Cáucaso: a romã de doces estilhaços pós-soviéticos (parte 1)
Europa, península ocidental da Eurásia com pretensões a continente, coisa de limites e contornos tão esborratados e controversos quanto a sua própria identidade. O Cáucaso, região onde mora algum do seu relevo mais alto (europeu, afinal?) e onde alguém um dia achou que residiam os representantes máximos da branquitude, os «caucasianos», existe para nos relembrar disso mesmo.
Longe dali, em Lisboa, uma noite rocambolesca acaba no Incógnito, onde a minha amiga T, num intervalo entre beijos a um georgiano de passagem pela cidade e por aquela disco, vindo mais tarde a descobrir ter sido um campeão olímpico a quem a medalha foi retirada por doping, decide lançar-me um repto, talvez um pouco embalada pelo álcool e pelo caucasiano espadaúdo.
«E se fôssemos um dia a Tbilisi? Ouvi dizer que é altamente!»
Também eu ouvi o mesmo e, faltando-me apenas os cromos Arménia, Geórgia e Azerbaijão no meu colecionismo de ex-repúblicas soviéticas na Europa, só precisava de um pretexto e, se possível, melhor ainda, de uma companhia. Coleção de privilegiado, é certo: a imensa maioria dos habitantes deste planeta não pode viajar só porque sim. Mas não privilegiado o suficiente para poder dispensar décadas, literalmente, a amealhar tempo e dinheiro que me permitissem tentar completar esta caprichosa caderneta.
«Bora! Mas, a sério, tu não brinques, que eu vou mesmo pôr-me a pesquisar cenas!…»
Entretanto, lancei o repto ao meu amigo R: não quereria reencontrar-se comigo num pit stop a meio caminho, no regresso a casa, entre o Japão, onde morava, e a Holanda, de onde é originário? Ao fim e ao cabo, a T não pôde vir, mas a empreitada estava lançada e já não se livrava da autoria moral.
Lisboa–Roma, Roma–Yerevan, com direito a horas de escala na madrugada aeroportuária de Fiumicino, aquele período em que os não-lugares dos terminais passam a cenários de lojas de duty-free fechadas e corpos e malas espalhados por sofás e chãos, debaixo de intensas luzes de frigorífico. Tento acomodar-me seguindo as notas de um site a que recorro há décadas, com dicas de autoajuda para viajantes numa série de aeroportos. Gate A43: Three comfy chairs that can be pushed together.
Low-cost das mais manhosas, daquelas em que a linha que vai desde o primeiro custo visível e superapetecível da viagem até à sua concretização em bilhete é uma gincana por um site minado de alçapões, custos escondidos, necessidades arrebitadas por marketing agressivo e riscos de condenar a caixa de e-mail a mais uma enxurrada de spam comercial.
Reencontro, no embarque para o voo de Yerevan, quem foi ao meu lado de Lisboa a Roma: uma senhora russa (para além dos dados indiretos, espreitei-lhe a capa do passaporte na primeira oportunidade), sorridente nos seus 60 anos, com uma fluência imaculada em português, sem deixar a palatalização dos «n» e «l», a par de outras preciosidades. «É bonhito», na aproximação possível, embora a nossa grafia não lhe faça justiça.
Contas de cabeça que mais tarde confirmo: a par da Turquia e da Sérvia, a Arménia sobra como uma das poucas portas giratórias para quem vem da União Europeia para a Rússia e vice-versa, desde que as sanções impostas após a guerra na Ucrânia acabaram com os voos diretos, obrigando a diáspora de imigrantes a espremer-se por estas rotundas aéreas quando visita a família e as raízes.
Breves minutos na fila da imigração. Ver, ser visto, sem visto, ser carimbado e entrar. Suavidade contrastante com a aspereza do fluxo inverso: o passaporte arménio a entrar na fortaleza Schengen seria algo mais do género: embaixada, centenas de euros em taxas e emolumentos, comprovativos de que uma certa vida não vai chegar ao bar aberto da UE, beber até cair e levar-nos a todos nós, «europeus nativos» (seja lá o que isso for), à falência; espera linear, mas longa, quando não em extensos e imprevisíveis corredores kafkianos; e, por último, à chegada à Portela, a fila dos «outros passaportes», aquela que ultrapassamos pela direita, em sentido literal e político.
Sinalética trilingue: arménio, com o seu alfabeto próprio, Նրբագեղ է, չէ՞։ [NT: elegante, não é?]; russo, em cirílico, Может быть, менее экзотично? [NT: menos exótico, talvez?]; e inglês [who won the goddamn Cold War after all?].
Pela cidade e pelo país fora, o inglês cai frequentemente, tanto na escrita como na fluência, e aí o russo, ex-língua franca das 26 ex-repúblicas e Estados do antigo Pacto de Varsóvia, continua a valer. Um jeitaço crítico: o bicho de bem menos de sete cabeças que é descodificar o cirílico e o bem mais exigente que é arranhar um bocadinho do idioma.
Autocarro público até ao centro da cidade, janela para a periferia onde, a par dos Ladas, Volgas e Zhigulis — outros tantos bólides de fabrico soviético — que partilham a faixa de rodagem, a paisagem arquitetónica residencial lembra que chegámos a uma ex-república soviética. A URSS pode ter colapsado, mas o mar de prédios de habitação que lhe são característicos não, ou não fosse esse, a par da paz e do pão, um dos elementos da santíssima trindade da terra que se queria sem amos.
Tapete persa para peões
Perduram os seus carimbos inequívocos de construção em painéis de cimento pré-fabricado das décadas de 1960 a 1980, de Budapeste a Vladivostok, de Kyiv a Berlim, com as suas pequenas variações decorrentes da paleta de recursos e motivações locais, seja nos materiais acessórios, nos tijolos, nas marquises, nas parabólicas, nas pinturas exuberantes, na conservação esmerada ou na degradação extrema. Plattenbau em alemão, Krupnopanelnyi em russo, Panelák em checo. Impessoal, massificado, inestético, cinzentão, talvez.
Incontornável e eficaz resposta às necessidades de habitação para todos em períodos em que proliferavam barracas, bidonvilles, slums ou chabolas nas periferias das metrópoles europeias, já para nem falar das africanas, asiáticas ou sul-americanas, também elas engrenagens imprescindíveis à máquina que extrai, tritura, processa e acumula riqueza no lado do mundo dito desenvolvido.
Já o ponto zero da cidade, a Praça da República (antiga Praça Lenine, pois claro), apresenta uma monumentalidade não menos típica das centralidades do bloco de Leste, mas com bastantes mais marcas de localismo: erigida em pedra de tufo vulcânico rosa e amarelo, matiz de sorvete de framboesa e alperce, arcadas e colunas a atirar para pórticos românicos (vide notas de dez euros). Hoje alberga ministérios, os correios centrais — em russo, poshta, ler «posta», como a da pescada — e um Marriott, antigo Hotel Arménia, antes da privatização e venda a uma multinacional americana, pois claro.
Lá perto, respondo finalmente ao apetite e à obstinação em prescindir de dados móveis, num pretenso modo detox de ecrãs e numa nostalgia de mapas em papel que se revela bastante mais desafiante do que esperava. Restaurante tradicional Sherep, palavra arménia para concha, a das sopas e dos caldos, não a outra, que isto é um país sem mar.
Cerveja Zhigulevskoe, sobrevivente da URSS
Dolma otomanos recheados com carne e arroz e borshch russo, sopa de beterraba com natas
O menu, em código QR — raios partam o tal detox —, é uma deliciosa encruzilhada entre o que é «de cá» e o que foi apropriado dos vários impérios regionais que aqui se digladiavam, ficavam e retalhavam, mas que não foram embora sem antes deixar umas receitas catitas. E o buffet não se limita à mesa: elementos otomanos/turcos, russos e persas estão por todo o lado, habitualmente com um twist.
Atravesso uma passadeira no asfalto que é uma elaborada pintura de carpete; apetece só sentar-me no meio da rua, a beber um chá e a contemplar o semáforo mudar de cor. Prédios com murais de vários andares e ícones cristãos ortodoxos. A música no táxi quase juro que toca alaúdes.
O Estado arménio atual, uma amostra da dimensão que já teve e que se estendia entre os mares Cáspio, Negro e Mediterrâneo, tem contornos desenhados há cerca de cem anos, quando uma aliança com os bolcheviques trava a anexação que os turcos levavam a cabo a ocidente, segurando-se a oriente o que viria a ser uma das três peças da República Socialista Federativa Soviética Transcaucasiana. O lado cis das montanhas, a norte, corresponde à Rússia propriamente dita, incluindo regiões como a Tchetchénia ou o Daguestão.
Vista do Monte Ararat
Inescapáveis, por todo o lado, as referências ao Ararat, monte da Arménia histórica, central à sua identidade contemporânea, mas que fica precisamente em território engolido pela Turquia, vincando a memória e a perda. O monte está nos pequenos e grandes negócios, nas marcas de chocolate ou de café. E, last but not least, longe dali, dá o nome aos dois únicos restaurantes arménios em Portugal, em Lisboa e Odivelas — isto se não contarmos com o Arménio dos Leitões, nos Carvalhos.
Mas, para além do nome, ele está lá: em todo o lado onde a vista é desimpedida a sul, vislumbra-se o imponente cume nevado, onde, segundo as Escrituras, Noé terá atracado com a sua arca depois do dilúvio, para repovoar a Terra com exemplares das criaturas sobreviventes ao castigo divino. Desígnios insondáveis para laicos e leigos, os quais talvez apenas temam os apocalipses humanos.
Para já, a minha privação de sono intercontinental — em que ficamos? — alegra-se em palmilhar 23 quilómetros, num dia solarengo e com 28 graus. Ruas ajardinadas, esplanadas compostas, pouquíssimas fachadas tomadas pelas mesmas multinacionais que transformam os centros das «nossas» cidades em não-lugares mastigados, regurgitados, cuspidos e escarrados de Zaras, H&M, Macs e merdas (detox de sucesso, este). Paredes que falam, com pinturas e inscrições que me escapam sem um Google Lens conectado que mas traduza.
Um trânsito absurdo e viscoso, sem qualquer critério circadiano aparente que explique a sua densidade, onde não falta um número considerável de carros de alta gama, bling-bling pós-restauração do capitalismo, em que as oportunidades de rapina para uns poucos são ostentadas nessas magníficas carcaças motorizadas reluzentes, bolhas de espaço privado que podem rolar no espaço público com emblemas de estatuto presos ao capô.
Num pequeno número de trajetos, escapa-se ao exasperante para-arranca na única linha de metro, pontuada por estações de monumentalidade semipalaciana, inspiradas no estilo de Moscovo, mas com retoques nacionais e temperos de modernismo soviético, sem lhes faltarem as supersónicas escadas rolantes nem os cubículos das vigilantes à entrada das plataformas.
Memorial do Genocídio Arménio
O Memorial ao Genocídio comemora, de forma sóbria, arrumada, mas imbuída de uma narrativa que não finge imparcialidade, o processo pelo qual as autoridades otomanas e os nacionalistas turcos terão condenado mais de um milhão de arménios à morte, através de uma série de massacres e marchas para o deserto sírio.
Fico ainda a saber que Constantinopla albergava perto de 200 mil arménios antes de a limpeza étnica os ter removido, tal como aconteceu noutras tantas cidades da Turquia. A visita termina com uma citação de Hitler, em 1939: «Quem é que, hoje em dia, fala da aniquilação dos arménios?»
A aposta no esquecimento para preparar o terreno do Holocausto, talvez premonitória da forma como o esquecimento seletivo das próprias atrocidades viria a preparar o terreno para o que aconteceria, décadas mais tarde, em lugares como o Ruanda, a Palestina ou o Sudão.
Línguas à parte, a inteligibilidade dos transportes para sair da cidade e rumar a norte, para a Geórgia, é pouco tangível para as minhas competências e ferramentas de pesquisa. Existe um comboio noturno para Tbilisi, na Geórgia, mas só parte em dias ímpares, o que, não me convindo particularmente, me leva à estação central de autocarros em busca de uma saída.
Já de noite e com os guichets fechados, o único autocarro vivo tem matrícula da República Islâmica com a qual a Arménia faz fronteira e uma placa com o destino Teerão. O chauffeur não domina o destino de que preciso.
«Tehran?»
Contas rápidas de cabeça: distância um pouco menor do que Lisboa–Barcelona, vontade não me falta, mas não tenho visto, tenho outros planos, os aiatolas a mim não farão mal, caças yankees por cima da tola, talvez. Fica para uma próxima.
Quem me ajuda é o jovem gerente do modesto mas honesto Hotel Time, que dispõe, de facto, de quatro relógios na receção, cada qual com o seu fuso horário. Fiel representante da amostra de habitantes locais com quem interajo, simpático e prestável sem ser efusivo, explica-me um bocadinho do alfabeto e fala-me dos desafios da Arménia contemporânea, incluindo o tal trânsito. Dá-me também explicações críticas sobre a quantidade de Maybachs que circulam e a pontuação globalmente sobreavaliada dos alojamentos da cidade nas avaliações da Booking.com — argumento para eu considerar deixar uma pontuação fiel à minha experiência, mas calibrada para esta inflação.
Continua (…)
Fontanário inspirado em motivos locais
Mural religioso de três andares