Armas sine qua non - parte 1. uma genealogia do poder

a invenção da nação e o mito do poder popular

Entende-se hoje a nação como uma organização “civilizada” (na acepção colonial romana de civitas) e estruturada, onde o poder é do povo.
A Revolução Francesa trouxe a ideia da nação como conjunto de pessoas dentro de um território que vive sob a mesma lei, firmando-se na noção de que o poder era do “povo”, para depois, à semelhança do exemplo grego, o povo ser apenas um punhado de gente: homens com propriedade e alfabetizados. A monarquia caiu, é verdade… até voltar. A ideia do poder divino passou para representação nacional e popular. Mas os sans-culottes foram perseguidos.
A Revolução Haitiana, anterior à francesa, que reclamava igualdade para todos, sem senhores, sem escravos, foi sequestrada e amordaçada pela Revolução Francesa, porque isso de todos os homens serem iguais não é lucrativo nem conveniente para a produção e a acumulação. Veio depois Napoleão e… bora lá criar um império. Mas isso é outra história.
O entendimento da nação desenvolveu-se para o que temos hoje, onde a liberdade e a igualdade formalizadas são aceites como ponto central da “civilidade” institucional. Digo assim porque as igualdades reais – materiais e sociais – continuam mitos. A nação concentra-se numa representação vertical e acaba por ser uma substituição da monarquia, dos reinos e dos impérios, ainda que muitas nações continuem a contemplar monarquias e reinos. O Reino Unido é uma delas. O Japão ainda tem um imperador.

 

o Estado como monopólio da violência e instrumento de extração

Entram aqui separações como nação, Estado e país. Enquanto que a ideia da nação envolve identidade, cultura ou história (há nações sem países: curdos, romanis, fulanis, etc,), o Estado é uma organização política soberana que governa um país, em relação com outros Estados. Já o país é um território com fronteiras e governo, que pode coincidir ou não com um Estado soberano.
A estrutura política tirou o poder da monarquia e, teoricamente, entregou-o ao povo. Mas o povo não governa diretamente. Apenas escolhe, ciclicamente, quem governa em seu nome. Entretanto a configuração permanece quase a mesma: rei mudou para presidente, chanceler (primeiro-ministro), duque (presidente da câmara), conde (presidente da junta), visconde (vereador) e corte real (parlamento).

Três coisas se mantêm iguais: i) uns poucos a governar muitos, ii) os impostos que afetam mais os pobres e iii) a estrutura militar que sustenta o poder. E esta terceira é decisiva para a formação dos Estados.
Desengane-se quem achar que os países ou nações nasceram de abraços coletivos e festas à volta da fogueira, invocando os ancestrais. O mais provável é nascerem de traições, invasões e dominações. As nacionalidades foram criadas com apagamentos do coletivo em nome de uma única cultura e identidade. As nações são resultados da força: de quem mata mais rápido e se aguenta mais tempo a fazê-lo.

Não se chega a um “contrato social”, como Rousseau fala, mas apenas à alienação mesmo. Ao medo. Hobbes descreve o Estado (Leviatã) algo como uma necessidade para escapar da guerra de todos contra todos. Weber (A política como Vocação) fala que o estado é uma comunidade humana que controla com êxito o monopólio do uso legítimo da violência. Para Engels (A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado) o Estado nasceu do excedente agrícola e da propriedade privada. Charles Tilly, (War Making and State Making as Organized Crime) mostra que os estados se formaram como máfias bem-sucedidas, usando guerra, extorsão e proteção como negócio. Basicamente “a guerra fez o Estado, e o Estado fez a guerra”.

Resumindo, a ordem não surgiu de um acordo, mas de uma imposição que, com o tempo, se vestiu de legalidade.

 

guerra, acumulação e a formação das ordens políticas

Podemos imaginar uma genealogia do poder político em quatro fases.

Primeiro, a agricultura criou excedentes que valia a pena proteger… ou saquear. Quem lavrava melhor aliou-se a quem lutava melhor, o protetor, para se garantirem mutuamente e afastar os saqueadores. Depois, o protetor trouxe mais lutadores e criou um exército. Escalou a proteção em troca de tributos (impostos). Lavrador que não quisesse ser protegido via as suas culturas destruídas pelo próprio protetor, como faz a máfia… ou o Estado. Aqui nasce a lógica do imposto como “proteção”. Mais tarde, chefes vizinhos entraram em conflito por terras e recursos. Guerras, alianças e conquistas formaram unidades políticas maiores. As pessoas aceitaram pagar aos guerreiros para terem paz.
Por fim, o poder tornou-se hereditário. Criaram-se monarquias, aristocracias, generais e burocracias. Uma classe dominante institucionalizou-se, controlando a economia e a violência. Quanto mais produção, mais necessidade de expansão. 

 Ao partilhar o mesmo espaço, também se criou identidade e cultura; outras vezes esses elementos foram impostos pelos conquistadores. O povo passou a lutar não apenas pela família, mas pelos seus símbolos, identidades e culturas. O povo pagava impostos e obedecia. Quando vinha um estranho a prometer menos impostos, e melhores inimigos comuns, alinhava-se ao estranho, porque sabia que nunca deixaria de ser dominado.
Esta reconstrução é meramente ilustrativa, mas realça como a monopolização da violência e a extração de excedentes foram centrais para as hierarquias políticas duradouras. Sem exército não há Estado. Sem armas não há poder.

 

identidade, cultura e a mobilização simbólica para legitimar o poder

O primeiro exército defendia celeiros e aldeias, mas depois percebeu que podia também agredir. A agressão escalou-se: de casa para aldeia, desta para cidade, para reino e para país, tudo se expandiu pela força. Quanto maior a acumulação, maior a necessidade de extração e maior a expansão: domínios e mercados. Usou-se tudo para mobilizar massas: cultura, língua, deuses, fé, futebol… tudo. Pode-se dizer que todos os países nasceram assim: da violência, dominação e apagamento, sempre com o nome de pacificação: Pax Romana, Pax Britannica, Pax Americana, Pax de Cristo. A “paz” é um negócio. Os gastos militares globais explodem. Para pacificar é preciso exército, uma força armada mobilizada ou pelo pão, ou pela fé, ou pela ideologia ou à força.
Apenas os países africanos, claro, não nasceram da violência. São exceções, porque os nossos ancestrais… Ahhh! Estava a brincar.

Os países africanos foram criados numa sala em Berlim, mas com sangue, dos outros. Alguns foram independentizados, também com sangue. Outros estão a ser oprimidos pelos mesmo que os independentizaram, também com sangue. A Guiné-Bissau não foi diferente. Cabral mobilizou pessoas e partiram para a guerra. Não foi uma união espontânea dos povos contra os tugas, foi um projeto, um processo político e militar.

Os grandes impérios e reinos africanos também foram processos de violência, dominação e assimilação. Na Bíblia, o próprio Deus ordena aos hebreus que matem à espada os cananeus, inclusive os seus animais. Era prática comum. O medo facilitava a submissão e fazia tremer os vizinhos. Hoje a América faz o mesmo, mas ao menos fica com o petróleo e o gás.

Nas terras daqueles que inventaram os países, fala-se hoje de nação multicultural, mas a própria ideia da nação é tão anti-isso, porque nasceu e estabeleceu-se dentro de um conceito de homogeneização: uma língua, uma cultura, uma história oficial e uma identidade construída contra os “outros”. Por isso, existem nações sem países.

Durante séculos, o patriotismo foi ensinado, religiosamente, como dever moral através da escola, dos símbolos e das narrativas nacionais. Amar a bandeira, amar os heróis nacionais, significava proteger a pátria amada da diferença. Quando agora se pede convivência plural, isso entra em choque com gerações de doutrinação identitária. Os exemplos são claros: todos os países falam de integração à sua cultura, e tensões xenófobas e ódio pelo diferente instalam-se em todos eles. Não é uma coisa apenas dos nossos tempos, é política, histórica e psicológica. Tenta-se inserir diversidade num conceito concebido para a uniformidade e rompe-se a costura. Por isso, talvez o verdadeiro desafio não seja tornar a nação multicultural, mas repensar radicalmente o próprio conceito de nação.
Observo, no entanto, que ao contrário desses países que hoje procuram reinventar-se sob o rótulo da multiculturalidade, a Guiné-Bissau não precisa de aprender a ser diversa: ela nasceu assim. A convivência entre dezenas diferentes povos, línguas, costumes, e religiões, não é um projeto recente, é a única coisa que o país não precisa de importar, ou copiar. Um território pequeno em dimensão, mas imenso em diversidade humana. Essa pluralidade é quotidiana. É verdade que a solidariedade tem vindo a minguar, pressionada pela instabilidade política e pelas desigualdades crescentes. Ainda assim, ela continua a ser uma das maiores riquezas do país. Em poucas partes do mundo se encontra tamanha variedade cultural em convivência, com tão poucos conflitos identitários. Essa paz social não nasce da perfeição, mas da consciência de que todos dependem uns dos outros para construir o amanhã. É o seu maior recurso do país.

 

a persistência contemporânea da força: da aristocracia às elites económicas e militares
De qualquer maneira, independentemente de tudo, as elites económicas controlam as armas e as leis. A aristocracia criou a monarquia, instalou-se o feudalismo, mas a burguesia destruiu o feudalismo quando começou a controlar os bolsos e as vidas das pessoas. Se os monarcas escaparam, foi pelo seu capital simbólico, pelo valor emocional para a coesão da nação, em nome da tradição. Hoje, quem quer destruir a burguesia tradicional são as big-tech, o pessoal lá da cloud, porque controlam agora os maiores ativos económicos contemporâneos. Há uma guerra lá em cima, a luta pelo poder apenas muda de protagonistas. E nós fomos apanhados num momento interessante da história. Porque não pode haver substituição sem destruição, os “cloudianos” precisam destruir os valores que a burguesia instaurou. A burguesia controla os meios de produção, os cloudianos controlam os meios de distribuição. A intermediação é soberana. Mas isso é outra história.

 

a soberania sem verniz e o primado da força na Guiné-Bissau
Na Guiné-Bissau uma classe económica ainda não se consolidou para, independentemente de quem está no poder, a sua estabilidade continue intocável. Por isso as armas continuam a falar mais alto, porque o controlo da riqueza depende do controlo da força. Alguns olham para a Guiné e chamam-na de atrasada e violenta, como se nos “primeiros países” a violência tivesse desaparecido. Nas Europas, a violência física se metamorfoseou em psicológica e estrutural. Os contratos, os bancos, os mercados, a economia, os impostos para salvar as grandes companhias e não as pessoas são os carrascos. Ou pagas ou sofres exclusão, desemprego, despejo ou “ilegalização”. Mas tudo legitimado por leis feitas à medida de quem tem o poder. Tudo vigiado pela polícia e, em última instância, pelos militares. O interesse capital de uma nação nunca foi a democracia, mas a estabilidade do poder, mesmo naquelas que ensaiaram o socialismo. Para isso há que manter o povo funcional e distraído o bastante para não se revoltar, com entretenimento, consumo e promessa de ascensão individual, para se esquecer que tem a sela nas costas. Outro mecanismo funcional é permitir a liberdade de expressão e de manifestações, porque assim o povo sente-se ouvido, sente-se ativo e parte do sistema, mesmo que a sua reivindicação caia em ouvidos moucos.

Na Guiné não houve tempo para construir essa maquinaria subtil de controlo social, então não há lugar para subtileza, a força é imediata e explícita. A classe armada controla o destino das nações, tentando estar a par das instituições financeiras coloniais que querem ter essa rédea. Se o método do controlo guineense é pela força e pela bala, nos “países primeiros” é pelas dívidas, com elevadas taxas de depressão e suicídio. No entanto, não importa a espessura do verniz, mesmo nos países ditos desenvolvidos, se alguém se atrever a mexer na força militar, governos caem.

A guerra é também um ativo, razão porque o mercado da guerra nunca fecha as portas. Não é coincidência que o orçamento de defesa seja o único que cresce constantemente, principalmente nos países que se dizem democráticos, pacíficos e prósperos. A civilidade formal, as supostas igualdade, liberdade e fraternidade só existem enquanto ninguém toca no controlo das armas. No fundo, o poder continua sustentado pelo medo e pela força.
Resumindo, a violência é a matriz da política. A história das nações não é de abraços à volta da fogueira, invocando ancestrais, mas de sangue, medos, tributos e exércitos. Tudo o resto, as leis, os parlamentos, as constituições, são apenas ferramentas de gestão para manter a máquina oleada e disfarçar essa verdade antiga da civilidade: lei do mais forte. Como disse alguém: a paz é a guerra bem administrada. É só estar atento ao termo “pacificação”.

Considerando isso, como podemos ler a situação da Guiné-Bissau, fora de uma análise simplista e maniqueísta?

 

(continua Parte 2)

por Marinho de Pina
A ler | 27 Fevereiro 2026 | Guiné Bissau, violência