Tereza e os silêncios do arquivo colonial: uma leitura de Encontrar Tereza. Do apagamento colonial à presença imaginada, de Lorena Travassos

O arquivo sabe muito sobre o corpo de Tereza e quase nada sobre Tereza. Mediu-a, classificou-a, mudou-lhe o nome, registou a sua passagem por Lisboa e voltou a encontrá-la dez anos depois em Angola. Mas não nos deixou sequer a possibilidade de reconhecer o seu rosto. Tereza chamava-se Txilungu. E é precisamente nesse intervalo entre tudo aquilo que o arquivo colonial registou e aquilo que tornou invisível que começa este livro.

Encontrar Tereza. Do apagamento colonial à presença imaginada é o título do livro de Lorena Travassos publicado pela Greta Edições (2026), com o apoio da Direção-Geral das Artes. Trata-se de um livro de fotografia que reúne imagens de arquivo encontradas no âmbito da investigação desenvolvida pela autora no projeto Photo Impulse, e que propõe uma aproximação experimental às imagens e aos arquivos coloniais. Mais do que um livro ensaístico ou teórico, é um livro de metodologias: um conjunto de possibilidades para olhar, interrogar e trabalhar criticamente a fotografia colonial, sem procurar produzir respostas ou conclusões definitivas.

Este texto resulta da leitura do livro e de uma conversa com a autora:

Nascida no Brasil, Lorena Travassos refere que a discussão sobre o colonialismo faz parte do seu quotidiano, enquanto em Portugal o tema continua a ser, por vezes, mais problemático ou difícil de abordar. O objetivo do livro é, por isso, fazer perguntas e questionar os modos como estas imagens foram produzidas, arquivadas e utilizadas. Os textos que acompanham as fotografias são curtos, mas fundamentais para orientar esse exercício, podendo ser úteis tanto a investigadores e historiadores como a outros leitores que tendem a utilizar a fotografia apenas como ilustração, em vez de a reconhecer como um documento capaz de produzir conhecimento e de expor os seus próprios mecanismos de poder.

O livro está dividido em sete partes e percorre temas fundamentais para a compreensão das persistências e dos legados do colonialismo: I. Encontrar Tereza: o apagamento colonial; II. Memória, raça e branquitude: a construção colonial do Outro; III. O arquivo como problema; IV. O género como tecnologia colonial; V. Natureza ordenada; VI. Teresa Sirgado: uma história contra-arquivo; e VII. Construir imaginação nas ruínas do colonialismo.

Começando por Tereza, que dá título ao livro, o nome assume uma dimensão simultaneamente simbólica, metafórica e real. Tal como Lorena Travassos afirma no início do livro, este é dedicado «às Terezas apagadas pelo colonialismo». Tereza chamava-se, na verdade, Txilungu, e a alteração do seu nome evidencia, desde logo, uma das formas de apagamento produzidas pela experiência colonial: a substituição de identidades e memórias por categorias e nomes impostos pelo poder colonial. 

Na ficha que regista os caracteres métricos das 22 pessoas medidas nos dias 9 e 10 de outubro de 1950, em Kóxi, Quipungo, no âmbito da Missão Antropobiológica de Angola, todas surgem identificadas pelos seus nomes originais, à exceção de Tereza, que aparece registada com dois nomes: Tereza (Txilungu). Sem se saber ao certo a razão de tal situação, esta poderá indicar a “familiaridade” de António de Almeida, chefe da Missão, com aquela mulher, como é referido numa passagem do seu diário:

“Entre as mulheres mucancanlas que ontem foram observadas, vinha uma, a Tereza, que em 1940 foi para a Exposição do Mundo Português. Disse ao intérprete para lhe perguntar se ela se lembrava de mim, que a tinha lá medido, ao que ela disse que não.”

Txilungu foi trazida para Lisboa para integrar a Exposição do Mundo Português, que teve lugar em Belém entre 23 de junho e 2 de dezembro de 1940. Para além dela, 158 pessoas de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Timor e Macau, foram transportadas para serem expostas naquilo que era conhecido na Europa, desde o século XIX, como “zoos humanos”. Em Portugal, a primeira recriação de aldeias indígenas e exposição de africanos data de 1932, na Exposição Industrial Portuguesa, no Parque Eduardo VII, em Lisboa. Se nessa exposição apenas tinha sido “recriada” uma aldeia indígena da Guiné-Bissau, dois anos depois tinha lugar, no Porto, a I Exposição Colonial Portuguesa, com a exposição de pessoas provenientes de todas as ex-colónias portuguesas no Palácio de Cristal.

Para além de terem sido expostas diariamente no Jardim Botânico Tropical, em Lisboa, algumas dessas pessoas foram também batizadas coletivamente. Talvez este episódio, registado numa fotografia pelo jornal O Século com o título «A negrinha e a rapariga que foram batizadas na secção colonial da Exposição do Mundo Português» possa indiciar que o nome que lhe foi atribuído tenha resultado de um batismo.

Ao percorrer os arquivos, Lorena Travassos não conseguiu identificar uma fotografia de Txilungu, nem outros dados biográficos relevantes. A ausência desses registos é, em si mesma, reveladora da lógica do poder colonial, que “via” as populações colonizadas de forma genérica, desprovidas de individualidade e do direito à sua própria identidade, desde o nome até à imagem. Um tratamento muito diferente daquele dado aos elementos da equipa, como se pode ver numa ficha da Missão com dois clichés reproduzida no livro. Na legenda, todos os elementos são identificados pelo nome completo, incluindo as mulheres.

Até à data, só existe um esboço inacabado do rosto de Tereza, datado de 1950. Mas o desenho, tal como as descrições produzidas pela equipa da Missão, é tão genérico que pouco ou nada nos permite saber sobre como era ou quem era, de facto, Txilungu. Lorena Travassos conta que chegou a pedir a um professor de belas-artes, especialista em reconstrução facial, que tentasse reconstruir o rosto de Txilungu, mas os dados de que dispunha não permitiram ir mais longe.

Ao revisitar determinados arquivos coloniais, a autora deparou-se com a violência inscrita na própria produção das imagens, nomeadamente na antropobiologia e na documentação de mulheres negras, cujos corpos eram fotografados, medidos e classificados segundo critérios pseudocientíficos e profundamente racializados. As fotografias revelam, assim, não apenas uma pretensa atividade científica, mas também a utilização e exposição gratuita dos corpos, muitas vezes submetidos a poses e procedimentos invasivos. Os relatórios e diários que acompanham estas imagens mostram, ainda, como a ciência colonial produzia classificações e patologias para sustentar ideias preconcebidas.

Lorena afirma que António de Almeida, chefe da Missão, era muito metódico e organizado, mas que, no final, não chegou a conclusões a partir dos dados que recolhera, nomeadamente os relativos aos tipos de sangue. Segundo Lorena, o que se encontra nos registos são sobretudo tentativas de atribuir doenças às mulheres negras, como a esteatopigia – excesso de gordura acumulada nas nádegas e na parte superior das coxas –, entre outras características associadas ao facto de apresentarem vulvas maiores do que aquelas a que os investigadores estavam habituados. Há, inclusivamente, fotografias em que os próprios cientistas seguram nas vulvas das mulheres para as fotografar. No fundo, uma utilização gratuita e objetificante do corpo destas mulheres, expostas no chão, de pernas abertas, com os seus rostos visíveis. Estas imagens continuaram a circular depois da Missão e foram ainda reproduzidas, pelo menos, num livro publicado em 1994.

A autora tece um paralelo com a Vénus de Hotentote, nome atribuído em 1810 a Saartjie Bartmann, também conhecida por Sarah Bartmann, uma mulher zulu proveniente da África do Sul que, devido à esteatopigia, foi trazida para a Europa e exibida em Londres e Paris durante cinco anos até à sua morte, marcando o início de uma genealogia que cruza o entretenimento popular com um discurso “científico”. A expressão “Vénus negra”, ou “Vénus africana”, que se vulgarizou ao longo dos séculos XIX e XX, é frequentemente utilizada nas legendas de fotografias, nomeadamente no contexto colonial português, como uma designação genérica para mulheres negras, sem nome próprio, cuja representação assume, geralmente, um carácter sexualizado.

Nesta dupla colonização – por um lado, a colonização territorial e a subjugação dos povos africanos e, por outro, a colonização do corpo das mulheres negras pelo colono, homem branco –, Lorena Travassos opta por não reproduzir as imagens de mulheres negras seminuas, captadas no âmbito da Missão ou da Exposição do Mundo Português. Este tipo de imagens sexualizadas, produzidas e reproduzidas pelos impérios coloniais, regia-se por códigos diferentes porque estas mulheres não eram brancas. Basta olhar para o retrato de quatro mulheres portuguesas brancas que participaram como figurantes na Exposição do Mundo Português, vestidas, com um véu na cabeça, símbolo religioso, tendo a nau Portugal como pano de fundo, numa clara alusão à expansão marítima portuguesa. 

Para salvaguardar a identidade e a dignidade das mulheres negras, Lorena reproduz as imagens, mas, no seu lugar, deixa apenas a silhueta e uma mancha branca. Desta forma, é possível ver as imagens originais produzidas na época, sem, contudo, termos acesso à imagem destas mulheres semidespidas, que não tiveram uma palavra a dizer sobre a produção e reprodução de fotografias que, não raras vezes, circularam sob a forma de postais. É o caso das fotografias da mulher guineense apelidada de Rosita, da autoria de Domingos Alvão, reproduzidas em formato postal como souvenir da I Exposição Colonial Portuguesa, no Porto, em 1934.

A parcialidade e a generalidade dos dados recolhidos em contextos de missões estende-se também à representação colonial da natureza: os investigadores descreviam e esboçavam aquilo que observavam, e esses registos eram posteriormente entregues a artistas na Europa, que desenhavam paisagens e espécies que nunca tinham visto. Este processo torna-se particularmente significativo porque os dados recolhidos eram frequentemente genéricos e insuficientes para transmitir a complexidade daquilo que pretendiam representar. Lorena estabelece uma relação com a inteligência artificial, entendendo esse sistema histórico como uma espécie de antecedente arcaico da lógica do prompt: uma descrição produzida por alguém é transmitida a outro agente, que gera uma imagem a partir dessa referência, sem contacto direto com a realidade representada.

E é neste paralelismo que entramos na última parte do livro. Não se trata, porém, de uma passagem linear do passado para o presente ou para o futuro, mas do reconhecimento de um tempo circular, em que formas de representação e mecanismos de mediação encontram antecedentes em práticas muito anteriores. 

É muito provável que a imagem de Txilungu tenha sido registada e que a fotografia exista atualmente num arquivo colonial metropolitano. Contudo, sem uma identificação casuística que permita estabelecer a correspondência entre a pessoa retratada e o registo documental, não é possível determinar qual dessas imagens corresponde efetivamente a Txilungu. Na tentativa de encontrar um rosto para Txilungu, Lorena Travassos recorreu à inteligência artificial, cruzando os dados disponíveis no arquivo colonial com as medidas do seu corpo e o desenho do seu rosto. Porém, o resultado evidencia, mais uma vez, a impossibilidade de reconstituir o rosto de Txilungu: os dados que foram recolhidos sobre ela reduzem-na a um objeto de estudo, não permitindo aceder à sua singularidade.

Ann Laura Stoler refere que os arquivos coloniais não devem ser entendidos como meras fontes através das quais acedemos ao passado, mas como artefactos culturais que participam na própria produção dos factos e de diferentes noções de autoridade colonial. O que o arquivo preserva resulta, assim, de processos de seleção, classificação e ordenação que conferem determinados sentidos ao conhecimento e às relações de poder. As suas lacunas e silêncios não são meras falhas documentais, mas fazem parte das próprias condições que determinaram aquilo que foi reconhecido, registado e transmitido como conhecimento.

Até que ponto as imagens geradas por inteligência artificial são diferentes das fotografias produzidas em contexto colonial? O que este exercício parece demonstrar é que a própria tentativa de encontrar uma imagem para Txilungu torna visível uma ausência e abre espaço para a dúvida e para a imaginação.

A diferença entre fotografar um corpo segundo as categorias de um arquivo colonial e reconstruí-lo hoje a partir dos vestígios deixados por esse mesmo arquivo permite pensar as diferentes formas de produzir uma imagem. Em ambos os casos, existe um dispositivo que seleciona, mede, interpreta e produz uma imagem do outro. A diferença poderá estar na possibilidade de tornar visível esse próprio processo e de reconhecer que toda a imagem implica uma determinada forma de olhar e de construir aquilo que é representado.

Com este exercício, torna-se também evidente que nenhuma tecnologia é neutra, colocando em evidência os dispositivos, os critérios e os mecanismos de poder presentes na produção de imagens. A questão insere-se, assim, em debates atuais, como os suscitados pelo trabalho da artista brasileira Mayara Ferrão, que cruza a pesquisa de arquivos com o uso da inteligência artificial. Na série Álbum dos Desequecimentos, apresentada no Les Rencontres d’Arles, em 2025, a artista parte de representações coloniais para imaginar relações de afeto e intimidade entre mulheres negras. Para além destas possibilidades de reconfiguração de imagens e de imaginários, a discussão sobre os efeitos da inteligência artificial é também abordada por Dora Kaufman e Giselle Beiguelman no livro Tecnologias da invenção: inteligência artificial, criatividade e arte, publicado em 2026. Com contributos de dez artistas e de um psicanalista, o livro interroga as transformações que a inteligência artificial introduz nos processos artísticos e criativos, colocando a diversidade cultural brasileira como uma possível resposta à homogeneização algorítmica.

O livro Encontrar Tereza. Do apagamento colonial à presença imaginada, de Lorena Travassos, conjuga diferentes perspetivas – históricas, visuais e críticas –, contribuindo para uma reflexão sobre os legados do colonialismo. Revela, ainda, como as lacunas e os limites do arquivo podem deixar de ser entendidos apenas como ausências e transformar-se em espaços de imaginação e questionamento, abrindo possibilidades para reescrever o passado e recuperar memórias, identidades e narrativas historicamente silenciadas – à semelhança da história de Tereza.

por Inês Vieira Gomes
A ler | 2 Setembro 2026 | arquivo colonial, Fotografia, memória, mulheres negras