Ájax de Sófocles

Quem, como Ájax, levado por instintos primários como o ímpeto de vingança perante uma injustiça, não foi já vítima de ilusões causadas pelas suas próprias fragilidades, pela intervenção de outros, por um acontecimento ou por determinado contexto social? A era da informação — ou, melhor, da descredibilização da informação e da névoa que tantas vezes envolve as suas fontes — constitui hoje o contexto ideal para o desenvolvimento e a propagação de discursos políticos, medidas sociais e ideologias cruéis, injustas, antidemocráticas e regressivas. Assim se desenha, pouco a pouco, o caminho para o eclipse total da Declaração Universal dos Direitos Humanos, da dignidade humana e dos direitos de todos os seres vivos sencientes. E assim se permitem, banalizam e disseminam actos profundamente desumanos. Como enfrentar esta era, este tempo, esta ameaça de degradação completa e abismal dos nossos valores civilizacionais?

Vivemos, pois, sob constantes ataques à democracia e à evolução civilizacional. A ausência de diálogo, os extremismos e o ruído ensurdecedor do nosso tempo ganham força através da fragilização do pensamento e, consequentemente, do discernimento. Que fazer perante a demência social instalada, perante o histerismo que se manifesta no consumismo suicida e na velocidade desenfreada? Ájax de Sófocles é uma reflexão sobre os limites do poder e também, parece-nos, uma resposta às ameaças totalitárias e totalizantes. Uma resposta que vem do fundo da nossa civilização e do berço da democracia.

Partindo de Ájax, provavelmente a mais antiga tragédia de Sófocles, este espectáculo propõe, perante o contexto que vivemos, um teatro profundamente humano. Sem se esgotar na clarificação das palavras que o fundamentam, constrói-se sobre o confronto ritual entre silêncio, sombra, luz, textura, movimento e paisagem sonora e, sobretudo, sobre a energia animista que lhe dá corpo. Oferece uma partitura generosa no espaço que abre tanto à apreensão pela sensibilidade como à reflexão sobre as estruturas mentais que continuamos a reproduzir. E, possivelmente, sobre outras estruturas que possamos ainda edificar, em função dos papéis que queremos representar e ver representados no seio das nossas famílias e de outros empreendimentos colectivos.

Na última frase, interpretei «outras empresas de carácter omnipessoal» como «outros empreendimentos colectivos», para tornar o sentido mais claro.

‘Eu sou. Nós somos. Isso é suficiente. Agora há que começar. A vida foi-nos posta, e sempre esteve, nas nossas mãos e nos nossos braços. Em si, é verdade, parece ter-se tornado vazia há muito e parece balançar-se para trás e para a frente sem sentido. No entanto, não vamos esquecer: mantemo-nos firmes em querer ser a origem e o fim’.

Tradução livre de The Spirit of Utopia de Ernst Bloch.

TEXTO: Sófocles

ENCENAÇÃO: Cláudio da Silva

INTERPRETAÇÃO: Cláudio da Silva, Crista Alfaiate, Marcello Urghege e Nuno Lucas

DRAMATURGIA: Carolina Dominguez, Cláudio da Silva e Rita Ferreira

ASSISTENTE DE CENA: Miriam Vale

CENOGRAFIA: Gustavo Sumpta

FIGURINOS: Colectivo

ADEREÇOS: Pedro Paiva e Gustavo Sumpta

DESENHO DE LUZ: Pedro Paiva

MONTAGENS E OPERAÇÃO DE LUZ E SOM: Rafael Ligeiro

MÚSICA: João Martins

PRODUÇÃO: Soluços D’Inverno

RESIDÊNCIA ARTÍSTICA: TMJB, ZDB e Palettentheater Kollektiv

APOIO: Fundação GDA | República Portuguesa - Cultura | DGARTES - Direção-Geral das Artes

02.10.2026 | par martalanca | Ájax, Sófocles

NA MARÉ, de César Schofield Cardoso no CNAD

O Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design (CNAD) convida para a exibição do filme documentário NA MARÉ, de César Schofield Cardoso, no dia 02 de outubro, pelas 19h00, no Pátio Multiuso Vasco Martins, CNAD.
Após a projeção, será realizado um debate com dois convidados: a professora investigadora da Universidade de Cabo Verde, Celeste Fortes e o psicólogo e cineasta, Olavo da Luz.
NA MARÉ foi realizado no âmbito de uma residência de investigação artística, desenvolvida entre janeiro e maio de 2026, na comunidade de Salamansa, em Mindelo, em preparação para o projeto que o autor apresentará na Bienal de Sharjah 17, nos Emirados Árabes Unidos, em janeiro de 2027.
O filme conta com a participação de Alcinda Évora, Arlindo David, Auxílio Matias, Daniel Bandeira, Daniel David, Joanita Gomes, Manuel Évora e Manuel dos Santos.
Na equipa técnica, participam David Medina, Alex de Figueiredo, Natalia Andrade, Cátia Lush e Eurittse Silva.
02 de outubro 19h00 Pátio Multiuso Vasco Martins


02.10.2026 | par martalanca | César Schofield Cardoso, CNAD, NA MARÉ

Funaná, African avatar in a pluralistic Cape Verde

Depois de mais de 25 anos a partilhar a aventura kriola da vida nas ilhas e de viver em diferentes ilhas do arquipélago — entre elas Santiago, onde residi por uns tempos na vila do Tarrafal —, chegou finalmente o momento de partilhar esta magnífica experiência.

Foram inúmeras as estadias, curtas e longas, na cidade da Praia, a capital, mas principalmente no interior, entre montes e ribeiras, e nas diferentes praias de surf. Incontáveis viagens — umas mais alucinantes do que outras — nas hiaces de transporte público, com a banda sonora imprescindível do funaná e do kotxi pó. Participações em festivais e festas locais, como simples espectador ou cameraman e, uma ou outra vez, como DJ/selektor. E o privilégio de conviver e fazer boas amizades com músicos do género, tanto nomes consagrados como desconhecidos ou tocadores espontâneos.

Todo esse conhecimento, os momentos únicos e as milhas percorridas foram ficando registados num banco de imagens que venho a acumular ao longo dos anos e que agora partilho com o resto do mundo.

O convite chegou da Pan African Music, o site PAM. Juntamente com Kino Sousa, amigo de outras andanças musicais e talvez um dos jornalistas e músicos mais interessantes da actualidade franco-lusófona, partimos à aventura numa road trip ao encontro de velhos amigos e conhecidos.

Foi também uma viagem de descoberta dos meandros e mistérios do funaná, dos seus novos protagonistas e dos seus representantes emblemáticos, nos lugares onde vivem, tocam e fazem circular esta música. Tudo isto na grande ilha de Santiago, berço do funaná e praticamente a única ilha do arquipélago onde ele é a banda sonora do dia a dia e uma razão de existir.

João Barbosa 

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01.10.2026 | par martalanca | Funáná

“Meu nome António”, exposição de fotografia dedicada a António Variações no Centro Cultural das Caldas da Rainha

O Centro Cultural e de Congressos das Caldas da Rainha, CCC, vai inaugurar no próximodia 3 de outubro pelas 18 horas, a exposição de fotografia “Meu nome António –Fotografias de Teresa Couto Pinto 1981-1983”, dedicada ao cantor António Variações(1944-1984), e coorganizada pelo MUDE – Museu de Design e pela Terra Esplêndida. Amesma reúne um conjunto de 88 fotografias da autoria de Teresa Couto Pinto e peçasde vestuário e acessórios originais usados pelo icónico e criativo cantor português. Aexposição, que esteve patente no MUDE, em 2025, tem curadoria de Bárbara Coutinho, diretora do MUDE – Museu do Design e chega ao CCC no âmbito do programa MUDEFora de Portas.Teresa Couto Pinto foi agente e fotógrafa de Variações nos anos 80, mas também suaamiga e confidente. Como poucos, assistiu de perto ao processo criativo de Variações na criação dos seus álbuns e da sua persona artística, quando a sua proposta musical eestética, inovadora para os cânones da época, o começava a posicionar num lugar dedestaque no panorama cultural português. Mas também teve acesso ao homem pordetrás do mito, a quem fotografou com sinceridade e delicadeza em momentos dedescontração.Esta é uma forma de homenagem ao cantor livre e criativo, que se apresentava de forma icónica e irreverente, inspirado pelo fado, pela música popular e pelo pop rock.

A vida e a obra musical de António Variações foram já contadas numa peça de teatro,um filme de ficção, biografias, exposições, espetáculos e um álbum reinterpretado peloprojeto Humanos.Esta exposição, que estará patente de 3 de outubro a 3 de janeiro de 2027, na Galeriado CCC, conta com o apoio da Direção Geral das Artes e do Município das Caldas da Rainha.

01.10.2026 | par martalanca | António Variações

Conferências e Conversas Para Além do Apocalipse: À Procura de Respostas por Álvaro Vasconcelos

Partindo da confiança na capacidade humana de encontrar respostas para os desafios existenciais que a vida na Terra enfrenta, este ciclo abre uma discussão sobre o futuro comum.

Correntes brutalistas alimentam o nacionalismo, enfraquecem o pensamento crítico, põem em risco a democracia e tornam o apocalipse ambiental e nuclear uma possibilidade cada vez menos impensável. Paralelamente, cresce, entre os cidadãos, a consciência da humanidade comum e o desejo de participação na vida pública. É a essas vozes que o ciclo procura dar espaço, através do formato do debate cidadão.
A abertura de cada sessão estará a cargo do comissário Álvaro Vasconcelos, que recorrerá a curtas-metragens ou excertos de filmes para enquadrar o tema de cada debate no imaginário mais vasto do cinema apocalíptico. De seguida, um dinamizador lançará questões aos especialistas convidados e promoverá a participação do público. Cada debate construir-se-á a partir das perguntas, inquietações e pontos de vista de quem nele participa.

Álvaro VasconcelosÁlvaro Vasconcelos

Datas / horários

Segunda-feira, 19 outubro de 202618:30

Terça-feira, 24 novembro de 202618:30

Terça-feira, 19 janeiro de 202718:30

Entrada livre, sujeita à lotação da sala.

01.10.2026 | par martalanca | Álvaro Vasconcelos

Conferência & Homenagem a Christine Messiant

Em homenagem a Christine Messiant (1947–2006), reputada socióloga e investigadora francesa reconhecida como uma das maiores autoridades internacionais na sociologia política de Angola pós-colonial. Cofundadora da revista Lusotopie e membro do Centre d’Études Africaines, dedicou décadas ao estudo crítico do nacionalismo, da transição democrática e da história social angolana.
Convidamo-lo(a) para um momento fundamental de reflexão e memória: «Memórias e narrativas da construção nacional. A angolanidade no olhar das ciências sociais».
Prelectores:•⁠  ⁠Didier Péclard: Politólogo suíço, investigador e professor associado de ciência política e estudos africanos na Universidade de Genebra (UNIGE).•⁠  ⁠Michel Cahen: Historiador francês, analista político e diretor de investigação emérito no CNRS, perito em África lusófona contemporânea.•⁠  ⁠Chloé Buire: Geógrafa, investigadora e especialista em estudos urbanos e cidadania na África Austral (CNRS / Sciences Po Bordeaux).  
Moderação:Nelson Pestana: Politólogo, jurista e doutorado em Ciências Políticas pela Universidade de Montpellier I.
Terça-feira, 6 de Outubro17h00 - 19h00 Museu de Antropologia (R. Friedrich Engels, nº 61, Mutamba, Luanda) Entrada Gratuita @franceenangola 
#afluanda #christineMessiant #socialogia #conferencia #debate #alliancefrancaise #socio #Angola #Museu #fabriquedesidees #ucan #unviersidade

01.10.2026 | par martalanca | Christine Messiant

Começa hoje a Festa do Cinema Francês

A programação desta 27.ª edição parte de um cinema francês e francófono plural, feito de grandes autores e novas vozes, de diferentes geografias, géneros e gerações. 

A resistência é uma das linhas programáticas que atravessam esta edição. A partir de De Gaulle: Resistência, de Antonin Baudry, encontramos diferentes formas de resistir - perante a História, a injustiça, as convenções sociais, as desigualdades ou os limites impostos pelas circunstâncias. Uma resistência que pode ser política e coletiva, mas também íntima e quotidiana. Através das várias secções do festival, esta dimensão cruza-se com questões de liberdade, emancipação e transformação, dando espaço a vozes femininas, a percursos de mulheres que desafiaram o seu tempo e à relação entre a ação humana e a natureza.

Mas se há coisa que o cinema francês também sabe fazer é não se levar demasiado a sério. Rir à Grande e à Francesa reúne comédias que encontram humor no absurdo, nas relações humanas, na sociedade e, por vezes, no próprio cinema. Porque rir de nós próprios — e até das convenções da sétima arte — pode ser uma forma particularmente francesa de olhar o mundo.

Esta edição reforça a dimensão francófona da Festa. A abertura da Competitiva a todo o espaço francófono permite descobrir primeiras e segundas obras de geografias tão diversas como o Congo, o Canadá ou o Gana. A francofonia atravessa, porém, toda a programação, chegando ao cinema marroquino através da escolha de Leïla Slimani, que apresenta Derrière les palmiers, de Meryem Benm’Barek. Mais do que um território delimitado pela língua, a francofonia surge como um espaço de encontro e criação, feito de múltiplas culturas, territórios e experiências.

Ao lado de cineastas consagrados como Asghar Farhadi, Jean-Pierre Jeunet, Arthur Harari e Quentin Dupieux, a Festa apresenta autores e autoras de diferentes gerações, dando espaço a novas vozes que renovam o cinema contemporâneo.

Um cinema que se reinventa, mas que também revisita o seu património, colocando em diálogo as obras que marcam o presente com os filmes que atravessaram décadas e continuam a encontrar novos espectadores. La Belle Époque regressa a filmes que fazem parte do imaginário cinéfilo — de O Ódio a Delicatessen e Microcosmos, que celebra este ano 30 anos —, obras de culto que continuam a surpreender e a revelar novas camadas quando regressam à sala de cinema.

Na programação dedicada aos mais novos, Destemidas, baseada nos livros de Pénélope Bagieu, recupera as histórias de 30 mulheres que desafiaram convenções, preconceitos e destinos que lhes eram impostos, prolongando uma das preocupações desta edição: mostrar como o cinema pode dar a conhecer outras vidas, experiências e formas de transformar o mundo.

Com esta seleção, procuramos acima de tudo, criar pontes: entre passado e presente, autores reconhecidos e cineastas emergentes, cinema francês e cinematografias de todo o espaço francófono, diferentes gerações e públicos. Depois de Lisboa, a Festa viaja pelo país, levando filmes a mais de 15 cidades e contribuindo para uma oferta cultural mais diversificada e descentralizada.

É este o trabalho que a Associação Il Sorpasso tem desenvolvido ao longo dos anos: criar, organizar e fazer circular projetos culturais que aproximem o público do cinema e promovam o encontro entre profissionais e espectadores. A Festa do Cinema Francês é hoje uma das expressões mais importantes desse compromisso.

Esperamos que esta 27.ª edição seja, para cada espectador, uma oportunidade de descoberta — de um filme, de um autor, de uma cultura ou simplesmente de uma nova maneira de olhar o mundo.

Anette Dujisin, Stefano Savio, Charlotte Serrand
Associação Il Sorpasso

L’INCONNUE, DE ARTHUR HARARI, CHEGA À FESTA DO CINEMA FRANCÊS APÓS CONQUISTAR CANNES

O filme, distinguido em Cannes pelas interpretações de Léa Seydoux e Niels Schneider, integra uma 27.ª edição que reúne ainda novas obras do cinema francófono, clássicos, filmes de culto, sessões especiais e uma programação dedicada aos mais novos.

A Festa do Cinema Francês anuncia a entrada de L’Inconnue, de Arthur Harari, na secção Premières da sua 27.ª edição. Estreado mundialmente na Competição do Festival de Cannes 2026, o filme conquistou o prémio conjunto de interpretação para Léa Seydoux e Niels Schneider, afirmando-se como um dos títulos mais singulares do cinema francês deste ano.

A receção crítica em França veio reforçar o impacto da passagem por Cannes: L’Inconnue recebeu a classificação máxima de cinco estrelas de seis publicações cinematográficas de referência — Cahiers du Cinéma, Les Inrockuptibles, Libération, Mad Movies, Positif e So Film.

Depois de Onoda, filme distinguido com o Prémio Louis-Delluc e apresentado em Cannes, e de ter co-assinado o argumento de Anatomia de uma Queda, vencedor da Palma de Ouro em 2023 e do Óscar de Melhor Argumento, Arthur Harari regressa à realização com uma obra radicalmente singular.

Adaptado da novela gráfica Le Cas David Zimmerman, escrita pelo seu irmão Lucas Harari, L’Inconnue parte de uma premissa tão simples quanto perturbadora: David Zimmerman, um fotógrafo de quase 40 anos que vive afastado do mundo, é levado por amigos a uma festa. Aí fixa o olhar numa mulher desconhecida e decide segui-la. Algumas horas depois, acorda no corpo dela.

A partir deste insólito body swap, género tradicionalmente associado à comédia, Harari constrói uma experiência cinematográfica física e psicologicamente inquietante, onde a transformação do corpo se torna uma forma de questionar identidade, género, desejo e perceção. A própria cidade surge como um organismo em transformação, atravessado por memórias, desaparecimentos e mudanças que alteram tanto os lugares como aqueles que neles vivem.

No centro desta experiência estão Léa Seydoux e Niels Schneider, confrontados com personagens em transformação física e emocional. O reconhecimento conjunto em Cannes sublinha a dimensão performativa de um filme em que corpo, identidade e perceção se tornam matéria cinematográfica.

Coprodução entre França e Itália, L’Inconnue integra uma secção Premières que reúne filmes em ante-estreia absoluta em Portugal, vindos dos principais festivais internacionais e assinados por alguns dos autores mais relevantes do cinema francófono contemporâneo. Ao lado de Arthur Harari, a programação inclui novas obras de Asghar Farhadi, Jean-Pierre Jeunet e Quentin Dupieux, entre outros.

Sessões Especiais: resistência, liberdade e transformação

A programação de Sessões Especiais amplia o olhar da Festa para filmes e autores que colocam em primeiro plano a relação entre cinema, sociedade e ação individual, com particular atenção a diferentes formas de resistência, emancipação e transformação.

A Festa presta homenagem a Marjane Satrapi, recentemente desaparecida, com Persépolis, um dos mais marcantes retratos cinematográficos do exílio e da liberdade. 

A revolução e a emancipação atravessam também Une vie manifeste, de Jean-Gabriel Périot, que recupera o destino incomum de Michèle Firk através de uma montagem construída a partir de arquivos cinematográficos e fotográficos. Da Segunda Guerra Mundial à Guerra da Argélia, dos bancos do IDHEC às guerrilhas das FAR na Guatemala e à Cuba dos anos de Castro e Che Guevara, o filme recompõe o percurso de uma mulher insubmissa e politicamente comprometida.

A condição feminina está igualmente no centro de Mémoire de fille, realizado a partir da colaboração entre Judith Godrèche, uma das principais vozes do movimento #MeToo em França, e Annie Ernaux, Prémio Nobel da Literatura em 2022. O filme parte das memórias de Ernaux sobre a sua primeira experiência sexual, em 1958, para construir uma reflexão sobre memória, consentimento e a forma como uma experiência pode ser revisitada ao longo de uma vida.

A relação entre ação humana e natureza marca, por sua vez, O Canto das Florestas. Depois de A Pantera das Neves, Vincent Munier regressa às florestas dos Vosges acompanhado pelo pai, o naturalista Michel Munier, e pelo filho Simon. Três gerações percorrem o mesmo território numa experiência de

observação da natureza que combina cinema, fotografia e música, com banda sonora de Warren Ellis. Vencedor dos Césares de Melhor Filme Documental e Melhor Som, o filme foi também um enorme sucesso de bilheteira em França.

Leïla Slimani propõe um olhar sobre o cinema marroquino

A presença do espaço francófono na 27.ª edição estende-se também ao cinema marroquino, através de uma escolha de Leïla Slimani, escritora franco-marroquina que integra este ano o júri da secção competitiva.

Convidada pela Festa a escolher um filme que permita descobrir uma cinematografia em crescente afirmação internacional, Slimani apresenta Derrière les palmiers, de Meryem Benm’Barek, estreado na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes.

O filme mergulha numa Tânger onde desejo, dinheiro e poder se cruzam. A partir de um triângulo amoroso envolvendo uma jovem francesa de uma família abastada e um casal marroquino de origem humilde, Meryem Benm’Barek constrói um retrato de uma sociedade marcada por profundas desigualdades. A escolha de Slimani acrescenta à programação um olhar sobre a vitalidade contemporânea do cinema marroquino e sobre um território francófono cuja presença nos grandes festivais internacionais tem vindo a ganhar crescente expressão.

Júri secção Competitiva e convidados

A 27.ª Festa do Cinema Francês contará com a presença de vários realizadores e atores que acompanharão algumas das sessões e estarão à conversa com o público. Entre os nomes confirmados estão Laetitia Masson (Ulysse), Jean-Paul Salomé (The Money-Maker – O Falsificador), Martin Darondeau (De La Comédie-Française), Jean-Gabriel Périot (Une Vie Manifeste) e o ator Antoine Reinartz (La Troisième Nuit e Bataclan: Os que Viveram).

A Secção Competitiva, dedicada a primeiras e segundas obras de realizadores francófonos, será avaliada por um júri composto pela escritora e jornalista franco-marroquina Leïla Slimani, vencedora do Prémio Goncourt em 2016, pela programadora e codiretora do IndieLisboa Susana Santos Rodrigues e pelo ator e jornalista Tiago Manaia. Ao longo do festival, o júri acompanhará os seis filmes em competição, antes de atribuir o prémio à melhor primeira ou segunda obra.

La Belle Époque: filmes que resistem ao tempo

Na secção La Belle Époque, a Festa regressa a obras que continuam a encontrar novos espectadores e a demonstrar a sua capacidade de atravessar gerações.

Entre os títulos apresentados estão Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro, O Ódio, de Mathieu Kassovitz, e Microcosmos, de Claude Nuridsany e Marie Pérennou.

Primeira longa-metragem de Jeunet e Caro, Delicatessen revelou um universo visual e narrativo singular, entre o humor negro, o absurdo e a fantasia. Situado numa cidade pós-apocalíptica onde a comida escasseia, o filme tornou-se uma obra de culto e será apresentado em diálogo com a estreia do mais recente filme de Jean-Pierre Jeunet, A Breve Vida das Flores, na secção Premières.

Também situado num espaço urbano, mas marcado pela tensão social, O Ódio acompanha uma noite de confrontos entre jovens de um bairro periférico e a polícia. Vencedor do Prémio de Melhor Realização em Cannes em 1995, o filme de Mathieu Kassovitz tornou-se uma referência incontornável do cinema francês e continua a ser revisitado pelo modo como representa desigualdade, violência e exclusão social.

Marca-se também o 30.º aniversário de Microcosmos, um filme fundamental na renovação do cinema documental sobre a natureza e que, três décadas depois, continua a surpreender pela sua modernidade. Realizado pelos biólogos Claude Nuridsany e Marie Pérennou, o filme revolucionou a representação do mundo natural ao aproximar a câmara dos mais pequenos seres e transformar a vida dos insetos e outros habitantes dos campos numa experiência cinematográfica de escala épica, simultaneamente realista, surreal e hipnótica. Com a música inesquecível de Bruno Coulais que conduz esta viagem, o filme foi distinguido com cinco Césares e foi visto por mais de 3,5 milhões de espectadores em França. O sucesso de Microcosmos contribuiu decisivamente para aproximar o documentário da natureza de um público mais vasto, demonstrando que a observação científica podia também ser uma experiência visual e sensorial.

Petit Cinéphiles: mulheres que ousaram mudar o mundo

A programação dedicada aos mais novos encontra em Destemidas uma proposta que cruza animação, história e emancipação. Baseada nos célebres livros ilustrados de Pénélope Bagieu, a série francesa dá vida a 30 mulheres que transformaram as suas próprias vidas numa forma de revolução.

De Josephine Baker a Sonita Alizadeh, Peggy Guggenheim, Hedy Lamarr ou Leymah Gbowee, cada episódio recupera a história de uma mulher que recusou o destino que lhe era imposto e abriu novos caminhos.

Atriz e produtora de Hollywood, mas também inventora da tecnologia que esteve na origem do Wi-Fi; nadadora extraordinária e pioneira do fato de banho moderno; ativista e Prémio Nobel da Paz: os 30 retratos atravessam diferentes épocas, geografias e áreas de atividade para mostrar mulheres que enfrentaram preconceitos, desafiaram convenções e transformaram, à sua maneira, a sociedade em que viveram.

A Festa prepara um evento especial em torno da série, pensado para várias gerações, celebrando vidas marcadas pela coragem, liberdade e criatividade.

Da descoberta de novos autores ao reencontro com filmes que marcaram a história do cinema, da criação francesa às múltiplas cinematografias que compõem o espaço francófono, a 27.ª Festa do Cinema Francês propõe uma programação que atravessa géneros, épocas e geografias, levando o cinema a Lisboa, Porto e mais de 20 outras cidades portuguesas ao longo de outubro e novembro.

Sobre a 27ª Festa do Cinema Francês
Além de Lisboa, a Festa vai realizar-se em vários municípios portugueses, como: Almada (7, 12, 13, 14, 21 e 28 de outubro), Porto e Vila Nova de Gaia (9 a 14 de outubro), Tavira (13 de outubro), Lagos (13 a 16 de outubro), Coimbra (14 a 18 de outubro), Cascais (21 a 25 de outubro), Vila Franca de Xira (23 a 25 de outubro), Braga (27, 28 e 29 de outubro), Beja (4 e 5 de novembro), Leiria (17 e 18 novembro), Setúbal (19 a 22 de novembro), Figueira da Foz (20 e 21 novembro), Santa Maria da Feira (10, 12 e 26 novembro), Faro (22, 23, 29 e 30 outubro).

Organizada pela Associação Il Sorpasso, a Festa do Cinema Francês realiza-se em parceria com a Embaixada de França em Portugal, o Institut Français du Portugal, a Unifrance e a Alliance Française Portugal, integrando ainda MaisFRANÇA, o programa da criação contemporânea francesa em Portugal.
A 27.ª edição da Festa do Cinema Francês conta também com a participação de um conjunto de parceiros privados que tornam possível a realização do festival. Destacam-se a Claude et Sofia Marion Foundation, BNP Paribas, Credibom, Peugeot, JCDecaux, Victoria Seguros, DPD e Thales.
A Festa do Cinema Francês tem o apoio de vários Municípios do país, entre os quais as autarquias de Lisboa, Coimbra, Braga, Leiria, Almada, Setúbal, Tavira, Lagos, Beja, Figueira da Foz e Santa Maria da Feira.
O festival conta ainda com a parceria da Lisboa Cultura, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema e Cinemas UCI; a RTP2, RTP Antena 1 e Canais Tv Cine como parceiros media; os parceiros de divulgação Lisbonne Affinités, C7nema e lepetitjournal.com; o apoio à programação da FNAC; e o apoio à divulgação de Infraestruturas de Portugal, Junta de Freguesia de Santo António e Turismo de Lisboa.

Sobre a Associação Il Sorpasso
Fundada em 2008, a Associação Il Sorpasso é uma entidade cultural sem fins lucrativos dedicada à promoção e divulgação do cinema internacional, com forte atividade na organização e programação de festivais e mostras de cinema. É responsável pela Festa do Cinema Italiano e pela Festa do Cinema Francês, e organiza ainda, o CineFiesta – Mostra de Cinema Espanhol, o Polska – Mostra de Cinema Polaco, a Semana do Cinema Chinês, o Luso! – Mostra Itinerante de Cinema Português na Itália e o Polar – As Longas Noites do Cinema Nórdico, colaborando também na organização do Kulturfest – Festival de Culturas de Expressão Alemã.
Ao longo da sua atividade, a Il Sorpasso tem-se afirmado como uma plataforma dinâmica e descentralizadora da oferta cultural em Portugal, apostando numa programação diversificada, itinerante e acessível, dirigida a públicos de diferentes idades e perfis e orientada para a democratização do acesso à cultura.

Mais informações: festadocinemafrances.com 

01.10.2026 | par martalanca | Festa do cinema francês

Trace

Nos dias entre 6 e 9 de Outubro acontecerá o Workshop TRACE Troubled Restitutions, Anthropological Critique, and Entangled Heritage (Restituições em Disputa, Crítica Antropológica e Patrimónios Entrelaçados)

Um Workshop fechado de três dias, concebido para garantir um ambiente seguro de partilha e intercâmbio. O objetivo imediato é refletir sobre as necessidades, as dificuldades e as estratégias bem-sucedidas relacionadas ao tema da restituição, bem como compartilhá-las. O nosso foco será a experiência de quem vive e trabalha nos países destinatários dos processos de restituição, seja ela material ou imaterial.

O projeto TRACE – Troubled Restitutions, Anthropological Critique, and Entangled Heritage é financiado pela Wenner-Gren Foundation por meio de uma Workshop Grant. O apoio permitiu reunir, em Lisboa, antropólogos, artistas e lideranças comunitárias dos países africanos de língua portuguesa, do Brasil e das suas diásporas, com o objetivo de reforçar a presença lusófona nos debates globais sobre restituição e reparação. Mais informações em: https://wennergren.org/grantee/laura-burocco/

Organizado por: 

Laura Burocco, CRIA polo Iscte 

Francisca Alves Cardoso,  CRIA polo NOVA FCSH

Catarina Simão, Artista e investigadora independente

Participantes 

Angola 

Gilson Lázaro (Universidade Agostinho Neto, FCS-UAN)

Israel Campos (University of Leeds, escritor e jornalista)

Brasil 

Glicéria Tupinambá (Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, MN/UFRJ)

Marcelo Nascimento Bernardo da Cunha(Universidade Federal da Bahia UFBA)

Moara Tupinamba (artista visual e educadora)

Paola Barreto (Universidade Federal da Bahia, UFBA)

Moçambique 

Marilio Wane (ARPAC-Instituto de Investigação Sociocultural)

Otília Aquino (Documentalista e gestora cultural)

Portugal 

Frank Ntaluma (escultor e fundador da Favana - Grupo de Escultores Makonde, em Maputo)

Luzia Moniz (jornalista e socióloga)

Sandra Santos (Universidade de Coimbra)

Enquanto os dias de trabalho ( 6-7 e 8 pela manha ) serão apenas pelo/as participantes internacionais e nacionais convidado/as

8 de Outubro  entre as 18-21hs 

No Espaço Cultural @mbongi_67

RESTITUIÇÃO, MEMÓRIA E COMUNIDADE:

CONVERSA SOBRE RESTITUIÇÕES EM DISPUTA, CRÍTICA ANTROPOLÓGICA E PATRIMÓNIOS ENTRELAÇADOS 

Um momento para conversar, ouvir experiências diferentes e pensar em conjunto sobre os desafios e as possibilidades da restituição. Com a participação de convidada/os vindo da Angola, Brasil e Moçambique.

Como chegar : Praceta António Sérgio 4A, Monte Abraão, 2745-252 Queluz

Pegue a Linha de Sintra, trem 18290 com destino a Sintra. Desça na estação Monte Abrão. A partir da estação, caminhe cerca de 7 minutos até o local.

9 de Outubro entre 10-12hs 

RESTITUIÇÕES EM DISPUTA, CRÍTICA ANTROPOLÓGICA E PATRIMÓNIOS ENTRELAÇADOS REFLEXÕES APÓS O WORKSHOP

no Auditório do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, Auditório ISCTE- ED 2 B2.03 – Avenida das Forças Armadas, Lisboa

Na sequência do workshop esta mesa-redonda assume a forma de uma conversa pública de devolução à comunidade académica. O objetivo é partilhar as reflexões, os debates e as questões que emergiram do encontro, abrindo espaço ao diálogo sobre os desafios éticos, políticos e epistemológicos que atravessam os processos de restituição e sobre a forma como os patrimónios se entrelaçam em diferentes geografias e histórias.

O projeto TRACE – Troubled Restitutions, Anthropological Critique, and Entangled Heritage é financiado pela Wenner-Gren Foundation por meio de uma Workshop Grant. O apoio permitiu reunir, em Lisboa, antropólogos, artistas e lideranças comunitárias dos países africanos de língua portuguesa, do Brasil e das suas diásporas, com o objetivo de reforçar a presença lusófona nos debates globais sobre restituição e reparação. Mais informações em: https://wennergren.org/grantee/laura-burocco/

Com a Participação de :

ANGOLA Gilson Lázaro, Israel Campos | BRASIL Glicéria Tupinambá, Marcelo

Nascimento Bernardo da Cunha, Moara Tupinambá, Paola Barreto | MOÇAMBIQUE

Marílio Wane, Otília Aquino | PORTUGAL Frank Ntaluma, Luzia Moniz, Sandra Santos.

A iniciativa é organizada por Laura Burocco (CRIA Iscte | IN2PAST), Francisca Alves Cardoso (CRIA NOVA FCSH) e Catarina Simão (artista visual e investigadora independente).
Durante o evento estará presente uma banca de livros da Editora Falas Afrikanas.
A entrada é livre e todas as pessoas interessadas estão convidadas a participar

 

 

 

 

 

28.09.2026 | par martalanca | Trace

Cinquenta anos a tecer a Resistência cultural em Cabo Verde

No Mindelo, uma exposição revisita a história da Cooperativa Resistência, fundada em 1976, e acompanha o caminho que a ligou ao atual Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design. Entre arquivos, tecelagem e criação digital, a mostra interroga o lugar do artesanato na construção da identidade cabo-verdiana.


Fundada um ano após a independência de Cabo Verde, a Cooperativa Resistência nasceu num momento em que construir o futuro do país implicava também procurar formas próprias de o representar. Manuel Figueira, Luísa Queirós, Bela Duarte, Clementina Chantre, Mercedes Leite e Alexandrina Freitas estiveram entre as pessoas que deram corpo a esse projeto. Cinquenta anos depois, a sua história é o ponto de partida de «50 Anos de Memória, Criação e Resistência», exposição apresentada pelo Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design (CNAD), no Mindelo, de 23 de julho a 14 de novembro de 2026.

A Cooperativa Resistência está na origem do que viria a ser o CNAD. A exposição percorre esse meio século sem tratar o artesanato como uma prática confinada ao passado. Nas técnicas, nos objetos e nos saberes transmitidos entre gerações, encontra uma história de afirmação cultural que continua a abrir possibilidades de criação.

Memória, criação e resistência são os três eixos da mostra. O primeiro reúne documentos, imagens, vozes e objetos ligados ao percurso da instituição. O segundo aproxima a tecelagem e a panaria das linguagens do design e das artes visuais contemporâneas. O terceiro pergunta o que significou, ao longo destas décadas, preservar conhecimentos, trabalhar com recursos escassos e inventar novas formas de expressão.

Na Galeria Bela Duarte, o percurso organiza-se em quatro núcleos. Inclui composições têxteis inspiradas num pano de obra ampliado e no clabédotche, uma instalação vídeo sobre a Cooperativa Resistência no antigo Consulado Inglês, uma obra digital baseada nos padrões do Pano de Terra e um dispositivo interativo com fotografias dos 50 anos da instituição. O arquivo surge, assim, lado a lado com obras que retomam e transformam os seus materiais.

O texto curatorial situa a fundação da cooperativa no contexto da construção nacional após a independência. Apresenta-a como um gesto de soberania cultural e estética: a possibilidade de valorizar práticas locais e de lhes dar um lugar central na vida artística do país. Ao cruzar esse legado com criações atuais, a exposição mostra como uma tradição pode continuar em movimento, nas mãos de quem a aprende, transmite e reinventa.

Com curadoria e direção artística de Artur Marçal e Elisângela Monteiro, «50 Anos de Memória, Criação e Resistência» integra o programa comemorativo promovido pelo CNAD. O programa culmina na 11.ª edição da URDI — Feira de Artesanato e Design de Cabo Verde, prevista para 25 a 29 de novembro de 2026.

«50 Anos de Memória, Criação e Resistência»
Galeria Bela Duarte, CNAD, Mindelo, São Vicente
23 de julho a 14 de novembro de 2026

 

24.09.2026 | par martalanca | Cooperativa Resistência, Mindelo

Viajantes Solitários

30 setembro e 1 outubro | 21h00

A partir de uma extensa recolha de histórias de vida e de estrada de camionistas, o Teatro do Vestido constrói um espectáculo sobre a solidão, a distância, a viagem e a inquietação de partir e regressar. Uma reflexão poética sobre vidas em permanente deslocação e sobre os lugares, pessoas e histórias que habitam os quilómetros percorridos. Estreou em 2015 e regressa agora, com o camião do espectáculo a instalar-se na Devesa, em Castelo Branco, para voltar a dar lugar às histórias, memórias e paisagens de quem vive a estrada.

Co-produção: Teatro Viriato, Centro de Artes de Ovar, Teatro Municipal do Porto, Teatro Nacional Dona Maria II. Mecenas: Patinter.

fotografia de Filipe Ferreirafotografia de Filipe FerreiraJoana Craveiro Joana Craveiro

 

23.09.2026 | par martalanca | Teatro do Vestido

Festival Política

Com a Embaixadora do Festival Mariana Moniz

Mais info

A programação do festival é composta por debates, performances, concertos, oficinas para adultos e crianças, exposições, cinema e visitas guiadas que promovam a literacia democrática e selecionados tendo em conta os eixos programáticos e o tema anual, visto que cada edição tem um tema-central: Abstenção (2017), Direitos Humanos (2018), Europa (2019), Ambiente (2020), Fronteiras (2021), Desinformação (2022), Pós-democracia (2023), Intervenção (2024), Revoluções em Curso (2025) e Constituição (2026). Todas as atividades são de entrada gratuita.

Em 2026 o Festival Política irá decorrer em Lisboa (24 a 26 de setembro), Loulé (22 a 24 de outubro), Coimbra (12 a 14 de novembro) e Torres Vedras (28 e 29 de novembro).

O Festival Política tem como objetivos nucleares a promoção da cidadania e a defesa dos direitos humanos, o festival tem os seguintes eixos de programação:

• Aprofundar a consciência cívica, incitar à participação eleitoral e reforçar a Democracia;

• Promover e defender os Direitos Humanos;,

• Combater a discriminação em todas as suas variantes e alcances, promovendo a tolerância e a aceitação e valorização do que é diferente;

• Promover a inclusão e o acesso à informação dos grupos sociais mais distanciados dos processos formais de decisão, nomeadamente os jovens e, em especial, portadores de deficiência e oriundos de territórios marginalizados;

• Reforço da participação social dos jovens, nomeadamente o seu envolvimento na comunidade, promovendo a sua participação ativa nos processos de tomada de decisão.

23.09.2026 | par martalanca | Festival Política

Escrever na Água e Mesa para Dois com Fernanda Almeida em conversa com Marta Lança

A partir do livro “Essas Pessoas na Sala de Jantar” fala-se das memórias, BUALA e impressões marcadas pelo movimento constante por várias geografias.

Escrever na Água - RDA África 

e no episódio 100 do Mesa para Dois (21/9).

Marta Lança e Fernanda Almeida Marta Lança e Fernanda Almeida


23.09.2026 | par martalanca | Essas Pessoas na Sala de Jantar

Cinemateca lança edição dedicada a Billy Woodberry

A Cinemateca Portuguesa apresenta no próximo sábado, dia 20 de junho às 17h na livraria Linha de Sombra, uma nova edição dedicada à obra de Billy Woodberry. A mais recente publicação resulta do programa “realizador convidado” de junho de 2025, que trouxe às salas da Cinemateca o realizador norte-americano onde propôs, na companhia de vários convidados especiais, uma viagem pessoal pelo seu cinema e inspirações suas.
Atualmente a viver e trabalhar em Lisboa, Billy Woodberry nasceu em 1950 em Dallas e ficou associado à designada “L.A. Rebellion”, fundamental na representação das vidas e comunidades afro-americanas, asiático-americanos, latino-americanas e de americanos nativos, surgido no seio da UCLA, na Califórnia, nos anos 1970-80. Nos últimos anos tem vindo a dedicar-se a um cinema mais documental, realizando filmes que dialogam com a História, a cultura afro-americana ou as questões coloniais, incluindo as questões coloniais portuguesas, a partir de um trabalho sobre imagens de arquivo.
 Com o formato de “livro de bolso”, esta edição bilingue reúne textos e entrevistas originais ou inéditos em português com a participação de, entre outros, Maria João Madeira (programadora do ciclo e organizadora da edição), Andy Rector, Sylvain George, Maria do Carmo Piçarra, Luís Mendonça, Josslyn Luckett, Giovanni Vimercati, Valteri Lepistö, além do próprio Billy Woodberry.
Para assinalar o lançamento, às 18h haverá uma sessão dupla integrada na rubrica COM A LINHA DE SOMBRA, com os títulos A STORY FROM AFRICA, de Billy Woodberry, e NOTRE MUSIQUE, de Jean-Luc Godard (a apresentar numa magnífica cópia 35mm, legendada em inglês e eletronicamente em português).
Veja aqui algumas páginas da edição.

21.09.2026 | par martalanca | billy woodberry

Contemporânea leva a Lisboa e ao Porto um programa de performances sobre memória resistência e transformação

Com curadoria de Alexandra Balona, MY CENTER IS NOT IN THE SOLAR SYSTEM reúne, entre 19 de setembro e 10 de outubro, obras de Sammy Baloji, Shahd Wadi, James Newitt, Noor Abed, Haig Aivazian, Ali Cherri, Ana Isabel Castro e Marcelo Reis.

A Contemporânea apresenta, entre 19 de setembro e 10 de outubro, em Lisboa e no Porto, um programa de performances que cruza memória colonial, exílio, resistência palestiniana, transformação geológica e modos alternativos de perceção. Intitulado MY CENTER IS NOT IN THE SOLAR SYSTEM, o ciclo tem curadoria de Alexandra Balona, integra o projeto ON HYBRIDITY AND THE POETICS OF RESISTANCE e desenvolve-se sob direção artística de Celina Brás.

O título parte de The Heart of the Heart of Another Country, obra publicada em 2005 pela artista e poeta libanesa Etel Adnan, cuja escrita atravessa experiências de conflito, migração, exílio e identidades híbridas. A frase escolhida — «O meu centro não está no sistema solar» — serve de ponto de partida para um programa que procura deslocar centros, escalas e narrativas dominantes. Em vez de uma geografia fixa, propõe um campo de relações entre o Atlântico e o Mediterrâneo, ligando Europa, Ásia ocidental e norte de África através de histórias marcadas por diferentes regimes de poder, mobilidade e visibilidade.

Ao reunir artistas com práticas e percursos distintos, o programa interroga versões eurocêntricas da história e os limites das fronteiras políticas e ideológicas. A performance surge aqui como linguagem capaz de aproximar corpo, voz, som, imagem e matéria, mas também de ensaiar outras temporalidades. São obras em que o passado não aparece como capítulo encerrado: persiste nos museus e nos arquivos, na paisagem, na garganta, na lama, nos gestos quotidianos e nas formas de escutar.

O ciclo organiza-se em três momentos. O primeiro decorre a 19 de setembro, no anfiteatro ao ar livre do CAM — Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, coincidindo com o segundo aniversário da reabertura do espaço. Seguem-se duas jornadas no Porto: a 3 de outubro, no Mosteiro de São Bento da Vitória, no programa da sua reabertura; e a 10 de outubro, na Rampa, espaço de arte independente.

Sammy Baloji revisita cinco séculos de relações entre a Europa e o Reino do Congo

A abertura, no CAM, faz-se com a estreia nacional de Missa Utica (2024), do artista congolês Sammy Baloji. A obra é um novo capítulo de Fragments of Interlaced Dialogues, investigação de longa duração desenvolvida a partir de objetos do Congo levados para a Europa ao longo dos últimos cinco séculos e hoje conservados em diferentes museus.

Depois de etapas em cidades como Florença e Paris, o percurso conduz Baloji a Utica, na Tunísia. Foi ali que, no século XVI, foi nomeado o primeiro bispo africano, num contexto de intensos intercâmbios entre a Europa cristã — em particular Portugal — e o Reino do Congo. A partir desta história, Missa Utica cruza o texto poético de Fiston Mwanza Mujila, a criação musical de Pytshens Kambilo e Barbara Drazkov, a interpretação de Bwanga Pilipili e a instalação cenográfica de Baloji. Entre concerto, instalação e performance, a obra aproxima memória colonial, espiritualidade e música, interrogando também os percursos dos objetos e as instituições que os guardam.

Palestina memória e voz no Mosteiro de São Bento da Vitória

O segundo momento do programa reúne, a 3 de outubro, três obras no Mosteiro de São Bento da Vitória. A tarde começa com a estreia absoluta de Matei o Pássaro (2026), leitura-performance de Shahd Wadi com o artista australiano James Newitt. Entre memória, luto, escrita e herança palestiniana, Wadi parte da figura do pássaro como símbolo de esperança e liberdade para perguntar o que acontece quando as metáforas deixam de responder à dimensão da catástrofe. A criação atravessa poemas, canções, vozes ancestrais, fantasmas e símbolos da resistência palestiniana, procurando aquilo que pode permanecer vivo depois do fim da esperança.

Segue-se a estreia nacional de Nothing Will Remain Other than the Thorn Lodged in the Throat of this World (2025), de Noor Abed e Haig Aivazian. A performance nasce de uma correspondência continuada entre os dois artistas, feita de reflexões, episódios quotidianos, leituras, poemas, canções e recitações. Em cena, esse arquivo transforma-se numa partitura de som, texto e movimento.

O corpo é simultaneamente instrumento e arquivo. Suspiros, tosses, murmúrios e sibilos percorrem o nariz, a boca, a laringe, a traqueia e os pulmões, fazendo da voz um lugar de memória e resistência. Ao convidarem o público a participar em alguns momentos da experiência sonora, Abed e Aivazian procuram construir uma câmara de ressonância coletiva, um coro heterogéneo perante a violência genocida que atravessa as trajetórias de ambos.

A jornada prossegue com The Book of Mud (2025), estreia nacional do artista libanês Ali Cherri. A lama — matéria situada entre a terra e a água, associada tanto à origem da construção como a paisagens temidas e fantasmagóricas — conduz uma reflexão sobre civilização, poder, geologia e memória. Ao percorrer narrativas de pântanos, águas estagnadas e planícies, Cherri pergunta o que a matéria guardaria se tivesse memória própria e o que escolheria recordar. O encontro termina com um momento de convívio em torno da mesa.

Duas estreias na Rampa encerram o ciclo

A 10 de outubro, a Rampa recebe duas obras inéditas. Em street tease (2026), Ana Isabel Castro propõe um exercício de observação assente na proximidade e na disponibilidade perante aquilo que nos rodeia. A performance prolonga questões de Adoçar (2025), trabalho em que a palavra «adoçar» — usada, no lugar de onde vem a artista, como sinónimo de lavar — designa a retirada do sal e do suor do corpo com água doce. Se nesse projeto a limpeza abria espaço à observação, street tease aproxima esse gesto do público e procura torná-lo mais direto, íntimo e igualitário.

O programa encerra com Barragem dos Minutos (2026), vídeo-performance de Marcelo Reis que dá continuidade à sua investigação sobre o ruído. Depois de trabalhar com quedas de água, o artista procura agora um ruído não sonoro num corpo de água, encontrado à primeira luz da manhã na Barragem dos Minutos, em Montemor-o-Novo. Uma voz sintetizada convoca autores como Hito Steyerl, Aaron Zwintscher e Warren Weaver e explora a tensão entre ruído e apofenia — a tendência para reconhecer padrões onde eles não existem. No limite do audível, a própria voz deixa em aberto a dúvida sobre aquilo que é realmente escutado e aquilo que a imagem e as legendas levam o público a ouvir.

Entre Lisboa e Porto, MY CENTER IS NOT IN THE SOLAR SYSTEM constrói assim uma cartografia descontínua, feita de histórias coloniais, deslocações, matéria, perda e persistência. Mais do que oferecer respostas comuns, o programa aproxima práticas que usam a performance para descentrar o olhar e tornar sensíveis relações que as narrativas dominantes tendem a apagar.

Programa

CAM — Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

Sábado, 19 de setembro

  • 20h00 — Sammy Baloji, Missa Utica (2024), estreia nacional

Mosteiro de São Bento da Vitória, Porto

Sábado, 3 de outubro

  • 16h00 — Abertura
  • 16h30 — Shahd Wadi com James Newitt, Matei o Pássaro (2026), estreia absoluta
  • 17h30 — Noor Abed e Haig Aivazian, Nothing Will Remain Other than the Thorn Lodged in the Throat of this World (2025), estreia nacional
  • 18h30 — Ali Cherri, The Book of Mud (2025), estreia nacional
  • 20h00 — Convívio

Rampa, Porto

Sábado, 10 de outubro

  • 15h00–19h00 — Ana Isabel Castro, street tease (2026), estreia absoluta
  • 19h00 — Marcelo Reis, Barragem dos Minutos (2026), estreia absoluta

18.09.2026 | par martalanca | performance, Sammy Baloji, Shahd Wadi

De Noémia Delgado a Margaret Tait, de Brigitte Bardot a Lino Brocka

Em outubro, já feita a rentrée, a Cinemateca Portuguesa conta com dois ciclos que tocam no lado mais poético do cinema: o cinema etnográfico, literário e fantástico da realizadora e artista portuguesa Noémia Delgado e a abordagem pessoal e experimental da cineasta e poeta escocesa Margaret Tait. A programação mensal conta ainda com um ciclo dedicado a Brigitte Bardot, Lado B.B., e a retrospetiva Lino Brocka – Matem o Artista Nacional. O mês não termina sem um revisitar das paragens da Viagem ao Fim do Mudo e a celebração do Dia Mundial do Património Audiovisual com a exibição, entre outros títulos, de A LENDA DE MIRAGAIA, um dos primeiros filmes de animação em Portugal, dado como perdido até à sua descoberta em maio e subsequente doação à Cinemateca.   

O Lado B.B. decorre de 1 a 17 de outubro e explora a carreira de Bardot no cinema francês, da eclosão na Nouvelle Vague à instituição da iconicidade da sua imagem. A programação mostra a amplitude da sua filmografia, com filmes como ET DIEU… CRÉA LA FEMME, LE MÉPRIS, DEAR BRIGITTE, VIE PRIVÉE, LE REPOS DU GUERRIER, VIVA MARIA! e LA VÉRITÉ. O ciclo, apresentado em colaboração com a Festa do Cinema Francês, inclui ainda um “Spécial Bardot”, e A SIMPLE FAVOR, de Paul Feig, filme que contém três canções de Bardot (incluindo um dueto com Serge Gainsbourg). 

Em concomitância, acontece de 2 a 14 de outubro, Noémia Delgado, O Cinema no Singular, o ciclo dedicado à realizadora portuguesa, com um programa extremamente abrangente da sua obra, do seu trabalho na área do cinema (documental sobretudo, mas também ficcional, enquanto assistente de realização ou montadora) aos seus trabalhos televisivos (como em “Palavras Herdadas” ou “Contos Fantásticos”) relacionados com a cultura e o património portugueses. A retrospetiva, que inicia e termina com MÁSCARAS (o seu primeiro e mais reconhecido título enquanto realizadora) reflete o seu cinema poético e etnográfico, marcado por muitos escritores, que adapta ou a cuja obra dedica parte dos seus filmes (figuras como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Camilo Pessanha e Almeida Garrett). Destacamos a apresentação integral dos seus sete “Contos Fantásticos”, que fizeram de Noémia uma pioneira de um género pouco comum em Portugal, o cinema fantástico, estando o seu nome associado a um importante prémio para o cinema de terror no feminino. Estão também presentes curtas-metragens e séries que realizou sobre arte, arquitetura, património e artesanato – com MAFRA E O BARROCO EUROPEU, “Arte Nova e Déco no Norte de Portugal” e “Trabalho do Ouro e da Prata no Norte” –, e outras raridades, sublinhando como foi sempre transitando entre o cinema, a escultura, a pintura o desenho e a escrita.

   

Lino Brocka – Matem o Artista Nacional é a retrospetiva programada em conjunto pela Cinemateca e o DocLisboa e que será apresentada nas salas da Barata Salgueiro, escancarando as portas do cinema de Lino Brocka entre 16 e 30 de outubro. Organizada em diálogo com Khavn De La Cruz, artista filipino multifacetado e especialista na obra de Brocka, é apresentado um conjunto significativo da obra do realizador filipino. Percorrem-se diferentes géneros e momentos da sua filmografia, mostrando a amplitude da sua produção cinematográfica – do infinitamente pessoal ao social e político numa escala mais alargada – como INSIANG, MACHO DANCER, CAIN AND ABEL, WANTED: PERFECT MOTHER, MY MOTHER, MY FATHER, ORAPRONOBIS, JAGUAR ou MANILA IN THE CLAWS OF LIGHT. Durante o ciclo será publicado um Caderno da Cinemateca sobre o trabalho do cineasta.

No final do mês, de 26 a 31 de outubro, teremos um ciclo dedicado à obra secreta de Margaret Tait, realizadora e poeta escocesa cujos filmes são marcados por uma abordagem diarística, experimental e naturalmente poética. O programa reúne curtas-metragens (muitas delas a exibir em cópias de 16mm), retratos, diários e trabalhos ligados à memória, aos lugares e à experiência quotidiana, como THREE PORTRAIT SKETCHES, COLOUR POEMS, WHERE I AM IS HERE, ou MY ROOM. VIA ANCONA 21. Mas nem só de filmes assinados por Tait se faz este ciclo, que estabelece ligações com outros filmes que dialogam com as obras da realizadora. Um exemplo recente é AFTERSUN, de Charlotte Wells, que cita um dos livros de Tait (Poems, Stories and Writings), sendo que Wells assumiu a influência desta no seu trabalho. Outro diálogo surge através do emparelhamento de ONE IS ONE (1951) de Tait com VIAGGIO IN ITALIA (1954) de Rossellini, já que Tait estudou cinema em Itália entre 1949 e 1952 e conheceu pessoalmente o cineasta italiano. O programa inclui, claro, a única longa-metragem de Margaret Tait, o belíssimo palimpsesto geracional BLUE BLACK PERMANENT, bem como filmes-homenagem assinados por autores como Luke Fowler, Ute Aurand e Peter Todd. Todd, grande especialista na obra de Tait, estará em Lisboa para acompanhar o ciclo e apresentar os seus próprios filmes.

O ciclo Viagem ao Fim do Mudo em outubro desdobra-se nas exibições de EROTIKON, de Mauritz Stiller, RAPSODIA SATANICA, de Nino Oxilia, e FRAU IM MOND, de Fritz Lang, três filmes mudos europeus que exploram uma dimensão experimental. Sempre com acompanhamento ao piano.

O Dia Mundial do Património Audiovisual, a 27 de outubro, decorre este ano em ligação direta com o programa de comemoração dos 30 anos do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento. A data será marcada com a exibição de A LENDA DE MIRAGAIA (de Raul Faria da Fonseca e António Cunhal), um dos primeiros filmes de animação em Portugal, dado como perdido até à sua descoberta no passado mês de maio e subsequente doação à Cinemateca. Juntam-se na mesma sessão uma seleção de curtas-metragens portuguesas de animação: TÓ E TINA (Servais Tiago), CANTIGA DA LAGARTA (Artur Correia e Ricardo Neto), ESTÓRIA DO GATO E DA LUA (Pedro Serrazina), A NOITE (Regina Pessoa) e CLANDESTINO (Abi Feijó), numa celebração do cinema de animação português. No mesmo dia, mas noutra sessão, é apresentado LETTY LYNTON (1932, Clarence Brown), protagonizado por Joan Crawford, filme que esteve embargado mais de 90 anos e que só recentemente é possível mostrar.

18.09.2026 | par martalanca | De Noémia Delgado, Margaret Tait

De Noémia Delgado a Margaret Tait, de Brigitte Bardot a Lino Brocka

Em outubro, já feita a rentrée, a Cinemateca Portuguesa conta com dois ciclos que tocam no lado mais poético do cinema: o cinema etnográfico, literário e fantástico da realizadora e artista portuguesa Noémia Delgado e a abordagem pessoal e experimental da cineasta e poeta escocesa Margaret Tait. A programação mensal conta ainda com um ciclo dedicado a Brigitte Bardot, Lado B.B., e a retrospetiva Lino Brocka – Matem o Artista Nacional. O mês não termina sem um revisitar das paragens da Viagem ao Fim do Mudo e a celebração do Dia Mundial do Património Audiovisual com a exibição, entre outros títulos, de A LENDA DE MIRAGAIA, um dos primeiros filmes de animação em Portugal, dado como perdido até à sua descoberta em maio e subsequente doação à Cinemateca.   

O Lado B.B. decorre de 1 a 17 de outubro e explora a carreira de Bardot no cinema francês, da eclosão na Nouvelle Vague à instituição da iconicidade da sua imagem. A programação mostra a amplitude da sua filmografia, com filmes como ET DIEU… CRÉA LA FEMME, LE MÉPRIS, DEAR BRIGITTE, VIE PRIVÉE, LE REPOS DU GUERRIER, VIVA MARIA! e LA VÉRITÉ. O ciclo, apresentado em colaboração com a Festa do Cinema Francês, inclui ainda um “Spécial Bardot”, e A SIMPLE FAVOR, de Paul Feig, filme que contém três canções de Bardot (incluindo um dueto com Serge Gainsbourg). 

Em concomitância, acontece de 2 a 14 de outubro, Noémia Delgado, O Cinema no Singular, o ciclo dedicado à realizadora portuguesa, com um programa extremamente abrangente da sua obra, do seu trabalho na área do cinema (documental sobretudo, mas também ficcional, enquanto assistente de realização ou montadora) aos seus trabalhos televisivos (como em “Palavras Herdadas” ou “Contos Fantásticos”) relacionados com a cultura e o património portugueses. A retrospetiva, que inicia e termina com MÁSCARAS (o seu primeiro e mais reconhecido título enquanto realizadora) reflete o seu cinema poético e etnográfico, marcado por muitos escritores, que adapta ou a cuja obra dedica parte dos seus filmes (figuras como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Camilo Pessanha e Almeida Garrett). Destacamos a apresentação integral dos seus sete “Contos Fantásticos”, que fizeram de Noémia uma pioneira de um género pouco comum em Portugal, o cinema fantástico, estando o seu nome associado a um importante prémio para o cinema de terror no feminino. Estão também presentes curtas-metragens e séries que realizou sobre arte, arquitetura, património e artesanato – com MAFRA E O BARROCO EUROPEU, “Arte Nova e Déco no Norte de Portugal” e “Trabalho do Ouro e da Prata no Norte” –, e outras raridades, sublinhando como foi sempre transitando entre o cinema, a escultura, a pintura o desenho e a escrita.

   

Lino Brocka – Matem o Artista Nacional é a retrospetiva programada em conjunto pela Cinemateca e o DocLisboa e que será apresentada nas salas da Barata Salgueiro, escancarando as portas do cinema de Lino Brocka entre 16 e 30 de outubro. Organizada em diálogo com Khavn De La Cruz, artista filipino multifacetado e especialista na obra de Brocka, é apresentado um conjunto significativo da obra do realizador filipino. Percorrem-se diferentes géneros e momentos da sua filmografia, mostrando a amplitude da sua produção cinematográfica – do infinitamente pessoal ao social e político numa escala mais alargada – como INSIANG, MACHO DANCER, CAIN AND ABEL, WANTED: PERFECT MOTHER, MY MOTHER, MY FATHER, ORAPRONOBIS, JAGUAR ou MANILA IN THE CLAWS OF LIGHT. Durante o ciclo será publicado um Caderno da Cinemateca sobre o trabalho do cineasta.

No final do mês, de 26 a 31 de outubro, teremos um ciclo dedicado à obra secreta de Margaret Tait, realizadora e poeta escocesa cujos filmes são marcados por uma abordagem diarística, experimental e naturalmente poética. O programa reúne curtas-metragens (muitas delas a exibir em cópias de 16mm), retratos, diários e trabalhos ligados à memória, aos lugares e à experiência quotidiana, como THREE PORTRAIT SKETCHES, COLOUR POEMS, WHERE I AM IS HERE, ou MY ROOM. VIA ANCONA 21. Mas nem só de filmes assinados por Tait se faz este ciclo, que estabelece ligações com outros filmes que dialogam com as obras da realizadora. Um exemplo recente é AFTERSUN, de Charlotte Wells, que cita um dos livros de Tait (Poems, Stories and Writings), sendo que Wells assumiu a influência desta no seu trabalho. Outro diálogo surge através do emparelhamento de ONE IS ONE (1951) de Tait com VIAGGIO IN ITALIA (1954) de Rossellini, já que Tait estudou cinema em Itália entre 1949 e 1952 e conheceu pessoalmente o cineasta italiano. O programa inclui, claro, a única longa-metragem de Margaret Tait, o belíssimo palimpsesto geracional BLUE BLACK PERMANENT, bem como filmes-homenagem assinados por autores como Luke Fowler, Ute Aurand e Peter Todd. Todd, grande especialista na obra de Tait, estará em Lisboa para acompanhar o ciclo e apresentar os seus próprios filmes.

O ciclo Viagem ao Fim do Mudo em outubro desdobra-se nas exibições de EROTIKON, de Mauritz Stiller, RAPSODIA SATANICA, de Nino Oxilia, e FRAU IM MOND, de Fritz Lang, três filmes mudos europeus que exploram uma dimensão experimental. Sempre com acompanhamento ao piano.

O Dia Mundial do Património Audiovisual, a 27 de outubro, decorre este ano em ligação direta com o programa de comemoração dos 30 anos do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento. A data será marcada com a exibição de A LENDA DE MIRAGAIA (de Raul Faria da Fonseca e António Cunhal), um dos primeiros filmes de animação em Portugal, dado como perdido até à sua descoberta no passado mês de maio e subsequente doação à Cinemateca. Juntam-se na mesma sessão uma seleção de curtas-metragens portuguesas de animação: TÓ E TINA (Servais Tiago), CANTIGA DA LAGARTA (Artur Correia e Ricardo Neto), ESTÓRIA DO GATO E DA LUA (Pedro Serrazina), A NOITE (Regina Pessoa) e CLANDESTINO (Abi Feijó), numa celebração do cinema de animação português. No mesmo dia, mas noutra sessão, é apresentado LETTY LYNTON (1932, Clarence Brown), protagonizado por Joan Crawford, filme que esteve embargado mais de 90 anos e que só recentemente é possível mostrar.

18.09.2026 | par martalanca | De Noémia Delgado, Margaret Tait

NA MARÉ, de César Schofield Cardoso, no CNAD

Exibição do filme documentário NA MARÉ, de César Schofield Cardoso, no dia 25 de setembro, pelas 19h00, no Pátio Multiuso Vasco Martins, CNAD (Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design).

Após a projeção, será realizado um debate com dois convidados: a professora investigadora da Universidade de Cabo Verde, Celeste Fortes e o psicólogo e cineasta, Olavo da Luz.

NA MARÉ foi realizado no âmbito de uma residência de investigação artística, desenvolvida entre janeiro e maio de 2026, na comunidade de Salamansa, em Mindelo, em preparação para o projeto que o autor apresentará na Bienal de Sharjah 17, nos Emirados Árabes Unidos, em janeiro de 2027.O filme conta com a participação de Alcinda Évora, Arlindo David, Auxílio Matias, Daniel Bandeira, Daniel David, Joanita Gomes, Manuel Évora e Manuel dos Santos.Na equipa técnica, participam David Medina, Alex de Figueiredo, Natalia Andrade, Cátia Lush e Eurittse Silva.

17.09.2026 | par martalanca | Artesanato e Design, Celeste Fortes, Centro Nacional de Arte, César Schofield Cardoso, Olavo da Luz

MEU SEMBA, de Hugo Salvaterra. hoje no Cinema Ideal

Quinta, 17, 21:30 - MEU SEMBA, no Cinema Ideal, Lisboa, com a presença do realizador

Uma sinfonia urbana, crua e vibrante, sobre Luanda e os 70% que sustentam a cidade sem ocuparem o seu centro. Entre o documentário e o manifesto, Meu Semba acompanha X e os irmãos Lelé e Maria pelos ritmos, conflitos e contradições da capital angolana. O rap transforma o quotidiano em palavra política e a cidade numa batida coletiva: trabalho precário, sobrevivência, família, orgulho e o sonho de chegar ao grande palco.

Primeira longa-metragem de Hugo Salvaterra, produzida pela Geração 80, Meu Semba é um filme sobre quem constrói Luanda todos os dias — e reclama o direito de ser visto, ouvido e representado. Depois de integrar a Tiger Competition do Festival de Roterdão, venceu o prémio de Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Innsbruck.

Cinema angolano pulsante, feito de resistência e voz coletiva.


 

17.09.2026 | par martalanca | CinemaAngolano, Geração80, HugoSalvaterra, Luanda, MeuSemba

Não Resta Nada, de André Godinho

Ficção : 126’ / Amizade, Distopia, Comunidade, Mistério, Paisagem, Queer, Corpos

Um grupo de pessoas queer é raptado e largado no meio do nada. Será um campo de concentração? Foram deixadas a apodrecer? Ou estão ali para serem caçadas? Quando não resta nada, a única coisa que podemos fazer é encontrar a nossa maneira de resistir.

.Exibição Lisboa 22 de Setembro | 19h00 | Cinema São Jorge - Sala Manoel de Oliveira, com a presença do cineasta André Godinho

 

16.09.2026 | par martalanca | André Godinho, filme

Intimate Distance, Uncaptured City, Edson Chagas

Curadoria de Ana Balona de Oliveira 

Em Intimate Distance, Uncaptured City, Edson Chagas apresenta vários corpos de trabalho desenvolvidos ao longo das duas últimas décadas: Found Not Taken (2008-2014, Londres, Newport, Luanda), Archives of Absence: Involuntary Images (2019, Namibe), e Common Walls (2022-2024, Lisboa, Brescia). A exposição coloca em diálogo séries fotográficas formalmente muito distintas que, contudo, se aproximam conceptualmente. Através delas, o fotógrafo tem refletido não só sobre o próprio meio fotográfico, as possibilidades imaginativas e afetivas da fotografia e os limites do documental, mas também sobre a experiência corpórea e emocional, física e psíquica, de habitar os espaços urbanos que têm marcado a sua biografia. Através de várias estratégias de abstração, as obras evocam diferentes modos de habitar Luanda (onde nasceu, viveu e aonde continua a regressar), Lisboa, Londres e Newport (cidades onde viveu e estudou fotografia), assim como frequentes passagens pela cidade do Namibe, no sul de Angola, e pela cidade de Brescia, no norte de Itália. 

Tais modos de habitar e se deslocar entre cidades a Norte e a Sul implicaram, ao longo do tempo, experiências múltiplas de partida, chegada, permanência e regresso, e processos de construção e desconstrução de novas e antigas familiaridades. A experiência diaspórica e migratória com frequência tornou distante o que era íntimo (sem, contudo, apagar a intimidade), transformando em íntimo o que era distante (sem, contudo, anular a inescapável distância). Consequentemente, o olhar fotográfico de Chagas e, em particular, das séries que compõem esta exposição evidencia a complexidade afetiva de tais experiências, da sua memória, e da sua representação visual e fotográfica. A exposição revela a opacidade inerente à recusa da cidade em deixar-se capturar e à recusa do fotógrafo em procurar tal captura. 

Edson Chagas, Found Not Taken, London, 2014Edson Chagas, Found Not Taken, London, 2014

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In Intimate Distance, Uncaptured City, Edson Chagas presents several bodies of work developed over the last two decades: Found Not Taken (2008–2014, London, Newport, Luanda), Archives of Absence: Involuntary Images (2019, Namibe), and Common Walls (2022–2024, Lisbon, Brescia). The exhibition brings into dialogue photographic series that are formally very distinct yet closely related conceptually. Through them, the photographer has reflected not only on the medium of photography itself, its imaginative and affective possibilities and the limits of the documentary, but also on the bodily and emotional, physical and psychic experience of inhabiting the urban spaces that have shaped his life. Through various strategies of abstraction, the works evoke different ways of inhabiting Luanda (the city where he was born, lived and to which he continues to return), Lisbon, London and Newport (cities where he lived and studied photography), as well as frequent visits to the city of Namibe, in southern Angola, and the city of Brescia, in northern Italy. 

Over time, such ways of living and moving between cities in the North and South have entailed multiple experiences of departure, arrival, permanence and return, as well as the construction and deconstruction of new and old forms of familiarity. The diasporic and migratory experience has frequently distanced what was once intimate (without, however, erasing that intimacy), while making intimate what was once distant (without, however, negating the inescapable distance). Consequently, Chagas’ photographic gaze – particularly the one shaping the series in this exhibition – highlights the emotional complexity of such experiences, of their memory, and of their visual and photographic representation. The exhibition reveals the opacity inherent in the city’s refusal to allow itself to be captured and in the photographer’s refusal to seek such capture.

 

09.09.2026 | par martalanca | Ana balona de oliveira, arte contemporânea angolana, Edson Chagas