É na periferia que o futuro se revela! Festival de Músicas do Mundo

Ao longo dos 26 anos da sua existência, o Festival Músicas do Mundo (FMM) não só fez Sines definir-se no mapa de milhares de pessoas, como criou um público atento e interessado, capaz de fazer um silêncio imenso, resultado de uma escuta entusiasmada e coletiva de milhares de pessoas nas noites do Castelo.

O público do FMM tem vindo, ao longo deste quarto de século, a descobrir músicas de muitas latitudes e culturas, a conhecer instrumentos e estilos musicais milenares, transmitidos através de gerações num ensino familiar e tradicional que ainda perdura em algumas regiões do globo. Tradições onde se aprende e recria fora dos conservatórios e das escolas de música.

O festival é feito de um posicionamento político, defendendo e pondo em prática um mundo em que todos acedem a direitos e deveres, em que o respeito pelo outro se constrói muito para além dos números e dos artigos das convenções, através da descoberta, da compreensão e do diálogo.

Carlos Seixas, programador e criador do FMM, é reconhecido pelos músicos, programadores e produtores da cena nacional e mundial pelo seu carisma, generosidade e talento. O festival tem a marca da sua curadoria e criou um legado que é importante preservar, reconhecer e dignificar.

Ao longo destes anos, o Município de Sines não foi ainda capaz de criar condições favoráveis e estáveis de alojamento para as milhares de pessoas que aí se deslocam durante o festival e para as quais os alojamentos disponíveis, seja em parques de campismo, seja em hotéis e alojamentos locais, são insuficientes. O que é facto é que estes milhares de pessoas trazem um grande retorno económico, para além dos encontros e trocas sociais proporcionados, e merecem, depois de um quarto de século, um parque de campismo adequado.

O FMM, conhecido pelos sineenses como «as Músicas do Mundo» e apelidado muitas vezes, por quem vem de fora, simplesmente de «Sines», é não só um festival de música, mas também um lugar de encontro e de convívio.

Não nos parece, de todo, um bom rumo para um festival que tanto tem feito, nacional e internacionalmente, na cena das músicas do mundo, a diminuição do número de instalações sanitárias disponíveis para o público em Porto Covo, assumir como boa opção um parque de campismo fora do centro de Sines, na zona industrial da cidade, ou cortar no orçamento da programação.

No momento em que se sabe que o concelho de Sines está em vertiginosa expansão tecnológica e económica, com diferentes equipamentos e fábricas a serem construídos e a entrarem em atividade, negar este património do FMM, não o acarinhar e engrandecer, é um gesto que não honra todo o caminho percorrido.

O FMM merece muito mais, seja pelos sineenses, seja por tantos outros portugueses e residentes em Portugal que, há um quarto de século, vão criando uma comunidade de escuta, descoberta cultural e convívio social.

Ao público do FMM e a todos os que, de alguma forma, com ele colaboram não parece razoável que o festival perca espaço para um festival de regatas e veleiros, nem que seja necessário esperar mais dois meses para saber ao certo as datas da próxima edição, em função da possível escala de uma regata que esteve apenas uma vez nos mares da cidade, em 2017.

Lamentamos que não haja ainda uma data para a próxima edição, em 2027, e desejamos que esta se faça com melhores condições de acolhimento do público, mais condições económicas para a programação e o devido reconhecimento e dignificação de todo este legado construído por Carlos Seixas, por toda a sua equipa técnica, por todos os funcionários do Município envolvidos e por todos os sineenses que, até agora, têm recebido de braços abertos quem chega ao FMM.

Como dizia João Carlos Raposo Nunes, há que:

«fundar a utopia
afundando
a solidão»

Que venha em grande a 27.ª edição do Festival Músicas do Mundo, em 2027!

Deixamos ainda relatos de dois dos inúmeros concertos desta edição.

Relatos do FMM — CONCERTOs — A GAROTA NÃO

A GAROTA NÃO canta por tod@s nós!!!

Canta as indignações, as revoltas, os desalentos, MAS também os sonhos, as utopias, as memórias de infância, de sol e mar, canções de fraternidade e esperança!

Três anos depois, na sexta-feira, 24 de julho de 2026, Cátia Mazari Oliveira regressa a Sines, ao Festival Músicas do Mundo.

Vem muito bem acompanhada por um composto agrupamento musical e canta-nos a sua «Ave Maria cheia de raiva», do próximo álbum, Carta às vulgares mulheres extraordinárias.

Parte da história da sua mãe, que é, em traços gerais, a de tantas mulheres que fazem deste país um lugar mais amável e cuidado. MAS tantas dessas mulheres, mães, avós, tias, cuidadoras, nunca tiveram honras nem reconhecimentos. E tantas ficaram tão cansadas que nem conseguiram sair para o baile com os sapatos novos, que às vezes ficaram por estrear até ao seu funeral.

Como há três anos, A Garota Não fala-nos das aflições de tantos e tantas em Portugal para pagar o chão, o pão, a vida básica, enquanto a Galp, patrocinadora do festival, tem lucros de milhões. E assim explica-nos que, além dos seus milhões, merecem uma canção que dispa o ultraje.

Há uma homenagem a Carlos Seixas por programar o FMM como um feliz ato de resistência.

(E refira-se que o programador do festival foi mencionado em palco por muitos dos músicos, gerando um burburinho na plateia que ainda desconhecia quem tinha a honra, o saber, a vontade ampla e certeira para programar este festival há 26 anos. No dia seguinte, Vitorino Salomé convidou Seixas para o palco e quem estava presente e atento pôde conhecer-lhe o rosto generoso e franco.)

A Garota NãoA Garota Não

Mas voltemos ao concerto d’A Garota Não. Se Cátia nunca quis cantar «Garota de Ipanema», recusando dar voz ao desfile de um corpo-superfície, superficial objeto de desejo, entregou-se à profundidade das heranças e vasculhou nos baús dos significados canções que encarnassem os valores de Abril.

E, no Castelo de Sines, seguiu-se um desfilar de músicas preparadas para o 25 de Abril. O público vibra e ergue os braços quando se entoa Sérgio Godinho: «Que força é essa». Uma plateia intergeracional aos saltos num momento de apoteose com Rage Against the Machine e a sua visceral crítica.

E soa «Eu vi este povo a lutar», da Confederação, de José Mário Branco, «People Have the Power», de Patti Smith, e «Os Vampiros», de José Afonso.

Atravessamos o Atlântico e vem Ney Matogrosso com «Homem com H» e, quando canta Elza Soares, há um bailarino em palco a expurgar o «Credo».

E grita-se: 25 de Abril Sempre!

A Garota Não termina com «Ferry Gold» e fala-nos das suas memórias bonitas: corpo, sol, pino, cambalhota, castelo de areia, em Tróia.

Lê um breve texto que desenrola os atentados sociais e ambientais que se sucedem na zona entre Tróia e Sines. Os resorts, as gruas, os campos de golfe. As dunas, até há poucos anos intactas, arrasadas pela vaidade do luxo que exclui através de cancelas e preços exorbitantes. E os governantes que circundam os portões e fazem da pompa a circunstância de se anunciarem atentos.

E cita José Saramago:

«privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu,
privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei,
privatize-se a nuvem que passa,
privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno
e de olhos abertos.
E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,
privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez
a exploração deles a empresas privadas,
mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo…
E, já agora, privatize-se também
a puta que os pariu a todos.»

— José Saramago, Cadernos de Lanzarote — Diário III. Lisboa: Caminho, 1996.

E A Garota Não termina o concerto convidando o público a participar, a envolver-se nas lutas. Convida-nos, a todas e todos, a estar lá e a darmo-nos ao trabalho de reivindicar, colaborar, manifestar, apontar e trilhar caminhos. Haja força de vontade!

Esta noite foi uma memorável travessia!

Concerto — TABLAO DE TANGO

Um trio surpreendente. Inesperado. O cantor Walter «Chino» Laborde, o cantor e mestre da harmónica Franco Luciani e o guitarrista Raul Kiokio. Uma comédia sentida. Teatro, música, coração, poesia. Entre lamentos pela derrota numa final mundial, estes músicos souberam saudar os campeões, demonstrando humanidade muito para além das pátrias. Mas nas suas músicas há um choro da terra distante, uma dor, uma saudade e a alegria dos dias e das noites. A boémia a transbordar do palco.

Tablao de TangoTablao de Tango

Uma garrafa de vinho aberta quando a canção acontece, o entusiasmo ébrio dos copos vertidos enquanto se desfia Piazzolla, Atahualpa Yupanqui e Jairo, folclore argentino, chacareras, milongas, tangos…

Um mergulho de virtuosismo musical,
emoções à flor da pele,
corações do avesso,
uma desgarrada natural entre músicos gigantes.

Os seus sons de presenças e de ausências.
Amores e desamores.
A vida tão fugaz.
O vinho que atordoa.

Uma harmónica que canta, que fala, que percute, os sons do quase impossível!

Dizem-nos estes músicos que há espíritos no Centro de Artes de Sines.

Dizem-nos e cantam: «Chora, maestro, que até o céu chora.», «Tocar e cantar e chorar… por uma mulher ou por outras razões.», «Volto ao sul como quem volta ao amor.»

Um concerto a inaugurar as noites de Sines, Festival Músicas do Mundo.

Querermos mais é certeza à flor da pele.

Fotografias do Festival Músicas do Mundo, Sines, Portugal (FMM), e da autora.

por Maria Prata
Vou lá visitar | 14 Agosto 2026 | A Garota Não, Carlos Seixas, Festival de Músicas do Mundo, flamenco, Sines