De Noémia Delgado a Margaret Tait, de Brigitte Bardot a Lino Brocka

Em outubro, já feita a rentrée, a Cinemateca Portuguesa conta com dois ciclos que tocam no lado mais poético do cinema: o cinema etnográfico, literário e fantástico da realizadora e artista portuguesa Noémia Delgado e a abordagem pessoal e experimental da cineasta e poeta escocesa Margaret Tait. A programação mensal conta ainda com um ciclo dedicado a Brigitte Bardot, Lado B.B., e a retrospetiva Lino Brocka – Matem o Artista Nacional. O mês não termina sem um revisitar das paragens da Viagem ao Fim do Mudo e a celebração do Dia Mundial do Património Audiovisual com a exibição, entre outros títulos, de A LENDA DE MIRAGAIA, um dos primeiros filmes de animação em Portugal, dado como perdido até à sua descoberta em maio e subsequente doação à Cinemateca.   

O Lado B.B. decorre de 1 a 17 de outubro e explora a carreira de Bardot no cinema francês, da eclosão na Nouvelle Vague à instituição da iconicidade da sua imagem. A programação mostra a amplitude da sua filmografia, com filmes como ET DIEU… CRÉA LA FEMME, LE MÉPRIS, DEAR BRIGITTE, VIE PRIVÉE, LE REPOS DU GUERRIER, VIVA MARIA! e LA VÉRITÉ. O ciclo, apresentado em colaboração com a Festa do Cinema Francês, inclui ainda um “Spécial Bardot”, e A SIMPLE FAVOR, de Paul Feig, filme que contém três canções de Bardot (incluindo um dueto com Serge Gainsbourg). 

Em concomitância, acontece de 2 a 14 de outubro, Noémia Delgado, O Cinema no Singular, o ciclo dedicado à realizadora portuguesa, com um programa extremamente abrangente da sua obra, do seu trabalho na área do cinema (documental sobretudo, mas também ficcional, enquanto assistente de realização ou montadora) aos seus trabalhos televisivos (como em “Palavras Herdadas” ou “Contos Fantásticos”) relacionados com a cultura e o património portugueses. A retrospetiva, que inicia e termina com MÁSCARAS (o seu primeiro e mais reconhecido título enquanto realizadora) reflete o seu cinema poético e etnográfico, marcado por muitos escritores, que adapta ou a cuja obra dedica parte dos seus filmes (figuras como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Camilo Pessanha e Almeida Garrett). Destacamos a apresentação integral dos seus sete “Contos Fantásticos”, que fizeram de Noémia uma pioneira de um género pouco comum em Portugal, o cinema fantástico, estando o seu nome associado a um importante prémio para o cinema de terror no feminino. Estão também presentes curtas-metragens e séries que realizou sobre arte, arquitetura, património e artesanato – com MAFRA E O BARROCO EUROPEU, “Arte Nova e Déco no Norte de Portugal” e “Trabalho do Ouro e da Prata no Norte” –, e outras raridades, sublinhando como foi sempre transitando entre o cinema, a escultura, a pintura o desenho e a escrita.

   

Lino Brocka – Matem o Artista Nacional é a retrospetiva programada em conjunto pela Cinemateca e o DocLisboa e que será apresentada nas salas da Barata Salgueiro, escancarando as portas do cinema de Lino Brocka entre 16 e 30 de outubro. Organizada em diálogo com Khavn De La Cruz, artista filipino multifacetado e especialista na obra de Brocka, é apresentado um conjunto significativo da obra do realizador filipino. Percorrem-se diferentes géneros e momentos da sua filmografia, mostrando a amplitude da sua produção cinematográfica – do infinitamente pessoal ao social e político numa escala mais alargada – como INSIANG, MACHO DANCER, CAIN AND ABEL, WANTED: PERFECT MOTHER, MY MOTHER, MY FATHER, ORAPRONOBIS, JAGUAR ou MANILA IN THE CLAWS OF LIGHT. Durante o ciclo será publicado um Caderno da Cinemateca sobre o trabalho do cineasta.

No final do mês, de 26 a 31 de outubro, teremos um ciclo dedicado à obra secreta de Margaret Tait, realizadora e poeta escocesa cujos filmes são marcados por uma abordagem diarística, experimental e naturalmente poética. O programa reúne curtas-metragens (muitas delas a exibir em cópias de 16mm), retratos, diários e trabalhos ligados à memória, aos lugares e à experiência quotidiana, como THREE PORTRAIT SKETCHES, COLOUR POEMS, WHERE I AM IS HERE, ou MY ROOM. VIA ANCONA 21. Mas nem só de filmes assinados por Tait se faz este ciclo, que estabelece ligações com outros filmes que dialogam com as obras da realizadora. Um exemplo recente é AFTERSUN, de Charlotte Wells, que cita um dos livros de Tait (Poems, Stories and Writings), sendo que Wells assumiu a influência desta no seu trabalho. Outro diálogo surge através do emparelhamento de ONE IS ONE (1951) de Tait com VIAGGIO IN ITALIA (1954) de Rossellini, já que Tait estudou cinema em Itália entre 1949 e 1952 e conheceu pessoalmente o cineasta italiano. O programa inclui, claro, a única longa-metragem de Margaret Tait, o belíssimo palimpsesto geracional BLUE BLACK PERMANENT, bem como filmes-homenagem assinados por autores como Luke Fowler, Ute Aurand e Peter Todd. Todd, grande especialista na obra de Tait, estará em Lisboa para acompanhar o ciclo e apresentar os seus próprios filmes.

O ciclo Viagem ao Fim do Mudo em outubro desdobra-se nas exibições de EROTIKON, de Mauritz Stiller, RAPSODIA SATANICA, de Nino Oxilia, e FRAU IM MOND, de Fritz Lang, três filmes mudos europeus que exploram uma dimensão experimental. Sempre com acompanhamento ao piano.

O Dia Mundial do Património Audiovisual, a 27 de outubro, decorre este ano em ligação direta com o programa de comemoração dos 30 anos do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento. A data será marcada com a exibição de A LENDA DE MIRAGAIA (de Raul Faria da Fonseca e António Cunhal), um dos primeiros filmes de animação em Portugal, dado como perdido até à sua descoberta no passado mês de maio e subsequente doação à Cinemateca. Juntam-se na mesma sessão uma seleção de curtas-metragens portuguesas de animação: TÓ E TINA (Servais Tiago), CANTIGA DA LAGARTA (Artur Correia e Ricardo Neto), ESTÓRIA DO GATO E DA LUA (Pedro Serrazina), A NOITE (Regina Pessoa) e CLANDESTINO (Abi Feijó), numa celebração do cinema de animação português. No mesmo dia, mas noutra sessão, é apresentado LETTY LYNTON (1932, Clarence Brown), protagonizado por Joan Crawford, filme que esteve embargado mais de 90 anos e que só recentemente é possível mostrar.

18.09.2026 | por martalanca | De Noémia Delgado, Margaret Tait

De Noémia Delgado a Margaret Tait, de Brigitte Bardot a Lino Brocka

Em outubro, já feita a rentrée, a Cinemateca Portuguesa conta com dois ciclos que tocam no lado mais poético do cinema: o cinema etnográfico, literário e fantástico da realizadora e artista portuguesa Noémia Delgado e a abordagem pessoal e experimental da cineasta e poeta escocesa Margaret Tait. A programação mensal conta ainda com um ciclo dedicado a Brigitte Bardot, Lado B.B., e a retrospetiva Lino Brocka – Matem o Artista Nacional. O mês não termina sem um revisitar das paragens da Viagem ao Fim do Mudo e a celebração do Dia Mundial do Património Audiovisual com a exibição, entre outros títulos, de A LENDA DE MIRAGAIA, um dos primeiros filmes de animação em Portugal, dado como perdido até à sua descoberta em maio e subsequente doação à Cinemateca.   

O Lado B.B. decorre de 1 a 17 de outubro e explora a carreira de Bardot no cinema francês, da eclosão na Nouvelle Vague à instituição da iconicidade da sua imagem. A programação mostra a amplitude da sua filmografia, com filmes como ET DIEU… CRÉA LA FEMME, LE MÉPRIS, DEAR BRIGITTE, VIE PRIVÉE, LE REPOS DU GUERRIER, VIVA MARIA! e LA VÉRITÉ. O ciclo, apresentado em colaboração com a Festa do Cinema Francês, inclui ainda um “Spécial Bardot”, e A SIMPLE FAVOR, de Paul Feig, filme que contém três canções de Bardot (incluindo um dueto com Serge Gainsbourg). 

Em concomitância, acontece de 2 a 14 de outubro, Noémia Delgado, O Cinema no Singular, o ciclo dedicado à realizadora portuguesa, com um programa extremamente abrangente da sua obra, do seu trabalho na área do cinema (documental sobretudo, mas também ficcional, enquanto assistente de realização ou montadora) aos seus trabalhos televisivos (como em “Palavras Herdadas” ou “Contos Fantásticos”) relacionados com a cultura e o património portugueses. A retrospetiva, que inicia e termina com MÁSCARAS (o seu primeiro e mais reconhecido título enquanto realizadora) reflete o seu cinema poético e etnográfico, marcado por muitos escritores, que adapta ou a cuja obra dedica parte dos seus filmes (figuras como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Camilo Pessanha e Almeida Garrett). Destacamos a apresentação integral dos seus sete “Contos Fantásticos”, que fizeram de Noémia uma pioneira de um género pouco comum em Portugal, o cinema fantástico, estando o seu nome associado a um importante prémio para o cinema de terror no feminino. Estão também presentes curtas-metragens e séries que realizou sobre arte, arquitetura, património e artesanato – com MAFRA E O BARROCO EUROPEU, “Arte Nova e Déco no Norte de Portugal” e “Trabalho do Ouro e da Prata no Norte” –, e outras raridades, sublinhando como foi sempre transitando entre o cinema, a escultura, a pintura o desenho e a escrita.

   

Lino Brocka – Matem o Artista Nacional é a retrospetiva programada em conjunto pela Cinemateca e o DocLisboa e que será apresentada nas salas da Barata Salgueiro, escancarando as portas do cinema de Lino Brocka entre 16 e 30 de outubro. Organizada em diálogo com Khavn De La Cruz, artista filipino multifacetado e especialista na obra de Brocka, é apresentado um conjunto significativo da obra do realizador filipino. Percorrem-se diferentes géneros e momentos da sua filmografia, mostrando a amplitude da sua produção cinematográfica – do infinitamente pessoal ao social e político numa escala mais alargada – como INSIANG, MACHO DANCER, CAIN AND ABEL, WANTED: PERFECT MOTHER, MY MOTHER, MY FATHER, ORAPRONOBIS, JAGUAR ou MANILA IN THE CLAWS OF LIGHT. Durante o ciclo será publicado um Caderno da Cinemateca sobre o trabalho do cineasta.

No final do mês, de 26 a 31 de outubro, teremos um ciclo dedicado à obra secreta de Margaret Tait, realizadora e poeta escocesa cujos filmes são marcados por uma abordagem diarística, experimental e naturalmente poética. O programa reúne curtas-metragens (muitas delas a exibir em cópias de 16mm), retratos, diários e trabalhos ligados à memória, aos lugares e à experiência quotidiana, como THREE PORTRAIT SKETCHES, COLOUR POEMS, WHERE I AM IS HERE, ou MY ROOM. VIA ANCONA 21. Mas nem só de filmes assinados por Tait se faz este ciclo, que estabelece ligações com outros filmes que dialogam com as obras da realizadora. Um exemplo recente é AFTERSUN, de Charlotte Wells, que cita um dos livros de Tait (Poems, Stories and Writings), sendo que Wells assumiu a influência desta no seu trabalho. Outro diálogo surge através do emparelhamento de ONE IS ONE (1951) de Tait com VIAGGIO IN ITALIA (1954) de Rossellini, já que Tait estudou cinema em Itália entre 1949 e 1952 e conheceu pessoalmente o cineasta italiano. O programa inclui, claro, a única longa-metragem de Margaret Tait, o belíssimo palimpsesto geracional BLUE BLACK PERMANENT, bem como filmes-homenagem assinados por autores como Luke Fowler, Ute Aurand e Peter Todd. Todd, grande especialista na obra de Tait, estará em Lisboa para acompanhar o ciclo e apresentar os seus próprios filmes.

O ciclo Viagem ao Fim do Mudo em outubro desdobra-se nas exibições de EROTIKON, de Mauritz Stiller, RAPSODIA SATANICA, de Nino Oxilia, e FRAU IM MOND, de Fritz Lang, três filmes mudos europeus que exploram uma dimensão experimental. Sempre com acompanhamento ao piano.

O Dia Mundial do Património Audiovisual, a 27 de outubro, decorre este ano em ligação direta com o programa de comemoração dos 30 anos do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento. A data será marcada com a exibição de A LENDA DE MIRAGAIA (de Raul Faria da Fonseca e António Cunhal), um dos primeiros filmes de animação em Portugal, dado como perdido até à sua descoberta no passado mês de maio e subsequente doação à Cinemateca. Juntam-se na mesma sessão uma seleção de curtas-metragens portuguesas de animação: TÓ E TINA (Servais Tiago), CANTIGA DA LAGARTA (Artur Correia e Ricardo Neto), ESTÓRIA DO GATO E DA LUA (Pedro Serrazina), A NOITE (Regina Pessoa) e CLANDESTINO (Abi Feijó), numa celebração do cinema de animação português. No mesmo dia, mas noutra sessão, é apresentado LETTY LYNTON (1932, Clarence Brown), protagonizado por Joan Crawford, filme que esteve embargado mais de 90 anos e que só recentemente é possível mostrar.

18.09.2026 | por martalanca | De Noémia Delgado, Margaret Tait