ACARTE: heterotopia, heterocronia e a construção do comum

ACARTE: heterotopia, heterocronia e a construção do comum A partir do ACARTE, Bigotte desenvolve um sofisticado exercício de interpretação das transformações sociais ocorridas em Portugal na década de 80, usando um não menos sofisticado aparelho critico que lhe permite abordar as temporalidades, espacialidades e as múltiplas corporalidades que se colocam em jogo num período de intensas transformações. ACARTE aparece como uma heterotopia e heterocronia. Aparece como um ALEPH no qual se suspendem as determinações de uma sociedade recém-saída do longo período da ditadura de Salazar, no qual se viram truncadas, espacial, temporal e corporalmente, as aspirações da modernidade proclamadas por Almada.

Palcos

14.12.2022 | por Jesús Carrillo

Transferência de conhecimento tecnológico africano em Portugal durante a Modernidade: pessoas escravizadas e cultivo de arroz nos rios Tejo e Sado

Transferência de conhecimento tecnológico africano em Portugal durante a Modernidade: pessoas escravizadas e cultivo de arroz nos rios Tejo e Sado Historiografias demasiado simplificadas têm (re)desprovido as pessoas escravizadas e os seus descendentes de qualquer papel histórico transformador; porém, alguns autores, como Judith Carney, Edda Fields-Black, Peter Wood e Daniel Littlefield, colocam o movimento de pessoas escravizadas da África Ocidental no centro de transferências tecnológicas e alterações agroecológicas associadas ao cultivo de arroz no continente americano. No lado europeu do Atlântico, esta linha de investigação não foi ainda desenvolvida. Propomos uma hipótese de pesquisa que procura superar a divisão colonial natureza-sociedade e o que tal implica de objetificação acrescida da pessoa negra escravizada, uma vez reduzida à sua condição metabólica. O nosso estudo contribui para uma abordagem crítica da história socioambiental do/a subalterno/a nas sociedades esclavagistas. A história largamente desconhecida do arroz no Sado e no Tejo está ligada à história por contar das pessoas negras escravizadas em Portugal. Este artigo oferece uma primeira formulação destas conexões.

A ler

18.02.2021 | por Joana Sousa, Manuel Bivar, Miguel Carmo, Pedro Varela e Ricardo Ventura

Entre medo e modernidade: resistência em Amílcar Cabral

Entre medo e modernidade: resistência em Amílcar Cabral Para Cabral a luta armada, filiando-se numa tradição de resistência que remontava ao início da ocupação portuguesa, era igualmente um meio de agregação política de uma população social e etnicamente diversa, na senda da formação de uma “consciência nacional”. Depois, porque no entendimento estratégico de Cabral o modo de travar a guerra pela independência delineava as próprias feições do período pós-independência.

A ler

05.06.2020 | por Inês Galvão, José Neves e Rui Lopes

“África é a última fronteira do capitalismo”, entrevista a Achille Mbembe

“África é a última fronteira do capitalismo”, entrevista a Achille Mbembe Atravessar fronteiras físicas e disciplinares é uma vocação de Achille Mbembe. A temática da passagem e do movimento é, aliás, uma chave para a sua compreensão da história e da cultura africanas. A sua perspectiva sobre o passado, o presente e o futuro de África implica ao mesmo tempo traçar uma genealogia da modernidade europeia, das categorias do pensamento que ela construiu, da racionalidade e da historicidade da figura do negro.

Cara a cara

19.12.2018 | por António Guerreiro

a dívida impagável: lendo cenas de valor contra a flecha do tempo

a dívida impagável: lendo cenas de valor contra a flecha do tempo A dívida impagável, enquanto imagem dialética, ajuda a ler o valor simultaneamente nas cenas econômica e ética, e como o capital é a mais recente configuração da matriz moderna de poder, contando com dispositivos de conhecimento (conceitos e categorias), uma gramática ética (princípios e procedimentos) e arquiteturas jurídico-econômicas (práticas e métodos), que derivam sua força de como a necessidade opera por meio de separabilidade, determinação e sequencialidade.

Mukanda

04.10.2018 | por Denise Ferreira da Silva

A boca para pronunciar monstro

A boca para pronunciar monstro somos o bestiário. nossa animalização nos afirma como parte da natureza. o animal pré-alegórico é o coração latente; é uma violência. a livre caça na sociedade de consumo e produção arrebata nossos corpos de margem : nos tirem do centro; é para onde caem os desejos. quiçá os vagalumes nos façam atear fogo ao céu : a luz é pulsante - o escuro é largo e espaçado pela micropolítica da carne do monstro. é a carne que sobrevive.

Mukanda

22.02.2018 | por Jonas van Holanda

É preciso olhar para cima, o céu está a cair: Humanidade antes e depois do fim do mundo

É preciso olhar para cima, o céu está a cair:  Humanidade antes e depois do fim do mundo Enfim, o fim do mundo não é um assunto multicultural, mas sim multinatural. Claramente, fé nos híbridos não é o suficiente. O mesmo se poderá dizer do elogio da diferença. Em contraste com os discursos do inhumano ou do anti-humano, será possível sugerir, como acontece em sociedades animistas, que tudo é humano? Será tal palavra sequer relevante para lá do sentido histórico que lhe foi atribuído a partir do Renascimento? Manter essa palavra implicaria não apenas uma humanidade para lá da espécie, mas também para lá da modernidade. Mas isso seria um oximoro: uma humanidade amoderna? Quem sabe no fim do dia estas sejam as perguntas erradas. Mas sejamos claros, reconhecer a agência dos não-humanos não faz de nós animistas. O animismo é simplesmente a palavra antropológica para a crença em uma humanidade outra à qual os modernos têm sido fieis. E, no entanto, as ontologias não são fixas, elas mudam e se transformam, confrontam-se e negociam-se entre si. É isto que, de um ponto de vista multinaturalista, o fim do mundo quer dizer: entrar na cosmopolítica.

A ler

18.10.2016 | por Isadora Neves Marques

Modernidade vs. Epistemodiversidade

Modernidade vs. Epistemodiversidade A arte sempre foi capaz de reunir ferramentas críticas de acção de diferentes contextos de conhecimento de modo a intervir em instituições, em políticas e em problemas sociais. Isto faz dela um local privilegiado para encontrar novas estratégias para a epistemodiversidade. Ao mesmo tempo, a arte sempre manteve uma fronteira estrita entre si mesma e a cultura popular, para assegurar que a arte está ao mesmo nível das ciências ocidentais. E se esta fronteira desaparecesse? Como é que construimos uma nova linguagem que utiliza conhecimento popular não para um tema de arte contemporânea, mas como uma faísca para criar novos regimes de representação e novas estruturas de pensamento? Como pode a arte contemporânea contribuir para a aprendizagem da epistemodiversidade?

A ler

11.10.2016 | por María Iñigo Clavo

Algumas cidades da África contemporânea e os rituais e experiências no bifronte tradição versus modernidade: Cidade do Cabo, Accra, Kigali (muti, haucá, hutu).

Algumas cidades da África contemporânea e os rituais e experiências no bifronte tradição versus modernidade: Cidade do Cabo, Accra, Kigali (muti, haucá, hutu). Olhar para algumas das cidades da África contemporânea é enfrentar os desdobramentos de sua dilaceração colonial, é atentar para as repercussões que o poder, essa articulação dimensional da dominação, imprime naqueles em que toca. A proporcionalidade da resposta, da interação, está diretamente ligada à sua efusão. Tais vestígios são sempre contundentes, pois se inscrevem na carne como um pontiagudo arabesco de sangue, pus e baba. Ao desespero de sua emergência contrapõe-se em quase tudo, quase tudo, a racionalidade do poder que o encetou. Restarão fios delicados a nos lembrar que esses outros estão atentos às limitações racionalistas de seus algozes inspirados e que depois serão transpirados como suor, como sangue, como nervos.

Cidade

27.11.2010 | por Eduardo Bonzatto

Que África escreve o escritor africano?

Que África escreve o escritor africano? Os intelectuais africanos não têm que se envergonhar da sua apetência para a mestiçagem. Eles não necessitam de corresponder à imagem que os mitos europeus fizeram deles. Não carecem de artifícios nem de fetiches para serem africanos. Eles são africanos assim mesmo como são, urbanos de alma mista e mesclada, porque África tem direito pleno à modernidade, tem direito a assumir as mestiçagens que ela própria iniciou e que a tornam mais diversa e, por isso, mais rica. É preciso sair dessa armadilha.

Mukanda

23.05.2010 | por Mia Couto