O primeiro filme de ficção de Mariano, feito em Cuba no âmbito dos seus estudos na aclamada escola de cinema de Santo Antonio de Los Baños. O filme adapta o conto “The Killers” de Ernest Hemingway, onde o vemos como uma espécie de crónica de uma morte anunciada numa vila cubana sombria e melancólica. Um pugilista experiente, ciente do encontro marcado com um destino fatal, afasta da vila a amante e um pupilo para que estes se livrem do perigo que podem estar envolvidos. Tudo o que ele quer é o sossego de “um lugar limpo e bem iluminado", diz, às tantas, e ter paz para quem sabe “aprender a tocar um instrumento”. O lugar onde está, já não é esse lugar. Espantoso trabalho de fotografia de Carlos Arango, que pontuado pelo maravilhoso trompete de Julio Padrón, mais a concisão narrativa e destreza visual impregnada pelo então jovem realizador, fazem deste filme algo para além de um “filme de escola”.
Afroscreen
07.09.2026 | por Victor Hugo Lopes
O Militango foi um poema que o meu pai escreveu para um espectáculo concebido e encenado por ele, com o mesmo título, em 2000/2001, para o Grupo Teatrova, e que estreou no Santiago Alquimista. No espectáculo Militango, a dança, a música e a poesia entrelaçavam-se num todo, tendo como linha condutora vários tangos, com destaque para a obra de Astor Piazzolla. Contava com dois bailarinos, Guilhermo e Elina; dois músicos, eu na guitarra, nos arranjos e na produção musical, e José Rui Fernandes na flauta; e Paula Freitas como actriz e na produção. O poema musical Militango encerrava o espectáculo.
É importante destacar que, na viragem do milénio, o pano de fundo era o triunfalismo ocidental perante a queda do bloco socialista e a guerra dos Balcãs, que fez regressar o espectro da guerra à Europa. Seguiram-se a queda das Torres Gémeas, a Guerra do Iraque e tudo o que estes acontecimentos significaram e tiveram como consequência. Entre outros números que integravam o espectáculo, estava o poema de Borges Milonga de dos hermanos, que termina com a ideia de que é a história de Caim, que ainda hoje continua a matar Abel.
Palcos
02.09.2026 | por Adolfo Gutkin
A pátria é o lar, a família e muito mais que isso. Pátria para os cubanos significa terra, significa história, significa o sangue de milhares de pessoas que entregaram tudo para a construir, há mais de dois séculos. Somos filhos de uma pequena ilha situada a apenas 150 quilómetros da maior potência mundial. Como povo, sempre nos foi difícil darmo-nos bem com os governos dessa potência. E tudo piorou a partir de 1959, quando este povo decidiu seguir o seu próprio caminho, afastando-se das «maravilhas» do capitalismo. Neste julho escaldante, Cuba parece colapsar. As sanções do poderoso vizinho estendem-se a todos aqueles que queiram fazer negócios com a ilha ou investir nela. Centenas de bancos foram penalizados por realizarem transações com empresas cubanas.
A ler
13.08.2026 | por Carlos Padrón Montoya
Os progressos da revolução estavam à vista e eram inegáveis. Desde logo na educação, na saúde, no combate à miséria e no entusiasmo popular. E a admiração de todos os que, pelos cinco continentes, ansiavam por uma terra sem amos era cada vez maior. Por isso mesmo, desde os alvores da libertação, Cuba tornou-se um alvo privilegiado dos donos do mundo, em particular do imperialismo norte-americano.
Vou lá visitar
13.08.2026 | por José António Cerejo
Penso nas pessoas talentosas que não têm acesso aos holofotes do mundo e que, no seu quartinho à noite, inventam músicas ao violão, e que por vezes em cima de escombros e entulho, ou entre paredes partilhadas com famílias inteiras, esboçam a lápis a sua visão. Que por falta de dinheiro, saúde, ou oportunidade, jamais terão uma plateia. Que paisagens percorrem as suas mãos quando tateiam o escuro? Que navios e estrelas, fogueiras e catedrais povoam os seus sonhos neste preciso momento? E penso nestes macacos que observei, fêmeas que migram e vagueiam durante anos isoladas na floresta, a quem foi roubado o direito de ter uma família. Com o consolo de saber que a natureza é a verdadeira guardiã do tempo, será somente ela a trazer a lava para cobrir as mãos, e a fazer vingar de novo o verde sobre o asfalto.
Mukanda
12.11.2025 | por Rita Brás
O ângulo morto da negritude/branquitude enquanto binómio estrutural para se pensar a chamada «cultura ocidental» e a organização da vida social que impõe. Verdadeiramente, não é o problema da raça que se torna complexo. É antes – e, volte-se a sublinhar, por recurso a um dispositivo poético potentíssimo – o problema do trabalho que se complexifica. E complexificando-se o problema do trabalho, complexifica-se, para os revolucionários, o problema da revolução.
A ler
13.05.2025 | por Fernando Ramalho
Abro pela primeira vez os arquivos que ele me deixou, sem saber o que vou encontrar e aquilo que talvez tenha perdido todos esses anos. A ideia é descobrir, a cada crónica, um pouco mais sobre a vida deste que foi provavelmente o projecionista angolano que conheceu mais cabines de cinema a nível internacional que, em 1981, fez uma viagem com a delegação angolana à Alemanha de Leste e desapareceu.
Afroscreen
24.01.2024 | por Fradique
Realizador guineense da geração de Flora Gomes, estudou cinema em Cuba, filmou a guerrilha do PAIGC, foi director no Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual da Guiné-Bissau, e tem-se esforçado por resgatar e arquivar as imagens da luta de libertação, nos últimos 13 anos com a artista Filipa César com quem colabora em projectos artísticos e de intervenção. Fez de tudo para filmar, quase sempre em baixo orçamento, e caminhando quilómetros para ir buscar e mandar revelar película. Conta-nos a importante missão que Amílcar Cabral lhes delegou e como foi, a meio do processo, saber a esmagadora notícia do seu assassinato. Calhou-lhe como primeiro trabalho filmar Amílcar Cabral numa exposição em Conacri, em 1972, e depois a transladação do seu corpo para Bissau, capturando a comoção dos guineenses pela morte do melhor pensador e líder da resistência anticolonial. No encontro essencial com Chris Marker e Sarah Maldoror e, mais recente, com Filipa César, percebe que é possível trabalhar mais autonomamente.
Cara a cara
01.03.2023 | por Marta Lança
É preciso defender o património cultural e reconhecimento a todos os agentes culturais espalhados pela diáspora que fazem o trabalho de documentar e de promover o nome de Angola num espaço global e digital enquanto, ironicamente, em Angola e em Portugal, as danças “sociais” da diáspora africana ainda são vistas como algo apenas recreativo, com baixo teor artístico, e não algo que possa ser valorizado, documentado ou apoiado financeiramente.
Palcos
15.06.2021 | por Iris de Brito
No nosso destacamento estávamos responsáveis por assegurar a proteção de membros dos mais altos cargos do governo, incluindo o presidente Fidel Castro. Campanhas e reuniões governamentais, missões diplomáticas e controlo das saídas e entradas do país eram alguns dos nossos compromissos. Trabalhávamos em sintonia com a Polícia de Segurança Nacional. Muitas das nossas missões tinham um caráter confidencial, mas posso dizer que tanto podíamos operar quer em Cuba quer no estrangeiro, como foi o meu caso em Angola, onde trabalhei durante dez anos.
Cara a cara
20.05.2021 | por Álvaro Amado
Espero que esta carta te encontre de boa saúde, a gozar a juventude em toda a sua plenitude, que nunca madures e que continues sempre cheio de ideais nobres de uma mudança que valha o seu nome, pois, meu caro, da forma como isto anda nesta banda, esta demanda de mudar o mundo está cada vez mais a ir para o fundo e eu acho, meu caro revolucionário que, neste caso, ao contrário do que proclamamos, o problema somos nós. Pois…
Mukanda
05.03.2021 | por Marinho de Pina
Nas pichações nos principais pontos turísticos de La Ruta del Che, frases e siglas fazem referências a diversos movimentos estudantis latino-americanos, ao Exército Zapatista de Libertação Nacional, ao MST, entre tantos outros, indicam um mundo em constante disputa. A imagem que se entrevê do futuro da América Latina não poderia estar mais distante da de um mar de calmaria.
Vou lá visitar
19.02.2018 | por Fábio Zuker
A escritora e investigadora fala sobre a relação entre Angola e Cuba durante o período de guerra e no pós-independência, a propósito do seu livro "Identidade Cubana e a Experiência Angolana", um estudo cultural sobre a missão cubana em Angola. Nascida na Guiana, cresceu no Reino Unido e viveu muitos anos nos EUA. Atualmente pesquisa “Angola no Atlântico Africano” e Lisboa no movimento artístico africano de língua portuguesa.
Cara a cara
27.11.2015 | por Miguel Gomes
Cinco de Novembro de 1975 marcou o 132º aniversário da rebelião dos escravos da plantação de açúcar Triumvirato, na província de Matanzas, liderada por uma mulher africana escravizada chamada Carlota. Num dos primeiros actos da sua campanha de libertação, Carlota, acompanhada pelos seus capitães, dirigiu-se a outra plantação, Arcana, na qual um conjunto de co-conspiradores se encontravam detidos no seguimento de uma revolta ali ocorrida em Agosto do incendiário Verão daquele ano, quando os africanos e seus descendentes se ergueram contra os seus escravizadores por toda a província.
A ler
24.11.2015 | por Christabelle Peters
Há mais para além da tríade “sexo, palmeiras e regime” quando se fala de literatura em Cuba. E os escritores só querem fugir desses clichés.
A ler
22.06.2012 | por Raquel Ribeiro
"Cartas de Angola" é um filme sobre o que foi a presença dos cubanos em Angola. Angola nunca aparece fisicamente e é apenas uma referência na capacidade de evocação dos cubanos. Ou seja, o que eles se lembram do que foi a passagem por Angola. Ouvir esses cubanos falar sobre Angola, lembra, às vezes, pessoas acabadas de acordar que contam os seus sonhos ou pesadelos. É intenso.
Afroscreen
24.10.2011 | por António Tomás
A Regla Conga é uma prática tribal e animista, e uma das religiões secretas que se praticam em Cuba. Guiada por um dos tatas mais respeitados do bairro Buenavista, Carla Isidoro viveu a experiência da religião maldita, também conhecida por Palo Monte.
Vou lá visitar
19.07.2010 | por Carla Isidoro