Tradidanças e uma viagem pelas serras de São Pedro do Sul

Em termos de músicas africanas, este ano um dos concertos mais marcantes foi o de Momi Maiga, senegalês radicado em Barcelona. Um griot que traz consigo um legado milenar da tradição musical africana e que veio acompanhado por maravilhosos músicos. Deu um concerto memorável para todos os que o ouviram.

Tivemos também a presença de Bonifácio Áureo, bailarino e professor de dança nascido no Huambo, Angola, e residente em Lisboa. Veio acompanhado pela sua esposa, Cláudia da Cruz, também bailarina. Kizombas, sembas e muita emoção fizeram dos palcos do Tradidanças um lugar para as elegantes e sensuais passadas de Angola.

Foram também impactantes os já conhecidos afro beats de Telmo Santos.

E muito mais houve: workshops de dança, instrumentos e brinquedos, contadores de histórias, concertos na igreja, caminhadas e passeios, animação de rua… Tudo isto num recinto que é, ele próprio, um bosque. Os palcos dos workshops ficam à sombra e sob a magia de um frondoso carvalhal. O campismo beneficia igualmente da atmosfera fresca e natural proporcionada por estas árvores já adultas.

Este ano, o festival cresceu e é bom ver que há cada vez mais jovens a frequentá-lo. Relativamente à programação, há quem se queixe de que haja talvez mais DJs e animação com professores de dança e um pouco menos de bailes folk com música ao vivo. Não temos a certeza de que esta perceção corresponda realmente a alterações na programação, mas talvez este seja também um caminho para trazer mais juventude ao festival. E o importante é envolvermo-nos, participar, desfrutar e dançar.

Há quem diga, tanto entre o público como entre as gentes da terra, que o festival poderia prolongar-se e passar a ter sete dias. Para já, sabemos que, em 2027, decorrerá de 4 a 8 de agosto.

Depois disso, a nossa sugestão é que se deixem levar pelas muitas opções de viagem. O turismo, o verão e o lazer não se resumem às praias e ao litoral.

Se tiverem automóvel, vão à descoberta da “Montanha Mágica”, um pedaço de estrada com um incrível efeito de ilusão de ótica, onde o carro parece subir sozinho quando está em ponto morto. Fica perto da aldeia de Sá, subindo a montanha.

Podem ficar alojados no Bioparque de Carvalhais, que tem piscinas, parque aventura, alojamento rural e campismo.

Há muito para explorar nesta zona, integrada na “Grande Rota das Montanhas Mágicas”, inaugurada em 2022 e que se desenvolve ao longo dos maciços da Gralheira, abrangendo as serras da Freita, Arada e Arestal, e do Montemuro, entre os rios Douro e Vouga. É um percurso de 275 km para fazer a pé ou 279 km de bicicleta.

Outra sugestão: calcem umas boas botas, arranjem boa companhia e, se estiverem em boa forma física, aventurem-se pela “Rota da Cabra e do Lobo”, um percurso circular de 12 quilómetros, com uma duração prevista de cerca de cinco horas e dez minutos. Podem começar na Aldeia da Pena, passar pelas Covas do Monte e depois pelas Covas do Rio, regressando à Pena, ou fazer o percurso no sentido inverso.

Reservem umas sete horas, para caminharem sem pressa, terem tempo para mergulhos em ribeiras e cascatas e conversarem com as pessoas das aldeias.

Experimentem jantar na “Adega Típica da Pena”, na Aldeia da Pena, um restaurante fundado em 1999 por um casal que ajudou a dar nova vida à aldeia e criou um lugar premiado, com uma esplanada e uma comida maravilhosas, onde certamente quereremos voltar.

Subam até Manhouce, terra dos cantos polifónicos e aldeia da famosa cantora Isabel Silvestre, que tanto contribuiu para a divulgação destes cantares, em que há o baixo, o raso e o riba. Músicas de um tempo de colheitas e desfolhadas, de tempos de convívio que já lá vão, antes do monopólio das novelas e da epidemia das redes sociais. Em Manhouce ainda há espigueiros com milho e gente que viveu uma vida inteira dedicada à agricultura de subsistência e ao pastoreio.

Por fim, queremos também deixar-vos uma sugestão literária: o livro Cartinha de Amores, sobre a tradição do canto a vozes de mulheres, com textos de Filipa Estevão Pereira, programadora e diretora do festival Tradidanças, e ilustrações de Isadora Carvalho.

O livro foi editado em maio de 2025 e pode ser encomendado online.

Não se esqueçam: para o ano, vão ao TRADIDANÇAS e deixem-se ficar!

por Maria Prata
A ler | 18 Agosto 2026 | Carvalhais, cultura popular, dança, Manhouce, Montanhas Mágicas, música, músicas africanas, São Pedro do Sul, Serra da Arada, tradições, Tradidanças