A Nova Lisboa de sempre
“Vem e sente, sente, sente esta nova Lisboa Vem e sente, sente, sente esta quente Lisboa (…) De onde veio toda essa gente, eu não sei Dizem que tamos na moda, man ka krê sabê”
Em 2018 a cativante canção Nova Lisboa de Dino D’Santiago ressoava em todos os cantos da capital portuguesa, reforçando essa nova imagem de cidade aberta e cosmopolita em que Lisboa, supostamente, se tornou na segunda década deste século, após ter-se rendido ao selvagem turismo de massa e a atração de investimentos estrangeiros com políticas de ética duvidosa, como os Vistos Gold1. Mas a alegoria contida na letra do louletano de ascendência cabo-verdiana vai em outra direção. Refere-se à presença africana na cidade, muito visível, muito evidente, muito influente a nível cultural, mas, naturalmente, de nova nada tem.
Está então a referir-se a uma Nova Lisboa que é tão multicultural como igualitária? Terá alcançado Lisboa em particular, e Portugal em geral, aquela harmonia racial utópica em que justamente o racial, a raça, perde o seu significado original, isto é, o de “categoria discursiva em torno da qual se organiza um sistema de poder socio-econômico, de exploração e exclusão (o racismo)”2, e do qual os racializados, neste caso, os afrodescendentes, são as vítimas?
A ênfase no utópico, e como resposta esmagadora à pergunta, é dada por uma noticia de imprensa apenas noventa dias antes do lançamento do single de D’Santiago:
“Queixas de racismo e xenofobia batem recordes em Portugal”3 Dois anos antes, aparecera uma reportagem na imprensa com o título “A nova Lisboa africana: jovem, talentosa e negra”4.
O conceito de Nova Lisboa (tão difundido que até se consolidou um estilo musical com esse nome, obviamente baseado em ritmos africanos, que inclui artistas como: Mayra Andrade, Cachupa Psicadélica ou o próprio Dino D’Santiago), sobretudo se ele faz referência a presença da população negra como um fenómeno recente, é profundamente lamentável e alinha-se perfeitamente com a narrativa bem consolidada da negação da história das raízes seculares africanas de Portugal.
reedição do jornal 'O Negro'
Esta negação do africano, agora convertido num fenómeno recente muito convenientemente construído para dar o toque cool do multiculturalismo à capital portuguesa em plena expansão turística, tem sido uma constante na desonesta historiografia portuguesa.
Em 5 de agosto de 1444, foi registado o primeiro desembarque, na presença do próprio Infante D. Henrique, de cerca de duzentos africanos escravizados na cidade algarvia de Lagos5. Este desembarque seria rapidamente seguido por muitos mais, em tal ritmo que, apenas meio século depois, no ano de 1500, mais de 10.000 pessoas negras residiam na cidade de Lisboa6. Nessa época, iniciava-se o comércio transatlântico de escravos africanos e a historiografia tende a se concentrar nele e silenciar a rota dos navios negreiros para a Península Ibérica, que tinha em Lisboa e Sevilha os maiores portos negreiros da Europa, aonde continuavam a chegar escravos constantemente. Até tal ponto, que vozes da época, como a do representante do papado em Lisboa no final do século XVI, o italiano Gianbattista Confalonieri, deixava este testemunho: “esta cidade é mais negra que branca, e não existe uma casa onde não haja duas, três e até famílias inteiras (de negros)”7
Com a conquista da América e o extermínio de grande parte da população nativa, os europeus olharam para a África como o repositório perfeito de mão-de-obra escrava.

À medida que a produção se multiplicava nas minas, nos campos de algodão e nos canaviais, a demanda de escravos aumentava. O tráfico negreiro atingia proporções industriais em um fenômeno sem comparação na história da humanidade. Estima-se que, desde o início do século XVI até o final do século XIX, mais de 14 milhões de africanos foram sequestrados e levados para a América.8 O sistema econômico Triangular do Atlântico arquitetado pelos europeus foi tão brutal quanto benéfico para o desenvolvimento das grandes metrópoles europeias e, sem dúvida, sentou as bases do atual sistema econômico mundial, o Capitalismo8.
Somente o Brasil e, principalmente, sua produção de cana-de-açúcar, foi destino de mais de 4,5 milhões de escravos (Como conseqüência, hoje, o Brasil é o segundo país do mundo com a maior população afrodescendente, apenas atrás da Nigéria). Essa voracidade reduziu a introdução de escravos na Península Ibérica. Devemos destacar que em 1761 foi decretada a proibição da introdução de escravos em Portugal Continental e, um pouco mais tarde, em 1773, a Lei do Ventre Livre, pela qual o estadista mestiço Marquês de Pombal revogou a transmissão da condição de escravo por herança. Desde aquele 1444 até 1760, entre 500.000 e 600.000 africanos foram introduzidos na metrópole portuguesa.9 Nas décadas das leis pombalinas, os registos de sepultamentos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa confirmam a importante presença africana na cidade, pois em 1756, os negros representavam 16,8% dos enterros. Atingindo 17,8% em algum ponto.10
Obviamente, a promulgação destas leis não evaporou a população africana e afrodescendente, que continuaria muito ativa, como evidenciam os estudos de José Ramos Tinhorão e Isabel Castro Henriques, entre outros, em que nos mostram evidências e documentação sobre esta “presença silenciada”11 ininterrupta até hoje. E não só na capital lusa, mas também uma presença manifesta em outras partes do território português, como a que José Leite de Vasconcelos deu a conhecer entre 1895 e 1920 sobre uma comunidade afrodescendente na parte alentejana do Vale do Río Sado. Já na metrópole, em Lisboa, era conhecido o Bairro do Mocambo, habitado por afrodescendentes e que ainda existiria até bem avançado o século XIX12, o que é apenas uma pequena amostra de que “o africano” estava bem presente e que sem dúvida acabou por fazer parte do acervo genético português muito antes da colonização dos territórios africanos.
No final do século XVIII e até a primeira metade do século XIX, o tráfico de escravos com destino à América intensificou-se e atingiu máximos históricos. O corpo negro já passara a ser uma mera mercadoria, e é justamente nessa época que surgiram as novas teorias do racismo científico, da antropologia física, do darwinismo, etc. que vão conformar uma epistemologia pseudocientífica racista sobre a inferioridade dos negros/africanos, que os escravocratas irão brandir como justificativa para a escravidão.
Os imensos benefícios obtidos pelos europeus com a exploração selvagem dos africanos estavam sendo o motor do desenvolvimento do Ocidente. Foi a própria resistência africana, contra aquele destino atroz imposto pelos brancos, o germe que iria desencadear gradualmente a abolição dos sistemas escravistas nos diferentes territórios americanos.
Cova da Moura Foto Susan Meiselas
Sem dúvida, o ponto de inflexão, não por ser o primeiro, porque houve resistência desde o início, mas sim porque foi o mais importante, foi a Revolução no Haiti. A colônia francesa da ilha de Santo Domingo supunha dois terços de todo o comércio exterior francês e era considerada “a melhor colônia do mundo”15. Em 1791 os escravos rebelaram-se e, depois de pouco mais de uma década, tinham derrotado os negreiros brancos da ilha, os soldados da monarquia francesa, uma invasão espanhola, um exército britânico de cerca de 60.000 homens e ao temível exército napoleônico. Essa derrota infligida os franceses em 1803 levou à criação da nação negra do Haiti.13 Sem dúvida, os ecos da Revolução Haitiana espalharam-se e foram chegando a muitos outros lugares através de portos e marinheiros, provocando outras resistências e levantamentos. O processo foi lento, e não devemos esquecer que, paralelamente, o século XIX é o de maior apogeu na introdução de pessoas negras escravizadas na América. Mas o germe estava lá e, aos poucos, a escravidão foi sendo abolida nos territórios americanos. O último deles foi o Brasil, em 1888.14 É importante destacar a imagem que se cria do africano no mundo moderno a partir do Comércio Transatlântico. Com a escravidão começa um processo de desumanização e inferiorização do corpo negro que continua até hoje.
Os processos abolicionistas não terminaram com o trabalho forçado nem com as desigualdades. Os afrodescendentes na América passaram a fazer parte de uma sociedade em que os brancos tinham tudo e eles não tinham nada. Na maioria dos casos, o destino de muitos ex-escravos, ou seus descendentes, era trabalhar em condições de exploração.
Cova da Moura Foto Susan Meiselas
O desempoderamento econômico e político continua até hoje, já que o vasto acúmulo de uns e a profunda despossessão de outros não foram compensados.
O fim da escravidão e a independência das colônias americanas foram um duro golpe para as economias europeias, mas elas já tinham um Plano B para continuar alimentando a cada vez mais exigente maquinaria capitalista: a África. A corrida pela colonização do continente tem como início simbólico a Conferência de Berlim de 1885, na qual as nações europeias pactuaram a divisão e reparto do “bolo africano”. A colonização supõe a exploração do africano em suas próprias terras em benefício econômico das metrópoles ocidentais. Na verdade, trata-se de uma escravidão in situ, sem a necessidade de os nativos serem desterrados.
A historiografia portuguesa produziu uma imagem romantizada do seu exercício de colonização, conhecida como luso-tropicalismo15. Essa teoria reafirmava o grande papel civilizador dos portugueses, sua inclinação à miscigenação (Eufemismo, na verdade, para se referir a estupros em muitos casos) e sua grande capacidade de empatia e adaptação aos trópicos. E é assim que é ensinado até hoje nas escolas. Enfatiza-se o caráter aventureiro e descobridor do navegador português em vez do conquistador e precursor do tráfico de escravos, e idealiza-se o caráter civilizador e mesmo fraterno da colonização em vez da submissão e exploração selvagem e forçada dos povos que colonizou. Tão agressiva foi a colonização portuguesa em África (não o foram menos as das outras potências ocidentais), e tão dependente foi a economia de Portugal da
exploração dos “seus” territórios ultramarinos, que foi o último país a assinar a independência das suas colónias em 1974 e 1975, e só o fez após ser derrotado pelos africanos nas diversas frentes das chamadas Guerras da Libertação. Note-se que foi a resistência africana que impulsionou os militares portugueses a se rebelarem contra o próprio Estado Novo na famosa Revolução dos Cravos daquele 25 de abril de 1974. Algo que, evidentemente, não é narrado desta forma pela historiografia portuguesa, que costuma atribuir aos portugueses e ao seu desejo de liberdade todo o crédito por terem acabado com os 41 anos de ditadura fascista.
Essa tendência de distorcer os factos, de fabricar a história, é uma constante nas nações europeias. Em Portugal e na Espanha vai mais longe, já que é negada qualquer raiz ou presença africana. Ainda hoje, em Portugal, continuam a negar esse passado e a silenciar o presente. Se a existência de uma população afrodescendente já era um facto comprovado em Portugal, esta foi fortemente aumentada durante a fase colonial e após os processos de independência. Milhares e milhares de habitantes das ex-colônias,
principalmente cabo-verdianos, angolanos e guineenses, vieram para a velha metrópole em busca de uma vida melhor e somando-se a uma sociedade que nunca os recebeu de braços abertos. Pelo contrário, sempre dificultou sua chegada, adaptação ou integração.
Na segunda metade do século XX, os chamados bairros de lata começaram a formar-se nos arredores de Lisboa: Cova da Moura e 6 de Maio na Amadora, Quinta do Mocho em Loures, por exemplo, onde os imigrantes africanos acabam por viver em condições insalubres. Muitos desses bairros ainda hoje existem. São os modernos Mocambos de Lisboa.
Homenagem a Bruno Candé, julho 2021. Assassinado a 25 de julho de 2020, num ato racista em plena luz do dia em Moscavide
A multietnicidade portuguesa de hoje é evidente e as pessoas negras e mestiças representam uma grande percentagem da população. Como comentei no início do texto, a questão da diversidade é instrumentalizada por conveniência política. É muito útil quando se trata de vender Lisboa como um destino acolhedor e tolerante. O facto de haver uma grande população afrodescendente é exotizado com fins lucrativos, principalmente no setor do turismo. Mas por dentro, a negação é total. Prova disso é a recusa do Governo
em incluir dados étnico-raciais nos censos16, o que, claro, daria visibilidade estatística e fidedigna sobre essa população silenciada, o que colocaria questões sobre políticas de igualdade, distribuição da riqueza, barreiras de acesso ao mercado de trabalho, na educação levaria a reconsiderar a narrativa que se explica sobre a história de Portugal nas escolas, e a tantas outras questões das que o Governo não quere saber. A maior parte dos africanos e afrodescendentes que vivem em Portugal concentram-se na periferia de Lisboa, muitos deles em Bairros Sociais, a maioria ocupando empregos precários no sector dos serviços (limpeza, restauração, etc) ou na construção, muitos deles pluriempregados e com dificuldades de conciliar trabalho e vida familiar. Isso faz com que a população afrodescendente tenha um maior índice de abandono escolar, o que faz com que os jovens acabem nas mesmas profissões que seus pais, gerando uma espiral perpétua de pobreza. Obviamente, as políticas governamentais não ajudam. O da recolha de dados étnico-raciais é muito significativo, mas as políticas reais que se realizam são as que realmente entravam e oprimem o cidadão afrodescendente. Sem ir mais longe, a lei da nacionalidade, baseada no iux sanguinis, pela qual encontramos milhares de pessoas nascidas em Portugal mas que não têm nacionalidade, o que lhes impede o acesso ao mercado de trabalho, ou pior ainda, o caso das pessoas nascidas em Portugal, que tendo a nacionalidade portuguesa, esta lhes foi retirada, como aconteceu com muitos afrodescendentes nascidos em terras portuguesas a partir de 1981.17
Metro Lisboa, colagem Afro Lis
Com todos os factores dificultando: sociais, educacionais, históricos, de negação, racistas, os processos identitários dos afro-descendentes portugueses são dolorosos e têm um forte impacto nas pessoas e na sua saúde física e mental. A realidade leva a viver o que Richard Wright chamou de “objectividade atroz”18, o facto de estar dentro e fora da sociedade ao mesmo tempo, e a assumir, inevitavelmente, o que W.E.B. Dubois chamou “Dupla Consciência”19. Um exercício de autoconhecimento, de posicionamento de um própio numa sociedade que é tua mas que ao mesmo tempo não te reconhece. Um processo que certamente os brancos não sofrem. O processo histórico de construção racial da nacionalidade portuguesa como branca-homogénea com forte componente católico, é tão forte que se torna o padrão nacional definidor que mede a pertença ou não com base na cor da pele ou os traços fenotípicos, e todo o que o não se ajustar com esse padrão é considerado “o outro”. Precisamente, dessa construção racial da nacionalidade, como centro puro e superior, e em oposição a essa condição, surge a racialização dos “outros” e, ainda, como inferiores. Como disse Fanon: “foram os europeus que não deixaram de opor a cultura branca a outras inculturas”20.
É na diáspora onde os africanos convertem-se em racializados e as identidades se multiplicam. Não importa se são recém-chegados ou de sexta geração. Assim que se distanciarem do padrão fenotípico estabelecido, o branco, serão “os outros”, e é, por outro lado, essa condição (certas feições características numa ampla gama, na verdade) que une os afrodescendentes. Essa união diaspórica de origem africana que fortalece os laços em todo o que Paul Gilroy chama de Atlântico Negro. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie disse que “se tornou negra nos Estados Unidos”21. É esse “ser negro” na diáspora que une o negro de Lisboa, o negro mestiço jamaiquino de Londres e o negro amazigh de Barcelona.
Outro caso particular sobre as identidades é o dos muitos cabo-verdianos que se sentem “especiais”, ou diferentes dos outros africanos do continente, pela condição de mestiços da maioria deles e pelos efeitos do sistema social herdado dos colonizadores, mas quando chegam a Portugal são considerados na mesma categoria de “negros” que os angolanos, santomenses ou guineenses22 e, finalmente, muitos deles acabam por abraçar mais a sua condição de africanos na diáspora do que quando estavam no seu país. O sociólogo Stuart Hall trata intensamente da condição identitária múltipla, focado, sobretudo, nos caribenhos do Reino Unido, dos quais diz que “se tornam caribenhos em Londres”, e é aí mesmo, na capital britânica, onde se multiplicam as suas identidades e os laços diaspóricos da negritude: “negros britânicos”, “reidentificações simbólicas com culturas africanas” e até mesmo com os afro-americanos.23
O antropólogo Gilberto Velho disse que “a cultura não é uma entidade acabada, mas uma linguagem permanentemente ativada e modificada por pessoas que têm experiências existenciais particulares”. E talvez ele esteja certo. Mas é chocante encontrar retratos da sociedade lisboeta do século XVI, como a anónima pintura flamenga que representa uma cena do quotidiano em Chafariz d’El Rei, na Lisboa da época, em que aparecem muitas pessoas negras, alguns escravos, a maioria em condição de servidão (com exceção de um cavaleiro negro montado) realizando os mais diversos trabalhos de baixa qualificação, como criados, remadores, carregadores de água, etc. e contrastá-la com a Lisboa de hoje em dia. Talvez hoje você não veja pessoas negras encadeadas nas ruas, mas certamente existem cadeias invisíveis, tetos de vidro, limitações impostas por uma sociedade estruturalmente racista, baseada em políticas leuco-etnocêntricas e assimilacionistas. Quanto ao resto, vale a pena perguntar: O que mudou realmente para os afrodescendentes em Portugal em 500 anos? A cultura portuguesa é uma exceção a aquela definição de Gilberto Velho? Ou será que a cultura portuguesa realmente evolui em todos os sentidos, mas simplesmente tem um problema pessoal com a negritude?
Como é possível que em mais de 500 anos não tenha assumido sua africanidade e continue a rotular os afrodescendentes como “recém-chegados”? Por que é que quando um português branco perde os papéis e insulta um português negro, a primeira coisa que costuma sair da sua boca é “vai para o teu país, preto do caralho”?
Sinceramente, tendências como a que é objeto deste ensaio: aquela ideia de uma Nova Lisboa, sobretudo quando é ligada à exotização da negritude, distorcem a própria realidade histórica e atual do próprio afrodescendente. Se o negro, o africano, se tornar um perpétuo recém-chegado, sempre será azo para aquele “vai para o teu país” e a narrativa oficial sobre o que significa “ser português” será assumida como verdadeira e correta. E os afrodescendentes com um palco, com visibilidade, que colaboram para difundir essas ideias (muitas vezes sem saber, pois, afinal, é a educação recebida) acabam sendo o que Paul Gilroy chama de “porta-vozes precários da elite negra ”.
Tudo isso, junto com a associação inevitável do branco com a elite, o privilégio, o padrão ideal, e com seu conseqüente bombardeio diário da mídia, torna os afro-descendentes vítimas de um “consumo irracional de objetos culturais inadequados, como são os produtos errados para o cuidado do cabelo, música pop e roupas ocidentais”. O sentimento que Gilroy expressa é que “a comunidade (afro) está no caminho errado e a tarefa do intelectual é dar-lhe um novo rumo, primeiro recuperando e, depois, trazendo a consciência racial que as massas parecem não ter”24
Portugal tem um problema terrível com a forma em como se pensa e depois como se retrata e se transmite aos escolares de todo o país. Narra em branco para uma população branca, negra e mestiça. Vive instalado numa retórica arcaica mais típica dos séculos da, erroneamente, chamada Reconquista, com a intolerância por bandeira, mas narrando-se como acolhedor e tolerante. E a propósito da “Reconquista”… Do louvável trabalho de Isabel Castro Henriques e José Ramos Tinhorão, entre outros, sabemos que a presença negra começou
no século XV com a chegada daquela nau ao Algarve em 1444. E a partir daí estuda-se essa presença africana, quase sempre ligada à escravidão. Só de forma sucinta, Isabel C.
Henriques menciona uma presença anterior: “As primeiras referências a populações negras na Península Ibérica, e mais particularmente no território galego, encontram-se registadas numa memória escrita e iconográfica, intitulada Cantigas de Santa Maria, mandada organizar por Afonso X, rei de Leão e Castela, entre 1252 e 1284”.25 No entanto, a presença africana e negra é muito anterior. Só voltando ao ano da entrada dos muçulmanos na Península Ibérica, em 711, já podemos encontrar pessoas negras que fazem parte do exército de Táriq ibn Ziyad. Historicamente, houve uma tendência de orientalizar os contingentes que cruzavam o Estreito de Gibraltar por serem as elites dominantes árabes, mas a verdade é que a maioria dos componentes desses exércitos, e mais tarde a população civil, eram de origem norte-africana, pertencentes aos grupos étnicos conhecidos como berberes26. Hoje os berberes ou amazigh compreendem populações fenotipicamente muito diversas: brancos, mestiços e negros. Mas a maioria das fontes históricas medievais descrevem-os como negros27. Mesmo as elites governantes chegaram a ser berberes negros por vários séculos durante os impérios dos Almorávidas (1040-1147) e dos Almóadas (1147-1269). Os Almorávidas, que começaram sua conquista nas margens do rio Senegal e não pararam até chegar a Saragoça, em sua maioria pertenciam à confederação berbere Sanhaja e são descritos como negros em muitas fontes28.
Para onde eu quero chegar com isso? Demostrar que uma revisão mais rigorosa da presença africana e negra na Península Ibérica vai alargar ainda mais as suas raízes africanas e, o que me parece mais importante, nem sempre ligadas à condição de escravizados, mas também de cidadãos e governantes de uma sucessão de impérios (dos quais faziam parte os territórios hoje conhecidos como Portugal e Espanha) que se prolongaram por muitos séculos antes da chegada dos primeiros navios negreiros, e cujo traço genético, sem dúvida, ainda está presente na atual população.
Infelizmente, essa não é a história que é ensinada nas escolas. É uma história não apenas silenciada, mas negada em muitos aspectos ou distorcida por interesses que não consigo ver com clareza para além de preconceitos ou estereótipos. Talvez o problema seja a existência de uma espiral educacional, em que os portugueses ensinam o que aprenderam num ciclo perpétuo de desinformação e cegueira absurda, ou talvez seja um forte complexo social em relação a outras sociedades. A verdade é que a espiral, os sistemas, partindo do educacional, seguindo o político e o social, devem reiniciar-se e abandonar seu caráter assimilacionista e estrutura racista e abraçar o modelo de pluralismo cultural, pois é o único modelo que pode ser o espelho que refracte a imagem real e verdadeira da sociedade portuguesa. Enquanto isso não acontecer, a dita Nova Lisboa não será mais do que a Nova Lisboa de Sempre.
O ensaio “A Nova Lisboa de Sempre” foi publicado em espanhol na Radio África Magazine, de Tania Safura Adam.
- 1. Os Vistos Gold têm sido senhalados por Transparencia Internacional como medidas que encorajam o branqueamento de capitais: https://transparencia.pt/vistos-gold/
- 2. Stuart Hall, Da Diáspora, pág 69
- 3. https://www.publico.pt/2018/08/23/sociedade/noticia/queixas-de-racismo-e... Público.pt Joana Gorjão Henriques, 23 de Agosto de 2018
- 4. https://www.dn.pt/sociedade/a-nova-lisboa-africana-jovens-talentosos-e-n... Diario de Noticias, Mariana Pereira, 13 de Agosto de 2016
- 5. Isabel Castro Henriques, A Presença Africana em Portugal, uma História Secular (…), pag. 6
- 6. Escravidão e raça em Portugal: uma experiência de longa duração. Antonio de Almeida Mendes, 2016.
- 7. Escravidão e raça em Portugal: uma experiência de longa duração. Antonio de Almeida Mendes, 2016.
- 8. Capitalismo y Esclavitud. Eric Williams. (1944. Edición española,2011, Traficantes de sueños.)
- 9. Escravidão e raça em Portugal: uma experiência de longa duração. Antonio de Almeida Mendes, 2016.
- 10. (LAHON, 1999A: 50-1) en “África em Portugal”: devoções, irmandades e escravidão no Reino de Portugal, século XVIII. (Lucilene Reginaldo, 2009, Scielo Brasil)
- 11. Os negros em Portugal. Bruno Sena Martins. 2019
- 12. Isabel Castro Henriques, A Presença Africana em Portugal, uma História Secular (…)
- 13. Os Jacobinos Negros. CLR James. (1938)
- 14. Capitalismo y Esclavitud. Eric Williams. (1944. Edición spañola,2011, Traficantes de sueños.)
- 15. ver Gilberto Freyre.
- 16. https://www.publico.pt/2019/06/17/sociedade/noticia/censos-1876683
- 17. https://sicnoticias.pt/programas/reportagemsic/2016-12-07-E-se-lhe-tiras...—34539982
- 18. Atlántico Negro de Paul Gilroy (1993, de la edición española AKAL, 2014): expressão tirada de “The Outsider”, Wright, 1953. Ver: “White man, Listen!” De Wright (1964) onde fala de “existencia dual”. Ver também W.E.B. Dubois e seu conceito “Dupla Conciencia”
- 19. Atlántico Negro de Paul Gilroy (1993, da edição espanhola AKAL, 2014)
- 20. Los condenados de la tierra. Frantz Fanon. (1961, de la edición española Txalaparta, 2014)
- 21. https://daily.jstor.org/chimamanda-ngozi-adichie-i-became-black-in-ameri...
- 22. https://www.buala.org/pt/a-ler/ser-africano-em-cabo-verde-e-um-tabu
- 23. Stuart Hall, Da Diáspora, pág 27
- 24. Atlántico Negro de Paul Gilroy (1993, de la edición española AKAL, 2014)
- 25. Isabel Castro Henriques, A Presença Africana em Portugal, uma História Secular (…), pag. 5
- 26. Inventing the Berbers. Ramzi Rouighi. University of Pennsylvania, 2019. pag.22
- 27. Marianne Barrucand, Achim Bednorz (Moorish arquitecture in Andalusia, Taschen, 1992) / Precolonial African Material Culture: Combatting Stereotypes of Technological Backwardness de V.Tarikhu Farrar. (Lexington books, 2020) / Inventing the Berbers. Ramzi Rouighi. University of Pennsylvania, 2019.
- 28. https://www.dn.pt/portugal/10-de-junho-sobrinho-simoes-considera-os-port...