Mário Pinto de Andrade: uma visão cultural da Frente Leste - Prefácio

DO ARQUIVO AOS PAPÉIS DO LESTE

Na primavera de 2023, poucos meses após ter iniciado uma investigação focada no arquivo pessoal do intelectual e político angolano Mário Pinto de Andrade, tive a sorte de encontrar o Dr. Manuel Videira, antigo combatente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e amigo de Andrade, com quem conversei sobre os momentos da luta pela libertação de Angola que os dois tinham partilhado. Aproveitei para fazer perguntas sobre temas, personagens e períodos muito diversos da luta e da sua vivência em conjunto. Até então, a minha pesquisa não tinha um foco definido, mas procedia de forma exploratória: propunha‑me analisar o maior número possível de documentos para formar uma ideia geral sobre a vida e a militância de Andrade (e reconheço agora que havia nesse propósito algo de inconsciente, pois, não conhecendo ainda plenamente a intensidade e complexidade da sua trajetória pessoal e política, não tinha noção da magnitude da tarefa).

A certa altura da entrevista, Videira fez‑me notar que havia um período sobre o qual eu não fizera nenhuma pergunta: «O Mário tem um período que você ainda não referiu, e é muito importante, mas eu não posso dar muita informação porque, entretanto, eu estava na Quarta Região. O Mário esteve na Terceira Região do Leste.» Ainda que não pudesse acrescentar muito, com a sua observação Videira realçava a importância da experiência de Andrade na Frente Leste, importância para a qual – dei‑me conta depois – já o próprio Andrade aludia nas passagens  conclusivas da longa entrevista que deu ao investigador francês Michel Laban, quando, ao contar da sua vida no começo dos anos setenta, afirmava que:

“depois de ter tido contactos com camaradas do MPLA que me propuseram ir ver e participar mais […] parti para a Frente Leste, em 1971. Aí, começa uma outra história à qual é preciso consagrarmos uma sessão em particular: é uma outra visão, a visão cultural da Frente Leste. Tornei‑me etnólogo do meu próprio país.” (1997: 187)

Infelizmente, devido aos inúmeros compromissos de Andrade e, mais tarde, à sua morte repentina, a tal sessão consagrada às memórias da Frente Leste nunca chegou a acontecer e a entrevista termina justamente com esse parágrafo, com a promessa de uma história que jamais seria contada.

Essas duas pistas, a observação de Videira e a entrevista «inacabada» de Laban, apontavam ambas para uma experiência decisiva, uma viragem a partir da qual «começa uma outra história». Desta história porém, ainda pouco se sabia e pouco se tinha escrito. Isso levou‑me a revisitar com maior cuidado um conjunto de documentos presentes no arquivo, aos quais, até então, não havia atribuído a devida importância. 

Embora hoje se encontrem organizados em várias pastas, esses documentos tinham sido inicialmente arquivados pelo próprio Andrade numa única caixa, da qual os arquivistas guardaram a lombada, acompanhada de uma nota a indicar que fora mantido o acondicionamento original dos documentos.

Nessa altura, eu já adquirira alguma familiaridade com o arquivo e sabia que, regra geral, Andrade era bastante organizado, e até meticuloso, na arrumação dos próprios documentos. No entanto, não encontrara outros casos em que a documentação tivesse sido organizada dessa maneira, para formar um conjunto tão coeso e coerente. Tomando essa característica como mais um sinal de que me devia dedicar à análise desses documentos, comecei a estudar o material com mais atenção, o que exigiu um longo trabalho de transcrição, tornado por vezes ainda mais demorado pela dificuldade em interpretar a letra de Andrade. À medida que os estudava, convencia-me cada vez mais da importância desses documentos e da necessidade de os tornar públicos e acessíveis ao maior número de pessoas, dado que, apesar de ter existido durante anos uma versão digital disponível no site do projeto Casa Comum, eles continuavam a ser desconhecidos.

A ideia da publicação recebeu um impulso adicional quando, durante um evento em Lisboa no verão de 2023, conheci Nelson Pestana, professor do Centro de Estudos Africanos da Universidade Católica de Angola (UCAN) que estava a ultimar um projeto de edição da obra completa de Viriato da Cruz e que, nessa ocasião, manifestou a sua intenção de se ocupar, num segundo momento, dos escritos menos conhecidos de Mário Pinto de Andrade. Apresentei‑lhe a minha ideia e decidimos juntar forças.

Por fim, foi fundamental que as filhas de Andrade, Annouchka e Henda Ducados, acolhessem com entusiasmo o projeto de publicação dos Papéis relativos à passagem do seu pai pela Frente Leste, reconhecendo desde logo o seu valor. De facto, elas não só autorizaram de imediato a utilização dos materiais que eu tinha selecionado no arquivo, como também integraram outros documentos totalmente inéditos, encontrados em algumas caixas que vieram recentemente à tona em Paris. Entre eles, o achado mais importante e significativo é o diário que Andrade manteve durante os cerca de sete meses em que esteve na frente, bem como algumas cartas escritas nesse período à sua companheira histórica e mãe das suas filhas, a realizadora Sarah Maldoror.

Se os outros documentos constituem o testemunho vivo do trabalho intelectual de Andrade e do seu constante empenhamento político, estes textos expressam a sua humanidade e a sua intimidade, relato sem filtros das suas impressões e pensamentos sobre o andamento da luta e os seus impasses. Revelam o cansaço, o mal‑estar, as dúvidas e até a própria fragilidade de Andrade, bem como a sua profunda ironia e o indomável espírito crítico. Contudo, não é possível classificar estes documentos simplesmente como uma válvula de escape pessoal, pois, se por um lado mostram a dimensão íntima de Mário Pinto de Andrade, por outro oferecem um retrato inédito e em tempo real do que se passava na Frente Leste no início dos anos setenta. E, efetivamente, a importância dos documentos que aqui se publicam não decorre exclusivamente do facto de terem sido produzidos por um dos intelectuais africanos mais significativos do século passado, mas também da relevância histórica que a Frente Leste assumiu no contexto da luta de libertação angolana.

 

QUEM VAI AO LESTE…

Para o MPLA – que havia começado a luta armada em 1961, mas que nunca organizara uma guerra de guerrilha verdadeiramente eficaz na 1.ª e 2.ª Região Político‑Militar –, a abertura da Frente Leste em 1966, na fronteira com a Zâmbia recém‑libertada do regime colonial, marcou um momento de grande crescimento tanto em termos militares quanto a nível da participação da população local. Por isso, segundo o historiador Jean‑Michel Mabeko‑Tali, para o MPLA a Frente Leste foi realmente «o primeiro local onde apareceram as possibilidades, potenciais e práticas, de esboço de uma estrutura de Estado». Inicialmente limitada à assim chamada Terceira Região - que compreendia o vastíssimo território das províncias de Moxico e Cuando‑Cubango - em 1969 a Frente Leste expandiu‑se para o norte, para as Lundas, com a abertura da Quarta Região. No meio de grandes entusiasmos, a liderança do movimento lançou a palavra de ordem «Todos para o interior», exortando quadros e militantes que até então tinham permanecido no estrangeiro a regressar e a dar a sua contribuição para a guerra.

Contudo, foi justamente a partir de 1969 que emergiram com mais força diversos fatores que acabaram por complicar a situação na Frente Leste. Além da necessidade de enfrentar uma violenta contraofensiva do exército colonial e a presença na região de um movimento de libertação rival – a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) –, para o MPLA o grande desafio consistiu em gerir a relação com a população local. No início, os habitantes das chamadas «terras do fim do mundo» aderiram com entusiasmo à luta armada. Com o tempo, porém, a má gestão das relações entre comandantes – quase sempre vindos do Centro e do Norte de Angola – e militantes de base – na sua maioria nativos da região –, bem como episódios recorrentes de abuso de poder e de distribuição desigual de pequenas regalias e privilégios, criou um clima de conflito que foi logo interpretado como expressão de tribalismo.

No final de 1969, ocorreu a chamada «revolta Gibóia», a primeira insurreição dos militantes do MPLA na Frente Leste. A ação consistiu numa marcha que, partindo das bases do movimento em território angolano, seguia em direção à fronteira com a Zâmbia e, idealmente, a Lusaka, onde os revoltosos pretendiam negociar diretamente com Agostinho Neto para obter os privilégios e o protagonismo que, segundo alegavam, lhes eram negados pelos militantes vindos do norte. Mesmo depois de a revolta ter sido controlada e silenciada, as tensões etno‑identitárias continuaram – como se pode inferir do diário de Mário Pinto de Andrade que aqui publicamos – e viriam a desaguar, em 1974, na criação da facção dissidente denominada Revolta do Leste.

O clima de tensão e desconfiança, juntamente com os graves problemas logísticos que dificultavam o avanço do movimento de libertação e os intensos bombardeamentos do exército português que destruíam plantações e provocavam uma extrema escassez de recursos, transformou a Frente Leste num cenário especialmente crítico.

Após esta introdução, talvez se compreenda melhor a nota manuscrita que se encontra na contracapa de uma pasta em que Mário Pinto de Andrade guardava alguns dos seus documentos, a qual diz: «Quem vai ao Leste e não falece ou vira doido ou padece.» Não é claro se o trocadilho foi inventado pelo próprio Andrade ou se já circulava entre os militantes do MPLA, mas o certo é que, além de refletir o clima que reinava na Frente, também previa, com alguma certeza, o destino de quem era ali enviado. 

Se Andrade teve a sorte de se esquivar à morte e à loucura, os padecimentos não faltaram: assim que chegou a Lusaka, de onde o MPLA coordenava as atividades na Frente Leste, adoeceu com paludismo. As febres perseguiram‑no durante toda a sua estadia, como registou no diário, e pesaram sobre a sua já frágil saúde, juntamente com as longas e extenuantes marchas e a má alimentação.

É provável que Andrade tenha também sofrido de uma certa forma de ostracismo durante a sua permanência no Leste, pelo menos da direção. Desde que em 1963 se afastara do MPLA por discordar de algumas decisões tomadas pelo novo presidente, e embora tivesse sido reintegrado no ano seguinte, permaneceu no seio do movimento uma atmosfera de desconfiança em torno da sua figura. Nunca mais foi chamado a ocupar cargos de relevo. Na opinião de alguns, isso deu‑se porque o seu espírito crítico e a sua independência intelectual não eram particularmente apreciados. De facto, segundo a transcrição de um interrogatório conduzido pela Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE) a um militante do MPLA capturado na Frente Leste, durante a sua estadia na base guerrilheira de Kitexe II, Andrade era «muitas vezes designado depreciativamente por o intelectual». Convém destacar que, num contexto em que apenas aqueles que pegavam em armas eram reconhecidos como legítimos agentes revolucionários, ser tachado de intelectual equivalia quase a um insulto, sendo os intelectuais desprezados pela falta de coragem e o suposto oportunismo. 

Apesar das críticas que possa ter recebido, mantendo‑se fiel ao nome de guerra que escolhera – Ukamba, palavra em kimbundu que significa amizade –, Andrade conseguiu estabelecer profundos laços de camaradagem com alguns militantes que, uma vez enviados em missão, lhe escreveriam agradecendo «a única compreensão, o único apoio e o único calor humano [recebidos] antes desta aventura».

 

UM INTELECTUAL NA POLÍTICA E UM ETNÓLOGO DO SEU PRÓPRIO PAÍS

É certo que, quando foi convocado para integrar o movimento «no interior» e se juntar à guerrilha, Andrade hesitou em deixar Argel, onde vivia desde 1964 – uma hesitação que alimentou as dúvidas sobre ele e reforçou a ideia de que não teria coragem suficiente para participar na guerrilha. Segundo o que emerge dos seus documentos, entretanto, o seu receio estava ligado, por um lado, à necessidade de prover ao sustento e à manutenção da sua família e, por outro, à perspetiva de interromper os diversos projetos editoriais que tinha iniciado, os quais representavam, para ele, a forma mais concreta de participar na luta de libertação. Se analisarmos a definição que ele próprio dava de si mesmo – a de ser «um intelectual emprestado à política» – percebemos que esta, mais do que estabelecer uma hierarquia entre o papel de pensador e o de militante, queria ressaltar o profundo significado político que Andrade atribuía ao trabalho de difusão da cultura e de promoção da causa da independência.

Em 1971, quando finalmente partiu para a Frente Leste, Andrade acabara de publicar pelas Éditions Maspero, em Paris, La Guerre en Angola. Étude socioéconomique, escrito em colaboração com o seu amigo e colega sociólogo Marc Ollivier. Eis que a experiência a ser adquirida na Frente passou a ter um novo atrativo, pois se apresentava como uma oportunidade de incorporar novos elementos para uma eventual segunda edição do livro, como o próprio Andrade mencionou numa carta a Ollivier. Nota‑se aqui uma característica típica de Andrade: a tendência para aproveitar qualquer tipo de ocasião para produzir livros, publicações, artigos e outros conteúdos que pudessem ser divulgados para conquistar o apoio e a solidariedade da opinião pública internacional. Manuel Videira também lembra que, quando foi enviado para servir nos Serviços de Assistência Médica (SAM) da Quarta Região, levou consigo um caderno de anotações a pedido de Mário Pinto de Andrade, «para depois, junto com o Mário, escrevermos um livro sobre as atividades do MPLA na Frente Leste».

No âmbito do seu trabalho como colaborador do Comité de Coordenação Político‑Militar do MPLA para a Informação Política e Social, Andrade participou em diversas atividades, preparando discursos para as comemorações de datas‑chave do movimento, ou gerindo a organização de debates internos e de seminários com representantes da Organização da Mulher Angolana (OMA) e com os organizadores‑mobilizadores e ativistas políticos da sub‑região, entre outras iniciativas. Entretanto, a tarefa mais significativa a que se dedicou foi a realização de um inquérito sobre as transformações que a guerra de libertação tinha trazido à região, inquérito que incluiu tanto uma parte de estudo sistemático da história da região e das suas raízes linguísticas e étnicas, quanto uma vertente de trabalho de campo. Foi neste contexto que Andrade se tornou – como declarou anos depois na entrevista a Laban – «um etnólogo do seu próprio país». 

Durante todo o período em que esteve na frente, Andrade recolheu dados em primeira mão sobre as atividades económicas predominantes na região, bem como sobre manifestações culturais resultantes da presença dos guerrilheiros, como a produção de canções de guerra. Paralelamente, conduziu uma série de mais de vinte entrevistas a militantes e civis residentes nas aldeias controladas pelo MPLA, registos preciosos que ajudam a compreender as formas como a região foi mobilizada politicamente, como a população local interagia com os portugueses antes e depois da eclosão do conflito e como vivia sob as duras condições impostas pela guerra. Sentindo‑se à vontade para partilharem as suas histórias e expressarem as suas opiniões, os entrevistados revelaram‑lhe detalhes valiosos sobre as suas experiências de vida, incluindo as dificuldades enfrentadas enquanto trabalhadores forçados, o modo como se aproximaram do MPLA, ou como foram recrutados para servir no exército colonial. Há também entrevistas que dão conta da vida nas ndandandas – também chamadas eufemisticamente «sanzalas da paz» –, aldeamentos estratégicos onde os portugueses colocavam à força a população local para impedir o contacto com a guerrilha, e que mostram como muitas vezes as pessoas conseguiam também fugir delas para voltarem para a mata. Finalmente, dependendo do interlocutor, Andrade perguntava ainda sobre a linhagem dos chefes, a história local e a transmissão tradicional do poder, convencido de que, para compreender a realidade da região, era preciso conhecer a fundo a sua cultura e o seu passado.

A partir das entrevistas, dos dados recolhidos para o inquérito e da observação das dinâmicas interpessoais que se impunham nas bases guerrilheiras, Andrade começou a escrever um ensaio intitulado «Sociologia da guerra e ideologia», que em algumas das versões reunídas neste volume numa edição crítica, também leva o subtítulo de «Contribuição ao debate sobre a crise actual do MPLA». Embora inacabado, o ensaio, especialmente na sua primeira parte – a mais desenvolvida –, constitui uma reflexão lúcida sobre os problemas que alimentaram a crise do movimento, numa tentativa de fundamentar a práxis do MPLA numa compreensão profunda da realidade social subjacente.

Todo esse material está incluído no presente volume. Quando foi considerado necessário, foram incluídas imagens em fac‑símile dos registos encontrados no arquivo, de modo que os leitores se possam familiarizar com a materialidade dos documentos e apreciar a sua elaboração. Além disso, também foram incluídas fotografias tiradas a Andrade na Frente Leste, algumas das quais o retratam em pose de guerrilheiro, sinal de que ele também não ficou de todo imune ao fascínio da estética predominante naquele período de guerra.

Porém, é preciso dizer que, dos inúmeros cadernos que Andrade preencheu com apontamentos durante os meses em que esteve na frente, há conteúdos que não foi possível – ou que não fazia sentido – adaptar para esta edição. Entre eles, destacam‑se as transcrições de diversas emissões radiofónicas da Radio South Africa (RSA), bem como trechos retirados de livros consultados por ele. Além disso, em alguns cadernos, há anotações muito fragmentárias, com palavras rabiscadas e várias rasuras que tornam o texto quase ilegível, de modo que a sua transcrição ficou para além das minhas capacidades e competências. Esse material abre caminho a possíveis investigações futuras. É meu mais profundo desejo que este volume possa estimular um amplo conjunto de investigadores e investigadoras a desenvolverem trabalhos de pesquisa no arquivo de Mário Pinto de Andrade e a explorarem a sua riqueza e as inúmeras potencialidades que nele se encerram.

 

No dia 5 de julho às 19h na Casa do Comum será o lançamento de “Os papéis do Leste”, de Mário Pinto de Andrade, organização Elisa Scaraggi e Nelson Pestana, com os autores e moderação de Leopoldina Fekayamale

à venda na Tigre de Papel.

por Elisa Scaraggi
Mukanda | 2 Julho 2026 | angola, Frente Leste, Mário Pinto de Andrade, mpla