Mariano Bartolomeu: um cinema limpo e iluminado
KINOYETU apresenta 16.SET.2026 | 19h00 | Auditório ao ar-livre HOTEL GLOBO em Luanda
Se hoje, em Angola, um realizador como Mariano Bartolomeu precisar ainda de uma demorada apresentação antes de uma mostra dos seus filmes, tal só acontece por uma enorme — e vergonhosa — falha. Como é possível não ser mais conhecido? Um cineasta que, apesar de uma filmografia esparsa, realizada ao longo de muitos anos, teve filmes galardoados em festivais internacionais, recebeu honrarias em mostras de cinema e, mais importante ainda, conquistou o reconhecimento dos seus pares por cá, não deveria estar já na categoria dos que «dispensam apresentações»?
É certo que viveu muitos anos fora do país, onde boa parte da sua filmografia foi realizada e exibida, mas isso não é desculpa nem razão para que os seus filmes continuem vedados à maioria dos angolanos e apenas uns poucos felizardos, porventura mais atentos, se lembrem de ter visto a sua obra.
Uma obra cujo percurso começou em 1989, primeiro com filmes «formativos» realizados em Cuba, depois nos Estados Unidos e, entretanto, também em Angola, prolongando-se até 2008. É por isso que propomos dar o seu a seu dono: prestar-lhe o devido reconhecimento, que só peca por, devido a questões de oportunidade e tempo, podermos mostrar apenas quatro dos seus filmes — um «cubano», um «americano» e dois «angolanos».
Esta seleção resume bem a toada do cinema de Mariano e o seu propósito estilístico de mostrar pouco, começando apenas pela «ponta do icebergue». O enredo das suas histórias é apresentado de forma minimalista: aparentemente, «não acontece quase nada». No entanto, a tensão interna das personagens, a dinâmica entre elas e aquilo que dizem criam uma atmosfera clara e depurada, dando-nos tudo aquilo de que precisamos para compreender os filmes.
Um dos melhores exemplos é Un lugar limpio y bien iluminado, o primeiro filme de ficção de Mariano, realizado em Cuba, no âmbito dos seus estudos na aclamada Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños. O filme adapta o conto The Killers, de Ernest Hemingway, transformando-o numa espécie de crónica de uma morte anunciada, passada numa vila cubana sombria e melancólica.
Um pugilista experiente, consciente do encontro marcado com um destino fatal, afasta da vila a amante e um pupilo, para os livrar do perigo em que podem estar envolvidos. Tudo o que deseja é o sossego de «um lugar limpo e bem iluminado», diz a certa altura, e a paz necessária para, quem sabe, «aprender a tocar um instrumento». O lugar onde se encontra já não é esse lugar. O espantoso trabalho de fotografia de Carlos Arango, pontuado pelo maravilhoso trompete de Julio Padrón, juntamente com a concisão narrativa e a destreza visual reveladas pelo então jovem realizador, fazem deste filme muito mais do que um simples «filme de escola».
Mariano Bartolomeu, filmagem 'Um lugar limpo'
Vamos também ver The Plane, primeira experiência filmada durante a sua estadia nos Estados Unidos, para onde partiu com uma bolsa da Fulbright Foundation, a fim de realizar um mestrado na School of Film da Ohio University. Mariano põe-nos a pensar sobre a realidade e o sonho, partindo da questão provocadora do psicólogo e filósofo alemão Erich Fromm: «Como sabemos que aquilo que sonhamos é irreal e aquilo que vivenciamos na nossa vida desperta é real?»
Enquanto isso, mostra-nos as deambulações de um casal de estudantes por um campus universitário. Entre flashbacks, a disputa num «aeroporto» durante a espera por um avião-pássaro, umas chaves que se perdem e voltam a aparecer e o rapaz que é acordado pela rapariga depois de um ataque de sono, ficamos com as nossas dúvidas — ou certezas? — sobre o que é sonho e o que é realidade. É um belo exemplo de «filme de formação», sobretudo porque nos faz pensar sobre o próprio cinema. Tanto quanto sabemos, esta será a primeira exibição pública de sempre do filme. Aproveitem o privilégio.
O primeiro filme «angolano» de Mariano, Quem Faz Correr Quim?, é, na realidade, uma coprodução com Cuba e o filme-tese com que concluiu o curso de cinema naquele país caribenho. Trata-se de mais uma adaptação literária, desta vez inspirada no romance Uma Questão Pessoal, do escritor japonês Kenzaburō Ōe.
Mariano transporta a trama para uma Angola ainda em guerra, onde um aviador da Força Aérea regressa de uma missão a Luanda e recebe a notícia de que o filho recém-nascido tem uma deformidade cerebral. Desesperado, enquanto percorre a cidade na companhia de uma antiga namorada, o protagonista debate-se entre fugir da situação ou deixar a criança morrer, até tomar consciência da sua responsabilidade paternal e familiar. É extraordinária a sequência em que nos é dado a ver o pesadelo de Quim. Se o cinema é memória e pode constituir-se como documento histórico de um país, então este filme pode muito bem ser tombado como património de Angola. Disso não tenhamos dúvidas.
Por fim, veremos O Contador de Estórias, filmado em vídeo para a TPA. Tal como no conto de Tchékhov do qual parte esta adaptação livre, Mariano apresenta-nos um professor angolano cujo filho menor foi apanhado a fumar. O pai tenta convencê-lo de que é inadmissível uma criança fumar e explicar-lhe os malefícios do tabaco, recorrendo à moral e aos argumentos psicológicos da melhor forma que consegue — aquela que aprendeu com a avó: contando uma estória.
Ao fim e ao cabo, temos três contadores de histórias: Mariano, que conta a estória do professor, que, por sua vez, conta a estória do velho contador de estórias. Mas, se metermos Tchékhov ao barulho, serão quatro. É um telefilme bem conseguido, sem um desfecho verdadeiramente moralista ou dramático, que expõe sobretudo o encanto e a força do «poder da palavra».
Olhando para estes e outros filmes de Mariano Bartolomeu, encontramos uma característica quase recorrente na sua obra: os protagonistas são homens angustiados, acossados por questões reais ou existenciais, sem que, por isso, reajam de forma desesperada. Só nesta sessão, vemos isso em Rosendo, em Quim e até em Edu, de O Contador de Estórias. Queremos acreditar que não se trate apenas de um reflexo do cineasta nas suas personagens protagonistas.
Sabemos também, tal como muitos dos seus colegas de batalha, que Mariano tem sonhos e projetos por realizar. Oxalá encontre, desde já, o seu lugar limpio y bien iluminado, para que possa, «nas calmas», voltar a filmar e a mostrar o seu cinema. Um bom cinema, de um cineasta bom.
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UN LUGAR LIMPIO Y BIEN ILUMINADO (1991) Realização e argumento: Mariano Bartolomeu | Inspirado no conto “The Killers”, de Ernest Hemingway | Interpretação: Mario Guerreiro, Alden Knight, Dolores Pedro, Roberto Perduro, Franklin Diaz, Pepe Rovirosa, Yisca Márquez | Produção: Aurora Ojeda, para a Escuela Internacional de Cine y Televisión (Cuba). Originalmente filmado em 35mm, preto & branco | 18 minutos
THE PLANE (2001)
Realização e argumento: Mariano Bartolomeu | Interpretação: Tupao Barahona, Melissa Sunwater, Aransas Rose e Mark X | Produção: Mariano Bartolomeu, para a Aundu Films e a Athens University of Ohio (School of Film), com financiamento da Fulbright Foundation. Originalmente filmado em 16mm, preto & branco | 9 minutos
QUEM FAZ CORRER QUIM? (1992)
Realização e argumento: Mariano Bartolomeu | Inspirado no romance “Uma Questão Pessoal”, de Kenzaburo Oe | Interpretação: Afonso William Malheiros, Maria João Swart, Sandra Pitra, João Gonçalves, Victoria Domingos, Riccardo Orlandi, Rui Lima | Produção: Aurora Ojeda, para a Escuela Internacional de Cine y Televisión (Cuba) e o Laboratório Nacional de Cinema (Angola). Originalmente filmado em 35mm, cor | 22 minutos
O CONTADOR DE ESTÓRIAS (2003)
Realização: Mariano Bartolomeu | Argumento: Mariano Bartolomeu e Robert Arrington | Inspirado no conto “Em Casa”, de Anton Tchekhov | Interpretação: Carlos Manuel de Carvalho, Maria de Fátima Cassule, João Lourenço Paulo, Helga Feti, Sizainga António | Produção: Lázaro Rubio e Mariano Bartolomeu, para a Televisão Pública de Angola e a Ilundu Multimédia (Angola). Originalmente filmado em vídeo BetaCam SX, cor | 30 minutos. Duração total da sessão: 1h19m