O que é o Sistema?, entrevista a Cristiano Mangovo

“O Sistema”, sob curadoria de Katherine Sirois, é a mais recente exposição de Cristiano Mangovo, um artista contemporâneo natural de Cabinda, Angola. De entrada livre, na galeria .insofar, a mostra de obras do artista no estilo de expressionismo figurativo, retrata questões sociopolíticas intrincadas através da liberdade das suas pinceladas e escolha de cores fortes. É assim que decide retratar e endereçar a problemática das hierarquias e o exercício de poder.

Sentados frente a frente conversámos sobre o seu passado, as inquietações que o movem a pintar e a reflexão sobre o que é “O Sistema”, as injustiças causadas pelo mesmo e como o podemos combater. A realidade, ou melhor, os resultados finais são merecedores de serem observados com todo o tempo e minúcia. 

Como desenvolveu o seu gosto pela pintura? 

Na minha família quase todos desenhamos bem. “Puxamos” à mãe que tem traço perfeito para um bom desenho, na realidade, todos nós puxámos à mãe. Tenho um irmão que começou agora a pintar, no entanto, ele não fez escola nem faculdade. Apesar de eu ter nascido com jeito para o desenho, a minha mãe insistiu na formação, fiz escultura e estudei pintura. O facto da minha mãe me ter inscrito nas artes foi, para mim, importante, porque podemos ter um dom mas em conjunto com a escola e com a aprendizagem conseguimos aperfeiçoar e conhecer as regras. No meu caso, conheci as de pintura, bem como as misturas corretas e isso foi o começo que a formação me deu. 

Como era a vida em Kinshasa? 

Foram tempos de dificuldades, mas também de boas recordações. A vida em África não é como na Europa, e vivi quase sempre em péssimas condições. A minha casa ficava tão longe da faculdade que tive de me mudar para mais perto, foi aí que comecei a economizar para poder viver do trabalho, da minha arte. Não foi fácil, foi necessário muito esforço.

A primeira vez que vi os seus quadros lembrei-me daquela que é, talvez, a obra mais conhecida de Picasso: “Guernica”. O quadro é um ícone da Guerra Civil Espanhola bem como uma “declaração de guerra contra a guerra e um manifesto contra a violência”. Considera que, por ter nascido num ambiente pós-guerra em Angola, as suas obras se aproximam também desta declaração? 

Sim, passámos muito tempo em guerra em Angola. Agrega-se a guerra às dificuldades do país, e também o percurso que não foi fácil, quando pinto creio que estes fatores acabam por sobressair. 

A escolha das cores, para além de ser uma consideração artística, conta uma história?

Sim, por acaso, gosto sempre de contar uma história. A parte das cores tem que ver com África: temos cores vivas muitos lindas. Cresci na aldeia, a luz do dia e a beleza das cores ficou em mim, quando pinto quero retratar na tela a beleza que eu vi e o meio onde cresci. Como aprecio contar coisas que acontecem na sociedade, ou naquele lado do mundo, acho melhor não só pintar, mas pintar para dizer algo, para contar uma história, para criticar, para elogiar ou para denunciar. É por isso que tudo o que eu faço tem um significado para mim.

Se eu estiver a pintar só uma paisagem, é bonita de se ver, mas não tem uma mensagem para transmitir às pessoas. Quando pinto quero transmitir uma mensagem ou educar ou informar. Picasso pintou “Guernica” para alertar sobre a guerra, o conflito e hoje podemos olhar para o quadro e lembrar o que aconteceu. Por isso, arte para mim é também trazer uma mensagem. Não sei se vou viver para sempre, todos nós temos um fim neste mundo físico. O artista pode morrer mas deixa as obras para transmitir uma mensagem do que aconteceu na época dele, por isso, gosto sempre de contar uma história. 

Pinta o que vê, o que sente?

Pinto o que eu vivo, o que eu sinto e também o que as pessoas sentem, o que acontece no mundo e o que acontece em Angola. Para mim, onde há o ser humano existe inspiração, tudo o que se move dá-me inspiração, não só o ser humano, mas também a natureza, os problemas ecológicos, os animais, tudo o que existe dá-me inspiração.

Como é ser artista angolano em Portugal? Tem encontrado oportunidades para divulgar o seu trabalho?

Desde que emigrei de Angola para Portugal que penso “Não estou no meu país”. Tenho de respeitar o que encontro aqui. Não estou na minha casa mas onde me deram oportunidade de estar, vivo aqui com muita gente boa e as oportunidades estão sempre presentes, quando a pessoa trabalha, quando se esforça e se dedica vão aparecendo. Temos de ser persistentes. Para mim Portugal foi uma porta aberta para avançar, ter mais público, mais expressões, espalhar mais mensagens e mostrar o que faço em relação às artes, tenho uma família que me apoia e pretendo aproveitar a oportunidade ao máximo pois esta é uma travessia.

Caso a situação política em Angola fosse diferente teria optado por emigrar?

Emigrei para Portugal pois em 2003 deu-se a inflação da moeda em Angola; eu perdi as minhas economias de anos e fiquei desiludido porque perdi tudo, não por besteira minha, mas sim culpa de cima. A inflação veio de cima e o povo é que sofreu isso. O povo sofre porque não tem tanto dinheiro como eles. Por acaso, esta foi também uma altura em que eu recebi um convite de uma galeria em Portugal para me representar, então decidi emigrar para poder estar presente em workshops e responder aos pedidos da galeria. Fui ficando, até hoje. 

Regressa muito a Angola?

Sim, regresso sempre que posso e para passar tempo com a família. Por acaso, os portugueses fizeram a mesma coisa, quando Portugal estava em crise, lá em Angola recebemos muitos portugueses e acho que é o ser humano. É tipo um peixinho procura onde há água. 

Esta exposição, “O Sistema”, quer falar um pouco sobre a escolha do nome?

Estivemos a refletir sobre quais as palavras que mais se usam em Angola, e o Sistema é uma delas. Quando o povo vai para levantar o dinheiro e não há dinheiro no banco dizem “não há sistema”; ou quando vamos fazer o cartão de identidade e de repente nos dizem “já não há sistema, volta amanhã”. Quando as coisas correm mal em Angola as pessoas dizem que é o sistema, o sistema é uma palavra muito pronunciada em Angola. Eu comecei a interrogar-me sobre o que era então o sistema. É uma pessoa? É um monstro? É uma mulher bonita? É um brinquedo? Mas quem é? Será anónimo? Então, surge daí. Ao observar esta coleção podemos contemplar e questionar sobre o que é O Sistema.

As obras que vemos aqui são todas um resultado desse questionamento. Chegou a encontrar uma resposta à sua pergunta? Afinal, o que é o sistema? 

Não quero responder. Essa é também uma pergunta para criar um debate e questionar por forma a causar uma reflexão, afinal andamos aqui a dizer a palavra “sistema” mas quem é o sistema? Uma coisa posso dizer, o Sistema é a qualidade de homem e mulher, a questão do poder, e deste se instalar em várias coisas, está presente nas nossas casas e acomoda-se em quase todos os lugares. Hoje em dia está estabelecido um sistema masculino que tenta impedir que a mulher exerça os seus direitos e liberdades. A quem nos dirigimos para resolver a questão do Sistema? 

Como encara a discriminação racial em Portugal?

Diria que existe racismo, que em Angola também existe. Se um europeu vai para Angola vê-se que tem uma pele diferente, no entanto, o que importa é aceitá-lo, é não discriminar.

Há alguns anos atrás recebi uma chamada da minha galerista com boas notícias, tinha acabado de vender alguns quadros da minha última exposição. Radiante com esta novidade começo a fazer uma dança de celebração enquanto me dirijo para o metro. É neste momento que ouço vozes, olho para trás e percebo que era a polícia, pararam-me porque estava a andar dançando; tive que mostrar a minha identificação e ir até à esquadra da polícia, isto aconteceu porque sou negro. 

Passado uns meses vi um europeu a dançar e a cantar no metro e estava ali livre, ninguém se metia com ele, ninguém o parou. São coisas que acontecem. Acho que onde há o ser humano sempre haverá problemas, é por isso que eu enquanto artista me sinto obrigado a pintar estas mensagens. Acredito que temos de procurar uma solução de forma pacífica, tranquila e sem ferir ninguém. Existem muitos ativistas que lutam diariamente pelos direitos humanos consegui testemunhar isso numa manifestação recente.

Encara a Arte como um instrumento de luta?

Sim, basta levar isto a outros portos, podemos fazer livros para educar as pessoas; documentários; exposição de pintura ou escultura; workshops ou seminários que abranjam arte; realizar discursos para educar, informar e formar toda a gente. Eu digo sempre que arte é uma maneira pacífica de passar uma mensagem, as crianças e os jovens podem ser formados através das artes. Podemos usar a banda desenhada para cativar os mais jovens.

No entanto, a pessoa também tem de ser curiosa e procurar a informação, porque ela existe, temos bibliotecas, temos catálogos que contêm informação acerca de arte africana. Esta acaba por ser uma questão política: se um grupo de artistas trabalhar sobre isto e fizer barulho, expuser e arquivar os seus trabalhos, estes serão preservados e difundidos em maior escala. Existem muitas maneiras de informar, por exemplo organizar uma exposição destas, com um texto curatorial, que neste caso foi escrito pela Katherine Sirois. A arte tem sempre a capacidade de passar a mensagem e educar.

A exposição de Cristiano Mangovo pode ser vista na Galeria .Insofar até 30.04.2022.

Fotografias da autora.

por Alícia Gaspar
Cara a cara | 7 Fevereiro 2022 | angola, arte, cabinda, cristiano mangovo, cultura, expressionismo figurativo, galeria insofar, o sistema