Kuduro Visual | Demo 1
Como escreveu Kiluanji Kia Henda (2024):
“Mais do que criar vídeo-musicais, o Kuduro Visual seria o ousado ato de produzir imagens capazes de interferir com a história da arte. A história da arte que nunca nos foi contada, ou da qual fomos sistematicamente excluídos. Recorrendo à espontaneidade, ao improviso e à rebeldia do kuduro, o artista conquistaria assim o seu lugar ao sol, confrontando todo o sistema hierárquico e conservador da cena artística. Pois, a meu ver, a arte só cumpre o seu verdadeiro papel quando consegue criar rupturas.”
O Kuduro é. Não carece de entendimento, e admite poucas possibilidades de descodificação. É uma prática que se retroalimenta da urgência da vida.
Foi precisamente essa potência que levou Gegé Mbakudi e Resem Verkron a desenvolverem o conceito de Kuduro Visual. Na perspectiva dos artistas, trata-se de incorporar o kuduro às artes visuais, e de reconhecer que ele sempre produziu imagens, e imaginários. O que propõem é deslocar esse repertório para o espaço expositivo, permitindo que a fotografia, o vídeo e a performance revelem aquilo que o ritmo sempre carregou: uma linguagem visual.
Se existisse um único propósito para o kuduro, talvez fosse este: ser visto. Visibilidade é um direito, que desponta outros direitos e os fazedores de Kuduro (arte), sabem disso. Conhecem a fórmula da existência por exercício empírico de sobrevivência, e esta exposição é sobre isso.
A história ensinou-nos a olhar para as expressões culturais produzidas nas margens apenas como respostas às estruturas de poder, como se a sua existência dependesse daquilo a que se opõem. Kuduro Visual - Demo 1 compreende essa lógica mas propõe uma inversão.
Gegé Mbakudi e Resem Verkron não fazem arte apenas porque resistem. Fazem arte porque nasceram artistas. Porque imaginar também é um direito. Porque criar excede qualquer condição de sobrevivência. Ao procurarem descobrir a imagem do kuduro, não lhe atribuem um significado definitivo; revelam a sua capacidade infinita de produzir formas, afectos, ficções e FUTUROS. O kuduro deixa de ser apenas música, dança ou performance para afirmar-se como um pensamento estético e uma tecnologia de invenção.
Nesta Demo, os artistas aproximam passado e presente para revelar que o corpo nunca dança desligado da história. Os gestos coreográficos, os ditados transformados em códigos de movimento, os objectos do quotidiano e a própria ideia de performance tornam-se dispositivos de memória e existência social. Sem procurar oferecer respostas fechadas, Gegé Mbakudi e Resem Verkron nos convidam a reconhecer o kuduro como um espaço onde convivem trauma e celebração. Um espaço onde a vida acontece.
Se, por um lado, o corpo preserva as marcas da violência e do esquecimento, por outro continua a levantar-se, insistindo na criação como exercício de liberdade.
Pepinooo!
Texto de
(Font - Montserrat)
Sobre a KinoYetu
Fundada em 2019 por Kiluanji Kia Henda, Rómulo Peixoto e Orlando Sérgio, somos uma associação de valorização e desenvolvimento artístico. Visamos fomentar plataformas onde o cinema e as artes visuais sejam um veículo para produção de conhecimento.
Financiamos projetos específicos e buscamos parcerias estratégicas, na criação de iniciativas que promovam o sector das artes visuais. Nossa meta é apoiar e capacitar artistas, com iniciativas que promovam novos modelos pedagógicos e de produção.
‘KinoYetu’ significa ‘cinema nosso’. O nome da associação é a síntese do que se tem como proposta, acções que reiteram a importância do cinema nacional e iniciativas que construam novas linguagens dentro do sector cinematográfico de Angola. Nossos valores estão fundamentados na valorização artística, transformação social e criação de um novo ciclo de produção. Escolhemos unir o que há de mais poderoso nesta África contemporânea: autonomia, arte e produção.
KinoYetu é um convite a novas possibilidades, temos a convicção que o cinema é uma ferramenta de poder social e resolvemos fazer dele, nosso instrumento de impacto.
