Os especialistas nos estudos da literatura caboverdiana parecem estar de acordo quando, na sua esmagadora maioria, vêm asseverando que pouco eco tiveram na obra dos literatos das ilhas sahelianas anteriores ao movimento político-literário caboverdiano da Nova Largada a negritude e outros movimentos literário-culturais similares, como o renascimento negro norte-americano, o indigenismo haitiano, o negrismo cubano, aliás, amplamente dissecados por Manuel Ferreira, na sua "Introdução" a No 'Reino de Caliban' e n'O Discurso no Percurso Africano, e, mais recentemente, por Pires Laranjeira, no livro 'A Negritude de Língua Portuguesa'.
A ler
28.03.2013 | por José Luís Hopffer Almada
A gestão de saudade que esta onda literária e testemunhal tem marcado no panorama literário português traz contudo uma novidade – denuncia também, mal ou bem, que para se perceber o Portugal actual se tem de fazer a viagem de retorno a África, mas não no sentido com que Isabela Figueiredo o faz, ou seja, no sentido de lidar de frente com os seus fantasmas, mas de habilmente os transformar em fantasias, ora escrevendo a busca do paraíso perdido que não poderá lá estar porque nunca existiu a não ser na imaginação, ora na efabulação de uma África Minha que nunca tivemos.
A ler
26.03.2013 | por Margarida Calafate Ribeiro
A identidade terá a nacionalidade que seja o eu. E o eu será esse empastamento, camadas sobrepostas que não correspondem à cronologia ou à soma dos meses, das décadas e da dissolução… Camadas de existência que residem em locais detectados, mapeados e circunscritos. Mónica de Miranda dá continuidade a uma pesquisa que visa o conhecimento aprofundado das suas matrizes culturais, a retoma da ancestralidade, fruto de uma lucidez e rigor que vai do sociológico e antropológico para o estético.
Vou lá visitar
29.11.2012 | por Fatima Lambert
Numa perspectiva contemporânea, Nhabezi personifica o projecto político do Ocidente que vem a África “reparar os danos e impactos historicamente causados pelo capitalismo na sua relação colonial com o mundo”. Do ponto de vista estritamente epistemológico, a metáfora aponta para o facto de o Ocidente estar disposto a ajudar a África a resgatar as suas formas de conhecimento e a potenciá-las para o avanço da humanidade.
A ler
18.08.2011 | por Lucilioja Manjate
O Instituto Marroquino de Estudos Hispano-Lusófonos lança um convite à reflexão plural e multidisciplinar sobre a convergência dos espaços civilizacionais mediterrâneo e atlântico para a realização da obra “África – Portugal – Brasil: Trajetória, memória e identidade”.
A ler
05.08.2011 | por Mohammed ElHajji
Não existe, no nosso caso, um documento comparável ao Manifesto de Légitime Défense, que propunha uma “ideologia de revolta” e formulava uma orientação precisa para os escritores negros de expressão francesa; o facto literário surgiu, porém, com ardor e talento, muito antes dos anos trinta deste século, ficando bloqueado, pelo condicionalismo colonial, no interior das fronteiras dos países de eclosão.
Mukanda
21.06.2011 | por Mário Pinto de Andrade
Depois do Egípcio e do Índio, do Grego e do Romano, do Teutónico e do Mongol, o Negro é uma espécie de sétimo filho, nascido com um véu e dotado de uma segunda visão neste mundo americano – um mundo que não lhe concede uma consciência de si verdadeira, mas apenas lhe permite ver-se a si mesmo através da revelação do outro mundo. É uma sensação estranha, esta dupla consciência, esta sensação de estar-se sempre a olhar para si mesmo através dos olhos dos outros, de medir a nossa alma pela bitola de um mundo que nos observa com desprezo trocista e piedade.
Mukanda
15.06.2011 | por William Du Bois
E estes vestígios da minha prodigiosa ascendência! / Aqueles que não inventaram nem a pólvora nem a bússola que nunca souberam domar o vapor ou a electricidade / que não exploraram os mares nem o céu / mas conhecem os mais ínfimos recantos da terra do sofrimento / que das viagens só conheceram as de desenraízamento / que foram amansados com humilhações / que foram domesticados e cristianizados / e contagiados de degeneração / tam-tam de mãos vazias
Mukanda
31.05.2011 | por Aimé Césaire
O Haiti teve de encontrar um factor de união nacional. Procuraram-no no único local onde poderia ser encontrado, em casa, ou mais precisamente, no seu próprio quintal. Descobriram aquilo que hoje é conhecido como negritude. É a ideologia social predominante entre políticos e intelectuais de toda a África. É tema de acaloradas elucubrações e disputas, sempre que se discute a África e os africanos. Mas, no que respeita à sua origem e evolução, a negritude é caribenha e não poderia ter sido senão caribenha, resultado peculiar da sua história peculiar.
Mukanda
31.05.2011 | por C.L.R. James
Um negro das Caraíbas que empreenda uma viagem semelhante a África está menos seguro. A sua relação com esse continente é mais pessoal e mais problemática. Mais pessoal, porque as suas actuais condições de vida e o seu estatuto como homem indicam claramente as razões que levaram os seus antepassados a abandonar aquele continente. Essa emigração não foi um acto voluntário, foi uma deportação comercial cujas consequências deixaram marcas profundas em todos os aspectos da vida das Caraíbas. Estas consequências sentem-se de um modo mais profundo na sua vida pessoal e na sua relação com o ambiente que o rodeia: as políticas raciais e coloniais que constituíram o fundamento e o marco da sua passagem da infância à adolescência. A sua relação com África é mais problemática, porque ao contrário do Americano, ninguém lhe deu a conhecer a história desse continente.
Mukanda
31.05.2011 | por George Lamming
As comunidades estão acima de qualquer suspeita, são incorruptíveis e têm uma visão infalível sobre os destinos da humanidade. É assim que pensam uns tantos missionários dessa nova religião que se chama «desenvolvimento». Uma tropa de associações cívicas serve-se desse conceito santificado e santificante. Essa entidade pura não existe. Felizmente. O que há são entidades humanas, com os defeitos e as virtudes de todas as entidades humanas.
Mukanda
02.04.2011 | por Mia Couto
É sempre escuro no país do futuro porque falta fazê-lo, e ninguém o fará senão nós. Portanto, quanto a Atlânticos e Índicos em todas as suas margens falantes de português, acredito que Inês não é morta. Depende de haver quem fale e quem escute, como podemos escutar Lula Pena e ela ser fado, morna ou Caetano Veloso, sendo única: ela própria.
A ler
01.04.2011 | por Alexandra Lucas Coelho
No mundo berbere ou amazigh nunca existiu normalização e unificação linguística: não existe uma norma instituída da língua tamazight, mesmo no uso literário da mesma. Cada grupo emprega o seu ou os seus falares locais que, contudo, são usados apenas para a comunicação intra-regional.
Perante esta situação de fragmentação, que provém fundamentalmente de diferentes derivações étnicas, os dados estruturais fundamentais permanecem os mesmos em todas as variedades: o grau de unidade, nomeadamente gramatical, “dos falares” berberes é de facto impressionante, tendo em conta as distâncias e vicissitudes históricas de cada um.
A ler
29.03.2011 | por Rita Damásio
Em 1943 Benguela prospera. Com o famoso caminho-de-ferro a avançar em direcção ao interior africano, a cidade prepara-se para mudar de cara segundo um moderno plano de urbanização. Respira-se progresso. Numa das suas ruas um acontecimento importante está também prestes a acontecer: Dona Ludovina (uma cantadeira de mão cheia, diz-se), esposa de Sebastião José da Costa, um funcionário dos Correios e antigo jornalista, prepara-se para dar à luz uma criança a que dará o nome de Carlos Lamartine. Benguela prepara-se assim para receber, de braços abertos mais um grande filho, que se tornará num senhor grande da música nacional e autor de melodias imortais.
Palcos
18.02.2011 | por Mário Rui Silva
A Educação Multicultural e Intercultural surgiu no século XX como resposta a problemas históricos vividos pelas sociedades. Ao longo das últimas décadas procurou-se o reconhecimento das especificidades culturais em cada nível social para promover a igualdade de oportunidades, o respeito mútuo e a integração de todas as pessoas como cidadãos. No entanto, tende muitas vezes a dar ênfase a várias categorias identitárias, usando-as para distinguir os alunos e cidadãos.
A ler
17.01.2011 | por Maria Prata
Interpretar o viajante, na actualidade, decorre de um pensamento multilateral ampliado pela situação geográfica e cultural que existe entre o ponto de partida e o ponto de chegada. A latitude humana que se encontra nas distâncias percorridas entre princípio e fim de um percurso é, para muitos, um agente provocador que resulta num campo de experimentação artística e intelectual, onde a força de espaços inócuos nos leva a partilhas e à construção de conceitos.
Cara a cara
02.01.2011 | por Jorge Rocha
Olhar para algumas das cidades da África contemporânea é enfrentar os desdobramentos de sua dilaceração colonial, é atentar para as repercussões que o poder, essa articulação dimensional da dominação, imprime naqueles em que toca. A proporcionalidade da resposta, da interação, está diretamente ligada à sua efusão. Tais vestígios são sempre contundentes, pois se inscrevem na carne como um pontiagudo arabesco de sangue, pus e baba. Ao desespero de sua emergência contrapõe-se em quase tudo, quase tudo, a racionalidade do poder que o encetou. Restarão fios delicados a nos lembrar que esses outros estão atentos às limitações racionalistas de seus algozes inspirados e que depois serão transpirados como suor, como sangue, como nervos.
Cidade
27.11.2010 | por Eduardo Bonzatto
Leio com atenção as notícias da chegada de mais e mais emigrantes às “costas da Europa” (qual será a Europa deles? Em que janela a terão desenhado a contraluz?); apercebo-me da sua presença nesta Europa em que vivo, sinto o reforço das leis e a construção dos campos de detenção para os acolher, a sociedade a mudar com a sua presença, a minha presença a mudar com a presença deles, Lisboa a ficar capital Europeia, eu a ficar Europa que não quero ser.
Jogos Sem Fronteiras
11.11.2010 | por Ana Bigotte Vieira
Parte-se do pressuposto que o Romance de Lídia Jorge A costa dos Murmúrios, apresenta uma escrita pós-colonial e um posicionamento político feminino em relação à Guerra Colonial de Portugal na África. Assim, o artigo apresenta um breve resumo da obra, para, em seguida, desenvolver questões sobre o posicionamento social das personagens exiladas; depois comentar a vivência da escritora como mulher e exilada e, finalmente, tecer comentários sobre o seu lugar de fala e propósito da obra. Em suma, o artigo pretende interpretar o texto de Lídia Jorge, considerando sua vivência de exílio e relacioná-la ao seu posicionamento político no momento da escritura do romance.
A ler
27.10.2010 | por Sumaya Machado Lima
O texto consiste em uma análise de "O outro pé da sereia", de Mia Couto, focalizando o diálogo entre a história e a ficção, no intuito de mostrar o tratamento dado pelo autor às principais questões do mundo contemporâneo: a identidade, o sentido de pertencimento, o pós-colonialismo e o choque entre culturas. Ao fazê-lo, Mia busca desconstruir os arquétipos acerca da África e seus povos.
A ler
31.08.2010 | por Shirley de Souza Gomes Carreira