Passados novos e faíscas
Em 1975, ano em que eu nascia, Mary Shelley, uma das coescritoras creditadas no roteiro da comédia Young Frankenstein, recebeu o Prêmio Hugo de melhor apresentação dramática. Só não levantou a estatueta porque estava morta desde 1851. Seu tumor cerebral, no entanto, talvez tenha soltado mais algumas faíscas na direção de seus colegas de palco, Gene Wilder e Mel Brooks.
Na cena do filme em que surge a noiva feita à medida de Frankenstein, a atriz não fala, mexe a cabeça como um passarinho, parece muito menos inteligente do que um canário e dá imediatamente um grito ao ver seu suposto noivo. Seu rosto é maquiado e imaculado, com apenas uma cicatriz elegantemente instalada abaixo do queixo, quase um detalhe pós-cirurgia estética. Ela pode ter um cérebro de pomba, mas o close up é digno de Mr. DeMille. Ou outro homem, neste caso o James Whale. O fato de a personagem deste filme ter se recusado a assumir seu papel de noiva oferece ao feminismo a mesma hipocrisia que a sua poética visual. Mas o diretor, ofuscado com aquele prêmio cuja semelhança com um pênis é impressionante, não devia estar mesmo interessado nisso.
Em The Bride, filme deste ano de 2026, Mary Shelley parece ainda mais viva e decidida a continuar a sua história, desta vez ao lado de uma mulher, Maggie Gylenhall. Na Chicago dos anos 1930, Frankenstein pede ajuda ao Dr. Euphronius, quem ele descobre ser uma mulher com pseudônimo só porque era assim que as mulheres conseguiam trabalhar em paz. Ele continua querendo, ao atravessar dos séculos, uma noiva. Mas ele pede isso sem fazer ameaças agora, sendo sincero quando diz que nunca foi tocado e que não aguenta mais a sua solidão.
The Bride, 2026.
E eis aqui o turning point que só o tempo é capaz de escrever: Mary Shelley, aos 19 anos, disse não. Não é não, criatura. Em pleno século XIX, negou-se a construir no seu romance a ideia de uma mulher sob medida, mulher-encomenda, mulher-troféu. Não satisfeito em criar sua própria história de origem, afinal, com toda a mitologia antropocêntrica, o homem também decidiu criar para si uma mulher, o segundo sexo. Do seu jeito. Que faça o que ele quer, que o faça feliz, sendo isso lá o que ele quiser que seja. Shelley disse não, não, não senhores. Não enquanto o projeto iluminista continuasse articulando a busca do conhecimento da fisiologia humana com o desejo de controle, especialmente no plano reprodutivo.
Quando a médica aceita o pedido de Frank em The Bride, a novela de Mary Shelley ressoa em outras bocas, bocas manchadas de vômito em tinta negra que logo vira tatuagem. Essa noiva não passaria no teste do close up. Nem no do sofá. Ela não segue regras, quebra xícaras e vive suja de roupa rasgada porque fugir da imagem da femme- enfant pede rua e calçada mesmo, e às vezes algum sangue alheio.
É que, como lembra a escritora, filósofa e também dramaturga francesa Hèléne Cixous, uma mulher escreve sempre com uma cascata de fantasmas atrás de si. Falamos por aquelas que não puderam falar. Numa mulher, escreve Cixous, a sua história pessoal necessariamente se funde com a história de todas as mulheres, nacional e mundialmente. Este filme é Mary Shelley falando o que não deu tempo de falar no século XIX e é Gylenhall falando por ela mesma também, porque a mulher sempre precisa escrever a mulher, principalmente quando uma delas está morta. Houve quem criticasse a subordinação entre Mary Shelley e Ida, a noiva no filme, que recebe no corpo, como quem baixa um santo, a voz da autora e suas incitações à revolta. Mas ora bolas, é assim que se fala com uma morta. Levante, criatura, lute de novo, é assim que se constrói um passado novo! E aproveite e leve algumas contigo, faça disso um Ataque ao Cérebro!
Eu não sabia muito bem que estava fazendo isso quando escrevi meu romance mais recente, Partida ao Cais (Urutau). Dei voz a uma morta por feminicídio, a Beth, que me disse, claramente: eu quero um passado novo. Ela não queria mais ser conhecida como aquela menina assassinada, ela queria outras coisas. Eu também. Acabamos descobrindo juntas o que faltava e era o que a Mary Shelley, filha da filósofa e feminista Mary Wollstonecraft, já escrevia em seus artigos: que a cooperação e a amizade, particularmente as praticadas pelas mulheres, formam a base da reforma da sociedade civil. Ao final do filme, é uma detetive que, por pura empatia e compaixão, permite a reviravolta de uma segunda chance. Outro passado novo.
Minhas personagens, que devem conhecer a Shelley melhor do que eu, ficaram logo muito amigas. Esta visão da autora já era um desafio direto ao ethos romântico e individualista promovido por seu marido, Percy Shelley, mas também às teorias políticas iluministas articuladas por seu pai, William Godwin, o primeiro filósofo anarquista moderno. Shelley sabia como lutar contra seus monstros: falando pelas mortas com a própria voz.
O meu livro, curiosamente, surgiu por causa de uma discussão com o meu pai, que não aceitava a importância da terminologia feminicídio. Para combater meus monstros, escrevi. Lido o livro, ele entendeu e concordou comigo, e tal é a odisseia de uma mulher: escrever um livro por anos para defender um comentário que, numa civilização decente, deveria ser básico e aceito em menos de um minuto. Por isso, falar pelas mortas é recuperar conversas como essa que ficam paradas no tempo, causando interferências elétricas até em ligações por whatsapp com ótimo wi fi.
Em uma determinada cena do filme, a Ida diz que a VIDA que está com ela está vindo dos monstros, ao que o Frank responde com um apaixonado YES, aquele sim que costuma estar mais presente na boca das mulheres no cinema do que fora dele. Quando ela diz que não é a noiva de Frankestein, mas apenas A Noiva, é o sorriso de satisfação e desejo de Frank que mostra seu amor. Ela não é dele nem de ninguém, a não ser do mundo, do amor em si. Porque as mulheres não continuam dando vida ao mundo apenas através dos bebês. São elas que dão vida aos homens barbados diariamente, porque, se quisessem mesmo, teriam a força de matar todos os homens de uma vez, num único me too sangrento, bloody me too. De sobremesa, levariam o PIB todinho do país ao cruzarem os braços.
Só que ainda queremos, como a Shelley, tentar. Reescrever. Começar de novo em companhia de outras vozes mais de um século depois. Ser apenas noiva (“Just bride”, como nomeia-se a Ida), talvez seja um lugar de compromisso de afeto, de certa esperança, essa coisa ínfima que ainda e sempre nos resta. Deste lugar, quem sabe nossas amigas de outras eras possam de novo bater na nossa caixola, “noc noc” e, ao invés de assumirem um papel já dado, uma personagem já escrita, perguntarem quem está do outro lado, essa pergunta capaz de soltar faíscas.
“Se você escreve mulher, você sabe como eu: você escreve para dar corpo aos seus Livros do Futuro, porque o Amor te dita novas gêneses.”
“A escrita é meu pai, minha mãe, minha ama de leite ameaçada”
Hèléne Cixous in A chegada da escrita (Bazar do Tempo)