Na boca da unidade
Se a unidade africana se fizesse em torno de um prato, qual seria a sua composição, que sabores teria, que novas histórias se conheceriam e que possibilidades surgiriam?
Em 2020, a UNESCO classificou o couscous como património imaterial da humanidade. O dossier multinacional foi apresentado por quatro países africanos — Tunísia, Argélia, Mauritânia e Marrocos — que sempre disputaram a paternidade (não seria melhor maternidade?) do prato. Confecionado geralmente à base de sêmola de trigo, o couscous apresentado no dossier possui, contudo, muitas outras versões e modos de fazer. As rotas deste prato não se fecham apenas naquela região do Norte de África.

Em Cabo Verde, o kuskús, feito tradicionalmente à base de farinha de milho, é parte da identidade nacional. Num binde de kuskús encontramos toda a história do arquipélago. O binde, o pilão, o balaio são, portanto, arquivos que contam e ganham vida quando ativados por outros arquivos vivos — e aqui refiro-me àquelas que confecionam: as nossas mães, avós e tias, cujos saberes gastronómicos merecem justiça cognitiva. Graças a uma irmã, filha daquelas terras de Pindorama, vulgo Brasil, percebi que o cuscuz (são interessantes as diferentes formas de escrever) é também um prato que circula, carregando um forte peso identitário e, curiosamente, muitas semelhanças com aquele que é confecionado em Cabo Verde. Há aqui evidências “fumegantes” de incontestáveis rotas de circulação no Atlântico panafricano.
Nesta espiralidade, a interessância do kuskús está tanto nas histórias que ainda tem para contar como nas possibilidades de confluência que nos permite vislumbrar e especular. Creio que faltou, no dossier apresentado, o reconhecimento de que este prato possui muitos berços, todos eles com o mesmo parentesco continental africano. Parafraseando Ngũgĩ wa Thiong’o, cada canto da nossa língua guarda uma parte da memória comum.
Fazer uma história da unidade africana a partir da língua, do músculo, deste órgão que sente e experimenta, é reconhecer o potencial do corpo na sua totalidade: da planta dos pés aos intestinos, passando pelo pulmão até à boca, onde se mastigam matérias orgânicas e gramaticais.
Pensar a comida, os alimentos e a gastronomia no processo de unificação do continente é permitir também a nossa humanização, a fertilização da nossa capacidade criativa e inventiva e uma fraternidade mais genuína, porquanto a comida é uma escola de sinceridade.
É muito citada a frase de Kwame Nkrumah: “Seek ye first the political kingdom, and all other things shall be added unto you.” De facto. Mas o que é a política? Apesar de ouvirmos muitas vezes dizer que “tudo é política”, muita coisa — como a comida, os alimentos e a gastronomia — parece continuar fora, ou nas margens, das discussões sobre “políticas”. A este respeito, é interessante o que Amílcar Cabral diz: “o povo não luta por ideias, por coisas que estão na cabeça dos homens. O povo luta e aceita os sacrifícios exigidos pela luta, mas para obter vantagens materiais, para poder viver em paz e melhor, para ver a sua vida progredir e para garantir o futuro dos seus filhos.”
Não se trata de uma mera “política do ventre”, mas sim de trazer o ventre para o centro da política e, por conseguinte, abandonar o olhar condescendente que temos sobre o povo. Mudar o nosso olhar sobre a comida, os alimentos e a gastronomia — esses “objetos políticos não identificados” — e procurar a nossa história a partir deles ajudar-nos-ia bastante nesse processo de libertação e unidade.
Kuskús di midju téra, di pilon, fumu ta baza, kuskús ku kufongu: um simples prato, feito por pessoas simples, e nele toda a materialização do pensamento, a prova mais bela do génio criativo das nossas gentes em contexto de escassez. Mais do que tudo, representa a abundância como manifesto contra as fomes coloniais.