Eu, cabo-verdiano, analfabeto me confesso: porque escrever um povo não é erguer uma Torre de Babel

Para quando uma campanha nacional de alfabetização em língua materna?

Nem toda a utilização da língua cabo-verdiana conduz, por si só, à sua dignificação. Valorizar uma língua implica tratá-la com seriedade e responsabilidade, sobretudo quando se está em contextos institucionais ou artísticos, onde a comunicação atinge quase sempre um grande público.

Digo mais: Ser falante nativo de uma língua não significa, automaticamente, saber escrevê-la bem. Da mesma forma, nem todo nativo é um especialista linguístico. Tal como acontece com qualquer outra língua do mundo (português, francês, inglês, mandarim, etc.), a competência na escrita exige algo tão elementar como aprendizagem e contacto básico com normas. Sem esse processo, podemos estar a produzir textos cheios de inconsistências, interferências artificiais de outras línguas e erros sistemáticos, o que acaba por reduzir a língua de que tanto nos orgulhamos a uma caricatura, quase um “protocrioulo”, ou aquele “português mal escrito” que amiúde ouvimos dizer.

Escrevo isto porque tenho visto instituições públicas a divulgarem textos e artistas a escreverem canções em língua cabo-verdiana com erros básicos de grafia que revelam uma forte influência do português, quando existe todo um manancial de instrumentos a que se poderia recorrer. Muitas vezes, a própria oralidade de conhecidíssimas personalidades públicas aproxima-se de uma formulação aportuguesada, como se isso conferisse maior “prestígio” ao discurso, enquanto falar um “crioulo fundo” é, não raras vezes, visto com um certo desdém zombeteiro. Esta situação, visível também em certos espaços de comunicação social, é sobejamente problemática, pois passa a ideia de que a língua cabo-verdiana não precisa de rigor e que qualquer forma serve. É frequente ouvirmos o argumento de que “cada um escreve à sua maneira”. Nada mais falacioso: o processo da escrita de qualquer língua exige sempre estudo e cuidado. E o campo da linguística em Cabo Verde é, talvez, dos mais fecundos em termos de produção científica. Este pensamento anárquico em relação à língua acaba por obliterar toda essa produção de conhecimento denso, como se ela não tivesse qualquer utilidade prática na vida social.

 Pieter Bruegel, o velho, c. 1563 Pieter Bruegel, o velho, c. 1563

É sabido que toda a língua, sendo viva, muda, adapta-se e deve partir das práticas reais dos falantes. Mas essa vitalidade não significa subordinação ou mimetização de outros sistemas linguísticos. Quando expresso esta preocupação sobre o “desastre que é a nossa escrita”, oiço muitas vezes argumentos românticos sobre o “dinamismo das línguas” que, na verdade, escondem um relativismo cómodo e folclorizante e ignoram os processos políticos em torno de uma língua nascida em contexto colonial e que ainda luta para ocupar pleno espaço na “nação escrita”.

É certeira a leitura de Eleutério Afonso quando afirma que a formação intelectual em língua cabo-verdiana precisa de ser convertida em saber ensinável, um conhecimento a ser transmitido a todos, a partir de um currículo estruturado e de dispositivos pedagógicos consistentes. Sinto, cada vez mais, a urgência deste processo.

Importa dizer que defender uma escrita canónica ou mais “coerente” da língua cabo-verdiana, considerando todas as suas variedades (e as aspas aqui não são mero adereço), não significa impor um padrão glotocida, nem adotar o mesmo tipo de purismo elitista característico de certas instituições associadas às línguas imperiais, como a Academia Francesa ou algumas imposições normativas do português europeu. A nossa realidade é outra. Estamos num processo de disputa pela dignificação da nossa língua como instrumento de construção de conhecimento complexo, e não como mero folclore no sentido mais restrito do termo.

Esta luta passa pela criação de condições para que a língua real, plural e viva dos cabo-verdianos possa ser escrita e ensinada de forma coerente, consistente e rigorosa. Tierno Bokar, citado por Amadou Hampâté Bâ (1980), dizia que a escrita é a “fotografia do saber” de um povo. Mais do que uma cápsula do tempo,  e longe de ser um dispositivo petrificante a escrita, enquanto  “fotografia viva”, é o que permite ao saber sobreviver, circular, acumular-se e tornar-se património comum. Escrever tem sido, talvez, a mais radical das tradições de luta africana contra os impérios cognitivos. Aproveito para lembrar que é equivocada e problemática, para não dizer profundamente colonial, a tendência de sublimar a oralidade africana em detrimento da escrita, como se esta não lhe pertencesse. As línguas africanas também precisam ocupar plenamente o espaço da escrita com toda a legitimidade. Reconhecer a profundidade dos conhecimentos orais implica também dar-lhes forma escrita, coerente e erudita, para que a complexidade já existente na língua não se perca nas engrenagens glotocidas.

A nossa vantagem em Cabo Verde é que, ao contrário das línguas patrimonializadas pelas elites literárias do Norte Global (patente em expressões como “a língua de Camões”, de Shakespeare ou de Molière, etc.), a língua cabo-verdiana não tem título de propriedade: é, tão só, a língua do povo cabo-verdiano. Por outro lado, e ainda mais interessante, a meu ver, muitas das suas formas mais eruditas foram e têm sido preservadas por pessoas mais velhas que nunca passaram pela escola formal. Ou seja, no nosso contexto, o saber linguístico mais rico não é monopólio de uma academia eurocêntrica, e qualquer processo de padronização ou didatização desta língua precisa de fazer justiça às gentes com quem essas elites têm muita dificuldade em dialogar de forma horizontal. A este propósito, não será exagero dizer que é também no plano linguístico que se pode ainda operar uma parte decisiva da grande descolonização cognitiva de Cabo Verde e das suas elites. E talvez não seja abuso de linguagem retomar aqui a ideia de um certo “suicídio de classe” no plano linguístico.

Hoje, cinquenta anos depois da independência, em que a língua materna teve um papel pedagógico e mobilizador fundamental, valorizar o cabo-verdiano passa por assumirmos a responsabilidade de perguntar, sobretudo quando comunicamos para o grande público: o que estou a escrever está conforme? Respeita minimamente as convenções existentes? Contribui para fortalecer ou para fragilizar a língua? Como posso escrever melhor e enriquecer, a partir da nossa própria fonte, com matérias endógenas, esta língua nossa, o cabo-verdiano?

Neste meio século de existência enquanto Estado soberano, precisamos, o quanto antes, de uma campanha nacional de alfabetização  e de políticas linguísticas situadas para artistas e funcionários públicos. A forma como se escreve informa e forma. No caso dos artistas (o que motivou a escrita deste texto), é preocupante ver letras de músicas escritas de tal modo que, se fossem em português, seriam imediatamente apontadas como um erro grotesco e vergonhoso, mas que, por serem em cabo-verdiano, passam sem questionamento. É certo que a arte é um lugar de liberdade estética,  não contesto. Mas a arte é também política e, como tal, um lugar de influência. E influência traz responsabilidade.

Eu, cabo-verdiano, analfabeto em processo de aprendizagem, me confesso, porque entendo que uma língua só se torna plenamente nossa quando conseguimos habitá-la por inteiro, na fala, mas também na escrita. Para construir esse edifício linguístico comum, precisamos de um novo djunta-mô, e o papel dos artistas é aqui de suma importância.

Parafraseando Sékou Touré, não basta que o artista cante uma canção que fale da soberania popular; é preciso escrevê-la. A forma gráfica da sua composição deve também refletir essa soberania.

E volto a partilhar este desejo: que um dia o hino nacional seja entoado na língua materna e, já agora, por que não, ao som do batuku.

OXALÁ

 

 

por Apolo de Carvalho
A ler | 23 Fevereiro 2026 | caboverdiano, língua