MARÇO

(CRÓNICA LITERÁRIA DE DIONÍSIO DE DEUS Y FONTEANA)

Vão estas palavras póstumas, amigas e desesperadas, para o Caló,
ainda vivo na cidade da Praia e na vila da Assomada por ocasião
da publicação da primeira versão deste texto.

Tantos anos depois, são estas palavras também destinadas ao
Djélis (nominho e pseudónimo artístico de José Luís da Costa
Andrade), artista gráfico e cartoonista, também já falecido, que
retratou o Caló na revista *Fragmentos*, para ilustração da
primeira versão da presente crónica literária.

Era Março. Tempo de pegajoso calor colado ao dia e de esperado e compactado frio defronte do mar nocturno. Tempo de poeira, inundando os lugares, alucinando-se em miragens de coqueirais pejados de nuvens demoníacas carregadas de bruma seca. Tempo da urbe e da sua praça grande fingindo-se verde, ávida de sombra, de água e de vida. Tempo das escadarias de pedra e das rampas de alcatrão esburacado dependuradas do *plateau*, da sua altiva (conquanto decadente) cenografia de cidade alta da Praia. Tempo dos subúrbios, das casas cinzentas de Tira-Chapéu, dos atarantados pardieiros de Taiti, dos prédios brancos, amarelos e verdes, novíssimos em folha, da Achada de Santo António, mirando de soslaio os casebres dos pescadores do bairro do Brasil.

Eram também vários anos de ascese poética e de solitário monólogo com as sombras e as esquinas da cidade.

A poesia era sonho vítreo de lunáticos, ocupação a tempo inteiro de génios enlouquecidos e desocupados, oficina ocasional de vates enrouquecidos com o rumoroso furor das ventanias sobre as penedias da cidade, ofício principal, vício, hobby e divertimento predilectos de poetas punks de versos encaracolados e desempregados, motivo de ególatra louvação entre os aprendizes de poetas da euforicamente autoproclamada nova geração mirabílica, mas também de lamúria e chacota entre os seus impávidos detractores e irremissíveis adversários, que impiedosamente a desqualificavam como geração miserabílica, matéria de longas conversas com músicos eruditos e trovadores populares e de muitas polémicas com letristas seus contemporâneos com pretensões a poetas telúricos, enquanto se postavam em poses impacientes e digeriam, apressada e freneticamente, o seu café de máquina.

Eram também tempos de tímidos diálogos com a parda madeira do silêncio, de intermináveis vigílias nocturnas e de muita reflexiva e angustiada solidão!

A poesia era igualmente objecto do olhar pessimista, de trejeitos condoídos e de gestos condescendentes dos políticos de serviço, fundamento para a tomada de altissonantes medidas de emergência cultural, cativante pretexto para a realização de jogos florais secundados de discursos solenes repletos de autocongratulatória arrogância cultural, causa justificativa para a pertinente atribuição de pensões de mérito a escritores consagrados e a compositores e trovadores aposentados, refastelados e aconchegados sobre os trilhos da memória e debruçados, apreensivos, sobre os abismos das ameaças reais de eminentes penúrias e privações, em razão dos montantes irrisórios das suas pensões de reforma de antigos e bem-amados professores liceais e de afamados maestros de celebrizadas bandas municipais, causa explicativa da ocasional edificação de pedestais de basáltica perenização e brônzea imortalização aos perecidos de perniciosa doença poética na sua manifestação mais conhecida e perigosa, a persecutória e maníaco-depressiva.

Ainda assim, de tempos em tempos, a poesia era assinalada como grave indício da comissão de flagrantes delitos de distracção durante o horário de trabalho nas empresas, nas oficinas e nas repartições privadas e públicas e do seu tempo de expediente e de atendimento ao público por circunspectos gerentes e directores de serviço, histéricas secretárias e ressabiadas dactilógrafas.

E vinha o maluco, e vinha o louco predilecto da cidade, e punha-se a discorrer sobre a sua razão minoritária e os verdadeiros fundamentos da sua assumida esquizofrenia.

“As razões são políticas e ideológicas”, dizia com um olhar a um tempo cúmplice e desvairado, sobraçando, ao mesmo tempo que carregava na mão esquerda uma bolsa de plástico, fazia pender do ombro direito um sacotelo escolar e trazia na mão direita volumosos livros, em cujas capas se podia ler à vista desarmada ou, como ele próprio fez questão que eu experimentasse sem mais delongas, espreitar nos dois sacos que trazia consigo os muito pomposos títulos, diga-se que assaz enigmáticos para o grande público, na sua grande maioria culturalmente iletrado ou analfabeto político funcional, designadamente Manifesto do Partido Comunista, O Capital, A Guerra Civil em França, O 18 Brumário de Napoleão Bonaparte, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, A Dialéctica da Natureza, O Processo Histórico, Materialismo e Empiriocriticismo, O Imperialismo – A Última Fase do Capitalismo, O Estado e a Revolução, O Esquerdismo – Doença Infantil do Comunismo, A Social-Democracia e o Renegado Kautsky, Teses de Abril, As Nossas Tarefas Imediatas, Reforma ou Revolução?, A Revolução Russa, Os Fundamentos do Leninismo, Questões do Leninismo, A Revolução Permanente, A Revolução Traída, Obras Escolhidas do Camarada Presidente Mao Tsé Tung, Obras Escolhidas de Amílcar Cabral – Volume I – A Arma da Teoria, Obras Escolhidas de Amílcar Cabral – Volume II – A Prática Revolucionária.

Mas, detectando a silenciosa, conquanto rubra, curiosidade do seu momentâneo interlocutor, que era eu, em relação a um autor em especial e que, diga-se de passagem, ele tinha em muito alta conta, interrompeu abruptamente o seu discurso lamuriento e pessimista para avisar, com um amplo sorriso estampado no rosto, vaidoso da sua condição de antigo e reconhecido autodidacta e assíduo e inveterado leitor de obras de cunho político, por isso orgulhoso detentor, afirmava continuar a ser, de uma sólida, conquanto ecléctica, cultura geral, ademais descomplexada e ostensivamente livresca, apontando para os livros de capa em vermelho vivo:

 

“São obviamente do camarada Presidente Mao Tsé Tung, o poeta e pensador, o pai-fundador, em 1949, e líder por longos e atribulados anos da República Popular da China, o mais populoso país do mundo, o estratega e condutor da Grande Marcha e da dura e vigorosa luta político-armada de libertação nacional e social de longa duração contra a ocupação japonesa e na guerra civil anti-imperialista e anti-feudal conduzida contra o partido nacionalista Kuomintang, criado pelo intelectual republicano progressista que também foi coveiro da última dinastia imperial chinesa e fundador da República da China, o Dr. Sun Yat Sen, depois desmoronada em inúmeros feudos territoriais rivais liderados por impiedosos chefes de guerra, passando o Kuomintang a ser chefiado pelo nacionalista de direita, o reaccionário Chang Kai Check. Trata-se, enfim, no caso do camarada Presidente Mao Tsé Tung, e convém sublinhar isso mesmo, do virtuoso teórico da revolução popular chinesa e do seu inovador conceito de Democracia Nova enquanto alternativa política transitória, viável, abrangente, progressista e socializante à Ditadura do Proletariado e à Democracia Burguesa. Sublinhe-se que essa mesma solução política transitória alternativa, pensada e conceptualizada pelo camarada Presidente Mao Tsé Tung e tornada pública em 15 de Janeiro de 1941 numa revista cultural chinesa, foi posteriormente conjecturada pelos ideólogos soviéticos do período imediatamente posterior à vitória do seu imenso país multinacional na Segunda Guerra Mundial (por eles denominada Grande Guerra Patriótica e Antifascista para a distinguir da Primeira Grande Guerra, também chamada Primeira Guerra Mundial, considerada uma guerra inter-imperialista de grande escala) como um Estado de Democracia Popular, aplicada numa primeira fase e preferencialmente nos países detentores de sólidas tradições liberal-democráticas localizados na Europa central bem como nos países economicamente mais atrasados e semicoloniais situados no leste e no sudeste da Europa, tendo sido depois adaptada pelos mesmos ideólogos soviéticos aos países do chamado Terceiro Mundo, como um Estado de Democracia Nacional, mais tarde readaptada e rebaptizada pelos ideólogos seguidores do pensamento de Amílcar Cabral e de forma mais precisa, como um Estado de Democracia Nacional Revolucionária, tendo, em certos casos de maior radicalização político-ideológica, sido adoptada por teóricos marxistas-leninistas, em palavras mais directas, exactas, incisivas, desassombradas e descomplexadas como um Estado de Ditadura Democrática Revolucionária ou um Estado da Ditadura Democrática do Povo para uma fase e uma formação económico-social transitórias orientadas contra a dominação imperialista e as classes grã-burguesas monopolistas nativas e as classes latifundiárias semifeudais autóctones mediante a nacionalização dos bancos, dos grandes monopólios e das grandes empresas financeiras, industriais, comerciais, agrícolas e agro-industriais de capitais estrangeiros e/ou indígenas, o controle estatal do comércio externo, a realização de uma reforma agrária democrática anti(semi)feudal e anti-latifundiária, a concretização de profundas reformas dos sistemas da saúde e do ensino e nos planos político, cultural, laboral e social com extensa salvaguarda dos direitos políticos, cívicos, económicos, sociais e culturais dos cidadãos, incluindo os direitos e liberdades de reunião, de associação e de criação de sindicatos e de partidos políticos, se bem que necessariamente funcionalizados do ponto de vista politico-ideológico, isto é, desde que considerados de teor patriótico, progressista e socializante e sempre visando a melhoria contínua das condições de vida e de trabalho das massas populares laboriosas, e no âmbito da qual cem escolas podiam rivalizar entre si e cem flores podiam desabrochar livremente. Obviamente que, sempre segundo o pensamento do grande teórico marxista-leninista o camarada Presidente Mao Tsé Tung, essa fase de transição societária devia ser política e ideologicamente dirigida pelo Partido Comunista, definido como o partido de novo tipo da classe operária, dos intelectuais revolucionários e do campesinato pobre, estreitamente aliados aos demais sectores, camadas e categorias sociais do campesinato, aos demais sectores progressistas e patrióticos das pequenas burguesias intelectual, burocrático-administrativa, artesanal, industrial, comercial e financeira bem como à burguesia nacional patriótica. A direcção político-ideológica por um partido revolucionário de novo tipo devidamente munido da concepção científica do mundo fundamentava-se na circunstância histórica de, a contrario do ocorrido nas revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX na Europa, também denominadas revoluções democrático-burguesas, e nas lutas e nas guerras da independência dos países das Américas e das Caraíbas, detentoras, como é sabido, de uma forte componente liberal e democrático-burguesa, nos fins do século XIX e no século XX da época do desenvolvimento desigual dos países capitalistas com o surgimento, o recrudescimento e a prevalência da expansão mundial do imperialismo e da sua dominação colonial e semicolonial dos países economicamente mais atrasados e da emergência e da consolidação nos palcos da História das classes trabalhadoras assalariadas, incluindo da intelectualidade e da pequena-burguesia burocrático-administrativa, para além da classe operária industrial, do proletariado rural e dos trabalhadores manuais dos sectores do comércio e dos serviços, as burguesias nativas desses últimos países têm-se comprovado como  incapazes, em razão da sua indissolúvel aliança com as classes feudais e latifundiárias autóctones e da sua intrínseca e atávica dependência das classes dominantes dos países imperialistas centrais, de promover e consolidar, de forma integral e consequente, as reformas e as mudanças democráticas requeridas e necessárias para a modernização das sociedades desses países, e que devem preceder, sedimentar e sustentar qualquer revolução socialista vitoriosa nos países do chamado Terceiro Mundo. A elaboração e a concepção dessa mesma fase transitória, do seu Estado e da sua formação económico-social, necessariamente mista e pluralista, foram inspiradas directamente nos conceitos leninistas i. da Ditadura Democrática do Proletariado e do Campesinato, trazida à luz do dia da imprensa ainda antes da eclosão vitoriosa da Grande Revolução Socialista de Outubro, e ii. da Nova Política Económica (NEP), definida e implementada pelo Partido Bolchevique imediatamente depois da superação do período do chamado Comunismo de Guerra, de estatização completa da economia e de generalizada requisição forçada de cereais aos camponeses para o abastecimento das cidades e o fornecimento de víveres ao Exército Vermelho, e do sequente desfecho vitorioso da Guerra Civil Russa a favor dos Bolcheviques com o seu chamado terror vermelho implementado de forma sistemática por estes em alegada legítima defesa contra o terror branco dos exércitos contrarrevolucionários, apoiados pelos monárquicos, pelos liberais, pelos mencheviques, pelos socialistas revolucionários de direita, pelos nacionalistas dos diferentes povos, nações e nacionalidades anteriormente dominados e oprimidos pelas classes dominantes e pelo czarismo grão-russos no quadro do Império Russo, essa autêntica e imensa prisão dos povos a céu aberto, e por outros forças reaccionárias, devidamente orientadas, assessoradas, armadas, financiadas e de outro modo auxiliadas e tornadas operacionais no terreno da guerra civil pelas potências imperialistas, incluindo a França, a Inglaterra, o Japão e os Estados Unidos da América, mas não a Alemanha e a Áustria, cujos Impérios Centrais saíram derrotados e cujas coroas monárquicas foram extintas e remetidas para o caixote de lixo da História em resultado da Segunda Guerra Mundial. Ademais, nesses dois importantes países da Europa central tiveram lugar as tão expectadas insurreições proletárias e as revoluções socialistas, que, todavia, foram sangrentamente esmagadas no ovo pelos sociais-democratas e socialistas de direita em conluio directo com forças reaccionárias de direita e de extrema-direita. No caso específico da Alemanha, a sua insurreição proletária, levada a cabo a 9 de Novembro de 1919, foi reprimida pelo Governo do PSD (Partido Social-Democrata Alemão) liderado por Friedrich Ebert, então recentemente alcandorado ao poder para substituir o último Governo do Segundo Império Alemão (Deutsches Kaiserreich) e do Kaiser Guilherme II, exilado nos Países Baixos, aliado a tropas de choque disponibilizadas pelas forças reacionárias da direita e da extrema-direita alemãs que, ademais, foram responsáveis pelo bárbaro assassinato de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, os líderes da mesma fracassada insurreição proletária e fundadores, com Clara Zetkin e Franz Mehring, da Liga Spartaquista (Spartakusbund, em alemão), enquanto ala esquerda, revolucionária, marxista e antimilitarista do PSD (Partido Social-Democrata Alemão) no dealbar da Primeira Grande Guerra, e, mais tarde, em 1918, do Partido Comunista da Alemanha. 

Mas, atenção, muita e redobrada atenção! Para os ideólogos e teóricos marxistas, o termo ditadura não significa sempre e necessariamente o poder político absoluto exercido por uma pessoa, por um grupo, por uma oligarquia ou por uma aristocracia. Os mesmos ideólogos e teóricos marxistas utilizaram o termo ditadura para primacialmente caracterizar a natureza de classe do Estado, isto é, para significar que qualquer Estado representa o domínio político bem como a opressão e a repressão políticas de uma ou mais classes e categorias sociais sobre outra ou outras classes e categorias sociais, independentemente da forma, da estrutura e do sistema de governo assumidos por esse mesmo Estado. É, assim que para os ideólogos e teóricos marxistas o Estado burguês ou capitalista perfaz sempre a hegemonia e o domínio políticos da classe burguesa ou capitalista visando em todos os casos a defesa, a manutenção e a multiplicação intransigentes da propriedade privada capitalista dos meios de produção, visando inversamente o Estado proletário ou socialista o domínio político da classe operária com vista à expropriação, à eliminação e à extirpação da burguesia capitalista e de outras classes possidentes exploradoras e, nessa sequência, a edificação de uma sociedade liberta da exploração do homem pelo homem. Segundo fundamentado e teorizado pela primeira vez por Karl Marx e Friedrich Engels e depois profusamente desenvolvido por Lenine, o Estado tenderá à extinção e desaparecerá definitivamente com a emergência futura de uma sociedade sem classes sociais e altamente desenvolvida dos pontos de vista humano, ético-moral, económico, social, cultural, técnico e científico, a sociedade comunista. Para que tal aconteça, seria imprescindível a edificação de uma sociedade cuja tarefa fundamental era a preparação de condições necessárias, suficientes e indispensáveis para a emergência dessa mesma sociedade comunista e que é a sociedade socialista, uma sociedade detentora de um elevado nível de desenvolvimento das forças produtivas, exclusivamente constituída de classes trabalhadoras e dotada, primacialmente na fase da sua transição do modo de produção capitalista, no caso dos países industrializados, de um Estado cuja função principal é eliminar a resistência das classes possidentes exploradoras, desapossadas e privadas coercivamente da propriedade privada dos meios de produção, iniciar e consolidar a construção da nova sociedade socialista, sendo esse Estado designado, por isso, como um Estado da Ditadura do Proletariado. Para os fundadores do marxismo Karl Marx e Friedrich Engels, em determinadas condições, na altura –fins da primeira metade e segunda metade do século XIX, existentes e disponíveis somente nos países europeus avançados e altamente industrializados bem como nos Estados Unidos da América, seria também possível a passagem directa e de forma pacífica do capitalismo para o socialismo mediante a utilização dos princípios, dos mecanismos e dos procedimentos propiciados Estado democrático-liberal, designadamente o pluralismo político-partidário, o sufrágio universal, igual, directo e secreto, o Estado de Direito com as suas separação e interdependência entre os poderes legislativo, executivo e judicial, a sua independência do poder judicial e a sua consagração formal de um amplo leque de direitos, liberdades e garantias de teores cívico e político, para a conquista dos votos da maioria da população constituída pelos operários e por outros trabalhadores assalariados. Por outro lado, tanto para Marx e Engels como também para Lenine e os demais marxistas-leninistas a democracia liberal, expurgada dos seus teores históricos censitário, capacitário e sexista, discriminatórios respectivamente dos trabalhadores manuais, dos analfabetos e das mulheres, e aprofundada e superada na sua natureza democrática e liberal, representava uma valiosa conquista civilizacional não só da burguesia ascendente mas também das classes trabalhadoras e de toda a humanidade, sobretudo se comparada com as autocracias de direita e os seus avatares e imitações nos países economicamente mais atrasados, em especial o fascismo, definido por Georgi Dimitrov, o comunista búlgaro e dirigente do Comintern (a III Internacional Comunista fundada, em 1918, por Lenine) como a ditadura abertamente terrorista da burguesia capitalista financeira, monopolista de Estado e imperialista, sendo que essas mesmas autocracias de direita, incluindo o nazismo e o fascismo, têm por escopo principal a extensiva e/ou total extirpação dos direitos, liberdades e garantias cívicos e políticos e as eliminações política e física de todas as formas de oposição (comunista, socialista, social-democrata, anarquista, democrata-cristã, liberal e outras), mediante a execução dos seus protagonistas e/ou o seu confinamento nos presídios políticos e nos campos de concentração e de extermínio, dos quais foram também inquilinos predilectos membros de minorias nacionais, étnicas, raciais, religiosas e sexuais oficialmente ostracizadas. 

De todo o modo, e segundo a óptica inovadora dos fundadores do marxismo, depois da conquista do poder político pelo proletariado torna-se imprescindível a reforma radical do Estado burguês democrático-liberal, culminando esse processo político necessariamente na sua destruição, mas com preservação, consolidação, aprofundamento e alargamento, no que fosse possível e no seu máximo, de tudo o que esse Estado representou como conquista verdadeiramente revolucionária da burguesia e aquisição civilizacional de grande envergadura e para toda a humanidade em relação aos tipos passados e a outros tipos seus contemporâneos de Estado, designadamente no respeitante ao Estado de Direito e à ampla consagração dos direitos, liberdades e garantias cívico-políticos e dos direitos económicos, sociais e culturais, com vista à célere e sustentada implantação de um Estado de ampla democracia socialista, agora devidamente respaldada pela imensa maioria da população, designadamente a trabalhadora, e visando sempre a defesa intransigente dos seus interesses e a melhoria constante da suas condições de vida e de trabalho e, em última instância, da dignidade humana de todos os cidadãos e de todas as pessoas. Este ponto de vista foi particularmente defendido pela teórica marxista polaca judia na sua abordagem crítica da Constituição Política da República Socialista Federativa Soviética da Rússia, a primeira Constituição Política do mundo de natureza assumidamente socialista soviética, aprovada em Julho de 1918 pelo V Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, e do que considerava terem sido alguns erros, excessos e desvios praticados durante a conturbada e complexa realização do processo revolucionário que se seguiu à vitória da Revolução Socialista de Outubro de 1917, qualificada por ela como fruto de uma grande, tempestiva e frutífera audácia política dos bolcheviques e por ela considerada como o maior acontecimento histórico resultante da Primeira Grande Guerra Mundial. Com efeito, e apesar de ter sido uma férrea defensora do conceito da ditadura do proletariado e de, tal como Vladimir Lenine, Josef Stalin, Leon Trotsky, Nikolai Bukarine, e contra a opinião de Serguei Zinoviev e Lev Kamenev, ter sido favorável à realização sem delongas da revolução socialista e da implantação imediata do Estado da Ditadura do Proletariado, mesmo em países atrasados como a Rússia e de, neste contexto, ter considerado legítima a eliminação, por via da violência revolucionária, da resistência oposta pelas antigas classes possidentes expropriadas, Rosa Luxemburgo expressou-se frontalmente contra o uso sistemático do terror vermelho para a obtenção desse mesmo efeito político, mesmo se também admitisse o seu uso esporádico e intermitente em casos assaz especiais e muito limitados. Do mesmo modo, e mesmo sendo favorável à privação do direito activo e passivo de voto aos membros das classes possidentes capitalistas e latifundiárias e aos seus representantes políticos e partidários activamente contrarrevolucionários, Rosa Luxemburgo posicionou-se contra a restrição desse mesmo direito democrático, ademais atribuído de forma desigual, aos membros laboralmente activos da classe operária e do campesinato pobre e a sua correlativa privação aos membros das demais classes trabalhadoras, mesmo se também integradas por pequenos proprietárias de meios de produção, como os artesãos, os pequenos comerciantes, os pequenos industriais e os camponeses médios, bem como aos membros inactivos dos proletariados urbano e rural, como ocorria, por exemplo, com os desempregados, impedidos de votar a pretexto de que “quem não trabalha, não pode comer, nem pode eleger e ser eleito”. Rosa Luxemburgo alertou os bolcheviques particularmente contra os perigos da burocratização do Estado da Ditadura do Proletariado especialmente mediante a concentração das competências para a tomada de decisões nos órgãos executivos centrais do Partido Bolchevique, disso resultando necessariamente a exclusão das grandes massas populares, consabidamente a esmagadora maioria da população russa, do exercício efectivo quotidiano do poder soviético nos domínios político, económico, social e cultural, e que deveria perfazer a essência política primacial desse mesmo Estado da Ditadura do Proletariado. Ademais, Rosa Luxemburgo pugnou pela existência de amplos foruns de debate, e pela efectiva garantia dos direitos e das liberdades de expressão, de reunião, de manifestação, de associação bem como da liberdade de imprensa, segundo ela por demais propiciadores da vivacidade e da efectividade de uma verdadeira e ampla democracia socialista fundada num alargado pluralismo político-ideológico, partidário e sindical, de teor eminentemente proletário e socialista. Neste contexto, pronunciou-se a mesma reconhecida teórica marxista judia polaca e dirigente comunista alemã favoravelmente à dissolução, em Janeiro de 1918, da Assembleia Constituinte, cuja eleição fora convocada e realizada em Novembro de 1917, tendo as listas eleitorais dos partidos políticos representativos dos socialistas revolucionários de direita, acrescidas das listas eleitorais representativas dos mencheviques e dos liberais, vencido por ampla maioria, e as listas eleitorais dos partidos representativos dos bolcheviques e dos socialistas revolucionários de esquerda ficado em minoria, salvo nas grandes urbes, argumentando Rosa Luxemburgo que, embora eleita em Novembro de 1917, as listas eleitorais para a mesma Assembleia Constituinte tinham sido constituídas e apresentadas em Julho/Agosto de 1917, numa altura em que a correlação entre as forças político-partidárias, mesmo nos sovietes, era nitidamente favorável à direita e ao centro-direita representada pelos partidos dos socialistas revolucionários de direita, dos mencheviques e dos liberais, todos integrantes do Governo Provisório saído da Revolução de Fevereiro de 1917. Atente-se neste contexto que a razão imediata invocada pelos dirigentes do Partido Bolchevique para a dissolução da Assembleia Constituinte foi a sua recusa em aceitar a proposta dos mesmos dirigentes bolcheviques do seu reconhecimento da irreversibilidade do poder soviético constituído com a vitória da Revolução Socialista de Outubro bem como a sua recusa em aprovar a Declaração dos Direitos do Povo Trabalhador e Explorado, previamente aprovado pelo III Congresso dos Sovietes de Toda a Rússia, cujo II Congresso tinha também aprovado, imediatamente a seguir ao desfecho vitorioso da Revolução Socialista de Outubro, três Decretos fundamentais para a afirmação e a consolidação do Poder Soviético emergente e apresentados pessoalmente por Lenine, designadamente o Decreto sobre a Paz, que reiterou a vontade expressa do novo Poder Soviético de retirar unilateralmente a Rússia soviética da Primeira Guerra Mundial, sem anexações e sem indemnizações; o Decreto sobre a Terra, que procedeu à nacionalização sem indemnização, isto é, ao confisco, em toda a Rússia de todas as terras e respectivos recursos hídricos, bens móveis e imóveis, etc., atribuindo, com efeito imediato, a fruição da maioria dessas terras aos camponeses pobres e, de forma mais limitada, aos camponeses médios, mas reservando ao Estado a propriedade e o gozo plenos de alguns bens imóveis, nomeadamente os destinados à experimentação e ao desenvolvimento científico e à extensão rural; o Decreto que aprovou a formação do primeiro Governo soviético denominado Conselho dos Comissários do Povo e  liderado por Lenine. Rosa Luxemburgo era da opinião que a solução ideal para a questão da Assembleia Constituinte seria uma sua nova eleição a partir de novas listas eleitorais que retratassem a correlação de forças político-partidárias existente em Janeiro de 1918, já depois da vitória da Revolução Socialista de Outubro, por forma a que as forças do centro-direita e da direita não pudessem arrogar-se, em detrimento dos bolcheviques, o direito exclusivo da utilização do discurso de legitimidade democrática. Muito questionáveis, senão mesmo indefensáveis, parecem-me ser, contudo, os posicionamentos de Rosa Luxemburgo i. quer contra o exercício do direito à autodeterminação dos povos oprimidos no quadro do império russo e veementemente propugnado por Lenine e que, segundo o primeiro líder soviético, podia implicar o seu inalienável direito à secessão e à independência política completa, ponto de vista leninista esse contrariado pela teórica marxista judia polaca, a qual tentou justificar o seu posicionamento mediante a invocação da necessidade de preservar a todo o custo a integridade da base territorial da revolução socialista russa; ii. quer ainda contra a reforma agrária democrática também propugnada e operacionalizada por Lenine e que procedeu à distribuição por dezenas de milhões de camponeses pobres russos das terras expropriadas aos respectivos terratenentes e latifundiários, negando Rosa Luxemburgo uma qualquer natureza socialista a essa mesma reforma agrária, a que, apesar de lhe reconhecer a função de ter capitalizado o indispensável apoio dos camponeses pobres à revolução socialista de Outubro e aos seus promotores e protagonistas bolcheviques, atribuía o papel de uma fonte inesgotável de riscos futuros por ter produzido dezenas de milhões de novos proprietários de terra que, certamente ciosos dessa sua nova e almejada condição fundiária, certamente adoptariam uma postura adversa a quaisquer tentativas de socialização dos campos soviéticos, um dos objectivos fundamentais da revolução socialista de Outubro. Para Rosa Luxemburgo, a revolução socialista russa de Outubro eclodiu em circunstâncias sociológicas e históricas muito especiais, designadamente num país economicamente atrasado em que não tinham sido cabalmente realizadas as tarefas típicas de uma revolução democrático-burguesa, ademais tendo esse mesmo país sido sujeita, depois da vitória da sua revolução socialista,  a condições particularmente difíceis designadamente a guerra civil e a intervenção armada de grandes potências capitalistas estrangeiras, com correlativas devastadoras consequências, designadamente a destruição de infra-estruturas, a paralisia da actividade produtiva, exacerbada por acções de subversão e de sabotagem económicas, a escassez, a especulação e o açambarcamento de víveres e de outros produtos essenciais, a fome generalizada, etc., etc.. Neste contexto, considerou Rosa Luxemburgo, tal como, aliás, Leon Trotsky, que somente a eclosão de revoluções socialistas vitoriosas na Europa Ocidental industrializada e economicamente desenvolvida e a correlativa e sequente constituição de uma Federação de Repúblicas Socialistas Soviéticas Europeias podiam salvar definitivamente a Rússia soviética do colapso económico, político, social e cultural, por mor do decisivo apoio financeiro, técnico, político e militar que essa mesma Federação Socialista Soviética Europeia poderia lhe proporcionar.

Anote-se neste contexto que para os teóricos marxistas social-democratas Plekhanov e Kaustsky, o primeiro russo e o segundo alemão, ambos considerados na altura fiéis seguidores e proeminentes intérpretes do pensamento teórico e da doutrina política de Karl Marx e Friedrich Engels, antes de encetar e empreender qualquer revolução de teor socialista, a Rússia devia passar por uma revolução democrático-liberal sob a liderança da burguesia e apoiada pelo Partido Operário Social-Democrata Russo, aliado aos partidos políticos representativos dos liberais, dos socialistas revolucionários e das alas politicamente mais moderadas dos monárquicos. Em contraposição a esse posicionamento, considerado oportunista e desviacionista de direita, tanto Rosa Luxemburgo como Leon Trotsky defendiam que, desde que estivessem reunidas objectivas e subjectivas as condições para o efeito, se devia realizar de imediato e por via de uma insurreição armada do proletariado das grandes cidades a revolução socialista na Rússia, a qual se encarregaria de nela absorver as tarefas não concretizadas ou adiadas de natureza democrático-burguesa como a liquidação dos grandes latifúndios, todavia conectando-as com tarefas típicas de uma revolução socialista como a nacionalização e a socialização dos meios de produção nas cidades e nos campos. 

Pelas razões anteriormente aduzidas e para a superação da situação catastrófica  herdada da guerra civil russa e do chamado período excepcional do comunismo de guerra visando consolidar o poder político na entretanto emergente União Soviética, fundada por Lenine, em 1922, enquanto Federação de quatro Repúblicas dirigidas pelo Partido Comunista e em processo de construção do socialismo, designadamente a Rússia, a Bielorrússia, a Ucrânia e a Transcaucásia soviéticas, o Partido Bolchevique adoptou por proposta de Lenine a chamada Nova Política Económica (NEP). Essa mesma política representava uma significativa concessão aos capitais estrangeiro e autóctone bem como ao campesinato médio e ao campesinato rico cuja livre iniciativa económica devia ser, na óptica economicamente pragmática e realista dos seus promotores, aproveitada o máximo possível pelo poder soviético no âmbito de uma economia mista na qual sobressaía um certo capitalismo de Estado, antes de se encetar na prática a socialização completa dos meios de produção nas cidades e nos campos. Como é sabido, Leon Trotsky opôs-se veementemente à NEP, tendo para tanto liderado a chamada Oposição de Esquerda, tendência/fracção política constituída no seio do Partido Bolchevique e integrada ainda por outros bolcheviques históricos, como Preobajenski e Alexandra Kollontai, depois reconstituída como Oposição Unificada integrada também por Serguey Zinoviev e Lev Kamenev para se opor não somente à NEP mas também à tese da construção do socialismo num só país defendida ferreamente por Josef Estaline e teoricamente fundamentada por Nikolai Bukarine, depois da morte de Lenine, a 21 de Janeiro de1924, contrapondo-a à tese da revolução permanente teorizada por Leon Trotsky. Do mesmodo, a Nova Política Económica (NEP), proposta por Lenine e defendida por Josef Estaline, foi particularmente defendida, fundamentada e teorizada por Nikolay Bukarine como devendo ser uma fase necessária, indispensável e relativamente duradoura e longeva e que devia ser considerada como etapa   preparatória da fase propriamente dita da construção do socialismo num só país que era a imensa, multinacional e federal União Soviética, territorialmente o maior país do mundo espartilhado entre dois continentes e dotado de recursos naturais incomensuráveis, todavia padecendo ainda de um grande atraso económico e cultural. A pretexto da retenção, no ano de 1927, dos cereais necessários para o abastecimento das cidades por parte dos camponeses ricos (kulaques) e dos camponeses médios alegadamente porque, na sua óptica,  os preços oficialmente estabelecidos para a sua aquisição pelo Estado estavam muito abaixo dos preços do mercado, a NEP começou a ser considerada como uma política arcaica, obsoleta e inadequada pelo seu antigo defensor Josef Estaline, que entretanto vinha consolidando o seu poder absoluto enquanto Secretário-Geral do Partido Bolchevique em claro e inequívoco detrimento de outros dirigentes bolcheviques históricos, alguns deles antigos aliados e rivais, entretanto caídos em desgraça, politicamente ostracizados, como nos casos de Serguey Zinoviev e Lev Kamenev, ou exilado, primeiramente num lugar remoto da União Soviética, o Cazaquistão, depois no estrangeiro, designadamente na Turquia, em França , na Noruega e, finalmente, no México, como no caso de Leon Trotsky, ou paulatinamente marginalizados, como nos casos de Nikolay Bukarine e dos seus partidários da chamada Oposição de Direita. É, assim, que no ano de 1928 é aprovado o Primeiro Plano Quinquenal soviético, o qual propugnava a acelerada industrialização da economia soviética primacialmente mediante a edificação de uma poderosa indústria pesada, em nítido detrimento da indústria ligeira de bens de consumo, e a colectivização célere e forçada da agricultura. Se em resultado dessas políticas conduzidas sob a férrea e centralizada liderança de Josef Estaline a União Soviética se transformou rapidamente num país altamente industrializado, por outro lado a colectivização forçada dos campos contou com uma forte resistência dos camponeses ricos e dos camponeses médios, tendo por isso sido tomadas medidas drásticas contra os mesmos, como a sua execução e o seu encarceramento em massa nos gulagues, onde foram sujeitos a trabalhos forçados e a tratamentos desumanos, cruéis e degradantes característicos de um Estado totalitário praticante de forma convicta e sistemática do terrorismo de Estado. Consequência trágica das políticas estalinistas de coletivização forçada dos campos soviéticos foi o chamado Holodomor, o genocídio pela fome, nos anos de 1931 e 1932, de grandes massas das populações rurais ucranianas. As políticas e práticas estalinistas do terrorismo de Estado atingiriam o seu ápice e o seu zénite nas chamadas grandes purgas induzidas pelos chamados processos-farsa de Moscovo de 1936, 1937 e 1938, conduzidos pelo famigerado e implacável Procurador-Geral soviético Andrey Vichinsky, um antigo menchevique reconvertido ao bolchevismo de feição cripto-estalinista, depois promovido a representante da União Soviética na ONU (Organização das Nações Unidas) e Ministro soviético dos Negócios Estrangeiros, e em resultado dos quais foram liquidados fisicamente não somente a esmagadora maioria de bolcheviques históricos como também centenas de milhões de quadros e militantes comunistas das mais diversas áreas bem como de simples cidadãos comuns soviéticos. Assistiu-se, assim, à consolidação do poder senhorial, hipercentralizado e absolut(o) ista do líder soviético Josef Estaline e à completa erosão dos princípios organizacionais de um partido de novo tipo propugnados por Lenine com a transfiguração do princípio do centralismo democrático em centralismo burocrático e do principio da direção colectiva em direção unipessoal e autocrática. Por outro lado o princípio da crítica e da autocrítica é transformado em princípio organizacional e processual-penal de auto-incriminatória confissão,  arrancada mediante a inflição de torturas, chantagens e outros maus-tratos físicos, psicológicos e afectivos aos detidos e prisioneiros políticos, tendo a mesma confissão sido considerada a prova-rainha nos processos-farsa político-criminais de aparência processual-penal  e alargada extensivamente à incriminação, sem quaisquer outras provas complementares credíveis, de familiares, amigos e camaradas de partido, contra todos os princípios já então consensual e universalmente aceites de um processo penal justo e equitativo, porque fundado em provas consistentes e irrefutáveis e em princípios processuais-penais fundamentais como a presunção da inocência, a anterioridade da lei penal incriminatória, etc., etc..  

Como é também suficientemente sabido e foi devida, tempestiva e amplamente teorizada e fundamentada pelo camarada Presidente Mao Tsé Tung, a fase política transitória, baptizada de Democracia Nova e abrangente de todos os domínios, sectores e áreas da sociedade em mudança radical e também denominada de Ditadura Democrático-Popular ou igualmente de Ditadura Democrática do Povo, deveria preceder a fase primeira inicial da construção do socialismo e do seu Estado fundado numa ampla democracia socialista e suportado exclusivamente pelas classes trabalhadoras da nova sociedade socialista em edificação e completamente extirpada das antigas classes possidentes, exploradoras e parasitárias. Falo, pois, de um camarada Presidente Mao Tsé Tung anterior ao seu irreversível comprometimento pessoal nas implacáveis e assassinas lutas pelo poder e o seu desvairado, traiçoeiro de si próprio e do seu até então notável pensamento político-ideológico, e ao seu ultra-radical alinhamento com as razões do Estado chinês burocrático-administrativo apressadamente transfigurado em Estado dito socialista degenerado nesses tempos de trabalhadores rurais arrebanhados com as charruas, os estercos animais e os fornos artesanais da famigerada e aventureirista política dos Dois Saltos em Frente visando a célere, compulsiva e irrealista industrialização da sociedade chinesa e a colectivização forçada dos campos do grande país asiático e que levaram milhões de camponeses chineses à morte atroz por inanição e pela fome absoluta. A essa experiência falhada e de efeitos catastróficos aos níveis político, económico, social e cultural e consequências humanas sumamente trágicas, fracassada nos seus irrealistas e insanos intentos de, precocemente e de forma prematura, acelerar nos anos de 1958,1959 e 1960 o processo da construção de uma sociedade socialista na República Popular da China, veio juntar-se uma outra experiência, igualmente ou ainda mais catastrófica no plano humanitário, para além de sumamente caótica aos níveis político, económico, social e cultural e que se consubstanciou e se tornou visível nas multidões adolescentinas e juvenis fanatizadas empunhando e ostentando o depois celebrizado livrinho vermelho com citações colhidas pelo dirigente ultra-maoísta Lin Piao nas obras do camarada Presidente Mao Tsé Tung e delirando com uma suposta Grande Revolução Cultural Proletária, despoletada pelo próprio líder chinês para alegadamente combater os costumes, os hábitos, as tradições e os símbolos reminiscentes da passada e arcaica sociedade imperial feudal e semi-feudal derrubada e representada pelo célebre sábio Confúcio, bem como a tentativa de restauração do modo de produção capitalista e a infiltração do chamado revisionismo moderno, de inspiração soviética e feição krutschoviana representada pelo alto dirigente partidário Liu Xao Xi e pelos seus aliados, nas altas esferas do Partido Comunista, do Estado e dos aparelhos ideológicos da sociedade socialista chinesa. Como é também sabido, esse mesmo desvario ultra-esquerdista era muito do gosto e do entusiasmo de estudantes universitários e de pequeno-burgueses intelectuais ocidentais feitos vociferantes revolucionários de café, armados em doutrinadores dos ideários de um ultra-radicalismo de esquerda dito pró-chinês e anti-soviético, tão barato, irrealista, insolente e sem sentido como aquele propalado pelos seus oponentes anti-estalinistas, anti-maoístas, anti-soviéticos e fraccionistas adeptos de Leon Trotsky e da sua teoria da Revolução Permanente e, por isso, considerando-se as duas correntes político-ideológicas da extrema-esquerda igualmente contrárias, conspurcadoras, falsificadoras e adulteradoras do essencial do verdadeiro e genuíno pensamento teórico e da doutrina política de Marx, Engels e Lenine e, paradoxalmente, do seu antigo maior seguidor nas condições específicas de profundo atraso económico, social, cultural e político dos países coloniais e semicoloniais do Terceiro Mundo que foi, e infeliz e desgraçadamente deixou de ser, o camarada Presidente Mao Tsé Tung, depois alcandorado ao estatuto sacralizado de Grande Timoneiro, permanecendo, todavia, assaz profundo nas suas sábias e poderosas lições passadas, tão bem assimiladas e interiorizadas pelo nosso camarada Amílcar Cabral, líder imortal e pensador sempre actual da luta dos povos irmãos da Guiné e de Cabo Verde e dos demais povos africanos pela sua libertação total da dominação imperialista, nas suas forma colonial e neo-colonial. No fundo, o que se pretendeu, logo depois da morte do agora denominado Grande Timoneiro Mao Tsé Tung, em Outubro de 1976, com a neutralização da fracção cripto-maoísta depois chamada Bando dos Quatro e a superação das consequências catastróficas e caóticas da erroneamente auto-proclamada Grande Revolução Cultural Proletária, através primacialmente da adopção das reformas económicas modernizadoras e desenvolvimentistas propostas pelo doravante inteiramente reabilitado dirigente do Partido Comunista Chinês Deng Xiao Ping, anteriormente bastas vezes ostracizado, publicamente humilhado e condenado ao exílio interno pelo Grande Timoneiro Mao Tsé Tung, mas felizmente poupado ao gulague e/ou à execução sumária, foi retomar, no novo contexto posterior ao caos saído das desgraças humanas, económico-sociais, simbólico-culturais e político-ideológicas provocadas pela chamada Grande Revolução Cultural Proletária, o essencial dos ensinamentos de Lenine sobre a NEP (Nova Política Económica), adoptada na União Soviética, a partir do fim da guerra civil, e dos ensinamentos do camarada Presidente Mao Tsé Tung sobre a Democracia Nova, especialmente no que dizia respeita à edificação de bases técnico-materiais sólidas e sustentáveis fundadas numa economia mista de mercado socializante e numa ampla aliança patriótica e progressista de classes para a construção progressiva e segura de uma verdadeira sociedade socialista na República Popular da China com o devido aproveitamento das capacidades materiais, culturais e financeiras das comunidades diaspóricas chinesas e do investimento do capital estrangeiro dos países capitalistas industrializados e desenvolvidos, incluindo no plano técnico-científico e da transferência de modernas técnicas e tecnologias. Relembre-se neste contexto que o posteriormente chamado Bando dos Quatro, liderado pela última esposa do camarada Presidente Mao Tsé Tung, a antiga actriz de teatro de Xangai Jiang Xing, foi o verdadeiro e real promotor e condutor colegiais do radicalismo político de esquerda consubstanciado na impropriamente chamada Grande Revolução Cultural Proletária e que dominou a vida quotidiana na República Popular da China durante toda a década negra de 1966 a 1976, obviamente sob a orientação, o beneplácito, a conivência e/ou o aval político-ideológicos do Grande Timoneiro Mao Tsé Tung, o seu principal e mais directo beneficiário nas lutas pelo poder pessoal no seio do Partido Comunista Chinês contra o seu principal rival político-ideológico Liu Xao Xi. Como é também amplamente conhecido, a mesma Grande Revolução Cultural Proletária foi inicialmente co-orientada pelo dirigente ultra-maoísta Lin Piao, compilador das citações constantes do seu símbolo mais icónico, o livrinho vermelho, curiosamente caído em desgraça ainda em vida do Grande Timoneiro Mao Tsé Tung, contra o qual foi acusado de ter conspirado politicamente, tendo falecido num acidente de aviação ocorrido no território vizinho da República Popular da Mongólia quando, acompanhado da família, nomeadamente da esposa e do filho, tentava fugir da República Popular da China rumo à anteriormente muito execrada e condenada União Soviética revisionista e alegadamente promotora da restauração no imenso país euro-asiático do considerado caduco sistema de exploração capitalista”. 

Feita a entusiástica e pormenorizada exibição de erudição política revolucionária, de coloração clara, inequívoca e (in)controversamente marxista-leninista e nítida feição maoísta implacavelmente anti-estalinista e ligeira, condescendente e piedosamente anti-trotskista e anti-luxemburguista, e passada a correlativa e temporária irritação político-ideológica contra todos os fraccionistas, desviacionistas e os demais ultra-esquerdistas, reais, latentes, inventados, potenciais, passados, presentes e futuros, acrescidos dos oportunistas políticos e dos habituais carreiristas de serviço de sempre, que, dizia enraivecido, peremptório e sem quaisquer papas na língua, lhe lixaram a vida e a potencialmente gloriosa carreira político-militar em acelerada construção que se lhe adivinhava e se divisava visível no seu cabelo bem aparado, na sua farda bem engomada e nas suas botas reluzentes, o louco predilecto da cidade quedou-se exausto, aparentemente exaurido pelo longo e ininterrupto discurso que acabava de debitar, para logo a seguir e de forma inesperada e surpreendente mudar de registo discursivo e retomar desgrenhado o primeiro fio da meada com a apaixonada e martelada amargura que o caracterizava e, assim, recaindo no seu anterior estado niilista de desesperado e desvairado pessimismo:

“Reafirmo, pois: as razões são políticas e ideológicas. 

Aliás, como diz a letra da música dos Tubarões composta pelo poeta anti-colonial e progressista Ovídio Martins e tão bem canta Ildo Lobo, temos inúmeros precedentes, a que podem ser aditados muitos mais. Na verdade, não foram Jesus de Nazaré, Vladimir Ilich Ulianov Lenine, Rosa Luxemburg, Karl Liebknecht, Ernst Thaelman, Mao Tsé Tung, Leon Trotsky, Mahatma Ghandi, Patrice Lumumba, Ernesto Che Guevara, Kwame Nkrumah, Malcom X, Martin Luther King, Wilhelm Reich, o próprio Amílcar Cabral e o conhecido Horácio lá do fundo dos Engenhos vítimas de sistemática ostracização e, até, de medidas carcerárias, de reiteradas tentativas de assassinato, golpes de estado e homicídios consumados, devido à sua alegada loucura então denominada de mania político-terrorista?”. 

E, dando provas uma vez mais da vasta cultura política revolucionária de que se dizia orgulhoso detentor, prosseguiu na sua explanação doutrinária e na sua dissecação teórico-política, agora dotando-se de novo da aura reflexiva e meditativa ostensiva de um aparente teor professoral e que acompanhava esses momentos de inegáveis e temporárias lucidez e sanidade mental: 

“Bem, apesar de, em dado momento, terem sido compenetrados revolucionários muito comprometidos com os verdadeiros interesses das classes trabalhadoras exploradas e das massas populares oprimidas, devo dizer e confessar que mantenho algumas sérias reservas quanto a uma parte da praxis política e do legado teórico do camarada Presidente Mao Tsé Tung e de Leon Trotsky. Pelo primeiro porque depois de muito acossado e perseguido pelos latifundiários, pelos grão-burgueses, pelos fantoches e pelos títeres chineses e pelos invasores japoneses, enfim por reaccionários, contra-revolucionários e oportunistas políticos de todos os feitios, matizes e facturas, Mao Tsé Tung tornou-se ele próprio uma face real e simbólica, ainda por cima refastelada e arrogante, do poder absoluto da nomenclatura político-partidária e do culto de personalidade ao líder revolucionário que era ele próprio, já numa fase por demais politicamente irracional e psicológica e mentalmente disruptiva, quiçá pré-senil, de nítido desvairamento político-ideológico aparentemente despoletado pela denúncia e pela condenação pelo novo líder do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), Nikita Krutschov, no seu histórico XX Congresso, de 1956, dos crimes e do culto à personalidade de Estaline, amplamente apresentados aos delegados soviéticos do acima referido XX Congresso num relatório secreto e circunstancialmente ilustrados pela impune e insana profusão e pela sanguinária disseminação do terror e do arquipélago gulague, enquanto sistema centralmente organizado e planificado de campos de concentração, de trabalhos forçados, típica, ostensiva e assumidamente escravos, e de extermínio dos prisioneiros políticos e dos presos de delito comum pela exaustão, pelos maus tratos físicos e psicológicos, pelo desespero e pelo desencanto, tendo ocorrido nessa sequência a já por demais latente dissensão sino-soviética, para, já numa fase manifestamente senil e psicopata, de forma inusitada e depois de ter sistematicamente condenado a chamada política da coexistência pacífica entre os dois principais sistemas económico-sociais e blocos político-militares mundiais, adversos e antagónicos na Guerra Fria, defendida por Nikita Krutschov e pela nova liderança soviética sequente à morte de Josef Estaline para alegadamente esconjurar a ameaça de um holocausto nuclear e, assim, da mútua destruição das respectivas populações e das populações de todo o nosso planeta azul, se fazer um líder político próximo e cúmplice do Presidente estado-unidense Richard Nixon e do seu principal conselheiro Henry Kissinger na sua cruzada anti-soviética de suposta contenção do comunismo mundial e, assim, fazer da República Popular da China um país aliado do imperialismo americano, essa entidade genocida e agressora do povo do Vietnam e de outros povos combatentes da Ásia à América Latina, passando por África e pelo Médio Oriente. Comungo, todavia, da identificação que o Grande Timoneiro Mao Tsé Tung fez do chamado social-imperialismo soviético, da caracterização e da dissecação que empreendeu da sua essência hegemónica, expansionista e conquistadora, sempre sedenta de novas zonas de influência. 

Do segundo, não porque tenha sido, e sem dúvida alguma, um intelectual detentor de uma vasta cultura e de uma pena irrepreensivelmente erudita e cristalina, ademais defensora da liberdade estética dos criadores culturais e sempre desafecta das cínicas congeminações da burguesia mundial e das demais classes possidentes exploradoras das classes trabalhadoras bem como dos intentos legitimadores da nova nomenclatura partidária e político-administrativa dita socialista, ou porque tenha feito da dissecação do poder termidoriano da burocracia soviética pós-revolucionária a matéria e o assunto predilectos das suas análises, explanações e diatribes e que, pela primeira vez e de forma assaz consequente, denunciou mundialmente, partindo de um ponto de vista que ele próprio considerava estrita e assumidamente marxista, e, em razão disso, ter sido vezes demasiadas, eleito, nomeado, vilipendiado, neutralizado e expurgado como dirigente político, expulso do novo e imenso país que ajudou a nascer, a preservar, a defender e a construir e destituído da sua cidadania/nacionalidade, julgado à revelia e condenado à liquidação cívico-política e física, e, assim, irreversível e definitivamente apontado como alvo mortal da sanha persecutória por parte da feroz e crudelíssima polícia política soviética e do restante aparelho repressivo estalinista, sanha persecutória essa consubstanciada nos chamados grande terror e processos-farsa de Moscovo, com as suas confissões mirabolantes por parte de bolcheviques históricos, incriminatórias de si próprios e de outros camaradas ou de antigos altos dirigentes político-partidários reduzidos ao matginal estatuto de exilados e marginalizados políticos internos ou de dissidentes políticos exilados no estrangeiro e destituídos da nacionalidade soviética, a utilização, contra todos os princípios e preceitos de um Estado de Direito, ainda que sob os limitados moldes do chamado Estado da Legalidade Socialista, dos conceitos da confissão como prova rainha em processo penal e de culpa colectiva de cônjuges, filhos, familiares, colegas, companheiros e amigos dos acusados e condenados, as suas torturas, sevícias e desmesurados e insuportáveis maus-tratos físicos e psicológicos, as suas detenções e execuções em massa, os seus apagamentos da história e da vida quotidiana de personalidades e individualidades expressamente condenadas, desejavelmente para sempre, ao nimbo e ao olvido arquivísticos, tendo o mesmo grande terror sido despoletado nos fins dos anos trinta, a pretexto do assassinato, provavelmente por um único autor material e por razões estritamente pessoais e/ou passionais, de Serguei Kirov, alto dirigente do Partido Comunista da União Soviética e líder regional do mesmo partido na por demais importante cidade de Leninegrado, estando o mesmo grande terror sempre ao serviço exclusivo das ambições políticas pessoais e da insaciável sede de poder absoluto do outro grande sanguinário, do ditador despótico e tirânico, do coveiro-mor das teorias revolucionárias, algumas de nítido e incontestável teor utópico, de Marx, Engels e Lenine visando a construção de uma sociedade nova, liberta da exploração do homem pelo homem, da pobreza, do medo e da ignorância e cujo nome, por mero e estrito pudor revolucionário, me recuso doravante a pronunciar, mesmo se comungando com ele e contra Leon Trotsky e Rosa Luxemburgo da sua teoria do socialismo num só país e nunca obliterando o seu indesmentível, decisivo e essencial contributo para a modernização da anteriormente por demais atrasada Rússia czarista, depois constituída em Rússia Soviética/União Soviética, ainda que de forma forçada e, quiçá, excessivamente acelerada, com custos humanos incomensuráveis e absolutamente incomportáveis e injustificáveis, bem como para a derrota do nazi-fascismo e do Terceiro Reich hitlerianos e das demais potências do Eixo imperialista e militarista na Segunda Guerra Mundial, depois de se ter enredado no até hoje controverso pacto germano-soviético, de 1939 (também denominado pacto Ribbentrop-Molotov inspirado nos apelidos dos Ministros dos Negócios Estrangeiros dos respectivos países assinantes do famigerado e controverso tratado internacional, designadamente Joachim von Ribbentrop e Viatcheslav Molotov), de não agressão e de estreita cooperação comercial, económica e técnica, e do seu protocolo secreto, de partilha da Polónia e de alguns países bálticos e do leste da Europa, quiçá inadvertidamente em face da intenção, sempre latente, sempre iminente, de a Alemanha nazifascista invadir, mais cedo ou mais tarde, o imenso país multinacional euro-asiático; quiçá de forma fria e calculista na expectativa de uma guerra de grandes dimensões entre as potências capitalistas rivais e dos seus correlativos posteriores enfraquecimento e exaustão; quiçá ainda e mais verosimilmente para ganhar tempo em face das patentes hesitações e dos esforços de apaziguamento das potências ocidentais liberal-democráticas consubstanciados no Tratado de Munique que autorizou a Alemanha nazi a anexar os Sudetas, território checoslovaco habitado predominantemente por populações alemãs, e que tinha antecedida pela anexação (Anschluesch) da Áustria, país germânico natal  de Adolf Hitler, e a que se seguiram a ocupação de todo o território da Checoslováquia, e, finalmente, a invasão da parte ocidental da Polónia, a qual determinou a declaração de guerra à Alemanha por parte das potências ocidentais França e Inglaterra e, assim, o início oficial da Segunda Guerra Mundial. De todo o modo, desde a chegada de Adolf Hitler ao poder que se tornaram patentes a ostensiva agressividade e a visível ameaça expansionista e militarista nazifascista, aliás, ampla e inequivocamente expostas na obra Mein Kampf, da autoria do futuro Fuehrer do Terceiro Reich alemão, Adolf Hitler, que o escreveu na prisão, a que foi condenado depois do frustrado Putsch de Munique, tentativa de insurreição armada promovida pelas tropas de choque nazifascistas, reprimida com sucesso pelas forças militaro-policiais da República de Weimar, fracasso esse que levou Hitler a mudar de estratégia política e a doravante a encarar seriamente a tomada do poder político por via eleitoral para depois encetar a edificação imediata do Estado totalitário nazifascista e a preparação militarista para guerras mundiais de conquista territorial do chamado espaço vital alemão, situado primacialmente a leste da Alemanha. A situação na altura era tanto mais sensível, difícil e periclitante para a União Soviética na medida em que a maior parte do corpo de oficiais de alta patente das suas Forças Armadas, o Exército Vermelho, tinha sido objecto e vítima do grande terror e das grandes purgas que dizimaram os dirigentes e os quadros do Partido Comunista da União Soviética, a elite político-militar e partes significativas das populações soviéticas, em especial no âmbito dos celebrizados e famigerados processos-farsa de 1936, 1937 e 1938. É no preciso contexto da disseminação mundial do terror estalinista, como ocorreu, por exemplo, na guerra civil de Espanha, de 1936 a 1939, para a resolução de conflitos político-ideológicos internos entre as diferentes facções da ala republicana, que se enquadra o fatal e trágico desfecho do destino de Leon Trotsky, o arqui-inimigo e principal crítico e opositor político-ideológico do líder soviético, consubstanciado na traiçoeira e assassina picareta de montanhista de Ramon Mercader, o agente secreto espanhol da polícia política soviética, o NKVD, que lhe tirou a vida, depois de o alvo predilecto e expectável vítima mortal da sanha persecutória dessa mesma polícia secreta ter sido implicado nas várias fases dos processos-farsa de Moscovo, alegada e inverosimilmente, como espião a soldo de várias potências estrangeiras capitalistas e mentor-mor de todas as conjuras e conspirações para supostamente derrubar de forma violenta o poder soviético e atentar contra a vida do seu chefe máximo, seu contemporâneo e antigo camarada, já então idolatrado como Pequeno Pai dos Povos e líder incontestado do Komintern, nessa altura aberta e profusamente instrumentalizada pela União Soviética para a defesa dos seus interesses geo-políticos e geo-estratégicos no mundo. As minhas reservas político-ideológicas em relação a Leon Trotsky têm por fundamento o irrealismo utópico e aventureirista da sua teoria da Revolução (Socialista) Permanente, baseada no princípio também por ele teorizado do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo mundial, e que propugnava a necessidade da simultaneidade temporal da realização, liderada pela classe operária e pelo seu partido revolucionário e pelo seu Estado da Ditadura do Proletariado, das revoluções democrático-burguesa e socialista nos países economicamente atrasados dominados pelo centro do capitalismo mundial sem necessidade de existência de uma etapa intermediária de transição política, económica, social e cultural, por mor da incapacidade da burguesia nativa desses mesmos países em resolver as tarefas essenciais de uma revolução democrático-burguesa devido às suas estritas conexões de dependência em relação à burguesia imperialista dos países industrialmente desenvolvidos; a sua alternativa ultra-esquerdista à ordem burocrático-administrativa alegadamente socialista implantada pela nomenclatura político-partidária no poder soviético, aliás, por ele certeiramente designado como Estado operário degenerado, sendo que esse mesmo Estado foi igualmente caracterizado por Leon Trotsky, muito antes da reconhecida e celebrizada filósofa política e politóloga judia alemã Hannah Arendt, como sendo um Estado totalitário, tal como, aliás, o Estado nazifascista, em razão do uso sistemático por ambos os tipos de Estado irmãos-inimigos do terror como método privilegiado para a contenção e a eliminação de inimigos e adversários políticos, bem como o impenetrável e opaco gregarismo dos grupúsculos espalhados por esse mundo fora que seguem a sua doutrina político-ideológica invariavelmente de natureza aventureirista, revolucionarista, entrista, divisionista e fraccionista.

Esgotada essa segunda ronda de ególatra e palavroso exibicionismo do inventário marxista-leninista da sua vasta cultura política revolucionária, martelada de forma automática e ininterrupta com as palavras parecendo ser ditas de cor depois de exaustivamente memorizadas a partir de leituras de anos, diariamente repetidas e reactualizadas, dos livros que trazia sempre consigo, o louco predilecto da cidade olhou fixamente para mim e resolveu regressar, aparentemente de forma definitiva, à explicação do que considerava serem os verdadeiros e genuínos fundamentos da sua razão minoritária: 

“Como estava dizendo e repito: as razões da minha loucura são políticas e ideológicas, exactamente e tal como nos casos e nos precedentes de que te falei anteriormente.

Aliás, não diz qualquer crioulo dotado do mínimo bom-senso e da requerida cautela, referindo-se a alguém que propugne a rebeldia ou que pretenda fazer das ruas e das esquinas das nossas vilas e cidades lugares de insurreição da palavra livre? - Cuidado, é um político! 

A minha dissidência tem de ter, pois, uma aparência paranóica, pois que somente os paranóicos, como tal reconhecidos pelo erecto e humorístico polegar das boas consciências, têm o integral e indivisível direito à fractura e à fartura da palavra de cada dia.

No demais, frequenta-se a quinta enfermaria dos doentes mentais do Hospital Central Dr. Agostinho Neto, conversa-se com os colegas malucos, loucos e doidos varridos, acamarada-se com o psiquiatra de serviço, contempla-se o mar a partir do parapeito do Cruzeiro (aliás, ultimamente muito assediado por suicidas potenciais, pelas vítimas do adultério feminino e por outros citadinos assaltados pela descrença e pela má fortuna), ensaia-se alguns trejeitos inconformistas, recolhe-se material para um vindouro romance político utópico e futurista e proclama-se livremente a inevitabilidade do repentino desassombro da liberdade por vir, inteira, saciada e redonda, contando-se com a segura piedade da maioria, da sua razão e da sua ciência, ainda e sempre infalíveis. Note-se bem: com a sobrevivência quotidiana garantida pela conivência de padres, comerciantes, psicólogos clínicos, comissários políticos do partido, críticos, dissidentes e opositores do regime político de partido único instituído, caricaturistas/cartoonistas, cronistas e humoristas, amigos de infância, empregados e porteiros das buates, das discotecas e dos restaurantes em voga, donos de botequins, de tabernas, de mercearias e de bares urbanos e suburbanos. 

São imprescindíveis a caridade cristã, os rostos jocosos e os risos súbitos e repentinamente tristes.

E nada nem ninguém são absolutos. Não desconfiasse Deus de si mesmo, como poderia ele (não) ter inventado o Diabo?

Todas as sociedades têm o que elas rotulam de loucos (ou, melhor, de génios) varridos, varados contra o luar e a serenata, sempre desvairados com as (in)congruências do quotidiano.

Por outras palavras, todas as sociedades têm os seus críticos, dissidentes e opositores. Eles podem é estar na cadeia, na psiquiatria, sob uma qualquer campa, no duvidoso anonimato da rua ou dos estádios de futebol, ou, até, na bancada única da Assembleia Nacional Popular. 

Antigamente, eram ascéticos e tinham por única companhia o sol sobre os pardieiros, os percevejos e o amargo ricochete das suas próprias palavras. O seu pior e mais ruidoso inimigo eram as crianças. Nunca percebi bem porque é que essas duas aparentes encarnações da inocência se têm demonstrado tão incompatíveis entre si. Porquê? Quiçá porque se desmascarem mutuamente. 

As crianças são, assevero-te, intolerantes e intoleráveis, tais como os modernos malucos, essas criaturas coloridas, filhas da ganja, da decadência pequeno-burguesa e da pós-loucura urbana, sempre camaleónicas na sua recusa em se suicidarem como integrantes de uma categoria social parasitária, como propugnou o camarada Amílcar Cabral na genial ingenuidade e na prática inconsequência da sua arma da teoria. Não suportam a autenticidade da loucura, tal como eu e os meus semelhantes a vivemos diariamente. 

Eu sou, sei-o, um espectro do passado e das suas fenecidas utopias, todavia um homem da cidade e ex-soldado. Estou saldado com a pátria. E o passivo da pátria para comigo? Tantas promessas! Quantas palavras não descaíram já do meu rosto crispado e do meu árido olhar sobre os lugares da natalidade?

Lembras-te da minha farda verde-oliva, do meu hirto andar de jovem oficial e do meu olhar austero e altivo acompanhando o desfile das recém-nascidas e ainda verdes e inexperientes milícias populares, quase como o de um ex-combatente da liberdade da pátria? Claro que te lembras! 

Oh! Exasperação das consciências!… Oh! Terra das efígies sacralizadas em pedra! Terra de santos e da mítica e escassa água! Terra de Sant´y Ago!” 

E continuava indagando-se o maluco, agora envolto numa aura mística cobrindo-lhe as vestes rasgadas, os sujos resquícios da antiga farda verde-oliva e a cara manchada dos relentos nocturnos da praça: “Ou serei antes o espectro do futuro e o que dele germina no lodo e no limo em que se afoga e se afaga o meu coração?”

E continuava incendiando-se o maluco no Café Cachito e imaginando-se rente à praça, e à sua esplanada, e ao seu urinol público subterrâneo, e ao seu chafariz de águas verdes desertoras. 

Será a praça a sua cova e a sua nova pátria?

“Tu és único e o melhor dos amigos, porque és sempre amável comigo, mesmo depois do meu acossamento pela esquizofrenia e de te teres municiado de estudos superiores no estrangeiro europeu. Escuta por isso essa confidência, o manifesto da minha obsessão vestida de sarcasmo.

Digo-te: chegado o momento, aceso o estado de vigília, hei-de passá-lo ao papel e, depois, espalhá-lo-ei por cartazes e dísticos e vai ser um escândalo. Escândalo porquê? 

Ora, porque será o tão esperado discurso coerente da loucura. Dessa loucura teimosamente subjacente à incoerência deste nosso quotidiano lunar de todas as estações.

Escuta então esta duradoura e lírica raiva de habitar a cidade. Cidade da qual hás-de um dia escrever a verdadeira crónica. Sim, exactamente como acabaste de ouvir. A verdadeira crónica. 

Não a crónica peregrina e passageira da curiosa altivez dos turistas, nem a crónica dos habituais frequentadores dos lugares bêbados, de ilusões descaindo de cada gota de álcool, como sombras de corpos que se sumissem de repente, não da companhia dos entes mais queridos, mas das suas memórias mais recentes, das suas cogitações mais afectivas. Admiro-me como, às vezes, observamos o nosso espírito inexplicavelmente enrolado na escassa penumbra do nosso corpo e confesso, confidenciando-te, em frase que me há-de imortalizar, ami Caló di Dona Tina, eu Carlos de Dona Atina: (…). 

A verdadeira crónica por vir há-de ser a crónica do anacronismo das areias à beira-mar e do seu crónico condão de serem eternos objectos das carícias do mar ciclotímico e temperamental. 

Da beira-mar há-de a crónica, como eu, ou tu, ou qualquer um em momentos desconexos do sempre almejado delírio, deslizar na areia como o corpo traiçoeiro da serpente sobre a erva imaginada. O deslize não será porém nem tímida carícia, nem abjecto abraço, nem tão pouco afago. Será simplesmente deslize sobre algo desprezível ou, pelo menos, indiferentemente sustentáculo.

E há-de a crónica observar os disformes botes em ruínas sob o olhar do cais de São Januário. E a azáfama salgada dos pescadores de Chã de Areia, impenitentes na pescaria da vida, no constante voltear dos gestos. E a azáfama metálica dos que vivem nas margens das ondas, sem nunca terem penetrado o seu revoltear. 

Há-de a crónica incrustar-se no recôndito das negociatas, na desalentada mímica das peixeiras e das mães-de-filho dos pescadores reflectindo-se na retina impura dos pecadores de plantão.

A partir daí, quando a crónica subir a cidade pelas suas escadarias de pedra íngreme, será dúplice o seu olhar e duplo qualquer preço a pagar.

E a crónica, estonteando-se, há-de perguntar-se qual a primogénita das escadarias, a que, tosco rochedo, se transforma, como num passe de mágica, em caminho asfaltado, quase num paraíso translúcido nos titubeantes horizontes das ilhas, ou a que, de pedra trabalhada, se transmuta em pedra rude, até ser limiar e essência da poeira e dos seres triturados no bambolear da poeira. 

Será essa a primeira duplicidade e a derradeira súplica da crónica”.

E fixava-me o maluco, e fixava-se o maluco.

Depois de febril meditação, esvaziou a caneca de ponche, bebendo de um só trago o licor de aguardente com mel, tipicamente caboverdiano, que ainda nela restava, e rematou: 

“Na verdade, pensando bem, talvez eu seja um típico e vulgar esquizofrénico e a cidade, com os seus abúlicos e os seus abutres, seja a matéria e o pasto predilectos da minha esquizofrenia de todos os dias. A cidade, esta cidade minha, esta cidade nossa que se diverte à minha custa e me acossa, a seu bel-prazer, no lúdico, maldoso e cruel ritual das suas crianças”. 

Porque, entretanto, se distanciou o meu pensamento para a interpelação frásica caída de rompante: “Dionísio, tu que és poeta ou, pelo menos, íntimo de poetas, dá-me um toque sentimental neste relatório de actividades da empresa. Concentra-te, rapaz! E, não te esqueças dos poemas encomendados para as comemorações do Primeiro de Maio! E dos discursos alusivos ao 19 de Setembro!”

Ah! A solidão da poesia estirada sobre o lívido corpo da cidade e a geométrica carreira dos números!

“O destino dos loucos é a cruz, a cruz da razão da maioria, todavia sempre execrável e silenciosa”- concluiu abruptamente o credor da pátria, deixando-me algures num café da cidade-capital da pátria, em Março, defronte do mar de serviço.

Com olhos de turista… 

E a promessa da crónica, da verdadeira crónica por vir…

 

Praia, 23/5/1986, 25/4/1987

Primeira versão publicada, em 1988, na revista Fragmentos. 

Revista e refundida em Lisboa, a 09, 20 e 22 de Novembro de 2010, e a 1 e 7 de Setembro de 2014, e, em Queluz, em 2016, 2020, 2022 e a 24, 25, 26, 27, 28, 29 e 30 de Junho, 7 e 8 de Julho de 2026, 

 

 

por José Luís Hopffer Almada
A ler | 8 Julho 2026 | China, loucura, marxismo, memória, poesia, Praia, utopia