A arte de manejar a verdade como uma arma. Brecht, o sabotador. PARTE 1
O nosso tempo é puramente materialista. Georg Büchner
O Aqueronte entrou em movimento. Rosa Luxemburgo
A 14 de Agosto passam setenta anos sobre a morte de Bertolt Brecht, aos 58 anos de idade, na casa em Berlim Leste que partilhou com Helene Weigel, paredes meias com o Dorotheenstadt, o cemitério onde seria sepultado e onde aguardaria, nos quinze anos seguintes, pela chegada da sua segunda legítima esposa. Ainda hoje partilham o mesmo espaço tumular, um bonito tributo ajardinado, com duas sólidas rochas, cada qual com seu nome, a encimar. Brecht está, por conseguinte, morto. Vale a pena sublinhá-lo, por evidente que seja, para que nos libertemos de imediato das incumbências protocolares que sempre se impõem no momento de evocar figuras de tamanha relevância histórica. Dir-se-á, contra as mais seguras evidências, que não, que está vivo, porque é actualíssimo ou mesmo eterno, porque nos pode ensinar a sermos a melhor versão de nós próprios ou apenas porque pulsa nos nossos corações. E, na verdade, se o que pretende a evocação pela homenagem é a confirmação, seja do génio ou da justeza, então o que importa é a memória viva, intocada e intocável, do homenageado. Para um exercício de uma outra natureza, porventura mais rasteira, mais próxima de um ânimo vampírico, o que convém é um corpo morto que possa ser exumado, dissecado, esfiapado, de onde se possa arrancar os elementos que nos facilitem a produção de uma memória a inventar. Para este exercício, interessará menos o que Brecht realmente foi ou disse do que o que ainda podemos fazer com ele. Seguindo a sugestão de Heiner Müller de que «utilizar Brecht sem o criticar é traí-lo», estende-se o escopo da crítica muito para lá de um mero gesto correctivo. E puxa-se por uma ponta.
Paul Hamann, Bertolt Brecht, 1954
Três lições sobre sabotagem
Os três breves poemas de uma sequência escrita por Brecht em 1931 trazem como título genérico «Uma lição sobre sabotagem», acrescendo em cada um deles um título específico. Seguido da primeira à terceira lição damos com um esforço de conceptualização da relação entre o trabalhador e o processo produtivo no paradigma industrial, primeiro com a máquina, depois com a fábrica e, por fim, com o patrão. Na primeira, «Modificar uma máquina», o trabalhador é exortado a tornar-se um sabotador na sua relação com a máquina. Deve imprimir um tal domínio sobre a máquina que, ao introduzir-lhe uma «falha secreta» que só ele conheça, o torne indispensável ao seu funcionamento. Na segunda, «Sabotagem, mãe da fábrica», encontramos uma significativa modificação na agência produtiva. Generalizando-se esse devir sabotador de cada trabalhador na relação com a sua máquina, passa a ser, ao nível mais amplo da fábrica, a própria sabotagem o sujeito central do seu funcionamento. A sabotagem, ou seja, um processo continuado e sistemático de bloqueio e reconfiguração do funcionamento regular do processo produtivo, passa a determiná-lo. Já na terceira lição, «A destruição da máquina pela sabotagem/ Não é mais do que trabalho de remontagem», apura-se o efeito devastador da sabotagem na cadeia de produção do valor e resume-se o processo na sequência da actuação específica do trabalhador: «Fazer, desfazer, modificar, remontar.»
Ao introduzir a primazia da sabotagem no processo produtivo, incluindo a produção do próprio trabalhador e da sua classe, Brecht leva a cabo uma série de inversões fundamentais, mesmo para um paradigma marxista consolidado em torno de uma ontologia do trabalho e do desenvolvimento das forças produtivas. Mas, lançando mão da dialéctica de um modo muito particular, cada uma das suas inversões não se fecha em si mesma, abrindo-se de pronto uma nova possibilidade. Os trabalhadores, ao adquirirem e exercerem a capacidade de sabotar, deixam a sua posição de sujeitos simplesmente caracterizados pela capacidade de produzir para tomarem nas mãos a capacidade de, directamente no processo produtivo, não produzir ou de alterar os seus modos. A composição técnica da classe trabalhadora de uma determinada fábrica deixa de ser determinada pela sua habilidade para manobrar certas máquinas de acordo com certos métodos de trabalho e passa ser a de as manobrar com vista a que parem de funcionar, ou que produzam outros efeitos que não os previstos. E quando, na terceira lição, essa composição técnica passa a um estágio político, ou seja, quando a sua acção passa a ser ponderada em termos dos danos causados à sua classe antagónica, ela transporta já consigo um lastro político. Ou seja, ainda que se manifeste no exercício da condição técnica da classe trabalhadora, a sabotagem não expressa apenas uma capacidade técnica, mas politiza o próprio processo produtivo. Ao mesmo tempo, a própria classe trabalhadora produz-se politicamente autonomizando-se das determinações hierárquicas próprias da produção capitalista, quer na sua relação com a máquina, com a fábrica ou com o patrão. Obviamente, esse processo de politização não assegura necessariamente a superação da dominação do trabalho. Podemos perfeitamente imaginar – bastará observar mais de um século de experiência histórica – que uma classe trabalhadora politicamente autónoma permaneça submetida à expertise da máquina, à disciplina da fábrica ou se torne patroa de si mesma, dispensando-se a uma crítica da máquina enquanto máquina, da fábrica enquanto fábrica e das relações de exploração económica enquanto tais. Mas essa autonomia abre a possibilidade de pensar o mundo e a si própria a partir de um ponto de vista autónomo, ao mesmo tempo que se relaciona dialecticamente com as reconfigurações dos modos de dominação que, uma e outra vez, procuram liquidar a autonomia.
A verdade e as suas dificuldades
Num dos seus mais relevantes textos políticos, «As cinco dificuldades para escrever a verdade», Brecht ensaia um gesto semelhante de formulação de um ponto de vista de classe autónomo, a partir de uma problematização do conceito de verdade, atravessada por uma análise da ascensão do fascismo e das suas determinações sociais, económicas e políticas. O ponto de partida é um problema simples: como pensar e enunciar a verdade em circunstâncias em que se tornou tão difícil identificá-la, fazê-la circular e torná-la consequente? Não se trata de fazer um debate abstracto sobre o conceito de verdade ou de estabelecer uma oposição moral entre a verdade e a mentira. Trata-se, ao invés, de identificar um ponto específico na teia das relações sociais e de poder realmente existentes e de procurar formular a verdade a partir daí. Nesse sentido, a discussão sobre as cinco dificuldades identificadas inicialmente e desdobradas ao longo do texto – «a coragem de dizer a verdade», «a inteligência de a reconhecer», «a arte de a tornar manejável como uma arma», «o discernimento suficiente para escolher aqueles em cujas mãos ela se tornará eficaz» e a «habilidade para a difundir entre eles» – é orientada para uma espécie de teoria política da verdade. O problema não é saber se a verdade que se enuncia é, em abstracto, verdadeira, mas articulá-la com uma operação de reconhecimento: quem a enuncia, de onde e contra quem; que efeitos produz sobre quem a enuncia e sobre as relações enunciadas.
A verdade de que trata Brecht é a que é enunciável a partir do ponto de vista autónomo da classe trabalhadora. Não é a verdade científica ou sociológica sobre «os trabalhadores», nem uma verdade possível entre outras, mas uma verdade estratégica formulada, visibilizada e mobilizada a partir das condições do antagonismo entre a classe trabalhadora e a burguesia. Como as dificuldades para enunciar a verdade também se relacionam com as condições históricas em que se colocam, é relevante, neste aspecto, ter presente que Brecht escreve este texto em 1934, já no exílio forçado a seguir à emergência do Terceiro Reich. Logo no início do texto, diz: «Estas dificuldades são grandes para os que escrevem sob o jugo do fascismo; aqueles que fugiram ou foram expulsos também sentem o peso delas; e até os que escrevem num regime de liberdades burguesas não estão livres da sua acção.» Ao distinguir estas três realidades, Brecht reconhece que as dificuldades se manifestam em cada uma delas de modo diferenciado. Mas porventura o mais interessante do seu exercício é a tentativa de identificar as continuidades que as atravessam. Em todas essas circunstâncias, a dominação do capital opera através da naturalização como universais das suas instâncias particulares. O capital aparece como economia, a propriedade como liberdade, a concorrência como igualdade, o Estado como interesse geral, o mercado como espaço natural, a exploração salarial como contrato entre indivíduos livres.
É a partir dessas continuidades que Brecht conceptualiza o fascismo como uma fase histórica do capitalismo, uma espécie de reserva de violência que se conserva sob qualquer forma de governo da sociedade capitalista e que pode ser mobilizada pela classe dominante em condições particulares de crise ou de ameaça revolucionária, ao mesmo tempo que denuncia a posição dos que identificam no fascismo uma forma degenerada e anormal de barbárie, uma violência que se posiciona contra a democracia burguesa, dispensando-se assim de pensá-lo como uma decorrência das relações sociais e de poder sob o capitalismo. Diz ele:
“O fascismo é uma fase histórica na qual o capitalismo entrou; por consequência, algo de novo e ao mesmo tempo de velho. Nos países fascistas, a existência do capitalismo assume a forma do fascismo, e não é possível combater o fascismo senão enquanto capitalismo, senão enquanto a forma mais nua, mais cínica, mais opressora e mais mentirosa do capitalismo.
Como se poderá dizer a verdade sobre o fascismo que se recusa, se quem diz essa verdade se abstém de falar contra o capitalismo que engendra o fascismo? Qual será o alcance prático dessa verdade?
Aqueles que estão contra o fascismo sem estar contra o capitalismo, que choramingam sobre a barbárie causada pela barbárie, assemelham-se a pessoas que querem receber a sua fatia de assado de vitela, mas não querem que se mate a vitela. Querem comer vitela, mas não querem ver sangue. Para ficarem contentes, basta que o magarefe lave as mãos antes de servir a carne. Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie, mas são contra a barbárie.”
É justamente das condições em que se desenvolvem essas relações que emerge a barbárie, bem como a incapacidade de pensar a partir do privilégio possibilitado por essa mesma barbárie exercida sobre outros. Prossegue:
“As recriminações contra as medidas bárbaras podem ter uma eficácia episódica, enquanto os auditores acreditarem que semelhantes medidas não são possíveis na sociedade onde vivem. Certos países gozam do raro privilégio de manter relações de propriedade capitalistas por processos aparentemente menos violentos. A democracia ainda lhes presta os serviços que noutras partes do mundo só podem ser prestados mediante o recurso à violência, quer dizer, aí a democracia chega para garantir a propriedade privada dos meios de produção. O monopólio das fábricas, das minas, dos latifúndios gera em toda a parte condições bárbaras; digamos que em alguns sítios a democracia torna essas condições menos visíveis. A barbárie torna-se visível logo que o monopólio já só pode encontrar protecção na violência nua.
Certas nações que conseguem preservar os monopólios bárbaros sem renunciar às garantias formais do direito, nem a comodidades como a arte, a filosofia, a literatura, acolhem carinhosamente os hóspedes cujos discursos procuram desculpar o seu país natal de ter renunciado a semelhantes confortos: tudo isso lhes será útil nas guerras vindouras. É lícito dizer-se que reconheceram a verdade, aqueles que reclamam a torto e a direito uma luta sem quartel contra a Alemanha, apresentada como verdadeira pátria do mal da nossa época, sucursal do inferno, caverna do Anticristo? Desses, não será exagerado pensar que não passam de impotentes e nefastos imbecis, já que a conclusão do seu blá-blá-blá aponta para a destruição desse país inteiro e de todos os seus habitantes (o gás asfixiante, quando mata, não escolhe os culpados).
(…) São desta espécie as grandes frases sobre a barbárie. Para os seus autores, a barbárie vem da barbárie e desaparece graças à educação moral que vem da educação. Que miséria a destas generalidades, que não visam qualquer aplicação pratica e, no fundo, não se dirigem a ninguém.
Não nos admiremos que se digam de esquerda, «mas» democratas, os que só conseguem elevar-se a tão fracas e improfícuas verdades. A «esquerda democrática» é outra destas generalidades-álibis onde correm a acoitar-se as pessoas inconsequentes, isto é, os incapazes de viver até as últimas consequências as verdades que quer a esquerda, quer a democracia contêm. Reclamar-se alguém da «esquerda democrática» significa, em termos práticos, que pertence ao grupo dos ineptos para revolucionar ou conservar as coisas, ao clã dos generalistas da verdade.”
David Seymour, Brecht no Palais de la Mutualité, em Paris, posando para o retrato, 1935
O antifascismo e os seus impasses
Passados quase cem anos, e num momento em que, um pouco por todo o lado, reaparece o perigo do fascismo, valerá a pena trazermos à nossa atenção o pressuposto brechtiano de que o fascismo não é uma anormalidade ou um desvio, mas emerge como consequência lógica do desenvolvimento do capitalismo que, em contexto de acirramento das suas crises, esbarra na dinâmica pactuada própria das democracias liberais. Levando-o às últimas consequências, teríamos de considerar que o fascismo, que no período entre grandes guerras se generalizou pela Europa, na verdade nunca chegou a desaparecer. Simplesmente deslocou-se do centro e continuou a manifestar-se circunscritamente onde sempre se havia manifestado, ou seja, em territórios periféricos e sobre determinadas populações, também elas periféricas ou excedentárias. Periferia, neste contexto, tanto designa territórios e populações colonizadas ou submetidas à dependência imperialista – o Terceiro Mundo, como se dizia dantes, ou o Sul Global, como se tornou habitual dizer-se – como territórios no interior dos países centrais. Na verdade, facilmente resultará absurdo tentar agitar a bandeira da democracia junto das populações de Gaza, das favelas nas metrópoles da América Latina ou das lusitanas zonas urbanas sensíveis, quando para essas populações a democracia sempre significou segregação, repressão e morte. Tomando de empréstimo o léxico de Vladimir Safatle no seu mais recente livro, A ameaça interna, poderíamos passar a designar o que nos habituámos a chamar democracia liberal por fascismo restrito, por oposição ao fascismo estrutural que pode generalizar-se como forma de resposta da classe dominante à crise, para mais num contexto, como é o dos últimos vinte anos, de pulverização de crises diversas (ecológica, económica, demográfica, de representação política, etc.) que se articulam entre si e se mantêm estacionárias e sem fim à vista.
O modo com Brecht aponta impiedosamente à «esquerda democrática» coloca em cima da mesa, hoje como há cem anos, o problema de como resistir ao fascismo, com que forças, com que alianças tácticas e compromissos. A partir de 1935, com a realização do VII Congresso da Internacional Comunista, onde foi aprovado o famoso informe de Georgi Dimitrov sobre «A luta pela unidade da classe operária contra o fascismo», o paradigma da táctica antifascista adoptada pelos comunistas passou a ser a da constituição da chamada frente popular, ou seja, uma aliança alargada entre a classe trabalhadora, a pequena-burguesia e sectores da burguesia nacional, construída a partir de cima numa coligação de forças políticas que junte organizações operárias e revolucionárias, sociais-democratas e liberais, opondo ao avanço da violência fascista uma plataforma programática que defende as liberdades democráticas e o paradigma de governo da democracia burguesa. Vale a pena sublinhar que as condições históricas em que esta viragem da IC ocorre é o da emergência do nazismo na Alemanha e do fascismo em diversos outros países europeus, num contexto em que a expectativa de eclosão vitoriosa de uma revolução socialista global – hipótese tida como muito provável uma quinzena de anos antes – se tinha gorado. Mas, seguindo o raciocínio de Brecht, este modo de pensar o antifascismo replica os mesmos equívocos que ele critica em certos modos de pensar o fascismo. Se o inimigo comum passa a definir a plataforma programática, se as contradições entre os aliados são secundarizadas, se o antagonismo de classe é substituído pelo horizonte de uma unidade política interclassista, então a luta contra o fascismo, para que possa incluir todos, não só impõe a suspensão da luta contra o capitalismo como passa mesmo a concorrer para conservar as próprias condições históricas de onde emerge a possibilidade de generalização do fascismo. E, na verdade, a expectativa de que se trataria de alianças temporárias, puramente defensivas, e que, reestabelecidas as condições da democracia burguesa, seria mais fácil retomar a luta contra o capitalismo esbarra terrivelmente na experiência histórica do século XX.
Talvez pudéssemos fazer um desvio desajeitado da famosa frase de Angela Davis e dizer que não basta não ser fascista para ser antifascista. Desde logo porque a transformação do antifascismo numa categoria universal produz, inevitavelmente, um paradoxo. Se todos os não fascistas pudessem ser antifascistas, incluindo sectores significativos das classes dominantes, então o antifascismo passaria a designar uma identidade política comum que subsumiria os pontos de vista particulares, ou as verdades estratégicas formuladas a partir de cada um desses pontos de vista. A questão que somos forçados a colocar é: o que é que cada força não fascista pretende do combate contra o fascismo? Um sector burguês pode combater o fascismo porque o considera uma ameaça à forma de governo que mais lhe convém, ou à consolidação de um determinado perfil económico nacional, ou à estabilidade dos mercados, ou mesmo por considerar que o fascismo favorece outros sectores da burguesia. Já a classe trabalhadora, pelo contrário, tem razões muito diferentes para combater o fascismo. O fascismo destrói as organizações autónomas dos trabalhadores, reprime a luta de classes, reorganiza violentamente as relações sociais em benefício do capital, etc.
A crítica da táctica antifascista assente no tipo de frentismo herdado do VII Congresso da IC que se deduz a partir da leitura de Brecht não resolve, evidentemente, a questão das alianças e dos compromissos que se colocam em cada circunstância histórica no combate ao fascismo. Mas desloca-o para o terreno da prática concreta. Como se enuncia, em cada circunstância, uma verdade que favoreça o ponto de vista da classe trabalhadora no contexto de vários tipos de alianças e compromissos? São inúmeras as respostas possíveis a esta pergunta que podemos encontrar nas muitas experiências de resistência ao fascismo nos últimos cem anos, do movimento negro norte-americano aos movimentos de libertação anticoloniais ou aos revoltosos de Chiapas. Em todas elas, com as suas vitórias e derrotas, se colocaram problemas de alianças e compromissos, sem que as lutas se vissem necessariamente reconduzidas ao estreito horizonte político da democracia burguesa. A mesma coisa, aliás, para as diversas revoluções socialistas vitoriosas ao longo do século passado. Seguindo ainda a sugestão de Brecht, é aconselhável não misturar água com vinho. Diz ele no livro Me-Ti. Livro de intervenções no fluxo das coisas, um conjunto de fragmentos de reflexão filosófica e sobre a dialéctica:
Sobre os compromissos, ou beber vinho e água por dois copos
Mi-en-leh [Lenine] ensinou o seguinte sobre os compromissos: são muitas vezes necessários. Para muitas pessoas, isso equivale a deitar água no vinho. Pensam que, se não for diluído, o vinho faz mal à saúde. Ou que o vinho disponível não será suficiente para matar a sede. Tenho uma opinião diferente sobre os compromissos. Por isso bebo o vinho e a água por dois copos diferentes. Porque é demasiado difícil voltar a retirar a água do vinho.
Retomar a memória dos falsos proletários
Recuando uns anos, até ao final da segunda década do século XX, encontramos um jovem Brecht ainda não tocado pelas leituras que, uns anos depois, o aproximariam do marxismo, mas já empenhado em tentar perceber de que modo se articula a enunciação da verdade a partir do ponto de vista autónomo da classe trabalhadora, as condições e jogos de forças presentes no tabuleiro do antagonismo e a práxis que daí emerge. Ao longo de 1919 – ano que começa com o esmagamento da revolta espartaquista em Berlim, o assassinato de Rosa Luxemburgo e de Karl Liebknecht, os dois dirigentes da fracção mais radical do movimento operário alemão, por uma milícia fascista dos Freikorps articulada com o governo social-democrata de Friedrich Ebert e o consequente realinhamento da Revolução Alemã pela via da democracia burguesa –, Brecht escreveu a peça Tambores na Noite, uma comédia em cinco actos que se desenrola precisamente nesses agitados meses entre Novembro de 1918 e Janeiro de 1919. Toda a história da Revolução Alemã possibilitaria muita reflexão sobre o problema das alianças de classes, compromissos e posicionamentos, mas centremo-nos para já numa personagem da peça de Brecht, o soldado Andreas Kragler. Mobilizado para a Grande Guerra, ausente há quatro anos e dado já como morto, Kragler regressa a Berlim depois de libertado de uma prisão de guerra em África e encontra, por um lado, uma cidade desconhecida, com uma revolução na rua, e, por outro, um quadro familiar e afectivo virado do avesso. Anna Balicke, a namorada que deixara para trás quando fora para a guerra, está grávida e noiva de Friedrich Murk, filho de um grande industrial. Perante o inesperado regresso, a família de Anna insiste para que fique com o noivo rico. Kragler, num primeiro momento, sentindo-se traído, junta-se aos revolucionários na rua, para consumir a sua frustração, acabando no entanto, muito rapidamente, por regressar para os braços de Anna e por abandonar a revolução.
Alguns anos mais tarde, com algum distanciamento crítico em relação às suas peças de juventude, Brecht viria a caracterizar o soldado Kragler como o «falso proletário», ou seja, aquele que, no fim de contas, trai a sua luta e os seus camaradas em nome da tranquilidade burguesa e que, portanto, se torna um reaccionário. Talvez a decepção de Brecht seja menos com a sua personagem do que consigo próprio, por não ter sido capaz de criar um «verdadeiro proletário». O problema, porém, não está na maior ou menor habilidade de Brecht para criar as personagens correctas nem nos seus complexos morais. O problema é que a verdade ou a falsidade proletária não existem fora das circunstâncias históricas, isto é, não basta enunciar correctamente a verdade, fazê-la corresponder e ser útil a um determinado ponto de vista, para que ela tenha o efeito previsto na realidade realmente existente. Na verdade, mesmo não tendo sido essa a manifesta intenção do seu criador, a personagem do soldado Kragler facilita-nos uma compreensão mais ampla sobre as fragilidades daquele processo revolucionário, e talvez até dos processos revolucionários de uma maneira geral, muito para lá de um juízo moral sobre as decisões individuais de Kragler. Em qualquer revolução, as condições de mobilização dependem muito mais da ponderação sobre o que se rejeita do que sobre o que se propõe construir. A subjectividade revolucionária é essencialmente negativa e indissociável de uma sensibilidade particular dos indivíduos às suas condições materiais de existência. E é por isso que os processos revolucionários, mesmo os que são capazes de ir mais longe, são quase sempre despoletados por factores tão imprevisíveis que a mais sofisticada das teorias seria incapaz de projectar. Olhando em retrospectiva, o mais fácil seria ver em Kragler um cobarde ou um fraco. Mas Kragler é verdadeiramente um arquétipo. Muitos daqueles revolucionários eram Kraglers, soldados regressados da mais terrível das guerras, dados como mortos e, de facto, mais mortos do que vivos, que regressam a um cenário desconhecido. Talvez a opção se colocasse entre manterem a sua condição de mortos lutando pela revolução ou tentarem, de algum modo, ressuscitar. Uma grande parte deles terá passado por essas duas condições. Como, a dada altura, canta uma personagem genericamente designada por Homem bêbado, «Os meus irmãos mortos estão/ E eu por um triz que estou inteiro/ Em Novembro fui vermelho/ Mas agora é já Janeiro».
Por outro lado, a personagem do soldado Kragler também nos permite regressar à questão da sabotagem para inverter os termos de Brecht recorrendo ao próprio Brecht. O trabalhador que aceita e decide tornar-se sabotador, como nos mostram as três lições, é aquele que manobra no sentido de abandonar o comportamento que de si se espera – a sua condição de trabalhador, de facto –, e de, em conjunto com os outros sabotadores, instaurar a sabotagem, ou seja, a subversão da ordem. De certa maneira, o sabotador é que é o falso proletário, na medida em que é o trabalhador a manobrar contra si próprio enquanto trabalhador. Neste sentido, os revolucionários que não abandonaram as ruas de Berlim, e que seriam em breve chacinados pela ordem que voltou a reinar, os Kraglers que, contra tudo o que se podia esperar, assumiram a sua condição de mortos, foram os falsos proletários tentando a subversão da ordem e de si próprios, procurando fazer imperar a sabotagem, já não só sobre cada uma das suas fábricas mas sobre o conjunto das suas vidas. Kragler, pelo contrário, ao decidir tentar a ressurreição, pôde continuar a ser o verdadeiro proletário, aquele que actua como se espera e sob a mesma ordem de sempre plenamente reestabelecida. Produzir uma memória da sabotagem pode começar justamente por aqui, pela derrota dos falsos proletários nas ruas de Berlim em 1919. Mas independentemente da ponta por onde se puxe, a tarefa dessa memória é decisiva para o enunciado de alguma verdade do ponto de vista autónomo da classe trabalhadora.
Paulo Cintra, Enceação de Tambores na Noite no Teatro da Cornucópia, 1976
(A discussão sobre o conceito de verdade formulado por Brecht teve também consequências significativas nas polémicas sobre o papel da arte e da literatura em que se envolveu ao longo dos anos 1930, 1940 e 1950. Seguir-se-á daí na segunda parte deste artigo.)
Continua na parte 2, a publicar em setembro.