Reconheço esse céu transformado em superfície lisa de que falas. Onde até o tempo morto é um intolerável desperdício. O sentimento de expropriação da vida, de sermos progressivamente afastados da experiência em nome da gestão mesquinha das nossas breves vidas, numa planície de ninguém. Mas insisto em procurar acidentes no terreno. Intervalos frágeis e imperfeitos onde seja possível respirar e imaginar outros modos de habitar o mundo e o tempo. Na noite mais popular de Lisboa, estive no arraial do RDA, nos Anjos. Lá dançámos, marionetas animadas por dedos tremidos de DJs e copos de cerveja. Fragmentos de vida antiga reativados num olhar de esguelha, uma certa suspeição. Enfim, somos pouco piedosos uns com os outros, mas, no fundo, no fundo, há carinho. Na verdade, gosto quando figuras que admiro voltam a ser de carne, com cabelo, rabos e purpurinas. E comem sardinhas.
Mukanda
05.08.2026 | por Marta Lança