A luta anti-racista e o feminismo são luta de classes II
A Esquerda tem de libertar-se dos seus cadáveres
Precisamos de um ponto de confluência que nos sirva de espelho e que represente aquilo a que chamo um sentido de época para nós e todas as nossas lutas; um sentido de época utópico, longo, largo, inclusivo, agitador, provocador, sedutor, sedicioso, sedento, que não minimize nem relativize nenhuma luta, que não sinta nenhuma hegemonia temática e que não implique o aparecimento de uma vanguarda.
Maria Galindo, 2020
Após a segunda vitória de Trump sucederam-se muitas análises sobre o resultado que colocava no poder alguém acusado de conspiração contra o Estado, com a invasão ao Capitólio em 2021 pela recusa em aceitar os resultados de 2020. Ação copiada em 2023 por seu irmão ideológico, Bolsonaro. Nestas análises surgiu a crítica ao Partido Democrata por ter abandonado os trabalhadores, tanto durante o seu governo foi arrancar uma maioria dos votos em estados empobrecidos e sem perspetivas. Esta análise colheu frutos, espantosamente vozes ultra-liberais vieram dizer que o Partido Democrata tinha abandonado a luta de classes. Nesse campo tivemos por cá a partilhar a mesma opinião, por exemplo, Pedro Norton (gestor, comentador e cronista da direita liberal) de súbito preocupado com a luta de classes.
A esta análise paralelamente disseminou-se a ideia de que a Esquerda havia abandonado a luta fundamental para se dedicar às políticas da identidade, fragmentando assim a unidade de classe e justificando com isso, em parte, a sua derrota (em 2022 perante a maioria absoluta de António Costa e em 2025).
Pelas redes ou bolhas sociais por onde circula o nosso olhar e atenção fui lendo aqui e ali gente de esquerda propagar - mais ou menos articulada ou expressiva - a ideia de que as dias “políticas de identidade” vinham fragmentando a esquerda, se não mesmo, como cheguei a ler, seriam cúmplices ou responsáveis em certa medida pelo crescimento da extrema-direita.
Some Living American Women Artists, Mary Beth Edelson, 1972
Curiosamente estas vozes, empíricas e morais como diz J.A. Horne1 vinham de pessoas que tinham muito em comum: homens, brancos, cis, heterossexuais, europeus e acima dos 60 anos. Não deixa de ser significativo que a escolha do novo líder do Bloco de Esquerda corresponda a alguém que reúne estas características. Antes de Djamila Ribeiro ter popularizado o conceito de Lugar de Fala (2019), oriundo do pensamento feminista negro, já o marxismo nos havia demonstrado de que o lugar de cada um na cadeia de poder não só o transforma no sujeito político nessa relação como é determinado, na ação e pensamento, pelas relações que estabelece nesse preciso lugar. Não por acaso, quando António Costa entrou no jogo malicioso de Marcelo e escreveu o guião palaciano de chantagem sobre os parceiros à sua esquerda, as pessoas da minha rede que condenavam o PCP ou o BE por terem feito “cair o governo” eram, na sua maioria, pessoas cujas vidas e posições económicas ou sociais em nada seriam afetadas se as propostas destes partidos fossem chumbadas. A ironia é que duas linhas vermelhas então apresentadas — o aumento do salário mínimo e a compensação aos professores pela década de congelamento das carreiras — acabaram por ter seguimento no Governo de maioria absoluta de António Costa, de tão breve duração quanto memória.
O que têm em comum estas vozes anti políticas de identidade não é, portanto, fortuito ou casual, mas não é também uma equação determinística. Mesmo Pacheco Pereira o epítome do senso comum liberal do wokismo de esquerda ser em parte responsável pelo wokismo de direita consegue discernir, em artigos dos últimos anos (sobre o que designou “guerras culturais”), uma verdadeira estratégia internacional coordenada — uma “guerra mundial cultural” da direita — desenhada para moldar a opinião pública através do medo, do ressentimento e da fratura social. E na direção contrária o pensamento de Fernando Rosas no livro Direitas Velhas Direitas Novas. Aqui, numa leitura sobre os fracassos da Esquerda, nas últimas décadas, inclui não ter sabido responder com consistência ao ataque ideológico da internacional reacionária no seu programa global anti-mulheres, anti-pessoas racializadas, anti-trans, anti-imigrantes, anti-lgbtqia+. E indica a luta anti-racista e feminista como centrais na luta anti-capitalista.
“A identidade interessa-nos na medida em que é espaço de criação de desordem social, desordem afetiva, desordenando escalões, prioridades e privilégios.” Galindo, 20052.
Os cadáveres empestam e desarmam a esquerda anticapitalista. Não raras vezes são as mesmas vozes da indignação moral anti-fascista. Chamo moral porque, na sua prática, convivem sem problema aparente com uma sociedade profundamente desigual, sem que a questionem para lá da crítica superficial. E como um balão enchido esporádica e rotineiramente que rebenta até ao próximo frémito, como se não tivéssemos estado antes no mesmo sítio, como se o lugar da indignação não tivesse já passado, esvaziando o balão a cada abaixo assinado ou artigo no jornal e remetendo todos ao suspiro com abraços de sentimento do dever cumprido. “Quem, estando na miséria, ouve tais lamúrias, sente-se ainda mais miserável.
A verdade é uma prática política, não apenas moral. Não basta denunciar os efeitos, é preciso revelar as causas. A verdade deve fortalecer quem pode mudar o mundo. A verdade deve tornar-se uma “arma”, uma tática (que, por si, não é boa nem má, já dizia o Lenine, mas faz com que uma ideia produza efeitos políticos). (As cinco dificuldades para escrever a verdade, Bertolt Brecht. 1934).
A luta anti-racista e o feminismo são lutas de classe II
O capitalismo, tal como o conhecemos desde os seus alvores, não teria sido possível sem a alienação e a expropriação de corpos escravizados ou o extermínio de populações inteiras. Tudo isso se fez com base na criação ideológica de linhas divisórias entre os corpos que podiam ser descartáveis — quer nas Américas, quer entre aqueles que podiam ser tornados mercadorias e transportados de África aos milhões (como hoje acontece com corpos não brancos que se afogam no Mediterrâneo ou são dizimados na Palestina — um processo reiterado).
O mesmo desenho ideológico que suportou essas linhas divisórias foi usado, dentro das fronteiras do império, com a genderização. Sem a imposição de uma linha de género fortemente demarcada, com lugares definidos para cada um, não teria sido possível a proletarização de grandes camadas da população que, empobrecidas, tornaram possível a “revolução industrial” (E. P. Thompson, A. Césaire).
Na sua tese de doutoramento transposta para o livro Calibã e a Bruxa, Silvia Federici demonstra como a caça às bruxas na Europa, levada a cabo não só por autoridades religiosas mas em inúmeros casos por autoridades locais, tratou a um tempo de exterminar e doutrinar parte dos desapossados pelos emparcelamentos (enclosures) que, tendo deixado de aceder às terras comuns onde iam adquirir parte substancial do seu sustento, se tornariam pasto para alimentar a massa de assalariados que acorreria às cidades em busca de trabalho. Como a outro produziam em termos ideológicos a mulher doméstica e domesticável, sem a perversão demoníaca a que as forças da natureza e do demo a tinham conduzido, sendo necessário então corrigir o caminho na fogueira, onde muitas vezes quem a acendia era o rico local, locatário ou senhorio da mulher pobre sua arrendatária. O mesmo argumentário usado nos processos europeus contra as mulheres será usado em processos idênticos em execuções da Inquisição sobre as populações ameríndias ou na Ásia.
As linhas de cor e de género não são externalidades ou consequências do sistema, são essenciais e constitutivas do próprio capitalismo. No contexto do advento do capitalismo, o processo de extermínio das populações originárias e o processo da escravatura tornam-se condições essenciais para a acumulação de capital, tal como a genderização das sociedades dentro do Império, com o fito de estabelecer distinções claras na distribuição de papéis produtivos entre homens e mulheres, mobilizada para a divisão sexual do trabalho e consequente enfraquecimento do conjunto dos trabalhadores. A produção de subalternidades na base da pirâmide permite estabelecer lugares claros para todos até ao topo. O patriarcado e o racismo são traves mestras do sistema capitalista. Qualquer forma de os combater (e quem senão os que sentem diretamente essa exploração) fazem parte da luta de classes e a direita atual, muito mais organizada (internacionalmente) sabe-o bem, mais, parece, do que no terreno onde nos juntamos para a derrotar.
Citando Rosane Borges, feminista marxista negra brasileira este ano, a esquerda não é identitarista por defender políticas de identidade. Essa foi uma armadilha montada pela Internacional Reacionária em que muita gente à esquerda (dos democratas liberais aos socialistas) caiu, tomando em mãos uma luta em nome da liberdade contra o wokismo, como se de um movimento organizado se tratasse para censurar e cancelar pessoas (“já não se pode dizer nada”, “mas eu sempre disse preto, quero sentir-me à vontade para continuar a dizer sem ser coagido pelos politicamente corretos, esses wokes”, “o Caetano Veloso também diz preto” – preto no Brasil é como black nos EUA, não tem a carga negativa que nigger neste país ou como preto em Portugal).
A direita é identitarista porque define ontem como hoje quem é passível de ser cidadão com direitos dentro dos limites dessa identidade. Define desde o princípio quem fica de fora da “universalidade” desse direito. O fascismo levou ao extremo essa negação liberal da universalidade escolhendo eugenicamente com o nazismo, quem devia e merecia morrer.
Continuando a citar livremente Rosane Borges, é preciso limpar o terreno. É preciso, portanto, antes de mais, clarificarmos os termos da luta, clarificar quem usa “a verdade” para se iluminar de quem a usa para construir armas para mudar o mundo. Quem recusa e resiste à sua condição de explorado (seja como mulher, como transgender, como negra) é um aliado e um sujeito político pronto a formar a classe, o povo a que pertencemos. Mas “a identidade vivida, vista, sentida ou pretendida como bloco, como unidade social, como lugar de contestação social inequívoco, como pertença rígida e incontornável, não passa de mais uma engrenagem nas muitas formas de dominação porque, vista assim, é também uma forma de reedição das ordens de agrupamento entre pessoas idênticas em torno de um pai como poder ordenador” GALINDO, 2005.
No capítulo sobre Gaza do livro A ameaça interna – psicanálise dos novos fascismos globais (de 2025), Vladimir Safatle diz que o genocídio, entendido como laboratório social, tem como resultado uma dessensibilização global e que isso é propositado com vista à criação de um regime global de guerra e extermínio com a acomodação geral à violência intolerável. Creio que ficaria mais completa se incluísse a mobilização global de repúdio e negação de tal regime, em tantos lugares em que os próprios não só se politizam em relação ao entendimento das forças imperialistas e poderosas que dominam, mas que arriscam as suas vidas, de variadas formas.
O “laboratório social” produz outra coisa, o sentimento de impotência. É contra ele que estamos todes convocades!
- 1. “For Marx, a mode of production generates social relations that initially facilitate its development but eventually come into conflict with the further expansion of productive forces. These contradictions are not imposed from outside the system; they emerge from its normal operation. Dialectical analysis therefore seeks the inner antagonisms of a social order rather than its surface appearances. What appears stable or natural is revealed, through dialectical inquiry, as historically contingent and internally unstable. This method stands in contrast to empiricist and moralistic explanations of social change. Empiricism fragments social reality into discrete facts without grasping their interrelation, while moralism explains historical development through ethical failure or subjective intent. Both approaches obscure the material sources of social transformation. Dialectical materialism, by contrast, treats contradiction as the motor of development rather than an anomaly to be explained away.” (A. J. Horn, What Marx Actually Meant by Dialectics. A materialist method, not moral philosophy or economic determinismo, 05.01.26, Simplifying Socialism).
- 2. “O Feminismo não é um projeto de direitos para as mulheres, é um projeto de transformação social”, Cap. 1 de Feminismo Bastardo, Barricada de Livros, 2025