Essas pessoas na sala de jantar

“Cada um se arranca do silêncio para virar narrativa”, escreve Eliane Brum em ‘Os meus desacontecimentos’. Então, encontrei no fio condutor das mudanças de casa, a matéria a partir da qual virar narrativa. É que experimentei demasiadas vezes a sensação de entrar num espaço vazio e projetar algo novo naquelas duas ou três assoalhadas, subir malas e caixotes ou aninhar-me no território de outras pessoas. Mudar de casa implicou reduções de contrato e separações. Foi preciso refazer caminhos, desprender-me de objetos, desapegos afetivos, para dar lugar ao que viria: novos parceiros de refeições, outros cartazes na sala e lavatórios para esfregar, renovados entusiasmos e dores. Nódoas negras ao embater nos móveis, como quem reaprende a andar. Dessa sucessão de mudanças, nasceu a vontade de encapsular temporadas em certos lugares e circunstâncias…. Textos ambientados em vários bairros de Lisboa, e no Faial, Paris, Mindelo, Luanda, Rio de Janeiro, São Paulo, Maputo, Ourique, e em várias almofadas… Publicado pela editora Tigre de Papel. Lançamento na Feira do Livro de Lisboa com a Golgona Anghel.

14.05.2026 | por martalanca | crónicas, livro