Militango
Tango!
Cadência sensual dos vagabundos e dos amantes
Sangue nas cordas da guitarra.
Os teus anjos flautistas flutuam como bêbados
Nas curvas melodias dos noivos e dos asnos nos quadros de Chagall.
Este é um tango para um tempo sem canções
Para um universo sem versos, sem pensar, até onde?
Ou até quando?
Amor, Pensar, Dolor (cantado)
Palavras, palavras, palavras.
Pobre príncipe Hamlet, apaixonado,
Triste como um tango triste,
Cantando baixinho… louca, louca, louca…!
Para uma Ofélia abandonada sob um túmulo de águas floridas.
• Ai Horácio Ferrer, amigo!
Con este tango que es burlón y compadrito. (cantado)
Sem Passado, Sem Futuro, Sem Final.
Bailemos esta dança macabra sob a lânguida indiferença da chuva caindo,
Como sempre, sobre a esperança vã dos refugiados.
Militango!
Amigos, ouçam o tempo!
Ajustem o ritmo, apertem os corpos e marquem o passo assim
Enquanto vão caindo as bombas inteligentes
Que iluminam as cabeças dos santos inocentes de todas as guerras,
Mas especialmente desta, da última, a da televisão…..
Que não será a última….
Porque el mundo fué y será una porquería ya lo sé,
En el 506 y en el 2000 también.
Ah aqui estão as câmaras! Venham filmar colegas…!
Está é a milonga dos Deportados!
Champanhe para todos! Bailemos juntos esta liturgia de um tango apocalíptico luzindo as nossas elegantes caveiras abraçadas como quando nos amamos.
Militango! Esquece a filosofia e com delicados gestos
Desenha um trágico arabesco para o Réveillon Final.
Lá num canto esquecido e só
Um Deus impotente toca o bandoneón
Sem voz, sem ver, sem voz, SEM VOZ….!
pintura de Alfredo Sosabravo, 1971 Museu Nacional de Belas Artes em Havana
Nota de enquadramento por Carlos Gutkin:
O Militango foi um poema que o meu pai escreveu para um espectáculo concebido e encenado por ele, com o mesmo título, em 2000/2001, para o Grupo Teatrova, e que estreou no Santiago Alquimista. No espectáculo Militango, a dança, a música e a poesia entrelaçavam-se num todo, tendo como linha condutora vários tangos, com destaque para a obra de Astor Piazzolla.
Contava com dois bailarinos, Guilhermo e Elina; dois músicos, eu na guitarra, nos arranjos e na produção musical, e José Rui Fernandes na flauta; e Paula Freitas como actriz e na produção. O poema musical Militango encerrava o espectáculo.
É importante destacar que, na viragem do milénio, o pano de fundo era o triunfalismo ocidental perante a queda do bloco socialista e a guerra dos Balcãs, que fez regressar o espectro da guerra à Europa. Seguiram-se a queda das Torres Gémeas, a Guerra do Iraque e tudo o que estes acontecimentos significaram e tiveram como consequência.
Entre outros números que integravam o espectáculo, estava o poema de Borges Milonga de dos hermanos, que termina com a ideia de que é a história de Caim, que ainda hoje continua a matar Abel.
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Raúl Martínez, Campeón No. 1, de 1964, Museu Nacional de Belas Artes em Havana