Marta e as investigações práticas sobre a alegria

Há uma mesa de cabeceira – que não nos contas como é – que te vai acompanhando nas mudanças de casa, o fio condutor deste livro. Porém, as tuas casas parecem casas sem quartos. Não porque as pessoas que as habitam não se recolham à intimidade, mas porque esse lado fica atrás da porta, embora descrevas um ou outro. As casas separam as ruas dos lugares de intimidade (lembrando Ruy Belo), separando dentro e fora. O interior e exterior das tuas casas não é o que esperamos: a porta da rua é a porta do quarto, e dela pouco se passa.

A Marguerite Duras abre o seu livro Escrever com esta frase: «é sempre numa casa que estamos sós. Não fora dela, mas dentro dela.» As casas do teu livro são casas coletivas, comunitárias. Não estás nelas como Marguerite Duras que procura pensar a escrita a partir da casa, na mesma linha da Virginia Woolf e das condições necessárias para escrever. Até porque este livro escrito na primeira pessoa não se detém – que alívio – nas condições e possibilidades da escrita.

Desculpa, Marta, mas as tuas casas são como uma grande sala de jantar.
Apesar das pessoas da sala de jantar da canção dos Mutantes, que temes, prevês e repudias.
As tuas casas são salas de jantar, como os pátios da vilas operárias: o espaço público dentro do espaço doméstico. Esta “sala de jantar” (com outras pessoas que não estão só ocupadas em nascer e morrer) toma forma e exemplo na varanda de Luanda: um ponto onde os da casa se misturam com os de fora, e que não são bem de fora. E um ponto de observação do mundo. As casas que nos trazes aqui são, vou antes dizer assim, varandas largas.

São casas viradas para fora. Sabemos mais sobre as suas coordenadas do que sobre o número de quartos. Sabemos mais do mapa do bairro, da cidade, do mundo – do que sabemos da planta e a distribuição das assoalhadas, se têm ou não corredores. Dessas varandas-sala de jantar, sabemos o lugar da casa no mapa e vemos passar a vida, contigo.

Olhamos contigo para fora, para as vistas pouco instagramáveis, porque, como escreves, a terra nunca é apenas paisagem. E porque, apesar da alegria destas varandas (já lá vamos, à alegria), os horizontes não são limpos. São casas no mapa e a ideia de mapa contém em si linhas, fronteiras. E as fronteiras, sabemos, são quase sempre divisórias traçadas por pessoas. São políticas. São sempre o resultado de uma negociação sobre a paisagem e, por isso, formas violentas.

Propões-nos que o fio condutor sejam as mudanças de casa. Quem lê pode adivinhar que o que movimento comum nessas mudanças: uma investigação prática sobre a alegria.

A alegria como a arte de não magoar os outros, no microcosmos de uma casa.
A alegria como acção e não como experiência, como o amor da bell hooks.
Escreves, por exemplo: O Brasil reposiciona a alegria no centro da vida sem negar a dor, transforma-a em ação. Numa energia de criação. Numa forma de resistência.

A alegria como resistência, que se pratica na sombra ancestral das fendas rasgadas pelo colonialismo, do patriarcado (e do capitalismo). Sombras que nos entram em casa pelas frinchas das janelas como nos últimos anos as poeiras do Sahara.

[Esta coisa da sombra ancestral também vem do que escreves sobre o Brasil. Escreves: O abismo entre a cordialidade aparente e a brutalidade das feridas que a sustentam continua a alargar-se sob o mito da «democracia racial» e da convivência harmoniosa. A alegria pratica-se também nessa sombra ancestral.]

Chego aqui para dizer que se este é um livro sobre mapas mais do que sobre plantas, esse mapa é um mapa da alegria e resistência. Na alegria do fazer, vêem-se caminhos feitos, caminhos novos.

Não estou a pensar no mapa como levantamento territorial, como pesquisa para um plano de acção. Penso aqui o mapa como o que indica e regista caminhos possíveis, em construção, como itinerários que podem ser escolhidos em encruzilhadas: um mapa de possibilidades. E também um mapa dos trilhos que alguém abriu, simplesmente caminhando antes de nós. Como quando abrimos caminho no mato, pisando ervas, contornando obstáculos, arranhando as pernas na silvas, o que faz com quem nos segue se arranhe um pouco menos. (Caminhamos sobre camadas de vidas anteriores, escreves a propósito de outra coisa.)

O mapa que encontro neste livro é um mapa de caminhos que abrimos ou mantemos, pelo uso, para quem vem a seguir. Da mesma maneira que uma cesta de vime precisa de ser usada para não secar, quebrar-se e poder deixar de servir como contentor, perdendo essa fulcral função, a invenção primordial notada por Ursula K Le Guin. Portanto: usemos os caminhos da alegria como resistência para que continuem a ser possíveis. Como as cestas de vime.

Bom, e repetindo o refrão do teu livro: estes caminhos nunca são feitos só por uma pessoa, por isso em cada capítulo se ouve tanto o coro comunitário que vais convocando, gregária, em personagens sem nome que nos apresentas rapidamente a partir do seu lugar na constelação que importa naquele momento. E sobre isso escreves: Comunidades fazem-se da partilha de gestos, riscos e meios, mais do que de uma identidade comum. Ainda assim, no meio do abandono, persistem redes domésticas de entreajuda e vizinhança. Quando tudo falha, as pessoas organizam-se, a vida reinventa-se. A comunidade, o coletivo, é o que serve de rede no salto para o vazio de uma mudança.

Com as mudanças de casa como fio condutor, como prometes e indicas na sinopse, leio este teu livro-varanda como um livro sobre o fim dos intervalos, um livro de chegadas, mais do que de partidas. Com começos estão cheios de possibilidades individuais como as que te levam a cada casa. Ou com possibilidades coletivas, como as que cronicas, afastando este objecto (livro) do catálogo e aproximando-o de um travelling projectado. Ou aproximando este livro do mapa, então, como já disse, como registo e testemunho do movimento.

Imaginemos o mapa de um voo, nas imagens do cinema que contavam as viagens através de uma espécie de infografia que registava as viagens e a passagem do tempo. Deste livro-varanda vê-se o caminho do tempo. Um livro sobre o que está lá fora e menos sobre a interioridade. Ainda assim é um livro sobre identidade, identidades. Até porque a Marta que atravessa a praia à noite na Caparica e a que segue pela estrada de terra batida de Ourique são a mesma pessoa. Compreender um lugar é aceitar que ele nos transforme. A identidade a moldar-se na fronteira com o que está além de nós e que faz de nós, passando por tempos e lugares, a mesma e outra pessoa.

A Duras escreve mais adiante: «o escrito chega como o vento, é nu, é tinta, é escrito, e passa como nada passa na vida, nada, a não ser ela, a vida». Mesmo entre pessoas ocupadas a nascer e morrer, a vida passa e o que acontece lá fora ecoa na sala de jantar, de onde se podemos entrar e sair para levantar a mesa, lavar os pratos, e mesmo soltar os panos sobre os mastros no ar e tigres e leões nos quintais. Debruçadas contigo livro-varanda, vemos passar a vida, fazendo parte dela.

Ainda bem que fizeste este livro-mapa e não um livro-museu, catálogo de respirações:
Os mapas podem abrir-se sobre uma mesa, mas depois dobram-se e levam-se no bolso para fora da sala de jantar. Podem servir-nos. 

Margarida Ferra, Vasco Santos e Fernando Ramalho na apresentação do livro no Bota 9 de julho 2026Margarida Ferra, Vasco Santos e Fernando Ramalho na apresentação do livro no Bota 9 de julho 2026

por Margarida Ferra
A ler | 18 Julho 2026 | Essas Pessoas na Sala de Jantar