedade, um homem discreto e muito trabalhador.
Albano dizia-me acordar e deitar-se a respirar cultura, a ‘ser cultura’, e isso via-se. Via-se na forma como tentava incentivar as gerações mais novas a trabalhar num sector empobrecido, e como visitava o Museu já depois deste ter fechado por falta de apoio do Estado guineense, desejando garantir a segurança e a conservação dos poucos objetos que tinha protegido desde sempre. Via-se na persistência que tinha ao tentar criar alianças com países europeus, participando em eventos e recebendo investigadores estrangeiros de braços abertos, ou quando contava e mantinha vivas as memórias e saberes de patrimónios abandonados e quase desaparecidos. O Albano tinha esperança. Deixou um testemunho. Ensinou-me e marcou-me, a mim e a tantas outras pessoas. Era um homem bom que vai fazer falta. Há países que patrimonializam indivíduos. Se a Guiné-Bissau o fizesse, no meu entender, Albano Mendes mereceria ser patrimonializado pela pessoa que era e pelas causas que defendia, tornando-se um património imortal.
‘Estamos juntos’, como ele me dizia todas as vezes que nos despedíamos.
Até já, até sempre, Albano, e obrigada por tudo.
Ana Temudo
Porto, 10.07.2026