Cuba Sí!
frase de Fidel no Centro Fidel Castro
Cuba faz parte do imaginário de muitos de nós. Ainda a ditadura havia de durar muitos anos na nossa terra e já a ilha caribenha andava nas nossas bocas, nos nossos sonhos. Era a Sierra Maestra, Fidel, o Che, os barbudos, a derrota do imperialismo norte-americano e dos seus lacaios. Era a liberação e a liberdade, a coragem, a dignidade, a esperança, o mundo novo, o socialismo.
Entre os anos 60 e 90 do século passado, Cuba era, até para os já desiludidos ou desesperançados do socialismo real, uma bandeira irrecusável. Mais próximo do povo, dos deserdados de lá e de muitas partes do mundo, o farol das Caraíbas apontava o caminho que todos procurávamos.
Os progressos da revolução estavam à vista e eram inegáveis. Desde logo na educação, na saúde, no combate à miséria e no entusiasmo popular. E a admiração de todos os que, pelos cinco continentes, ansiavam por uma terra sem amos era cada vez maior. Por isso mesmo, desde os alvores da libertação, Cuba tornou-se um alvo privilegiado dos donos do mundo, em particular do imperialismo norte-americano.
Ao mesmo tempo que Cuba levava ajuda e solidariedade, com professores, médicos, soldados e armas, a muitos povos oprimidos da America Latina, de África e não só, os inimigos da revolução multiplicavam os ataques e endureciam sanções e bloqueios com o único objectivo de a destruir.
As alterações geo-políticas a nível global, verificadas nos últimos 30 ou 40 anos, reforçaram as posições desses inimigos e contribuíram para um cada vez maior enfraquecimento e isolamento da revolução cubana.
A ascenção de Donald Trump aos comandos do agressivo e todo-poderoso vizinho teve os efeitos que se conhecem, com o embargo velho de seis décadas a transformar-se num garrote assassino que visa estrangular e submeter pela fome e, em última análise, vergar o povo cubano.
Conhecer o quotidiano de Havana em Março deste ano, mesmo que apenas por duas semanas, levou-me, como velho amigo da revolução cubana e jornalista reformado, mas não estudioso ou conhecedor aprofundado da vida política local, a formular algumas ideias que partilho convosco. Não se trata propriamente de opiniões, nem de certezas – não conheço suficientemente a realidade do país para as ter -, mas apenas de impressões pessoais e descomprometidas.

Havana e Santa María del Mar 2026, fotografias de Marta Lança
Desde logo, e desde sempre, o bloqueio norte-americano constitui, por si só, uma agressão criminosa. E a política de Washington em relação a Cuba representa uma ingerência e uma violação das mais elementares normas do direito internacional. Política essa que está a provocar uma verdadeira crise humanitária, com a paralisia quase total de grande parte dos serviços públicos e com os preços dos bem alimentares a atingirem níveis incomportáveis para a grande maioria da população.
Por outro lado, a atitude do Governo norte-americano, e em particular do seu caudilho, colide frontalmente e ofende os arreigados sentimentos de independência e o orgulho nacional da esmagadora maioria do povo cubano. Mesmo daqueles que, à esquerda, não escondem a sua desilusão com os caminhos que a revolução tomou, sobretudo desde a morte de Fidel, e até de muitos que se declaram adversários do regime e dos seus fundamentos.
O que não quer dizer que o Governo e o Partido Comunista reúnam o aplauso geral dos cubanos. O cansaço de mais de meio século de resistência e dificuldades, os erros e abusos do poder político e militar, e a desinformação disseminada pela propaganda norte-americana e pelos nostálgicos cubanos de Miami parecem ter esmorecido o entusiasmo revolucionário, a esperança de viver melhor num mundo novo e a adesão às organizações populares e ao regime. O desejo de mudança, seja lá isso o que for e desde que não tenha a mão de Washington, parece crescente e abrange vastos sectores da sociedade.
Ainda assim, a perda de popularidade do regime e a falta de carisma do presidente Diaz-Canel estão a léguas da contestação e da rejeição pintada pela generalidade dos meios de comunicação ocidentais.
Seja como for, não faltam cubanos e cubanas dispostos a prosseguir a resistência, enfrentar os inimigos e corrigir os erros e vícios que seis décadas de poder contribuíram para acumular.

Havana 2026, fotografia de Marta Lança
Este texto foi originalmente escrito para o evento Que Viva Cuba! Homenagem a Adolfo Gutkin que teve lugar no FITEI 49 a 24 de Maio de 2026, com curadoria de Ana Bigotte Vieira.