À procura de uma poeta e da esperança angolana

À procura de uma poeta e da esperança angolana “Eu tinha ido visitar Lídia, alojada no apartamento de Paulete, e já não voltei a sair. Os tiros pareciam partir de todo o lado.”, escreve o narrador de “Estação das Chuvas”. “A televisão mostrava imagens da guerra. Miúdos com fitas vermelhas amarradas na testa, walkmans nos ouvidos, pentes de munições cruzados sobre o peito. (...) Lídia não queria ver televisão. Durante aqueles três dias fechou-se no quarto a escrever. (...) Quando os tiros pararam saí com ela. Fomos a pé até à ponta da Ilha, fingindo que não víamos a cidade arruinada pelos últimos confrontos. A loucura rondava em torno, estendia para nós as suas compridas patas de aranha. O cheiro fez-me lembrar o 27 de Maio. A mesma fúria, a mesma vertigem. (...) Na praia não estava ninguém. (...) Os caranguejos tinham morrido todos dentro das suas armaduras transparentes. Peixes brancos olhavam para nós com grandes olhos de água. Lídia agarrou-me a mão: “Que país é este?”

A ler

26.09.2012 | por Susana Moreira Marques

Teoria Geral do Esquecimento - PRÉ-PUBLICAÇÃO Agualusa

Teoria Geral do Esquecimento - PRÉ-PUBLICAÇÃO Agualusa Entre 1997 e 1998 desapareceram nos céus de Angola cinco aviões, com um total de 23 tripulantes, originários da Bielorrússia, Rússia, Moldávia e Ucrânia. A 25 de Maio de 2003, um Boeing 727, propriedade da American Airlines, desencaminhou-se do aeroporto de Luanda, e nunca mais foi visto. O aparelho estava há 14 meses sem voar. Daniel Benchimol colecciona histórias de desaparecimentos em Angola. Todo o tipo de desaparecimentos, embora prefira os aéreos. É sempre mais interessante ser arrebatado pelos céus, como Jesus Cristo ou a sua mãe, do que engolido pela terra. Isto, claro, se não nos estivermos a servir de uma linguagem metafórica. Pessoas ou objectos literalmente engolidos pela terra, como parece ter acontecido com o escritor francês Simon-Pierre Mulamba, são, contudo, casos muitos raros.

Mukanda

08.05.2012 | por José Eduardo Agualusa

Talvez um dia as árvores dêem livros

Talvez um dia as árvores dêem livros «Vivemos num paraíso e não temos noção. Os espinhos desse paraíso somos nós. Isso entristece-me. De facto temos uma grande riqueza nas nossas mãos, mas não a sabemos aproveitar. A grande diferença entre nós e outros ilhéus é que nós não precisamos de fazer muito para sobreviver. Isso, por vezes, leva ao laxismo», lamenta Isaura Carvalho.

Vou lá visitar

30.11.2011 | por José Fialho Gouveia

Milagrário Pessoal - pré publicação AGUALUSA

Milagrário Pessoal - pré publicação AGUALUSA Dos tigres, e outros distúrbios bizarros, que sucederam na cidade de São Paulo da Assunção, antes denominada Luanda, e mais tarde São Paulo da Assunção de Luanda, após a morte de Dona Ana de Sousa, a Rainha Ginga, aos 83 anos, no dia 17 de Dezembro de 1663. Neste capítulo se revela ainda a existência de antigos manuscritos que conteriam uma colecção de palavras novas - paleoneologismos, portanto - roubadas no século XVII às aves de Angola.

Mukanda

05.06.2010 | por José Eduardo Agualusa