Mariano Bartolomeu: um cinema limpo e iluminado

Mariano Bartolomeu: um cinema limpo e iluminado O primeiro filme de ficção de Mariano, feito em Cuba no âmbito dos seus estudos na aclamada escola de cinema de Santo Antonio de Los Baños. O filme adapta o conto “The Killers” de Ernest Hemingway, onde o vemos como uma espécie de crónica de uma morte anunciada numa vila cubana sombria e melancólica. Um pugilista experiente, ciente do encontro marcado com um destino fatal, afasta da vila a amante e um pupilo para que estes se livrem do perigo que podem estar envolvidos. Tudo o que ele quer é o sossego de “um lugar limpo e bem iluminado", diz, às tantas, e ter paz para quem sabe “aprender a tocar um instrumento”. O lugar onde está, já não é esse lugar. Espantoso trabalho de fotografia de Carlos Arango, que pontuado pelo maravilhoso trompete de Julio Padrón, mais a concisão narrativa e destreza visual impregnada pelo então jovem realizador, fazem deste filme algo para além de um “filme de escola”.

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07.09.2026 | por Victor Hugo Lopes

Cáucaso: a romã de doces estilhaços pós-soviéticos (parte 1)

Cáucaso: a romã de doces estilhaços pós-soviéticos (parte 1) Entre Yerevan e Tbilisi, o Cáucaso revela-se uma região de fronteiras esborratadas, memórias imperiais e estilhaços pós-soviéticos. Uma viagem pela Arménia dos prédios de cimento, dos Maybachs reluzentes, do Ararat perdido para a Turquia e de um genocídio que continua a organizar a memória coletiva — com escalas aeroportuárias, mapas em papel e um detox digital condenado ao fracasso.

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05.09.2026 | por André Almeida

Lisboa: A capital mais africana da Europa (1974-1980)

Lisboa: A capital mais africana da Europa (1974-1980) Em 1977, o Diário de Notícias publicou algumas notícias dando conta da contestação à definição de nacionalidade portuguesa consagrada pela chamada «Lei de Almeida Santos», de 1975, que determinava que apenas aqueles que conseguissem provar que eram portugueses — demonstrando que tinham ascendência portuguesa — teriam acesso à nacionalidade portuguesa. Alguns retornados exigiram que fossem incluídos os «ex-funcionários ultramarinos que se tenham distinguido pela sua lealdade e portuguesismo, e naturais das ex-colónias cujo regresso ao respectivo novo país envolve risco atendível de saúde ou outro».

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05.09.2026 | por João Pedro George

A luta anti-racista e o feminismo são luta de classes II

A luta anti-racista e o feminismo são luta de classes II Os cadáveres empestam e desarmam a esquerda anticapitalista. Não raras vezes são as mesmas vozes da indignação moral anti-fascista. Chamo moral porque, na sua prática, convivem sem problema aparente com uma sociedade profundamente desigual, sem que a questionem para lá da crítica superficial. E como um balão enchido esporádica e rotineiramente que rebenta até ao próximo frémito, como se não tivéssemos estado antes no mesmo sítio, como se o lugar da indignação não tivesse já passado, esvaziando o balão a cada abaixo assinado ou artigo no jornal e remetendo todos ao suspiro com abraços de sentimento do dever cumprido.

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05.09.2026 | por Josina Almeida

A Melhor história deste Mundial

A Melhor história deste Mundial Cabo Verde atirou-se ao jogo com o desespero de quem sabia que o lugar deles era ali, ao contrário do que muitos dos seus jogadores ouviram a vida inteira. Não vou reproduzir os palavrões quando, do mesmo lugar de onde fizera o golo, mas agora num livre directo, Sidny faz um remate igual, mas o guarda-redes argentino defende in extremis para canto. Cabo Verde caiu de pé, e muitos argentinos venceram deitados no chão, derreados pelo esforço. Que orgulho devem ter os cabo-verdianos numa equipa verdadeiramente inspiradora. Nem todas as histórias bonitas têm um final feliz. Esta tinha-o merecido sobejamente.

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04.09.2026 | por Pedro Goulão

«Temos direito a outro tipo de cinema», entrevista a Basil da Cunha sobre 'O Jacaré' e a Reboleira

«Temos direito a outro tipo de cinema», entrevista a Basil da Cunha sobre 'O Jacaré' e a Reboleira Sendo o cinema uma arte burguesa, há muitas vezes um modo pesado como se filmam as periferias que vem da culpa. Esse olhar ignora a cultura cinematográfica popular que existe no bairro. As pessoas têm o direito de se ver nos filmes de acção e de comédia que fazem parte das suas referências. Podemos fazer cinema popular e oferecer espectáculo sem perder a dimensão política, que está nas histórias que contamos e, sobretudo, na forma como representamos as pessoas.

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04.09.2026 | por Marta Lança

Tereza e os silêncios do arquivo colonial: uma leitura de Encontrar Tereza. Do apagamento colonial à presença imaginada, de Lorena Travassos

Tereza e os silêncios do arquivo colonial: uma leitura de Encontrar Tereza. Do apagamento colonial à presença imaginada, de Lorena Travassos O arquivo sabe muito sobre o corpo de Tereza e quase nada sobre Tereza. Mediu-a, classificou-a, mudou-lhe o nome, registou a sua passagem por Lisboa e voltou a encontrá-la dez anos depois em Angola. Mas não nos deixou sequer a possibilidade de reconhecer o seu rosto. Tereza chamava-se Txilungu. E é precisamente nesse intervalo entre tudo aquilo que o arquivo colonial registou e aquilo que tornou invisível que começa este livro.

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02.09.2026 | por Inês Vieira Gomes

Militango

Militango O Militango foi um poema que o meu pai escreveu para um espectáculo concebido e encenado por ele, com o mesmo título, em 2000/2001, para o Grupo Teatrova, e que estreou no Santiago Alquimista. No espectáculo Militango, a dança, a música e a poesia entrelaçavam-se num todo, tendo como linha condutora vários tangos, com destaque para a obra de Astor Piazzolla. Contava com dois bailarinos, Guilhermo e Elina; dois músicos, eu na guitarra, nos arranjos e na produção musical, e José Rui Fernandes na flauta; e Paula Freitas como actriz e na produção. O poema musical Militango encerrava o espectáculo. É importante destacar que, na viragem do milénio, o pano de fundo era o triunfalismo ocidental perante a queda do bloco socialista e a guerra dos Balcãs, que fez regressar o espectro da guerra à Europa. Seguiram-se a queda das Torres Gémeas, a Guerra do Iraque e tudo o que estes acontecimentos significaram e tiveram como consequência. Entre outros números que integravam o espectáculo, estava o poema de Borges Milonga de dos hermanos, que termina com a ideia de que é a história de Caim, que ainda hoje continua a matar Abel.

Palcos

02.09.2026 | por Adolfo Gutkin

Baralho de Cartas 36

Baralho de Cartas 36 Tropecei na tua frase “o tempo morto arrancado como dente podre”, um minuto antes de abrir a boca ao dentista. Enquanto as suas mãos de luvas suaves se empenham em perfurar o meu osso maxilar, imagino obras em andamento, terras a serem rebentadas, barrigas de baleia esventradas, mandíbulas de tubarão que são estruturas cartilagem, não osso. Confirmo que o cheiro do próprio sangue não perturba tanto como o dos outros.

Mukanda

01.09.2026 | por Marta Lança