Hermanipulación

Argumento e Curadoria: Leonardo Bertolossi
Ninguém solta a mão de ninguém, proclamamos face ao abismo recente no país que ainda agonizamos. Diante da morte, essa exposição quer tratar de irmandade, manejo, manipulação. De bruxaria e xamanismo, mãos-raízes ancestrais, mais de gozar o coletivo. Se trata de defender o direito à manufatura, da arte enquanto criação e partilha, em um mundo Black Friday, masturbatório, ultraprocessado. Contra a guerra digital, o algoritmo, a inteligência artificial e a massa dopamínica, mãos larvas que se entrelaçam trans-específicas e promíscuas por caminhos de fantasia e desejo, trans-humanas contra a captura produtivista e individualista.
Os artistas desta exposição se propõem a pensar o humano-hermano, bicho-cunhado ancestral nas múltiplas falanges demoníacas de nossa grande cebola cósmica, contra manadas e legiões de mãos-maças de guerra, fist-fucking sorrateiras, de luva e pelica, com dedos fálicos.

Jorge de León e Maria Raeder trazem mãos que destroem, hipnotizam, ludibriam. Mas também se rebelam, incendeiam, apontam direções. Seus trabalhos destacam o fogo como alimento e destruição contra fronteiras, fariseus e fascistas, as ilusões da fé e o Grande Irmão. Rafael Prado e María de los Vientos evocam a potência emaranhada das deidades e dos encantados amazônicos e latinos. Contra a auto-devoração neoliberal, um mundo com muitos mundos, entes geminados, transfigurações de sonhos e novas imaginações em corpos-transe. Sheyla Ayo e Julie Brasil narram um mundo uterino das águas que faz contornos, traz o fio da vida e a beleza yabá da existência, mas também a expropriação violenta do feminino, fantasmas misóginos ofertados como dádiva e dívida, de profanação e produção desenfreada, e vacas loucas. Alexandre Sá Ifákóládé se volta para o Aiê, planta e consagra o território-xirê espectral do genocídio aos pretos e lgbts como um aterro das violências, uma arqueologia e arquivo de memórias que se quer apagar, mas está sempre presente.
Hermanipulación e seus artistas despontam nessa mostra como alquimistas do gozo partilhado, anti-Igreja e antídoto do poder. Uma hermano-acción feminina, her, cis e trans, diferença não-fálica. Hermanipulación como mãos que cozinham, comensais, e não-canibais que devoram o outro. Que reconhecem que a arte de viver o mundo, seus prazeres e tormentos, alegrias e idiossincrasias, está em nossas mãos.

07.04.2026 | por martalanca | exposição, Rio de Janeiro