Olime

Olime do Coletivo Saaraci
Texto Marta Lança | Marinho Pina
Encenação, espaço cénico | João Branco
Interpretação | Eliana Rosa - Mynda Guevara - João Branco
Figurinos | Simone Rodrigues
Desenho de Luz | Pedro Fonseca
Sonoplastia | Basil da Cunha
Fotografia | Machine Pedro Dinis - Queila Fernandes
Agradecimento especial Henrique Silva.
Apoio à Criação: República Portuguesa - Ministério da Cultura, Juventude e Desporto / Direção Geral das ArtesResidência Artística: Teatro ViriatoParcerias: BUALA · Associação Caboverdiana de Lisboa · Associação de Intervenção Comunitária, Desenvolvimento Social e de Saúde · Associação de Solidariedade Social do Alto Cova da Moura · Centro Desportivo da Reboleira · RDP África

Folha de sala - Processo número 0027/2025
OLIME parte de uma situação reconhecível: uma mãe convocada a uma Comissão de Proteção de Crianças e Jovens. É trabalhadora da restauração, cantora à noite, tem um filho de quatro anos, quando se vê confrontada com um procedimento “de rotina” que rapidamente se transforma num exame minucioso à sua vida. A cada pergunta repetida, a cada dado confirmado, instala-se a sensação de que proteger significa vigiar e que as boas intenções estão cheias de armadilhas.
Ao longo de sucessivas entrevistas, o espetáculo expõe o atrito entre linguagem institucional e a experiência, a vida concreta. O técnico responsável pelo processo obedece ao protocolo, interroga, regista, e avalia os riscos. Do outro lado responde-se, hesita-se, defende-se, acusa-se, não se sabe bem a quem acusar - o Estado? Os outros? Um conjunto de critérios associam precariedade a perigo: casa pequena e dificuldade em pagar renda, salário mínimo, ausência de contrato formal, trabalho noturno, rede de apoio informal: factos que, isolados, são banais, mas juntos tornam-se suspeita, e uma mãe, pobre e do bairro, que também quer ser artista, tem a vida sob suspeita.
OLIME constrói um dispositivo cénico depurado, onde a repetição burocrática ganha peso dramático. A frieza do registo oficial contrasta com momentos de exposição íntima e ruptura poética. O espetáculo alterna entre o realismo das entrevistas e interlúdios que abrem o discurso para dimensões mais amplas: identidade, memória colonial, violência policial, documentação e cidadania, pertença a um Cabo Verde imaginado, a família e as redes de apoio que na sociedade neoliberal se deslaçam.
Em palco, Eliana Rosa interpreta Maria Isabel com uma presença que oscila entre fragilidade e afirmação. Não quer pena, nem ser vítima tampouco heroína, é uma mulher irónica, orgulhosa, contraditória, artistística, e muito cansada. João Branco, que também encena, é o funcionário Anselmo, que oscila entre as boas intenções e produto de um sistema que mede, categoriza e decide. A rapper e performer Mynda Guevara assume a função de coro contemporâneo. Através da palavra dita e cantada, introduz dados, memórias e comentários críticos que ampliam o caso individual para uma reflexão coletiva. Integra a estrutura dramatúrgica e tensiona a narrativa com composições que atravessam temas como abuso policial, racismo estrutural, o crioulo e a identidade nacional.
O funcionário é incapaz de desligar a máquina absurda da burocracia e vigilância, e a mãe, por sua vez, move-se num contexto onde qualquer falha pode ser lida como prova de incapacidade. Entre protocolo e sobrevivência, instala-se uma pergunta central: é possível medir o amor? E que instrumentos utiliza o Estado para distinguir risco social de desigualdade estrutural?
Produção do coletivo Saaraci, que mantém viva, em Portugal, uma ligação artística e cultural a Cabo Verde. Essa presença manifesta-se na sonoridade, na língua, na memória e no modo como a peça convoca a história partilhada entre Portugal e a colonialidade. A colonialidade infiltra-se nas instituições, nos discursos, nas expectativas e nas formas de classificação social. Ao colocar frente a frente uma mãe precarizada e um técnico do Estado, o espetáculo evita simplificações, despertando a reflexão sobre justiça social, responsabilidade institucional e a criminalização da pobreza. Questiona a fronteira entre cuidado e controlo, entre proteção e punição. Recorda que, em contextos de vulnerabilidade económica e racialização, a parentalidade, sobretudo as mães pobres e radicalizadas, é frequentemente sujeita a um escrutínio acrescido.
Mais do que retratar um caso específico, o espetáculo convoca o público a reconhecer as estruturas invisíveis que moldam decisões e narrativas. Entre a morna e o relatório, entre o palco e o gabinete, OLIME afirma o teatro como espaço de escuta, confronto e pensamento crítico.
Uma criação que cruza teatro, música e intervenção cívica, afirmando a dignidade como direito e não como exceção.
Marta Lança (codramaturga da peça com Marinho de Pina)