Notas de reconciliação Algumas reflexões sobre o hino, a bandeira e a língua kabuverdianu

Kabuverdi celebra hoje 51 anos da sua independência, dois dias depois de terminar uma participação extraordinária na sua primeira Copa do Mundo de Futebol. A forma como os símbolos nacionais, mormente o hino e a bandeira, foram apropriados pelos kabuverdianu, como que num ato de retomada da soberania simbólica, leva-me a partilhar estas notas sobre  como nos relacionamos com os nossos símbolos nacionais e com a nossa língua materna.

Qualquer kabuverdianu que viva na diáspora já passou, pelo menos uma vez, pela experiência de ter de explicar que, apesar de não aparecer em certos mapas (sejam geográficos ou mentais), o seu país existe e é uma nação africana soberana. Quantos de nós não tivemos já de explicar que a bandeira de Kabuverdi não é a da União Europeia? Ou que temos uma língua materna e não um dialeto?

Bubista, o grande comandante da seleção nacional, disse em conferência de imprensa: «Esta equipa é a identidade do nosso povo.» Esta frase deveria servir de mantra e de código de conduta para os nossos dirigentes políticos.

Para o mister, a língua oficial da seleção é, indubitavelmente, a língua kabuverdianu. Bubista dizia que, por vezes, os jogadores tentam falar outros idiomas entre si, mas não o permite, «para manter intacta a nossa identidade cabo-verdiana». Não sem surpresa, vimo-los, repetidas vezes, falar kabuverdianu nas entrevistas. Para quem luta pela soberania linguística e contra o supremacismo do português, estes pequenos gestos têm um poder imenso.

Que o futebol seja uma arena geopolítica não é novidade. Mas que pudesse suscitar-me tantas reflexões sobre os processos de reconstrução nacional, confesso, jamais me passou pela cabeça. Até porque o futebol nunca fez parte dos meus grandes entusiasmos. Não tenho clube, nunca acompanhei campeonatos e, curiosamente, apenas me sinto motivado a ver jogos que envolvam seleções nacionais, e mesmo assim sem grande  assiduidade.

Com a participação de Kabuverdi, vi-me depressa envolvido num mar azul de emoções que em vão tentei suprimir. Subestimei a capacidade que este tipo de eventos tem para nos mobilizar e encantar. O entusiasmo, porém, não era propriamente pelo futebol em si, mas pela mensagem contagiante de união e convicção transmitida por aqueles jogadores que, na sua maioria, nasceram na diáspora e que, sob a liderança de Bubista, tão bem nos representaram. Mas também, e sobretudo, pela capacidade da nossa gente em fazer povo e formar um só corpo em torno de um objetivo comum: vencer coletivamente.

Em toda esta caminhada, o hino, a bandeira, mas também a língua, assumiram o seu papel político, mas também ontológico, de covocação e congregação da nação. Certamente não será exagerado dizer que, em matéria de reconhecimento internacional do que é Kabuverdi, haverá um momento antes e um momento depois desta Copa e que, certamente, já poucos ficaram indiferentes à nossa bandeira.

Estimativas apontam para dezenas de milhões de pessoas a acompanharem apenas o jogo de 3 de julho, data doravante consagrada como o Dia dos Tubarões Azuis por Francisco Carvalho, o nosso atual chefe de governo. Terá sido, de facto, um dos jogos com maior audiência de todo o torneio até então. Só a CazéTV, por exemplo, que fez uma campanha imensa nas redes sociais para que Vozinha aumentasse o número de seguidores no Instagram, registou 17, 8 milhões de aparelhos conectados ao longo da partida, estabelecendo um dos maiores recordes de streaming no Brasil. Não é em vão que Gilberto Gil terá dito que o Brasil era «uma potência de solidariedade». É muito provável que nunca, desde a independência, o nosso hino, a nossa bandeira e até a nossa língua tenham tido uma oportunidade tão grande para cumprir o seu papel de congregar um povo e anunciar ao mundo que ele existe.

Parafraseando Marcus Garvey, todos os povos, sem exceção, utilizam os seus símbolos nacionais como uma linguagem de unidade interna, mas também como uma forma de dizer ao mundo que, por detrás de uma bandeira, existe um povo soberano.

Mas os símbolos nacionais, por mais envoltos numa aura poética e mítica que estejam, raramente têm histórias simples. Por detrás de muitos deles escondem-se guerras, disputas pelo poder, monarquias absolutistas, patriarcado, colonialismo e outras formas de dominação.

Basta olhar para a história da Europa para perceber que muitos dos símbolos que hoje parecem naturais nasceram em contextos profundamente violentos e celebram essa mesma violência. La Marseillaise, por exemplo, do país que se ufana de ser a pátria dos Direitos do Homem e do Cidadão, é uma apologia ao terror.

Embora o hábito de usar tecidos ornamentados ou de entoar canções para representar comunidades humanas seja muito mais antigo e possa ser encontrado em diferentes civilizações ao longo da História, a equação «hino + bandeira = Estado-nação» consolida-se a partir da chamada Paz de Vestefália, em 1648, quando o mundo europeu começa a organizar-se em Estados soberanos com fronteiras definidas. Mais tarde, com as independências africanas, os novos Estados que passaram a integrar a constelação das Nações Unidas levaram os seus hinos e bandeiras como expressão visível da sua soberania, porque eram, e continuam a ser, requisitos simbólicos do moderno Estado-nação.

Kabuverdi integra esse conjunto de novos Estados africanos, tendo partilhado com a Guiné-Bissau o hino Pátria Amada, escrito por Amílcar Cabral e musicado pelo compositor chinês Xiao He, bem como uma bandeira própria, desenhada por Érico Veríssimo, inspirada na bandeira do PAIGC, partido que liderou a luta de libertação. As duas bandeiras partilhavam a estrela negra, um símbolo panafricano, distinguindo-se a de Kabuverdi pela espiga de milho, evocando a agricultura e a nossa ruralidade, e pela concha, representando a marítimidade do arquipélago. O lema também pouco diferia: Unidade, Trabalho e Progresso, ao passo que o da Guiné-Bissau incluía Luta em vez de Trabalho.

Tanto o hino como a bandeira comunicavam, de forma inequívoca, a panafricanidade do projeto político de unidade entre Kabuverdi e a Guiné-Bissau sonhado por Amílcar Cabral. Jamais foram símbolos neutros, como, de resto, dificilmente o são quaisquer símbolos nacionais. As cores vermelho, preto e verde posicionavam simbolicamente Kabuverdi no grande conjunto dos Estados panafricanistas da época.

Mesmo depois do golpe de Estado de 1980 na Guiné-Bissau e do fim, na prática, do projeto de unidade, o país manteve os mesmos símbolos durante mais de uma década, denotando a vontade de preservar a herança histórica da luta de libertação e a memória desse projeto político anticolonial.

Com a revisão constitucional de 1992 e a transição para o multipartidarismo, o novo poder então eleito entendeu que a democracia deveria também afirmar-se através de novos símbolos nacionais. Carlos Veiga, um dos protagonistas desse período, explicou, em conversa com o jornalista Júlio Vera-Cruz Martins, na série 50 Vozes da Independência, que a mudança pretendia igualmente evitar situações de embaraço internacional provocadas pelo facto de Kabuverdi e a Guiné-Bissau continuarem a partilhar o mesmo hino e bandeiras muito semelhantes, chegando a criar constrangimentos protocolares.

A decisão de mudar os símbolos não reuniu consensos no país. O PAICV viu nela uma ruptura deliberada com o legado da independência e com o papel histórico de Amílcar Cabral, tendo chegado, segundo diversos relatos, a abandonar a sala da Assembleia durante a votação dos símbolos nacionais como forma de protesto político. Entendia que a nova bandeira, além de afastar o país da tradição panafricanista ao substituir o verde, o vermelho e o amarelo por uma composição dominada pelo azul, europeizava a soberania do país, aproximando-a de uma estética ocidental, semelhante à da bandeira da União Europeia.

Se é certo que, com a mudança democrática, Kabuverdi virou, na minha perspetiva, inegavelmente as costas ao continente africano e fez uma opção europeia, penso que vale hoje a pena olhar para esse debate com menos paixão do que em 1992. As críticas merecem ser conhecidas e discutidas. Mas também merece ser conhecido o processo que deu origem aos atuais símbolos, que, pelo que sabemos, resultaram de concursos públicos abertos aos kabuverdianu do país e da diáspora, que tiveram a oportunidade de participar na definição da imagem soberana do país.

Os novos símbolos nacionais nasceram desse processo concursal. A atual bandeira foi desenhada pelo arquiteto Pedro Gregório Lopes, para quem era preciso conceber «uma bandeira simples, ao ponto de qualquer criança a conseguir desenhar de memória». Rejeitou igualmente a ideia de que se tratava de uma bandeira europeia, explicando que «o azul não vinha da Europa; vinha do mar e do céu de Cabo Verde».

E faz todo o sentido. Salvo erro, o espaço marítimo kabuverdianu é cerca de cento e oitenta vezes superior à superfície terrestre do país. Somos, em muitos aspetos, mais mar do que terra. As dez estrelas representam as dez ilhas; a faixa vermelha simboliza o esforço e o sacrifício necessários à construção do país; as faixas brancas evocam a paz que deve enquadrar esse esforço. O artigo 8.º da Constituição consagra estes símbolos e a respetiva descrição.

O hino, por sua vez, conheceu um percurso mais longo e complexo. Ao contrário da bandeira, que foi aprovada por unanimidade pelo júri e integrou desde logo a Constituição de 1992, o primeiro concurso para o hino não produziu uma proposta consensual. A letra escolhida acabou por ser o poema Paz e Labor, de Amílcar Spencer Lopes, então Presidente da Assembleia Nacional, num concurso anónimo. A música, que também passou por um processo concursal, seria posteriormente composta por Betú, passando o poema a chamar-se Cântico da Liberdade. Só em 1996, quatro anos depois da entrada em vigor da nova Constituição, Kabuverdi passou oficialmente a ter o hino que ainda hoje canta.

Há dias,  interpelei o linguista Diltino Ferreira por  causa de uma publicação onde ele defendia que a musica  “Hino da Unificação”, de Norberto Tavares, deveria ter sido o nosso hino nacional. Compreendo essa posição e, de certa forma, até concordo, pese embora o caráter normativo da afirmação, como se Norberto Tavares tivesse participado no concurso e a sua proposta tivesse sido rejeitada. 

Em todo o caso, a afirmação de Diltino faz sentido, porque a obra do imenso Norberto Tavares conquistou, por mérito próprio, um lugar afetivo muito particular entre os kabuverdianu. Diria mesmo que toda a sua criação artística representa um enorme conjunto de hinos à kabuverdianidadi, reforçando, pedra a pedra, a nossa infraestrutura nacional de sentimento, parafraseando uma fórmula de Ruth Gilmore. Norberto Tavares não precisou de nenhum decreto, nem de qualquer concurso público, para ser reconhecido como património comum. Os próprios kabuverdianu que amam a sua música veem-no dessa forma, e creio não estar a dizer nenhuma enormidade.

Ainda sobre a publicação de Diltino, respondi-lhe que, pessoalmente, não vejo hoje nenhum problema no Cântico da Liberdade. E que, se tivesse de lhe acrescentar alguma coisa, seria apenas uma versão oficial em kabuverdianu, a nossa língua materna. Faço parte daqueles que defendem que o nosso hino também deveria poder ser cantado na língua da soberania popular e, porque não, entoado ao som das nossas músicas clássicas, seja o batuku, o funaná ou a morna.

Há qualquer coisa de profundamente colonial na forma como a maioria dos hinos africanos continua a ser interpretada. É certo que a música é universal e que os africanos estiveram na base da construção de muito daquilo que hoje se convencionou chamar música clássica ocidental. Ainda assim, não vejo razão para que um hino africano tenha de obedecer, quase sempre, à mesma gramática musical europeia. Não vejo por que razão um hino kabuverdianu não possa ser entoado ao som do batuku, da morna ou do funaná.

Disse-lhe ainda que, ao contrário de muitos hinos nacionais, marcados por uma linguagem belicista, pela celebração da guerra, pela exaltação da destruição do inimigo e por um falocentrismo exacerbado, o Cântico da Liberdade é um hino à liberdade e à fraternidade entre os povos. Se fosse possível fazer, como se fez com as classificações do Mundial, um ranking dos hinos que mais dignificam a condição humana, acredito que o nosso ocuparia um lugar cimeiro.

Não porque Pátria Amada não o seja também. Era, e continua a ser, um extraordinário hino panafricanista. Mas, como o próprio Amílcar Cabral tantas vezes lembrava, devemos partir sempre da realidade concreta. E a realidade concreta é que este é o hino que hoje temos; o hino com que uma nova geração de kabuverdianu se identifica; um hino que resultou de um processo democrático e que merece, por isso mesmo, ser conhecido, compreendido e assumido. O mesmo vale para a bandeira.

Contudo, reconciliar-nos com os nossos símbolos nacionais não significa transformá-los num Santo Graal, em relíquias sagradas e intocáveis. Nenhum símbolo é eterno. Todos, absolutamente todos, podem ser reinterpretados, enriquecidos e, se houver vontade coletiva, até alterados. O importante é que continuem a representar-nos e que continuemos a reconhecer-nos neles.

Durante estas semanas vimos kabuverdianu espalhados pelo mundo envolverem-se na mesma bandeira e cantarem o mesmo hino. Vimos kabuverdianu nascidos longe das ilhas levarem a mão ao peito, cantarem o Cântico da Liberdade e emocionarem-se com símbolos que nunca conheceram apenas como protocolo. Vimos pessoas que, noutro contexto, talvez nunca tivessem ouvido falar de Kabuverdi vestirem camisolas com as nossas cores e agitarem a nossa bandeira. Vimos, sobretudo, um mar de azul inundar os lugares onde a diáspora, a nossa 11.ª ilha, continua a fazer arquipélago.

Frantz Fanon dizia que, em contextos de luta, a cultura muda de significado. Creio que o fenómeno dos Tubarões Azuis contribuiu precisamente para isso e talvez tenha mudado a forma como muitos kabuverdianu passaram a olhar para os nossos símbolos. O mar azul que invadiu o mundo foi também um mar de reconhecimento dessa ressignificação.

Quanto às críticas, que compreendo, até porque durante muito tempo também as fiz, sobre o afastamento das cores tradicionalmente associadas ao panafricanismo, diria hoje que a questão merece ser pensada para além da dimensão cromática. O panafricanismo não se resume ao vermelho, ao verde, ao amarelo e ao preto. Todas as cores do mundo, inclusive o azul do Atlântico por onde os nossos antepassados foram levados, fazem parte da nossa paleta de cores.

E Kabuverdi não é o único país africano cuja bandeira integra o azul como cor dominante. A Somália, a República Democrática do Congo, o Botswana ou o Sudão do Sul são exemplos disso. Serão, por esse motivo, menos africanos?

Reconciliar-nos com os nossos símbolos nacionais é saber atribuir-lhes significados para além daqueles que estão inscritos na Constituição. É mudar o seu significado, reconhecendo neles as mesmas mensagens de luta e de construção coletiva de que falava Pátria Amada.

Contudo, urge oficializar uma versão do hino nacional na nossa língua materna e, assim, completar aquilo que ainda nos falta para afirmarmos plenamente a nossa soberania linguística. Parece-me desnecessário fazer esta ressalva, mas, ainda assim, importa dizê-lo para balizar este posicionamento contra  leituras neolusotropicalistas vassalas da vetusta portugalidade  : este ato de retomada não significa substituir ou abolir a versão original do hino em português.

Reconciliemo-nos com o nosso hino e com a nossa bandeira, porquanto nos possibilitam continuar a construir, na nossa mátria feita de terra e mar, uma tribuna imortal onde todos os povos africanos possam entoar connosco um cântico de liberdade.

Kanta nha armun, ma liberdadi é un inu i ma ómi ku mudjer es tudu é un sertéza.

por Apolo de Carvalho
A ler | 6 Julho 2026 | bandeira, Cabo Verde, hino, identidade, tubarões azuis