Por ocasião do 48º aniversário da proclamação da República de Cabo Verde livre, independente e soberana

da diversa e infatigada rememoração dos tempos coloniais de antanho

(prosopoema de Erasmo Cabral de Almada)*

 

Curvado sobre o sol, o suor e o verde mar da solidão, 

debruçado sobre os lívidos conspectos da circunspecção, 

convalescente sobre os circundados tempos da revolução, 

ficas reflectindo sobre a orfandade do hino e as sombras erectas 

irradiando dos signos maduros da concha e do milho faminto 

aconchegados na bandeira ouro-rubro-verde e na estrela negra 

da liberdade da pátria africana bi-nacional,  

da sua memória hasteada sobre os tempos novos dos nossos olhos navegantes dos tempos da esperança e das rememorações…

 

Ah! Estes tempos novos de estudada rememoração contra a amnésia 

dos aturdidos tempos coloniais de antanho, 

desses atordoados tempos da multissecular dominação estrangeira, 

desses tempos do chão nosso exaurido, sugado por mais de meio milénio 

de opressão e sobre-exploração coloniais, 

desses enterrados tempos do quase nada legado para as gerações nativas remanescentes das calamidades climatéricas e das muitas mortandades derivadas das fomes que infestaram as tragédias históricas do povo caboverdiano, 

desses entediados tempos devorados e devastados pela insana saga predatória das atrasadíssimas classes possidentes coloniais, dos seus rebanhos de cabras e de cordeiros de Deus e da extenuante lavoura dos réditos dos senhores dos céus e das terras, dos seus mananciais de curtume e lucro, dos seus madeirames para a construção de naus negreiras e de outros navios de longo curso no tráfico transatlântico do algodão, do café,  

da urzela, dos panos de algodão, das cabeças de alcatrão

desses  entristecidos tempos do quase nada deixado em herança no domínio fabril, no sector empresarial, na área produtiva em geral pelo longevo e senil colonialismo português, 

salvo alguns silos para o armazenamento de cereais e algumas vetustas fábricas de conservas de peixe, 

salvo algumas medievas instalações de fabrico de bolacha e de outros 

poucos géneros alimentícios, 

salvo algumas salinas deficitárias e em estado de semi-abandono, 

salvo alguns obsoletos equipamentos artesanais destinados ao fabrico 

do mel da cana-de-açúcar e à destilação de aguardente, 

salvo um único aeroporto internacional e alguns aeródromos, cais acostáveis e docas de pesca, 

salvo alguns dispositivos de amarração de cabos submarinos e outras poucas infra-estruturas de telecomunicação transatlântica,  

salvo alguns viadutos e umas tantas  pontes, estradas calcetadas e ruas alcatroadas, e nenhum aquaduto, e nenhum túnel, e nenhuma auto-estrada, e nenhuma circular, e os muitos trilhos de terra batida, e os muitos caminhos de cabras e de desgraça, e as muitas rotas para a ontologia da afronta e do desânimo, e os muitos caminhos do mar da emigração e da forçada expatriação dos corpos famélicos em risco iminente de morte por inanição,  

salvo a muita miséria circundando a persistente mentalidade assistencialista das populações das ilhas,  salvo a seminua indigência e a pobreza convictamente endémicas entranhando a predominante cultura miserabilista dos habitantes das ilhas, 

salvo as alienígenas páginas dos livros escolares e os seus estranhos ensinamentos eivados de resignação cristã e subserviência colonial, 

salvo as arreigadas tradições da secular dependência colonial, 

salvo os enraizados hábitos de servilismo clientelar,

salvo muitíssimo pouco mais, 

excepto o muitíssimo mais que fomos nós, forjados nos tempos da provação e do vitupério para a manutenção de nós mesmos, dos nossos corpos iconicamente franzinos, dançarinos sobre as ósseas veredas do padecimento, 

salvo quase nada mais, 

excepto o inesperado que fomos nós, nascidos cativos e amados das ilhas, 

salvo o imprevisto  que fomos nós, gerados e forjados contra a supremacia estrangeira no âmago dos tempos todos nossos e dos outros, dos tempos alheios  impostos por eles, agentes e representantes do poder estranho e estrangeiro,  e reinventados por nós, filhos das ilhas, criados e sobrevivos dos tempos da secreção do medo e da sagração do pavor para a segregação e a maturação de nós mesmos, do nosso singular destino de povo vocacionado para a democracia social, económica e cultural, do nosso irrenunciável impulso à liberdade colectiva enquanto nação crioula destinada à independência política, do nosso instigado espírito de aventura enquanto ilhéus cercados pelo mar e cerceados pela natureza avara, do nosso inoculado instinto de rebeldia enquanto povo afro-atlântico prenunciado para a plena soberania interna e internacional, 

sendo tudo isso, que sem nós é muitíssimo pouco, todavia suficiente para servir como irrefutável testemunho da duradoura desventura passada do povo das ilhas, 

sendo tudo isso, que sem nós, e mesmo connosco, é muitíssimo pouco,  todavia suficiente para servir como prova indesmentível do nosso visível abandono colonial, 

sendo tudo isso, que sem nós, e mesmo connosco, é muitíssimo irrisório, todavia motivo suficiente de desenfastiado riso, e, depois, de desenfreada chacota, e, muito depois, de hilariante auto-ironia, e, depois disso tudo, de introspectiva auto-flagelação, e, depois do mais que se tivera de saber e arrostar, de irreprimível estupefacção e, finalmente, de colossal mágoa e incontida revolta,

em face desse nosso caso deveras especialíssimo 

de ausência de colonialismo na colónia abandonada à incúria 

e ao diligente estrangulamento dos seus moradores,  

  em face desse nosso caso deveras inaudito

de ausência de colonialismo na província do além-mar africano 

resignada com a morte lenta dos castiçais e dos sisais  em flor esquelética, 

em face desse nosso caso deveras excepcional 

de ausência de colonialismo no território ultramarino conformado 

com o indigente estertor dos habitantes das ilhas achadas desertas pelos navegadores e descobridores quatrocentistas ao serviço d’ El Rey de Portugal, Dom Afonso V, cognominado O Africano pelo muito mal infligido aos negros e mouros das terras a sul da Ibéria, e povoadas com escravos negros resgatados da Costa de África vizinha e com senhores brancos e outros homens livres europeus recrutados em várias partes do Reino de Portugal e dos Algarves e das Terras da Cristandade, e outros degredados  brancos condenados por crimes hediondos  e beneficiados com regalias, isenções e privilégios vários, 

para a consecução dos reais desígnios do rapto e da violação, da escravização e da subjugação, do tráfico e do mercadejamento dos corpos robustos e produtivos dos seus semelhantes  negros, retirados à força das suas lavras e do seu seio familiar, resgatados por via da coação e da violência  das sombras das suas árvores, da frescura dos seus rios, do aconchego das suas crenças, 

para a prossecução dos piedosos fins da captura e do amolecimento das suas almas ditas pagãs e infiéis, todavia sempre fiéis a Deuses outros, vitais, ancestrais, todavia bastas vezes tementes ao Deus único e invisível anunciado pelo belicoso Profeta dos desertos arábicos, por isso,  até então consideradas como totalmente ignaras porque ignorantes da proclamada misericórdia do  único e omnisciente Deus verdadeiro dos cristãos ocidentais, por isso mesmo, até então arredias à palavra da bênção da salvação divina outorgada pelo Deus dos invasores, conquistadores, salteadores, missionários  e outros negreiros, e outros escravocratas, e assinalada pela vez primeira e bendita das crónicas coloniais nestas plagas meso-atlânticas com a genuflexão do navegador do Infante Dom Henrique e capitão da nau almirante da esquadra d’ El Rei de Portugal na praia deserta da primeira ilha descoberta, Sant’ Iago chamada, 

deste modo ficando também assinalada a inteira e impoluta santidade dos primórdios do meio-milénio seguinte de infortúnio e martírio, 

dessas cinquenta e tal décadas passadas em lenta mas irrevogável trituração dos corpos e das almas cativas do amor e da misericórdia do Deus cristão, desse ancião loiro, euro-ocidental e de longas barbas brancas,  

deste modo ficando também assinalada a gradual deterioração dos padrões dos descobrimentos e o resignado entranhamento nas ocres cores das courelas de sequeiro e das vastas terras de pastorícia, bem assim nas verdejantes emanações das plantações das almas negras e mulatas de há muito conquistadas pelo sofrido rosto ensanguentado do Filho de Deus feito Homem e invicto companheiro de martírio dos escravos negros e pardos,  

de há muito conquistados para as delícias futuras do paraíso situado nenhures dos lugares da terra islenha inundada de suor, sangue, lástimas, lágrimas e gritos devidamente enquadrados pelo tronco, pelo alvo sibilar do chicote e pelos altos ecos audíveis do berro dos feitores e da voz senhorial trovejante, pelas cadeias do cativeiro e pelos rostos convincentes do pelourinho e dos padres confessores dos pecados e guias avisados dos tortuosos caminhos dos infernos,  

de há muito convencidos da real existência das delícias do paraíso prometido pelos inflexíveis pregadores da palavra dita do Cristo crucificado e diariamente fornecido pelos cativos, 

desse paraíso situado algures entre o Reino Celestial de Deus e as mansões dos bispos e dos senhores armadores, mercadores, latifundiários e demais negreiros, e demais transeuntes compulsivos das coxas indefesas das raparigas negras e mulatas,  e dos demais nostálgicos das pacientes ancas das mulheres brancas, imaginadas legítimas e piedosas, quedadas na longínqua amenidade europeia dos climas temperados do Reino de Portugal e dos Algarves, 

sendo, por isso, antiquíssimos os dissabores advindos das cruzadas negreiras de resgate dos corpos consagrados pecaminosos e de salvação das almas desqualificadas como transviadas dos antepassados dos escuros habitantes das nossas ilhas, 

remontando, por isso, à hora inaugural da saga marítima europeia iniciada pelos portugueses os desassossegos  da alma aprisionada, mantida em permanente estado de sítio na declinação da dor, do tétrico espanto e de outros mencionados dissabores conexos com o sequestro dos antepassados dos escuros habitantes das ilhas, 

e da sua condenação à radicação forçada em terra estranha, cercada de medo e de mar por todos os lados, 

e da sua condenação à definitiva estadia na terra estrangeira aos seus olhos inundados do sagrado rumor das folhagens do baobab e do verde fulgor das grandes árvores da beira dos imensos rios e da lonjura de planuras infindas, 

e da sua coerciva habituação à terra insular castanha, bastas vezes semi-árida, amiudadas vezes desértica, maioritariamente escarpada, todavia sempre grávida dos passos, dos prantos, dos jogos, das brincadeiras, dos risos sedentários  dos seus descendentes, 

também eles condenados à expectativa do paraíso futuro prometido pelos ditos representantes na terra do Deus encarnado e mortificado, também ele pregado na cruz do martírio e do indizível sofrimento, também ele sujeito às muitas provas da agonia e da morte impostas pelo desconfiado Deus dos nossos céus  e dos céus dele, do Filho do Homem, também ele sujeito à cruz e à espada de outros estrangeiros ao reino dele, terreno, subjugado, ao reino dele, celeste, adiado,  à terra sonhada e prometida fraterna e repleta de pão,  de vinho e de outras iguarias,  e de  outros manjares dos deuses e senhores, também eles estrangeiros às  ilhas achadas desertas, também eles estranhos à terra  dos vindouros escravos e dos seus futuros descendentes crioulos, se bem que chegados com as galantes roupagens e o elevado estatuto de donatários das ilhas, e o indeclinável estatuto de moradores e possidentes dos assentos da governança, da câmara e do senado da primeira e mais antiga cidade, e o temível estatuto de donos e senhores das ilhas e dos seus futuros habitantes, incluindo daqueles que viessem a nascer dos ventres fecundos das suas escravas negras e mulatas, 

sendo, por isso, antiquíssima a estupefacção e singela a revolta

em face desse nosso caso deveras inédito de colonialismo sem colonialistas, 

e, já agora, 

sem capital de império, 

sem cartas de privilégios e outras cartas régias autenticadas por sua majestade sereníssima o Rei de Portugal e dos Algarves, dos senhorios do Brasil e da Índia, das conquistas da Guiné, da Etiópia e das Arábias, etc., 

sem ministros do reino, antigos donatários, capitães-gerais, capitães-mores, corregedores, ouvidores, bispos, cónegos, cabidos, missionários, governadores e prefeitos das ilhas, 

sem armadores, mercadores, latifundiários, feitores e administradores das companhias majestáticas, 

sem portarias, sem decretos, sem decretos-leis e outros diplomas legais,  e outros actos normativos vindos da capital da República Portuguesa, 

sem despachos de nomeação, de promoção  e de transferência carimbados com o selo branco do Terreiro do Paço, 

sem ofícios confidenciais, pareceres devidamente homologados e outros actos oficiais expedidos do Ministério da Marinha e do Ministério do Ultramar, 

sem directrizes, orientações superiores  e ordens de serviço emanadas das autoridades centrais de Lisboa, 

sem planos de fomento, pautas aduaneiras, impostos de selo, décimas e outras taxas e imposições fiscais estipuladas nos gabinetes dos Ministérios  das Finanças e do Ultramar, longe de nós, da nossa terra exausta,  

sem processos disciplinares concebidos e executados à revelia de nós, dos nossos temores, dos nossos tremores, das nossas sempre goradas expectativas, das nossas sempre frustradas esperanças, 

sem a farsa das eleições para a indigitação de deputados das duas regiões naturais do arquipélago para o Congresso de Deputados, para a Câmara Corporativa e para a Assembleia Nacional portuguesa, 

depois de definitivamente amainadas,  à força da censura, da chantagem política  e do espectro ameaçador do enforcamento, da decapitação ou de uma outra forma horrorosa de execução  e, mais tarde, do encarceramento por tempo indeterminado na colónia penal do Tarrafal,  as pretensões confederais brasílicas e as vertigens autonomistas dos próceres ilhéus do liberalismo monárquico e da primeira república portuguesa e dos seus concorridos sufrágios censitários, e dos seus competitivos sufrágios capacitários, e dos seus musculados e miraculados sufrágios  fundados na fraude generalizada, na força persuasiva do metal sonante e na exclusão de mulheres, de analfabetos e de outros pés descalços, 

depois de definitivamente dissuadidos e resfriados os intentos soberanistas das primícias políticas dos nativistas das ilhas, depois de desvanecidos e extintos os clamores independentistas  da viragem do século da sublevação do Haiti, das independências americanas, da guerra dos boers, do irredentismo emancipalista do filipino Aguinaldo, do esplendor liberal emergente da indicial desagregação dos impérios centro-europeus, 

sendo por isso antiquíssima a interpelação dos alicerces e das portadas do império colonial 

em face desse nosso caso deveras excepcional 

de omnipotente e duradoura tutela estrangeira destas nossas ilhas minúsculas marcadas pela debilidade, pela fragilidade e pela vulnerabilidade, 

destas nossas ilhas consideradas como exemplo acabado de res nulius político e, por isso, adoptadas  como modelar ilustração de uma estranhíssima forma de povoamento humano e de reivindicação colonial sem colonialismo, 

destas nossas ilhas acarinhadas e mostradas ao mundo como uma esquisitíssima forma de colonialismo sem colonialistas, 

para mais, 

sem governadores e outros altos representantes da soberania portuguesa, 

sem intendentes, sem secretários-gerais do governo, sem os ilustríssimos membros dos conselhos legislativos da colónia/da província ultramarina indigitados pelo governador colonial, 

sem directores e outros chefes das repartições provinciais, sem inspectores, sem comissários, sem delegados, sem os demais altos funcionários do Estado e do Banco Nacional Ultramarino, 

sem administradores engalanados, funcionários enfatuados e outros empedernidos filhos da folha recém-chegados da metrópole europeia à parca mesa do orçamento provincial, 

sem oficiais subalternos, sem sargentos, sem outros alvos agentes da polícia de segurança pública, 

sem oficiais superiores e comandantes dos regimentos militares e de outros corpos expedicionários, 

sem as esposas metropolitanas dos comandantes militares e dos chefes da polícia política em tempos recentes colocadas nos dois liceus, nos três externatos, no único ciclo preparatório, nas escolas primárias das nossas vilas e cidades, 

sem os manuais escolares e os seus incontáveis apeadeiros e estações de caminhos de ferro da metrópole e das províncias ultramarinas, 

sem a fauna, a flora e os muitos rios e riachos irrompendo pelas serras, pelos maciços montanhosos, pelas planícies, pelas lezírias do rectângulo pátrio peninsular, 

sem a estonteante orografia, a selvagem arca de Noé e as sete e mais maravilhas de Portugal de aquém e além-mar, 

sem os heróis de Mucaba e outros intrépidos heróis da guerra ultramarina contra o terrorismo e a  selvajaria de fanáticos comunistas e de outros agentes internos dos muitos e poderosos inimigos externos da pátria multirracial e pluricontinental, 

sem as ameixas, as peras, as maçãs reinetas e outros frutos temperados nos suculentos paraísos dos livros escolares ilustrados, distantes das nossas bocas manhosas, habituadas ao reles sabor tropical de mangas, bananas, pitangas, jambres, mamões e papaias, 

sem as férias graciosas na metrópole concedidas aos funcionários públicos e a outras criaturas ultramarinas do império, muito efectivas na expressão do seu indefectível afecto pela mãe-pátria monumental, muito eloquentes na sua pública ostentação do seu entranhado orgulho da lusitanidade, muito convincentes na ruidosa deflagração do seu acrisolado amor da portugalidade, 

sem a coerção da tabuada e de outros cálculos decorados em frases inteiras monocórdicas, estrangeiras às nossas (con)turbadas cabeças infantis,  

sem as revisões da matéria dada marcadas pelos irrefutáveis apelos das varas  de marmeleiro e da palavra rude dos mestres-escolas, 

sem a obrigatoriedade das sabatinas aliciadas pelos vigilantes olhos das  palmatórias para a insana memorização dos nomes, dos cognomes,  das muito ilustres hagiografias das rainhas, dos infantes, das infantas, dos reis todos das multisseculares dinastias portuguesas,  

sem as asseverações moralistas convocadas para a penitência de pecados próprios e alheios e para a disciplinada aprendizagem das biografias, das lições de vida, dos honrosos actos  dos seus aios e das suas concubinas  e damas de companhia, para a altiva dissertação sobre outros feitos gloriosos da história pátria dos egrégios avôs da nação valente e imortal

sem os brados de vitória contra os castelhanos - os seus maus ventos, os seus piores casamentos, os seus lacaios e sequazes internos, as suas coroas usurpadas aos desejados monarcas, aos nebulosos soberanos dos antigos portugueses - e contra outros inimigos da honra e da glória dos príncipes e de outros senhorios indígenas das terras lusitanas, 

sem os chamamentos guerreiros contra mouros, cripto-judeus disfarçados de cristãos-novos, negros pagãos, protestantes  e outros hereges, e outros inimigos da religião do reino, da independência política da pátria portuguesa e da integridade territorial do seu vasto e multissecular império colonial, das suas quinas e das suas chagas de Cristo, da sua fé em Deus, n’os lusíadas e no quinto império, 

sem o sistemático denegrimento, sem a periódica excomunhão das suas manifestações culturais insulares marcadas pelo festivo desvelo da alma e pelo rítmico fervor dos corpos, 

sem as proibições administrativas das serenatas ao luar, das tocatinas ao ar livre festivo ou silencioso das noites aprazíveis, dos desfiles da tabanca e do colá sanjon nas festas da  santa cruz, nas festas juninas, nas festas de romaria pelos santos padroeiros das freguesias, 

sem as ameaças de recusa do baptismo dos filhos pequenos em risco de perda da sua aura de anjos putativos, em risco de condenação ao perpétuo e infamante estatuto de mouros pela circunstância de terem sido gerados por ventres solteiros de mães alegadamente amantes da luxúria, por terem sido concebidos por pais amancebados na paixão e no pecado da fornicação,  

sem as ameaças de denegação da hóstia sagrada e dos sagrados sacramentos da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana a alguns filhos das ilhas por mor da sua participação aberta ou furtiva em sessões da tchabeta, da sambuna e da finason e nas festas populares e comunitárias de celebração dos actos litúrgicos de consagração dos periclitantes ciclos da vida e da morte dos habitantes das ilhas,   

sem a denúncia e a exemplar punição daqueles que ousavam trazer a língua da terra aos microfones da rádio, às crónicas dos jornais, às sátiras da vida oficiosa dos mandarins do governo da província/colónia e dos seus acólitos e representantes oficiais nas administrações concelhias e nas câmaras municipais da terra, 

sem a transferência para longínquos destinos ultramarinos daqueles que se atreviam a falar sobre o crioulo, e os seus maiores trovadores, e os seus maiores cultores islenhos, nas conferências solenes comemorativas do quinto centenário do achamento das ilhas de cabo verde, 

sem os severos castigos aplicados aos alunos liceais que nos recreios e nos intervalos das prelecções dos docentes metropolitanos e dos professores e mestres-escola nativos se atrevessem a discutir em crioulo as matérias das aulas de matemática, filosofia, físico-química, português, francês, inglês, latim, alemão, geometria e ciências naturais, 

sem o escolar constrangimento da aprendizagem obrigatória do vira, do fandango  e do malhão- malhão, ademais trajados com as vestes folclóricas tresandando a Beiras, Minhos, Madeiras, Açores e Ribatejos, 

sem a  ininterrupta  autoprojecção dos filhos da terra no retrato do colonizador estampado na fina e pálida fisionomia dos filhos dos comerciantes, dos oficiais do exército e da polícia, dos latifundiários  e dos funcionários públicos metropolitanos, 

sem a decidida retracção dos filhos das ilhas em face do retrato do colonizado emoldurado nos rostos rudes das muitas gentes rústicas das missas dominicais e dos mercados e feiras semanais, 

sem a diária inoculação dos muitos complexos de inferioridade devidos à epiderme demasiado escura, devidos aos lábios demasiado grossos, devido aos beiços sensíveis, grosseiramente sensuais, devidos aos cabelos demasiado frisados, demasiado crespos,  demasiado encaracolados, demasiado encarapinhados, devidos aos narizes demasiado achatados, 

sem a diária injecção da vergonha devida à óbvia genealogia dos nomes bíblicos e dos apelidos latinos recobrindo os  estigmas herdados dos antepassados africanos sempre ocultados por demasiado negros, sempre esquecidos por excessivamente cafres, sempre desprezados por demasiado indolentes, sempre temidos nos mais tenebrosos dos pesadelos das crianças das ilhas por demasiado antropofágicos e parecidos com os demónios dos infernos descritos com pormenorizado  horror, inscritos com detalhado desvelo  nas missas e nas catequeses, 

sem a diária interiorização do mal-estar devido à localização geográfica da ilha onde se nasceu, se cresceu e se almeja permaneça envolta exclusivamente em salitre e espuma marítima dos mares incógnitos ondulando navegados pelas naus portuguesas das descobertas, assaz distante da Europa, por demais próxima das terras dos pretos da Guiné e dos demais gentios da restante Costa de África, 

sem as crenças, a farda, o bivaque, o s de Salazar incrustado aos cinturões dos exercícios para-militares da Mocidade Portuguesa, 

sem os inspectores, os agentes e os torcionários da PIDE-DGS discretamente desembarcados para debelar os previamente identificados e outros eventuais focos de subversão independentista no mais perfeito e harmonioso resultado antropológico da expansão lusíada em quatro continentes, três  oceanos e um ainda maior número de mares, 

do seu subjacente espírito de aventura, da sua aventureira proficiência na arrecadação do ouro, da prata e do marfim alheios, da sua digníssima e precavidíssima capacidade na multiplicação de filhos mulatos, cabritos, caboclos, monhês e de outros descendentes mestiços, e de outras  humaníssimas e coradas proles ultramarinas da sua humilíssima predisposição para a mistura e a miscigenação com povos e raças inferiores carecidos da orientação missionária da civilização cristã ocidental, da sua lendária capacidade de adaptação aos trópicos, e a outros lugares inóspitos, e a outras ambiências hostis, mesmo se com a maior miséria de meios materiais e muito parcos recursos em legítimas mulheres brancas, e prostitutas de igual teor fisionómico e de idêntica tez alva importadas do reino,  da sua lendária capacidade de invenção de eficazes antídotos contra a apagada e vil tristeza irradiando congénita das vozes, dos sons e dos suspiros do fado, da saudade e das dolentes cordas da guitarra portuguesa em tempo utilíssimo retomadas nos chorosos cânticos, nos langorosos acordes, nas miméticas resssonâncias, nas mumificadas lágrimas das gentes das ilhas. 

 

Ah! Estes tempos novos de exaustiva rememoração dos transactos tempos coloniais de outrora, estes tempos nossos  de permanente esconjuração desses tempos passados da incomensurável frustração devida ao costumeiro protelamento das indispensáveis medidas para a definitiva debelação das crises das fomes, para a efectiva minoração de outros nefastos efeitos das estiagens cíclicas, para o definitivo enterro do torpe e famigerado rótulo de arquipélago da fome

 

Ah! Estes tempos novos de exaurida rememoração dos desfalecidos tempos coloniais de antanho,  estes tempos nossos de evidente esconjuração desses tempos mortos do sempre tardio apetrechamento dos pequenos portos de cabotagem das ilhas, desses tempos defuntos da sempre adiada modernização do porto da Praia e do porto grande do Mindelo para a tempestiva e eficiente competição com os portos de Dacar e de Las Palmas, para a autónoma angariação de recursos financeiros, para a livre arrecadação de receitas próprias, para a mobilização de meios suficientes para o desenvolvimento económico sustentado das ilhas.

 

Ah! Estes tempos novosdos tempos coloniais derrotados,  estes tempos nossos de repetitiva rememoração e de frequente esconjuração  desses execrados tempos da inépcia e da incúria, desses tempos passados da transida latência da raiva e da rebeldia devida ao desaproveitamento dos nossos escassos recursos minerais, desses pretéritos tempos da explosiva insatisfação geral devida ao desperdício das nossas potencialidades nos sectores do turismo, das pescas, das energias renováveis, das águas subterrâneas, desses sofridos tempos da desapiedada exploração da intermitência da esperança e da escassez da fé definhando-se com as almas raquíticas, com a cruz e o credo em Deus apodrecendo com os corpos famélicos nos anos das as-secas, desses intermináveis tempos da negligenciação da abundância da esperança e das águas diluvianas dos tempos setembrinos, da bonança da humidade, do pasto, dos frutos e da festa nos anos de boas as-águas… 

 

Ah! Estes tempos novos de aflitiva rememoração dos tempos coloniais perdidos,  estes tempos nossos de fremente vituperação  e de duradoura esconjuração dos tempos coloniais da inércia e da letargia, do descuramento da inteligência dos filhos da nossa terra, da asfixia das suas reconhecidas capacidades de sobrevivência na luta contra a adversidade, de desencorajamento das suas conhecidas habilidades na adaptação às agruras da natureza, de definhamento das suas muitas veleidades e predisposições de abertura às novidades e às oportunidades dos tempos contemporâneos, de enfraquecimento das suas eficientes habilitações no acolhimento das vicissitudes da modernidade, dos seus contraditórios sinais colhidos da ignota fortuna do mundo longínquo e desconhecido. 

 

Ah! Estes tempos novos,  estes tempos nossos de exaltada rememoração e 

de firme esconjuração dos tempos coloniais vencidos, das suas classes 

mercantis abalizadas na predação dos necessitados nas épocas das periódicas fomes, das suas gananciosas classes altas peritas na parasitação da miséria dos filhos das ilhas compulsivamente contratados como mão-de-obra serviçal das plantações coloniais, coagidos ao embarque para o sul-abaixo, obrigados à prestação de trabalho semi-escravo nas roças de Angola, de Cabinda, de Moçambique, de São Tomé e Príncipe.

 

Ah! Estes tempos novos,  estes tempos nossos de sabida rememoração e 

de vingativa esconjuração dos antigos tempos coloniais, das suas matreiras classes possidentes vorazes na exploração da mão-de-obra nossa livremente emigrada para os estaleiros navais, para as minas, para os andaimes, para as obras, para os camaratas, para as experienciações da indiferença e da discriminação, para as jornadas do frio e da solidão da cuf, da lisnave,  da j. pimenta, da panasqueira  e de outras grandes empresas sediadas na antiga metrópole colonial.

 

Ah! Estes tempos novos, estes tempos nossos  de (res)sentida rememoração e de dorida esconjuração dos tempos coloniais revolutos, das suas classes empreendedoras impiedosas na sobretaxação das remessas dos emigrados em vários países do mundo dito civilizado depositadas no banco único da província/colónia, desse temido banco nacional ultramarino, desse bnu tantas vezes amaldiçoado como abutre omnipresente e omnívoro, de olhar cuidadosamente especado no monopólio da emissão da escassa moeda do arquipélago das secas e da penúria, de garras e tenazes entranhadas nas terras produtivas dos latifundiários das ilhas, dessas terras  apropriadas pelo astucioso uso da usura, dessas terras expropriadas pelo sigiloso  aproveitamento dos vícios delapidatórios dos magnatas de outrora, dessas terras  leiloadas pela traiçoeira estimulação das tendências ostentatórias dos terratenentes de há muito nativos da autóctone pobreza das ilhas, desses senhores morgados do outrora salpicado das calcinadas cores dos cutelos, invariavelmente abúlicos ante os constrangimentos da desolação social, invariavelmente atónitos ante as predicações da miséria iminente, irremediavelmente desarmados ante o preditível desconcerto da meteorologia, detestavelmente lamurientos ante a previsível assolação das crises da estiagem.

 

Ah! Estes tempos novos, estes tempos nossos  de rancorosa rememoração e 

de infalível nomeação do inominável descalabro herdado dos fenecidos tempos coloniais do antigamente, estes tempos nossos de reconfiguração do pasmo das paisagens, estes tempos nossos de reformulação da sobriedade das criaturas humanas convergindo para os tempos temperados delas, para esses tempos tropicais aclamando-se resultados tangíveis, para esses tempos tropicais declamando-se flores soberanas, para esses tempos tropicais proclamando-se frutos saborosos da nossa independência política, para esses tempos tropicais também propícios à saciedade das estancadas  correntezas dos tempos do temor, dos cálculos defraudados e das muitas incertezas da nossa pequena burguesia burocrática e comercial, dessa pequena burguesia da posse remediada e da abastança do saber, dessa pequena burguesia nascida da ascensão social, económica e cultural do negro e do mulato naturais das ilhas, dessa pequena burguesia germinada entre as ruínas do feudo e do latifúndio, dessa pequena burguesia esculpida pelos estilhaços do estio e da carestia, dessa pequena burguesia fecundada pelos desvarios da estiagem, dessa pequena burguesia forjada pelas muitas agruras e carências, pelos indescritíveis  vitupérios da escravocracia, dessa pequena burguesia consolidada no orgulho da ilustração escolar, dessa pequena burguesia aristocratizada na lavra da bastardia e do verde esmaecido das paisagens inóspitas do pedregoso aquém-mar das nossas ilhas.

 

Ah! Estes tempos novos,  estes tempos nossos de truculenta rememoração dos tempos coloniais insalubres e dos seus privilegiados intermediários nativos, estes tempos nossos de impiedosa vergastação dessa pequena burguesia educada com os remédios inoculados dos quadros mentais da mistificação e de outros produtos simbólicos embrulhados no perfumado odor verde-rubro da pátria longínqua de antanho, dessa pequena burguesia cultivada na tradicional dependência das importações provenientes quase exclusivamente da antiga metrópole colonial, dessa pequena burguesia fundiária, mercantil e intelectual ainda umbilicalmente subordinada aos interesses económicos e culturais da ex-potência colonial, das suas grandes casas comerciais sediadas em Lisboa, no Porto e em Coimbra, dos seus estádios de futebol, das suas casas de fados, dos seus teatros nacionais, dos seus coliseus e espetáculos de variedades, das suas azinhagas milagreiras, das suas igrejas, basílicas e catedrais, dos seus institutos técnicos e das suas faculdades, das suas outras prestigiadas instituições intermediadas pelos seus caixeiros viajantes, mestres de oficina, professores catedráticos e por outros respeitáveis angariadores de clientes, e por outros veneráveis fazedores de discípulos, e por outros exemplares forjadores de émulos da obediência das cabeças vacilantes e dos pés rastejantes,  e por outros singelos arquitectos da vassalagem das mãos devotas (diga-se, entre parêntesis curvos, também muito assíduos na rapinagem das coxas e nos lautos repastos dos pratos da terra, na suculenta gastronomia dos espíritos esbeltos, dos corpos secos, dos frutos tropicais, dos seus rubores e sabores feminis).

 

*Nota do Autor: constitui o presente prosopoema a parte 6 do longo Prosopoema em formato de livro sobre o Cabo Verde pós-colonial,  ainda parcialmente  inédito e intitulado Puricidades, Pluricidades, Divercidades - Crónicas dos Tempos de Outrora e de Agora, do Ressentimento, do Júbilo e da Ressaca. 

 

por José Luís Hopffer Almada
Mukanda | 23 Julho 2023 | Cabo Verde, prosopoema