Uma questão de... lixo

Há uns tempos, estava eu numa conversa super-filosófica com uma pessoa que abominava o lixo em Bissau. Ela, com a convicção de quem nasceu sem os fluídos da mãe, mas todo limpo e perfumado, decretou: “os guineenses são sujos. atiram lixo para todos os lados.”

Foi tão convincente e solene que não pude não concordar… mas só com uma parte, a de atirarmos o lixo para o chão. pois a maioria de nós sofre de uma condição médica raríssima, um cruzamento entre Parkinson e lei da gravidade versão “mana, deixa cair tudo”. por exemplo, alguém está no carro a beber um sumo e de repente a estrada atrai a lata (invariavelmente sempre que fica vazia), e essa pesssoa quase hipnotizada vê a sua mão a acompanhar involuntariamente o movimento da lata a voar pela janela do carro.

Agora, quanto à primeira parte, a de que “os guineenses são sujos”… pelamordideus, figas canhotas, não! Sujos? Então como é que todas as manhãs vemos miúdos dobrados a varrer a morança, os quintais e a “porta da rua”? Às vezes varem com tanto afinco que a poeira parece o filme velocidade furiosa na estrada de Cuntum Madina. Depois é queimar o lixo no meio da rua ou atirá-lo para a valeta mais próxima, de preferência mais para o lado da casa do vizinho. É uma espécie de partilha. Depois, o guineense esmera-se a vestir sempre que sai da casa, alguns até têm o superpoder de andar de meias brancas e chinelos, todo estiloso a “bater” tipo djonkis, deslizando pelo chão poeirento ou enlameado de Bissau, mas quando tiram os chinelos… meu deus!, as meias continuam mais imaculada que a reputação de Jesus Cristo. Futseros da limpeza, até a poeira os evita. Outros calçam sapatos de couro sem meias e não cheiram a chulé. Alguns enfiam-se num fato-forrado com gravata e nem transpiram. Só nos toka-toka é que por vezes se ouve alguns sovacos indignados pela falta de limão. 

O problema não é sermos sujos, não somos. Aliás, o guineense produz muito menos lixo que um europeu. Quando fazem uma greve de limpeza em Paris, em três dias a cidade parece uma lixeira, eles produzem toneladas de lixo, pois consomem mais. A cena é que nas europas eles têm um sistema de desaparecimento de provas muito mais evoluído. Até os tribunais sabem disso. Tudo o que é lixo é varrido para debaixo do tapete, ou melhor, para dentro de contentores e camiões e aterros sanitários, longe da vista, boa parte até é exportada para as áfricas.

Aqui na Guiné, não. Aqui a coisa é mais… vá lá, transparente. Pode-se fazer um curso de arqueologia só a andar pela rua. Vês uma camada de plástico, dás um “pantapé” ou escavas um bocadinho e… Olha! Um saco kuduru!, início de 2000, com certeza. Mais abaixo, encontras um saco azul leve, fino, anos 90. Um pacote de Camel, 80 então. As nossas ruas são um livro aberto de consumo, só que mal escrito.

Não há recolha de lixo, tirando em algumas zonas na praça e nos mercados. Então, as latas, garrafas e plásticos vão-se acumulando, fazendo fudju-fudju. Camadas e camadas, chapéu em cima do chapéu. Cebola. São décadas de acumulação progressiva. 

Não somos sujos, só vestimos o hábito. Para os nossos avós, o conceito do lixo não existia. O lixo é uma criação europeia, nascido da revolução industrial. Havia o muntudu, ou monturo. Atiravam-se para lá as cascas, os restos de comida, as entranhas do porco, etc. O jagudi passava lá e fazia a limpeza, o sol e a areia tratavam do resto. Cuspia-se no chão, a areia engolia, mas alguns ainda não perceberam que o cimento não absorve tanto. As crianças cagavam ao lado da casa, vinha o porco e limpava as evidências, eu sei disso por experiência própria. A minha mãe obrigava-me a usar a sanita, mas os porcos eram muito amigos. Ela dizia que não era saudável, porque depois comeria o meu próprio cocó da carne de porco. Mas, duvidava, erámos muitas crianças, como ela saberia que era o meu cocó?… Enfim.. Deitava-se casca de manga ao chão e viravam adubo em semanas. As moranças eram varridas e ficavam limpas, mas o resíduo era orgânico e biodegradável. A natureza funcionava como uma grande empresa de limpeza. Não era lixo, no sentido moderno do termo. 

A maior parte de nós foi criada à sombra dessa sabedoria dos nossos avós e pais, que cresceram no regime do muntudu. Para eles era “do pó veio ao pó voltará”, atiravam tudo para o chão e continuam a fazê-lo. A diferença está entre a expressividade de uma casca de manga num terreno baldio e num pavimento de cimento. Foi a linguagem de muntudu que aprendemos e praticamos, sem notar que está bem desatualizada para o mundo do plástico. 

Nas Europas, eles já lidam com o lixo industrializado há séculos. Tiveram tempo para criar caixotes coloridos, lixo em sete sabores: óleo, plástico, eletrónico, papel, vidro, orgânico e… andré ventura. Multa para quem cuspir no chão ou enganar-se no caixote, mas prémio para quem cortar Amazónia, escavar o Congo ou bombardear Palestina. Tiveram tempo para lidar com o lixo, sabem fazê-lo, nós ainda nem com a democracia conseguimos lidar, apesar de pagarmos imposto da democracia… agora imagina com o lixo. 

O lixo moderno veio com os tugas, e não saem nem por nada. Teimosos como tudo. Não desaparece se não for tratado… estou a falar do lixo, os tugas não me chateiam. A Câmara de Bissau (CMB) também anda a aprender com os europeus, então leva o lixo para bem longe da vista, limpa-se Bissau e os resíduos vão de camião para Safim, para aproveitar a autoestrada de oito quilómetros, e é atirado, contaminando canais de água que passam por bolanhas. É só uma questão de logística: Bissau, cidade limpa. Safim que se lixe. Antes era em Antula, quando este era “o fim do mundo”, agora que Antula é Bissau, o lixo é que tem de se pôr a andar. Gentrificação lixuosa. 

Se existissem autarquias, talvez o Safim pudesse recusar ser o quintal de Bissau. Mas, até lá, é usar a autoestrada, as meias brancas e a pontaria para a valeta do vizinho. Talvez se tratarmos o lixo como tratamos a democracia, a Guiné-Bissau seria o país mais limpo do mundo, porque a democracia desaparece sempre depois das eleições.

por Marinho de Pina
Vou lá visitar | 6 Junho 2026 | Guiné Bissau, lixo