A Melhor história deste Mundial
Não sei se Cabo Verde será a maior história deste Mundial, mas que é a melhor, a mais redentora do espírito do jogo, não tenho grandes dúvidas.
A estreia de Cabo Verde foi apadrinhada pela campeã europeia, Espanha. Cabo Verde faz uma clínica sobre a arte de defender em bloco baixo. Termina o jogo sem sofrer golos tendo concedido uma falta.
Nasce um ícone improvável, Vozinha que, aos 41 anos, se revela um dos melhores guarda-redes do mundo.
Vozinha tem calma e personalidade, uma visão de jogo perfeita. O seu jogo de pés é simplesmente notável, quer nos passes longos, quer na calma olímpica com que faz passes curtos e, pasme-se, dribla com um à vontade digno de Neuer.
Ágil, seguro, hiper concentrado, como o livre traiçoeiro de Messi mostrou, Vozinha mostrou a mais rara das qualidades: atirado do dia para noite para o centro das atenções, nunca perdeu o foco na tarefa. Absolutamente brilhante.
Como é que ele passou ao lado de uma carreira nos clubes maiores de Portugal e não só, presumo que venha a ser uma história igualmente fascinante.
Seguiu-se o Uruguai, e Cabo Verde, além de defender bem, quis mostrar o seu jogo, cheio de combinações de passes em progressão e momentos de um para um. Premonitoriamente em relação ao que se viria a passar com a Argentina, vão atrás do prejuízo e empatam o jogo.
Cabo Verde revelava carácter competitivo e resiliência. Equipas com a experiência e currículo semelhantes geralmente desmoronam a sua organização após o primeiro revés. A atitude da equipa cabo-verdiana é ao contrário.
Cabo Verde revela-se uma equipa, onde claramente o todo é melhor que a soma das partes. Tudo no jogo de Cabo Verde vai contra o preconceito contra as equipas africanas.
Cabo Verde não são bons jogadores a fazer o seu, é uma ideia de jogo, tão bem trabalhada, que cada um que entra, soma, sem descaracterizar o que está a ser feito. Em Cabo Verde só se vêem jogadores de boa cara.
E um banco sereno, mas interventivo exibindo uma segurança notável.
Cabo Verde joga finalmente o jogo com a “equipa mais fácil do grupo” (estatuto que teoricamente lhe pertencia), a Arábia Saudita.
Nova reafirmação de personalidade. Cabo Verde não espera que coisas boas lhe aconteçam, vai atrás delas. Domina todo o jogo e só não ganha por manifesto azar. Faz aquilo em que ninguém acreditaria, tirando eles eventualmente, e apura-se em segundo no grupo.
Seguiu-se um dos favoritos, o campeão do mundo em título, que vencera os três primeiros jogos da fase de grupos com um à vontade que lhe permitiu descansar um Messi num desses jogos e que, ainda assim, liderava a tabela dos melhores marcadores.
O jogo começa em moldes parecidos com o da Espanha, embora Cabo Verde, desinibido, não se deixe encostar tanto às cordas.
Aos 29 minutos, o inevitável acontece, o jogador que menos corre e mais devagar de todo o campeonato do mundo, escapa-se à armadilha do fora de jogo, recebe, como só ele é capaz, um cruzamento, usando o pé que seria o errado se não fosse o esquerdo dele e sem perder tempo passa a bola por cima de Vozinha.
Messi. Sempre ele.
Peritos a sério e de sofá terão dito, Cabo Verde foi bonito, mas acabou.
Vozinha, guarda-redes de Cabo Verde
Cabo Verde estava-se a marimbar para isso. Subiram linhas, tentaram pressionar. Vozinha entretinha-se a sair em drible embaraçando Lautaro Martinez.
Aos sessenta minutos, o golo espectacular de Cabo Verde silencia o estádio. Um dos manos Duarte, Deroy, finaliza uma bela jogada e um cruzamento curto e rasteiro com uma pedrada que bate Martinez.
Os campeões do mundo reagem, Messi isola-se à frente de Vozinha.
E VOZINHA DEFENDE, o remate com o pé humano de Messi, o direito.
A seguir, Messi começa a cavar livres à entrada da área.
Num deles, com a cumplicidade do árbitro, marca enquanto Vozinha está ainda encostado ao primeiro poste a orientar a barreira.
A bola vai ao segundo poste e Vozinha também, segurando a bola com uma serenidade budista frustrando mais uma vez o melhor de sempre.
Até aos 90 minutos, a Argentina continuou a pressionar, entraram os seus substitutos mais utilizados, nada em Scaloni, muito menos a cara dele, denunciava a inconsciência do campeão do mundo de estar numa luta pela sobrevivência.
O prolongamento iniciou-se com o 2-1 para a Argentina.
Messi devolve o favor a Lisandro Martinez, que fuzila Vozinha.
Os peritos a sério e de sofá anunciam a nova morte de Cabo Verde, fazem-se os elogios fúnebres.
Mas eis que aquele grupo de jogadores da diáspora, os que nasceram em Lisboa e arredores, os sete de Roterdão, os nascidos na ilha, o que recebeu o convite para jogar na selecção pelo linkedin na Irlanda, recusam a render-se. E correm mais que os campeões do mundo, ganham divididas.
É então que Sidny Lopes Cabral, mal amado no Benfica, faz um golo do outro mundo: drible antes do canto da área remate em arco a entra ao ângulo no segundo poste.
O golo do campeonato do mundo.
Dei por mim aos berros às três da manhã, em casa.
Seguiu-se o festejo mais bonito e romântico dos Mundiais: Sidny corre para a bancada onde estão os adeptos de Cabo Verde, como se o mundo tivesse parado, à procura da namorada dele. abraçam-se os dois, o tempo suspenso.
Infelizmente era uma ilusão, o tempo não para, o jogo recomeça e Messi, sempre ele, inevitável, marca um canto, e da disputa de cabeça surge um golo a meias, indefensável.
Nenhum perito abriu a boca.
Cabo Verde atirou-se ao jogo com o desespero de quem sabia que o lugar deles era ali, ao contrário do que muitos dos seus jogadores ouviram a vida inteira.
Não vou reproduzir os palavrões quando, do mesmo lugar de onde fizera o golo, mas agora num livre directo, Sidny faz um remate igual, mas o guarda-redes argentino defende in extremis para canto.
Cabo Verde caiu de pé, e muitos argentinos venceram deitados no chão, derreados pelo esforço.
Que orgulho devem ter os cabo-verdianos numa equipa verdadeiramente inspiradora.
Nem todas as histórias bonitas têm um final feliz.
Esta tinha-o merecido sobejamente.
Crónicas Mundial XXXB